Entrevista | 'A Margem do Rio': após sessão especial no Festival do Rio, diretores e protagonistas falam com exclusividade ao OP

há 2 horas
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Depois de conquistar o público na Suíça, o thriller queer de Enock Carvalho e Matheus Farias faz do mangue recifense território de desejo, identidade e sobrevivência.

O mangue é inevitável. Suas raízes atravessam a lama densa e se erguem para respirar. Entre elas, crustáceos, aves, peixes e tantas outras espécies encontram abrigo e formam um ecossistema vivo. Podem até cimentá-lo, aterrá-lo, construir prédios sobre ele, mas, na beira d’água, onde sua essência se faz mais forte, ninguém consegue domá-lo.
Também inevitável é Izaquiel, personagem vivido por Caique Copque em A Margem do Rio. O jovem precisou romper com a formação evangélica e se afastar da família para respirar a própria sexualidade. Encontrou seu ecossistema na comunidade LGBTQIAPN+, acolhido por amigas com quem construiu novos laços de afeto e pertencimento. Seu chefe pode até exigir que tire os brincos e apague o esmalte das unhas, mas sua essência ninguém tira.
A margem urbana do mangue encontra a margem social de Izaquiel à noite, quando ele, como tantos outros homens gays da cidade, adentra a lama em busca de prazer. É ali que conhece Jeremias (Ítalo Martins), pescador local que lhe apresenta o novo em muitos sentidos.
O paralelismo genial não é sacada minha. Ele é constantemente trabalhado e reforçado por Enock Carvalho e Matheus Farias, diretores, roteiristas e produtores do thriller queer. Ambos são de Recife, capital do manguebeat, e já haviam explorado esse cenário do manguezal no curta-metragem Caranguejo Rei. Levá-lo para o primeiro longa parecia, portanto, natural.
“Quando estávamos escrevendo A Margem do Rio, antes mesmo de ter esse título, pensamos em alguns planos de fundo para essa história. Quando chegamos no mangue, fez todo sentido. O filme só poderia se passar ali”, conta Enock.
Ítalo concorda que o mangue é um lugar “impressionante”, que “engrandece” o filme — mas só depois de reclamar um tanto das cenas que precisou gravar por lá. “Tá vendo meu tamanho? Eu sou grande, mas sou muito mole. Eu não sei nadar também, então tinha esse elemento de entrar na água à noite. E, do nada, tinha um ser vivo no meu pé. Ou eu tinha que segurar um peixe — e era de verdade aquele peixe! Três homens não deram conta de segurar e eu tive que dar.”
Rindo, Caique encena a transformação do colega entre o “ação” e o “corta”: da expressão de pânico diante de cada criatura inesperada à serenidade instantânea quando as câmeras paravam.
A conexão entre os dois atores — que se chamam de “amigo” e dividem as respostas com uma generosidade rara no meio artístico — ajuda a explicar a química poderosa que vemos na tela. As cenas de romance e sexo entre os personagens são descritas por Ítalo como mais “quentes” do que “pornográficas”, algo que atribuo em grande medida à fotografia de Luciana Baseggio. Os corpos negros dos atores são recortados pela luz azulada da lua, numa composição visual que só vi anteriormente no sublime Moonlight (Barry Jenkins, 2017). Não surpreende, portanto, saber, como me contou Caique, que durante a pré-produção houve um cuidadoso estudo de luz para construir aquelas imagens – afinal, câmeras, películas e técnicas de iluminação não foram feitas para a pele escura.
À luz do dia, a lama do mangue dá lugar à água sanitária e aos alvejantes. Izaquiel trabalha como auxiliar de limpeza em uma empresa terceirizada e é transferido para uma igreja evangélica. Em outro paralelismo afiado do roteiro, passa a limpar justamente um espaço dedicado à purificação, e a água que lava o chão contrasta com a água que batiza.
Para além das memórias de um passado que ele tentou deixar para trás, seu novo patrão, o pastor, encarna uma hegemonia incapaz de conviver com a inevitabilidade de Izaquiel.
Historicamente, o Brasil não é exatamente o melhor país para apresentar um “servo de Deus” como vilão da história. Os diretores sabem disso e, antes de finalizar o filme, fizeram uma espécie de teste: exibiram a obra para ex-crentes, a fim de entender se a narrativa poderia soar ofensiva. A devolutiva, segundo eles, foi positiva. Mais do que rejeição, o filme despertava curiosidade e interesse em compreender melhor o problema.
“Não temos medo de falar de igreja, de tocar nessa ferida. Esse medo existiu, no começo, mas foram anos de preparação para esse filme, o que envolveu muita discussão, debate e estudo para entender como fazer isso de maneira cuidadosa, coerente. Nossa preocupação era tazer a verdade. A gente nunca quis mexer com a identidade de ninguém — e acreditamos que fé e identidade estão muito ligados —, mas também não podemos deixar de propor o debate”, diz Enock.

