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Entrevista | “O filme é quase uma sátira a essa elite carioca”: Thiago Voltolini fala sobre ‘Precisamos Falar’

Foto do escritor: Giulia Meneses
Giulia Meneses
há 3 horas
11 min de leitura

No momento em que interpreta um dos grandes nomes da comédia brasileira no teatro, ator vive um jovem conturbado no novo drama dos diretores de Sob Pressão.

Divulgação


Estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (24), o novo longa dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, Precisamos Falar. Conhecidos por trabalhos em séries como Sob Pressão e Emergência 53, dessa vez, a dupla de diretores inaugura a sua união na direção de longas com a 5ª adaptação do bestseller holandês O Jantar, do autor Herman Koch. 


Protagonizado por nomes consagrados como Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello, o longa também reúne jovens talentos que vêm chamando atenção pela versatilidade em diferentes papéis ao longo dos últimos anos. Um deles é Thiago Voltolini. O ator e dublador paulista é conhecido por sua participação na novela Além da Ilusão (2022) e, em 2026, interpreta o comediante Fábio Porchat nos palcos, em Meu Filho É Um Musical, espetáculo que narra a vida e a trajetória do ator Paulo Gustavo.


Em Precisamos Falar, Thiago interpreta Michel, filho de Sandra e Paulo, personagens de Marjorie Estiano e Alexandre Nero, e um dos jovens envolvidos no assassinato de uma mulher em situação de rua. Na trama, os pais dos adolescentes se reúnem para um jantar no qual precisam decidir entre proteger os filhos ou entregá-los à Justiça.


Em entrevista ao Oxente Pipoca, o ator falou sobre os desafios de interpretar um personagem tão controverso e complexo, a construção da dinâmica com grandes nomes do cinema brasileiro e o trabalho sob a perspectiva de dois diretores. Thiago também comentou as diferentes faces interpretativas que têm explorado neste momento de sua carreira. Confira a entrevista completa: 



Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Seu personagem é um adolescente que está envolvido em crime grave, mas ainda assim precisa gerar uma identificação e uma complexidade no público. Como foi que você construiu essa ambiguidade tão distinta nesse personagem?


Thiago Voltolini:  Olha, para fazer o Michel foi difícil, porque eu via que não tinha espaço para ter um carisma, não tinha espaço para ter tanto uma identificação dos jovens. A minha diretora Rebeca (Diniz), junto com o Pedro (Waddington), dirigiram o filme e a Rebeca chegou em mim um dia e falou Thiago, essa é a cena de abertura do personagem, e ela falou: “Ele precisa ser odiado”. Falei “Vai ser então”. 


Eu tentei trazer um negócio para a gente tentar humanizar, mas acabou que esse menino simplesmente existe. Eu lembro até de um dia que eu estava num kart e tinha um Michel ali. Ele é esse menino que ocupa um espaço de energia mais pesado. Falava rápido, articulado, e envolvia toda aquela galera para fazer o que ele queria. Então foi quando eu percebi que ele é real, ele pode ser só odiado, e eu segui por esse caminho. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Existiu algum tipo de preparação específica, leituras, referências ou conversas com os diretores, para entender a psicologia de um personagem nessa situação tão intensa, tão no limite? 


Thiago Voltolini: Olha, a gente teve uma preparação com a maravilhosa Helena Wajwack, e muita leitura também com os diretores, com o elenco. A princípio, eu achei que o personagem era um psicopata. Foi a primeira impressão que eu tive dele. E eu fui até atrás do livro da Dra Ana Beatriz, o Mentes Perigosas, fui atrás de ler, fui entendendo, e conforme eu fui lendo e cada vez mais aprofundando no roteiro, e na preparação, eu entendi que ele não é um psicopata. Talvez um sociopata, mas ainda assim eu acho que ele é um menino, fruto desse meio, fruto desses pais.


Então seria muito fácil inocentar, falando que ele simplesmente é um psicopata. Mas não. É resultado que pode ser gerado a partir de uma educação, a partir de um contexto, a partir de uma criação, que acontece por aí. Então, entendendo, simplificando, humanizando esse personagem, foi o caminho que a gente encontrou de deixar mais real possível, e mais assustador possível. Porque, tem alguns psicopatas no mundo, como algo bem distante. Mas pode ser teu filho. Na verdade, está mais perto do que a gente imagina. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O filme discute até onde vai o amor de pai e mãe. Quando são confrontados sobre a gravidade de um crime cometido pelo próprio filho. Na sua leitura, o que Precisamos Falar tem a dizer sobre o privilégio de classe, nesse sentido?


