Entrevista | “A gente precisa ter cuidado”: elenco de “Virtuosas” fala sobre fé, perfeição e terror feminista

há 3 horas
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Em entrevista ao Oxente Pipoca, Cíntia Domit Bittar, Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques comentam a construção do filme e a repercussão do trailer nas redes sociais.

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Virtuosas, novo filme de terror feminista dirigido por Cíntia Domit Bittar, chega aos cinemas nesta quinta-feira, 24 de setembro, colocando no centro da narrativa discussões sobre fé, conservadorismo, feminilidade e a busca por um ideal de perfeição. Ambientado no universo das chamadas “mulheres virtuosas”, o longa acompanha personagens atravessadas por discursos religiosos e expectativas sobre o que significa ser uma mulher exemplar, usando o terror para tensionar essas questões.
Para falar sobre o filme, o Oxente Pipoca conversou com Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Cíntia, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. No papo, elas comentam a pesquisa para construir as personagens, o encontro com o projeto, a produção realizada em Florianópolis, a repercussão do trailer nas redes sociais e as expectativas para a chegada do longa aos cinemas.
Leia a entrevista completa abaixo:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O universo das tradwives e os movimentos conservadores entre mulheres têm ganhado força nos últimos tempos, e a gente está vendo movimentos de vários filmes e até alguns livros que estão fazendo bastante sucesso falando sobre o tema. Virtuosas tem esse timing muito bom de chegar ao público nesse momento. Queria que vocês falassem um pouquinho sobre isso, sobre como essa história chegou para vocês naquela época e como ela está ressoando agora, depois de todo esse processo.
Cíntia Domit Bittar: Sim, Gabi. O movimento das tradwives começou mais forte nos Estados Unidos e na Europa já faz alguns anos. Teve dois picos que eu consegui identificar. Um foi com a primeira eleição do Trump e outro com a pandemia, porque a comunicação via redes sociais aumentou muito e elas proliferaram bastante o conteúdo delas. Mas é um termo que demorou bastante para ser falado no Brasil. Foi só alguns anos depois.
E, com Virtuosas, a gente joga luz sobre movimentos muito brasileiros, das mulheres virtuosas, que são milhares de mulheres organizadas sob a alcunha desse provérbio da Bíblia. Na minha opinião, muitas distorcendo o que está escrito na Bíblia, inclusive.
Então, trazer esse debate era um desejo nosso, da produtora, da Novelo Filmes, da equipe e do elenco, porque é muito importante também quando um filme traz questões para serem discutidas. Foi através de muita pesquisa que a gente chegou ao que era essa mulher virtuosa, porque é algo bastante longe da nossa realidade, e entender as várias vertentes disso para poder fazer o filme.
É uma satisfação imensa o debate que o filme está causando já no trailer. É um debate bastante antecipado, mas não dá para dizer que eu também não imaginava que isso ia acontecer, porque já sabia onde a gente estava pisando. Também imaginava e projetava que seria um assunto de grande repercussão nesses anos de agora. Já imaginava que viriam alguns livros, que viriam alguns filmes. Ainda acho pouco diante do que é esse movimento.
Meu medo era até de alguém fazer antes, porque o filme demora para ficar pronto, mas deu tudo certo. A gente está aí trazendo esse tema à tona, e isso é muito satisfatório.
Bruna Linzmeyer: Ah, bom, eu já acompanhava o trabalho da Cíntia há um tempo. Sou bem apaixonada pelos curtas. A gente se seduziu para trabalhar juntas há um tempo, então eu amei o roteiro, o desejo de falar sobre esses temas e também a personagem. A personagem é um deleite para mim. Acho que é a primeira grande vilã da minha carreira. É muito interessante a gente ver uma grande vilã no cinema.
A gente está mais acostumado a ver as vilãs nas novelas e os vilões no cinema. Então é muito legal ter a oportunidade, enquanto atriz e profissional do audiovisual, de ter uma personagem dessa magnitude para explorar.
Eu acho que a pesquisa foi bem assustadora no começo. Eu não conhecia esse universo e acho que até hoje tem coisas que reverberam e que me assustam muito. Assim, para pesar um pouco o rolê, esse negócio antivax do bebê, que fica doente no filme porque não recebe vacina, e a gente enfrentando o sarampo de volta no Brasil, que era uma doença erradicada, porque as pessoas não querem se vacinar.
Para mim é uma situação bem pesada, que eu não achei que a gente ia estar vivendo. Mas o filme é pesado de ter sido escrito anos atrás e, infelizmente, continua em diálogo com essas questões e com a obsessão pela perfeição da mulher, dessa ideia de enxergar a mulher como um papel natural, como se a gente nascesse para ser determinada coisa, mãe, submissa ao marido.
Amor, se você quiser ser, você faz o que você quiser. O feminismo lutou muito para que você pudesse ser o que quisesse, mas não existe uma maneira única de ser mulher, né? O que é ser mulher no mundo? Então, acho que isso, infelizmente, também continua muito atual e aterrorizante.
