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Crítica | Antártida

Foto do escritor: Gabriella Ferreira
Gabriella Ferreira
há 2 horas
6 min de leitura

Mistério glacial que congela qualquer possibilidade de profundidade. 

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Existe uma boa ideia no centro de Antártida: em uma estação de pesquisa isolada no continente gelado, uma mulher sofre uma violência sexual logo na primeira noite de trabalho. Cercada por homens e distante de qualquer possibilidade de fuga, ela se torna também o centro de uma investigação conduzida pela subcomandante Elisabeth, personagem de Andréa Beltrão. O problema é que o filme parece mais interessado em descobrir quem cometeu o crime do que em compreender o que esse crime provoca na vítima. A violência está no centro da história, mas Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, é constantemente empurrada para as margens dela.


É justamente aí que está a principal contradição do longa dirigido por Bruno Safadi, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (17), Antártida quer discutir a violência contra a mulher, o machismo estrutural e as relações de poder em um ambiente dominado por homens. Também tenta construir um suspense de investigação, com uma estação isolada funcionando como uma espécie de espaço claustrofóbico, onde todos podem ser suspeitos. Só que o trauma de Inês acaba tratado como combustível narrativo para um mistério que, por sua vez, não tem força suficiente para sustentar o filme.


Como suspense, Antártida até funciona em alguns momentos. A atmosfera é bem construída, a estação tem uma presença visual interessante e existe uma tentativa evidente de criar tensão a partir do isolamento. Algumas imagens lembram a quarta temporada de True Detective, especialmente na maneira como o ambiente gelado é usado para produzir estranhamento e ameaça. Mas o filme parece mais preocupado em parecer misterioso do que em desenvolver uma investigação realmente envolvente. A pergunta “quem fez isso?” se sobrepõe à pergunta mais importante: o que aconteceu com Inês depois da violência?


A personagem passa boa parte do filme sendo observada, comentada ou usada pelos outros. Antes mesmo do crime, sua apresentação já é marcada por uma sensualização insistente, como se o corpo dela precisasse estar permanentemente disponível ao olhar masculino. A escolha é ainda mais problemática porque Inês deveria ser uma pesquisadora chegando a um ambiente profissional e hostil, mas o roteiro constrói sua primeira aproximação com os homens da estação de maneira pouco convincente, misturando intimidação, bebida, exposição e sexualização. O filme parece querer mostrar como aquele espaço é violento, mas acaba reproduzindo parte da lógica que pretende criticar.


Depois do estupro, a situação se torna ainda mais incômoda. Inês tem pouco espaço para existir como pessoa. Sua indignação parece autorizada apenas em uma cena de grito, quase como se o roteiro precisasse marcar, de maneira explícita, que aquilo é grave. O restante do tempo, ela é reduzida à função de vítima, peça de investigação e gatilho para os conflitos entre os demais personagens. O trauma não é elaborado; ele é utilizado para movimentar a trama.


A contradição se torna evidente porque o filme parece querer denunciar o descaso com mulheres violentadas, mas trata sua própria vítima com o mesmo tipo de descaso. Inês sofre uma violência brutal e, ainda assim, a narrativa rapidamente desloca sua atenção para os homens ao redor dela, para as suspeitas, para as relações de poder e para a investigação conduzida por Elisabeth. O sofrimento da personagem passa a importar principalmente quando ajuda a revelar alguma coisa sobre o ambiente ou sobre os possíveis culpados.


A proposta de acompanhar uma investigação conduzida por uma mulher é interessante, assim como a tentativa de discutir a sororidade em um espaço marcado pelo machismo. Elisabeth é, sem dúvida, o grande destaque do elenco. Andréa Beltrão encontra densidade mesmo em uma personagem que muitas vezes precisa carregar diálogos expositivos e decisões pouco desenvolvidas pelo roteiro. O elenco, de modo geral, se compromete com a história e impede que o filme desmorone completamente. Há bons trabalhos também entre os personagens secundários, mas quase todos parecem existir mais para representar uma ideia do que para funcionar como pessoas de fato.


Esse é outro problema de Antártida: seus personagens raramente conseguem ultrapassar a função que receberam dentro do discurso. O homem machista, a mulher desacreditada, a mulher que enfrenta os homens, o sujeito aparentemente sensível, o suspeito misterioso. Tudo é apresentado de maneira muito evidente, como se o filme tivesse medo de que o público não entendesse o que está sendo discutido. As falas explicam o conflito, nomeiam o machismo, anunciam as relações de poder e sublinham aquilo que a imagem já havia mostrado. Não há confiança suficiente no silêncio, no comportamento ou na ambiguidade.


Essa postura excessivamente explicativa enfraquece até mesmo as questões mais interessantes do roteiro. O filme fala sobre pequenos abusos, sobre a naturalização da violência, sobre o modo como homens protegem uns aos outros e sobre a dificuldade de uma mulher ser ouvida em um ambiente dominado por eles. Mas quase tudo aparece como tese pronta, e não como experiência vivida pelos personagens. Em vez de permitir que essas relações se revelem aos poucos, Antártida transforma cada situação em uma espécie de aula sobre o assunto.


O tratamento dado à personagem negra feminina também merece atenção. Em determinados momentos, ela é apresentada como alguém que está “do lado dos homens”, quase como se sua postura precisasse ser explicada por uma espécie de afastamento da própria condição de mulher. A escolha reforça um estereótipo bastante problemático: o da mulher negra que não é reconhecida como vítima ou que precisa se aproximar da lógica masculina para sobreviver. O filme poderia explorar as contradições dessa personagem, mas prefere encaixá-la em uma posição já conhecida.


Há ainda uma sensação constante de que Antártida tenta ser uma série condensada em um longa-metragem. A história possui personagens demais, conflitos demais e temas demais para o tempo que tem disponível. As relações não amadurecem, as suspeitas surgem e desaparecem rapidamente e algumas viradas parecem acontecer apenas porque o roteiro precisa avançar. O resultado é uma narrativa apressada, que apresenta possibilidades interessantes sem desenvolver quase nenhuma delas de maneira satisfatória.


A própria estação, que poderia ser um elemento fundamental para o suspense, acaba subaproveitada. O isolamento deveria intensificar a paranoia, a sensação de confinamento e a impossibilidade de escapar daquela estrutura de poder. Mas o espaço funciona mais como uma locação visualmente bonita do que como uma força dramática. A Antártida está ali, mas raramente interfere de verdade nas escolhas, nos conflitos ou no comportamento dos personagens.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O filme também parece não saber exatamente o que quer ser. Em alguns momentos, investe no mistério clássico de descobrir o culpado. Em outros, tenta construir um thriller psicológico. Depois, assume um tom de denúncia social, com diálogos que parecem retirados de uma discussão já pronta sobre violência de gênero. Nenhuma dessas camadas chega a ser completamente desenvolvida. A ideia central é boa, mas o roteiro não encontra uma forma de fazer com que suspense e crítica social se fortaleçam mutuamente. Eles acabam competindo pela atenção do filme.


O resultado é especialmente frustrante porque Antártida não parte de uma questão menor. A violência contra a mulher continua sendo tratada pelo cinema de maneira repetitiva, muitas vezes como acontecimento que serve para justificar a jornada de outros personagens. O problema não está em abordar esse tema mais uma vez, mas em abordá-lo sem encontrar uma perspectiva capaz de escapar do óbvio. O filme parece querer quebrar um tabu, mas frequentemente apenas repete discursos já conhecidos, de maneira didática e pouco complexa.


É possível reconhecer o esforço do elenco, a boa premissa e alguns momentos de tensão sem ignorar que o filme falha justamente no ponto em que pretende ser mais contundente. Antártida quer falar sobre o modo como as mulheres são desacreditadas, mas não consegue dar à sua protagonista o espaço necessário para existir para além da violência que sofreu. Quer discutir o machismo, mas recorre a personagens e diálogos tão esquemáticos que termina simplificando o próprio debate. Quer construir um mistério, mas não desenvolve uma investigação forte o bastante para sustentar a narrativa.


O problema de Antártida não é escolher falar sobre violência contra a mulher. É transformar uma experiência devastadora em combustível para um suspense que, apesar do esforço do elenco e das imagens bonitas, nunca encontra força ou identidade própria. O filme tenta emular diferentes referências, mas não consegue reproduzir a tensão, a paranoia ou a densidade delas. No fim, sobra uma promessa vazia: um longa visualmente elaborado, cheio de possibilidades, mas que termina sem aprofundar seus temas, sem sustentar seu mistério e sem deixar muito além da sensação de que poderia ter sido muito mais.


Nota: 2,5/5.


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