Thiago Voltolini: Olha, muita. Precisamos falar, eu falo que ele é um filme perturbador, é a palavra que eu escolho para ele. E ele tem muita, quase uma sátira a essa elite carioca, a essa bolha que existe de criação. A falta que o contato com o mundo externo faz na criação de uma criança, até na cabeça desses próprios pais. Então, não é que existe outra possibilidade. É que o mundo é assim. E isso vai gerando um resultado por falta de consequência.


O pessoal fica com a pessoa que tudo pode. Não tem consequência, é tudo engraçado. Então, não tem acesso. Por exemplo, no filme, o meu personagem, sem querer dar spoiler, comete um crime gravíssimo contra uma pessoa em situação de rua, uma vulnerabilidade à qual ele não tem contato. Ele não sabe que a pessoa que não tem privilégio, que o levou a estar nessa situação. Não é nem gente pra ele. Então, esse choque cultural, dessa bolha, dessa criação, desconecta totalmente a pessoa da realidade. E a partir daí, tudo desanda.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O Michel é um dos adolescentes no centro dessa tragédia, mas esse peso moral também recai muito sobre os adultos que estão ao redor dele. Como foi contracenar com a Marjorie (Estiano), e com o Alexandre (Nero) nessas cenas de confronto? Você está contracenando com dois gênios da televisão brasileira. Como é dividir um pouco daquele peso de estar cercado dessas pessoas e ao mesmo tempo de ser filho do casal que precisa enfrentá-lo naquele momento.


Thiago Voltolini: Olha, foi muito legal trabalhar com a Marjorie e a gente se fechou muito ali. Foi muito gostoso mesmo. Porque a Marjorie chama o meu personagem, o Michel, no filme de príncipe. Isso ficou até hoje. Então ficou muito legal. E o Nero também. O Nero é uma figura. Ele tem uma casca, não sei o que, mas imagina. Ficava nos bastidores fazendo mágica pra ele. Então a gente se conectou de uma forma muito legal. E a preparação com a Helena foi muito boa por isso também. Aproximou a gente. 


E nessas leituras, nessa preparação, e estar no set com eles era um jogo. Então nós três nos perguntamos “Como é que a gente vai fazer essa cena? Por onde que a gente vai? E quando a gente entende que não é o Nero e a Marjorie. São 3 atores precisando fazer a cena render. Precisando fazer ela acontecer junto com a direção. Porque tem luz caindo de manhã. Vai chover. Precisa passar a cena pra hoje. A gente só queria fazer o melhor possível.


E claro, também aprendi muito. Tava aqui um roteiro de Marjorie solto, eu ficava observando como ela estuda esse roteiro. Aí passava o Nero, falava a parte dele também. E era totalmente diferente um do outro. Nossa senhora, fui pegando muita coisa. Fui estudando muito como eles estudam. Achei isso muito legal. O processo de concentração de cada um. 


Mas a cena em si, ver que eles se jogam muito. Eu não pensei em outra coisa. Falei, vou [me jogar] também. Qualquer coisa eu caio. Mas eu confio que eles vão me segurar. Porque são eles. Mas então eu fui de cabeça porque via que eles estavam também. E acho que funcionou muito. E foi muito legal aquela preparação por toda a gente que se uniu e ficou até o final.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você mencionou também a direção do Pedro Waddington e da Rebeca Diniz. Trabalhar sobre a direção de dois diretores muda a dinâmica do set? Como foi essa parceria deles dois com você na construção das cenas?  


Thiago Voltolini: Olha, foi muito gostoso. Porque é o primeiro filme deles também. Então foi muito gostoso porque eles tem uma sensibilidade muito forte de querer contar essa história. Que é uma história muito difícil de contar. Sem cair num clichê. Sem cair também numa moralzona. O filme vai sair no ano de eleição. Então é muito delicado tudo isso. E eles fizeram essa dança muito bem feita. E era muito bom que a Rebeca ficava com a gente do elenco. Ela falava mais com a gente no sentido de organização. Ela dizia “A pessoa precisa te odiar, Thiago” 


O Pedro estava na direção de cena, na luz, na câmera, no movimento, no plano. E eles juntos dividiam isso. Então era muito gostoso. Porque eram sets diferentes. O Pedro se eu não me engano era quase até mais rápido. Vamos aqui, vamos lá. Outro dia eu vi o Pedro com a câmera no colo. Então é muito bom porque foram duas produções praticamente. Acesso a dois diretores em um filme. E ao mesmo tempo é ótimo que a gente conseguisse dividir.


Então na sala estavam gravando uma cena com a Rebeca. Lá no quarto outra com o Pedro. E acontecia ao mesmo tempo. Então foi muito bom. Foi a primeira vez que eu tive dois diretores em um filme. E eles têm um casamento entre eles muito bom. Porque eles vêm de Sob Pressão. Já fizeram vários trabalhos juntos. E ver os dois existindo era muito bom. Eu e o Guilherme (Cabral), que era amigo do elenco também, que faz o Rick. A gente ficava assistindo os dois, discutindo uma cena, criando como se fosse um projeto. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você mencionou que esse é seu primeiro protagonista no cinema. Depois de anos construindo a carreira na TV, no streaming, no teatro. O que muda na rotina e na responsabilidade de carregar um filme nessas dimensões com esses diretores e com esse elenco? O que muda pra você? 


Thiago Voltolini: Olha, muda que dá vontade de fazer mais. Esse foi o meu primeiro filme. Faz três anos que a gente filmou e vai sair só agora. Desse tempo pra cá, eu fiz outros filmes. Mas esse sempre fica batendo na tecla. Sempre, sempre, sempre. É um filme muito especial. Com uma direção muito especial. Com um elenco muito forte. Então, é um presente pra mim que tinha feito filmes até então.


Até esse filme, eu só tinha feito novela e uma série. E aí, esse filme? Nossa senhora. Foi muito forte. Entrei de cabeça, fui pro Rio. Preparação, filmou e depois, Festival do Rio. Teve uma repercussão que não fazia parte da minha rotina. Foi o meu primeiro Festival do Rio. Foi a minha primeira Mostra de São Paulo. O filme foi pra França. Foi pro Festival de Biarritz, que eu fui junto com a Rebeca e com o Pedro. Então, foi uma rotina de sonho. Quando criança eu falava que queria entrar na TV. Agora tô na França. Sabe? Com um filme desse tamanho, dessa importância, que é baseado num livro holandês. Já teve cinco versões no mundo. E agora, a nossa, a brasileira. Então, ele engloba muita coisa que era melhor do que eu podia pensar. Imagina, nem sonhava com isso. 


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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você está simultaneamente nos palcos com o Meu Filho é Um Músical, vivendo o Fábio Porchat. E no cinema com um thriller psicológico super pesado. Como é alternar essas coisas tão diferentes nessa mesma fase da carreira em tese, né? Que você gravou o Precisamos Falar há um tempo, mas você está revivendo tudo isso agora e também nos palcos fazendo uma pessoa que está aqui, agora, jovem e ativa, falando sobre um grande ícone, que foi o Paulo Gustavo. Como é para você ver esses dois lados tão diferentes? 


Thiago Voltolini: Olha, eu não imaginava que o lançamento do filme ia ser ao mesmo tempo com essas doses homeopáticas de Fábio Porchat. Não imaginava nunca. Esse é meu primeiro musical também. Tive o sonho de fazer um musical, comecei a estudar canto. Tudo isso muito depois do filme. E deu certo. Agora eu tô fazendo um musical no Teatro Renault, a gente fez no Rio de Janeiro, agora eu tô aqui em São Paulo, fazendo o Fábio Porchat. 


Ontem eu estava fazendo duas sessões no Teatro Renault e agora eu tô indo pro Rio lançar um filme e voltar a ficar sério. Política, sociopolítica, saúde mental, violência, sabe? Tudo isso é muito importante. E o pessoal do musical quer assistir o filme. Tem gente do filme que foi ver o musical e essas duas linguagens não combinam muito. Por exemplo, a Júlia, que ela faz a Valéria no filme, o pai dela tem medo de mim (risos). Ele só assistiu o filme. E ela tava doida pra levar ele pra ver o musical pra quebrar um pouco. 


Então é muito gostoso fazer esse musical, contar a história do Paulo Gustavo, podendo ser o Fábio Porchat. Eu falei isso essa semana. Se tivesse nesse musical, se eu tivesse fazendo outro personagem, eu ia estar morrendo de inveja de quem tá fazendo o Fábio Porchat. Que é o personagem que eu mais gostei de fazer nessa peça. Então é muito louco existir nesses dois lugares. Eu fico curioso para ver como o mercado vai enxergar isso também. Fazer esse thriller psicológico e ao mesmo tempo o Fábio Porchat. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Thiago, com idade tão jovem e com uma carreira que começou na ainda infância, como é que você descreveria essa nova fase agora? Que se iniciou com o filme e persiste até hoje. 


Thiago Voltolini: Agora eu acho que pela primeira vez eu me sinto muito no palco certo, na luz certa. Porque eu estudei teatro criança. Depois até meus 18 anos fui me profissionalizar. Mas a partir dali eu comecei a fazer muito audiovisual. Comecei a fazer novela, filme, série. E agora eu volto pro palco. Fazendo um musical, que era um sonho. No Teatro Renault, que era sempre muito um lugar que eu frequentei muito. E ao mesmo tempo que eu tô lançando o filme. 


Então eu vejo muita sorte. Eu vejo muito privilégio de poder estar num lugar certo, na hora certa. E também o medo de perder esse cavalo da oportunidade passar por mim. Eu quero subir nele. E quero ir o máximo que eu puder colhendo esses frutos, de todos esses trabalhos. Porque ao mesmo tempo é muito gostoso e ao mesmo tempo tem uma ansiedadezinha. Tem uma pressão de... É agora! Você não queria? Tá aqui! E aí? E tá aqui mesmo. Então é uma alegria que eu quero dar conta. Se Deus quiser eu vou dar.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O que você espera que os jovens, assim como ele, levem para casa com o seu personagem de Precisamos Falar


Thiago Voltolini: Eu torço muito pro Michel ser odiado. Morro de medo, mas acredito que existam esses jovens que vão querer ser amigos dele. E esse é o problema. Então o recado do filme não é nem pros jovens. É para os pais. Tanto o subtítulo do filme praticamente é o que você faria se fosse seu filho. E eu vou além. Eu acho que seria na verdade, você conhece seu filho? Porque pode ser. Esse é o ponto. O que ele vê na internet? Com quem ele conversa? Porque eu acho que você é um fruto do meio, das cinco pessoas, das dez pessoas que você anda, que você conversa, que você existe. E quem são essas pessoas? Então eu acho que ele é muito real. 


Vimos, por exemplo, agora no caso do cachorro-orelha. É o Michel. Essa família, esses jovens que não tem o mínimo de um escrúpulo, de sanidade, de ver a maldade naquilo. É diversão. Então eu acho que os jovens, se estiverem com essa condição mental, talvez gostem do filme. Mas eu espero que eles encarem todo esse lado de consequência que vem depois. E pros pais, para essas famílias, eu acho que vai ligar. Tem um disjuntor que não tem como desligar assistindo esse filme, tendo essa mensagem. E espero isso. Que chegue o máximo de pessoas possíveis. Que isso aconteça cada vez menos. Que a gente possa viver com humanidade daqui pra frente. 



Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, nós temos uma tradição de pedir aos nossos entrevistados que indiquem três filmes ou séries brasileiras para o pessoal que acompanha o Oxente Pipoca. 


Thiago Voltolini: Tem uma série do Globoplay que se chama Os Dias Eram Assim. Que eu acho muito bem feita. É da Alessandra Poggi, que eu fiz uma novela com ela também. E também tem no Globoplay agora, Emergência 53. Me pegou legal, tá? Preciso falar isso. Para indicar o que tá mais fresco agora. E trazendo um lado menos sério, mais Fábio Porchat. Gosto muito de... Posso falar Minha Mãe É Uma Peça 3. Não preciso nem indicar, né? Todo mundo já viu. Estou bebendo muito essa fonte ultimamente. 


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