Maria Galant: Oi, Gabi. Eu vou começar por como o roteiro chegou em mim. Eu também namoro a Cíntia faz anos. A gente fica querendo trabalhar juntas e ainda não tinha tido essa oportunidade, mas eu conheci ela num festival de cinema, conheci o trabalho dela, ela conheceu o meu trabalho e a gente ficou um tempão naquele “um dia vamos trabalhar juntas”, até que, uns dois anos atrás, pouco mais de dois anos atrás, ela me escreveu para marcar uma chamada. Eu até achei que era de outro projeto que a gente tinha.
Aí ela me contou a história de Virtuosas, disse que não sabia exatamente o que queria que eu fizesse, mas que queria que eu estivesse no filme, e me mandou o roteiro para ler. Eu lembro que fiquei numa fissura de que queria muito fazer Germina, que é uma personagem pela qual eu tinha plena noção de que toparia o que ela me oferecesse para fazer. Porque eu queria contar essa história, tinha muita vontade de trabalhar com ela, a gente compartilha também de visões de mundo muito parecidas.
Então, quando eu li o roteiro, ele batia em várias questões que estavam no meu interesse, na minha vida, interesse meu no rumo que o Brasil está tomando. Quando eu recebi, eu queria muito fazer a Germina porque ela tem, para mim, uma potencialidade de personagem de poder explorar essa dualidade, essa coisa de as pessoas assistirem imaginando que ela vai para um lugar e ela ir para o outro. Então, foi uma personagem que me interessou muito, me encantou muito por isso.
Eu fiquei na torcida, mas eu ia topar o que ela me oferecesse nesse filme porque acho que ele é um filme muito importante para o momento em que está saindo, inclusive. Então, fico muito feliz de estar contando essa história com essa equipe, com esse elenco. E aí, quando ela me deu a Germina de presente, eu também entrei nessa de cabeça, nessa pesquisa, para fazer o que eu pudesse fazer melhor com essa personagem, para ajudar a contar essa história.
E acho também que tem isso: esse filme foi escrito na pandemia, o roteiro surgiu na pandemia, o conceito dele, pelo que a Cíntia fala. E eu acho que a gente podia estar vivendo hoje em dia um momento de parecer uma distopia, da gente assistir e pensar: “Meu Deus, mas que loucura”, né? A Cíntia e a Fernanda, que é a nossa outra roteirista, escreveram uma história achando que as coisas iam para esse lugar. Só que não, esse filme está extremamente atual para o momento em que está saindo.
E eu acho que por isso o trailer tem tido essa repercussão. As pessoas não esperaram nem o filme sair para tomar decisões em defesa ou em ataque, dizendo sobre o que o filme trata sem ter certeza exatamente sobre o que ele trata, tendo partido pelo princípio só de um trailer de pouquíssimos minutos.
Então, eu acho que é porque ele está extremamente atual. Fico muito feliz de ter participado dessa história, mas também muito feliz que ele esteja pronto nesse momento para a gente ter ele como um disparador de conversas, um disparador de debate para esses temas que aparecem na história.

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Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E o que mais chamou a atenção de vocês na proposta de Virtuosas? Tanto pela possibilidade de fazer um filme de terror feminista produzido em Florianópolis quanto pelo tema que ele aborda, especialmente essa representação das mulheres cristãs e a ideia de “mulher virtuosa”?
Brisa Marques: Olha, o filme foi gravado em Florianópolis. A produtora é de Santa Catarina e isso é um lugar fora do eixo de produção audiovisual mais forte aqui do Brasil. Então, tanto eu quanto a Sarah, que a gente mora lá, e a Ju, que já não morava mais lá, mas cresceu lá, acabamos chegando ao projeto por estarmos envolvidas nesse meio.
No meu caso e no da Sarah, principalmente pelo teatro, mas também dando uns passinhos ali na galera do cinema de Florianópolis, a gente acabou esbarrando nesse projeto. Só que não foi tipo “estamos andando na rua e esbarrando”, foi por indicação.
A gente conheceu gente de dentro do projeto e, como eles estavam precisando de atrizes de lá, a Sarah até comentou que não sabia se tinha feito o teste com outras pessoas. Fizeram, inclusive, no dia em que eu fui, tinha eu e outras pessoas fazendo teste também.
Então, tem essa dualidade. É um campo do audiovisual que ainda é um pouco menor, mas justamente por ser menor e a gente estar lá há bastante tempo, a gente esbarrou nas pessoas certas e acabou ganhando esse presentão.
Sarah Motta: E sobre o tema do filme, para mim foi muito surpreendente fazer um filme com uma produtora aqui de Florianópolis, um filme de cinema com tantas coisas para falar. Um filme que fala sobre as mulheres cristãs. Eu achei muito importante e mágico, fiquei muito surpresa com a proposta e com a possibilidade de mostrar esse outro lado da igreja, esse outro lado de ser uma mulher cristã, uma mulher virtuosa. Achei bem interessante.
Juliana Lourenção: Total, eu concordo com as meninas. Para mim, já era um sonho trabalhar com a Novelo, trabalhar com a Cíntia, voltar para Floripa para poder produzir cinema e ainda mais fazendo terror feminista, um gênero que eu amo, adoro. E feminista, que é como a Cíntia desenvolve essas personagens que são mulheres monstruosamente humanas, cheias de camadas complexas. Elas não são estereotipadas, estão ali em busca de poder e também de manipulação.
E acho que aí é que entra esse tema tão contundente da gente trazer agora, nesse momento, no Brasil. O que está por trás de um discurso polido em busca de perfeição, tons pastéis, pérolas, né? O que pode estar por trás?
Cuidado. Às vezes, a gente vê ali nas redes sociais essas mulheres virtuosas trazendo a solução de tudo e tem um objetivo aí muito individualista, político muitas vezes, que está ajudando a construir um Brasil mais ultraconservador, com pautas negacionistas que podem ser bastante perigosas.
Teve uma coisa que eu comentei até com as meninas na outra sala, que é que o trailer teve uma repercussão gigante, tanto para o lado negativo, das pessoas comentando, quanto pelo lado positivo, de muita gente se surpreendendo com esse tipo de cinema sendo produzido aqui no Brasil. Porque muita gente nem tem noção de que é um tipo de cinema, de que cinema independente e outras histórias além do que está no mainstream são produzidos.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E agora, com o filme chegando aos cinemas, como vocês esperam que o público receba essa história? E o que vocês acharam de ver uma repercussão tão grande em torno do trailer? É tão difícil a gente ver um filme independente alcançar esse tipo de alcance nas redes sociais, então queria que vocês comentassem um pouco sobre essa expectativa para a chegada do filme aos cinemas.
Juliana Lourenção: Aí eu fico muito empolgada. Eu acho que pode assustar um pouco a polêmica que já tem vindo com o trailer. A gente espera realmente uma polêmica, mas eu estou muito empolgada e ansiosa para ver como vai ser essa repercussão.
Eu acho que essa viralização que o trailer teve, para um lado mais de as pessoas julgando, tem aí um efeito manada de redes sociais, que muitas vezes faz com que as pessoas não compreendam de fato o que está acontecendo, até porque é um trailer, não é o filme. A gente precisa assistir ao filme inteiro para poder ter um pensamento crítico a respeito.
Eu imagino, eu desejo que, quando as pessoas forem ao cinema assistir ao filme inteiro, vão entender de fato o objetivo do filme, que é justamente criticar pessoas que desvirtuam a virtuosidade, que tiram de contexto e manipulam as crenças de pessoas de fé. Então é para isso que o filme traz isso, com humor, ação, é um terror social e está aí num momento muito importante do Brasil, justamente para a gente ter cuidado em quem a gente vai votar no fim de tudo.
Sarah Motta: Para mim, foi uma surpresa a viralização tão rápida, muita gente comentando e toda a polêmica que está causando. Mas também não foi uma surpresa tão inesperada, porque a gente mora no Brasil, que é um país predominantemente cristão. Então, as pessoas estão se identificando e está rolando polêmica dentro da própria comunidade cristã, sabe?
Eu acho isso muito legal porque traz para a reflexão esse tema de um padrão perfeito de ser. Então, falar disso… Nossa, eu acho que o filme já está cumprindo um papel muito massa, que é discutir o que seria uma mulher virtuosa, o que é essa virtuosidade que todo mundo busca, que essas mulheres buscam nessa jornada.
Brisa Marques: E também tem o lado de que, querendo ou não, a essa altura, tão poucos dias antes da estreia, as pessoas falarem é bom. Não importa o que elas estejam falando. No geral, não importa. O bom é que estejam falando. Teve até uma pessoa que postou um vídeo dizendo: “Não assista a esse filme no cinema”. Faltava colocar onde, o horário, o dia, sabe? Tipo: “Não assista no cinema”.
A gente precisa começar a entender aquela coisa, aquela lei do universo, de que, quando a gente fala uma coisa, a gente atrai. O universo não entende o “não”. A gente precisa falar o que a gente quer afirmativamente. Então, eu acho que as pessoas falando bastante do filme vai gerar uma curiosidade gostosa.
Eu espero que ele chegue às pessoas com vontade de saber o que é esse burburinho, com vontade de ver a Bruna de volta às telonas, porque essa é a primeira vilã dela no cinema. Acho que isso também traz uma curiosidade. A Bruna é uma atriz superquerida no Brasil inteiro, todo mundo sabe quem ela é, então acho que vai atrair gente por tantos sentidos que vai acabar sendo um sucesso.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu também tenho certeza que vai ser um sucesso e queria agradecer o tempinho de vocês para conversar comigo. Para finalizar, bem rapidinho, queria que vocês deixassem uma dica de filme ou série brasileira para o público. Só não vale Virtuosas, que é o que a gente está conversando agora.
Juliana Lourenção: Eu vou indicar um que eu estou apaixonada, que é O Último Azul. É maravilhoso, gente. Quem não viu, assista. Filmaço brazuca!
Brisa Marques: Eu estou apaixonada, estou engatada em Máscaras de Oxigênio Não Caíram. É uma indicação automática. Então, quem quer sentir emoções, assista a esse.



