A história se baseia, em parte, na trajetória de Matheus, que também viveu o peso de ter uma religião incompatível com sua sexualidade. Talvez por isso sua fala seja mais incisiva: “Eu acho que não podemos evitar falar deles porque eles não têm medo de falar da gente. Fazem o tempo todo. Sempre que podem, estão em seus altares, em seus palanques, nos condenando. Por que a gente não pode condená-los aqui, na sala de cinema?”
O contraponto à densidade do núcleo religioso e à tensão sexual que atravessa o mangue está na casa que Izaquiel divide com as deliciosas personagens de Isis Broken, Artia Lauandah e Renna Costa. É ali que estão algumas das cenas mais engraçadas e emocionantes do filme, porque a convivência entre eles é feita de doses iguais de deboche e cuidado. E que precioso é ver personagens trans e travestis simplesmente vivendo! Fazendo compras, dividindo tarefas, implicando uns com os outros, rindo, amando. Existindo sem precisar, a todo momento, resistir.
“Dentro desse núcleo, a gente não tensionava coisas que os personagens tensionariam em outros ambientes. A gente não questionava a sexualidade, não questionava as questões da binaridade, as transexualidades. Isso não era uma pauta dentro de casa. A pauta era: quem fez a compra do mês? Quem vai lavar o banheiro? Então o cotidiano daquele ambiente é agradável porque é natural. É agradável porque é familiar, porque é vivo. São pessoas se relacionando. Então, quando a gente faz esse recorte de pessoas trans vivendo, é fundamental para que a gente jogue no mundo um novo imaginário dessas pessoas”, pontua Caique.
Esse coletivo de personagens e cenários tão brasileiros não diminui o apelo universal do longa — que, antes mesmo de chegar ao circuito nacional, levou o Prêmio do Júri no Festival de Locarno de 2026, onde fez sua estreia internacional, na Suíça.
“O filme foi muito bem recebido. As pessoas vinham conversar com a gente para tentar entender algumas coisas, detalhes dos lugares, da rotina, mas sempre com boas recepções. Existe uma dimensão que todos conseguem alcançar. Mas exibir aqui [no Festival do Rio] é diferente. É um outro tipo de ansiedade. Trazer o filme para o Brasil, ver a identificação, tem um peso muito maior. E depois ainda teremos uma exibição em Recife, de frente para o Rio Capibaribe, e estamos também muito ansiosos para ver como ele vai ser entendido lá”, conta Enock.
Em um momento de fragilidade política no Brasil, em que os direitos de minorias voltam a ser tratados como algo negociável, o longa surge como um grito de esperança e um lembrete da importância da arte e da cultura como ferramenta social. O filme conhece a margem de onde fala – e, em vez de tentar sair, faz dela sua força.
A Margem do Rio estreia no circuito comercial brasileiro em 7 de janeiro.



















