Entrevista | “Ser uma mãe travesti é revolucionário”: Isis Broken fala sobre ‘A Margem do Rio’

há 4 horas
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Atriz sergipana conversou com o Oxente Pipoca sobre o filme de Matheus Farias e Enock Carvalho, que estreia nesta terça-feira (6) no Festival do Rio, a presença do cinema nordestino no circuito internacional e a importância de ocupar espaços com histórias LGBTQIA+.

Depois de passar por festivais nacionais e internacionais e conquistar reconhecimento no circuito, A Margem do Rio chega ao Festival do Rio nesta terça-feira (6). Dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, o longa reúne uma equipe nordestina em uma produção que atravessa questões de pertencimento, comunidade e resistência LGBTQIA+.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, Isis fala sobre a importância de ocupar novamente o Festival do Rio, depois de ter participado da edição anterior com o documentário Apolo, vencedor de dois prêmios. A atriz também celebra a trajetória internacional de A Margem do Rio, incluindo o reconhecimento em Locarno, e defende a valorização do cinema nordestino, frequentemente reduzido a estereótipos sobre a região. Leia a entrevista completa abaixo:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): 'A Margem do Rio' estreia nesta terça-feira (6) no Festival do Rio, um dos festivais mais importantes do cinema brasileiro. Como você se sente em voltar a ocupar esse espaço com um novo trabalho e, especialmente, com esse filme?
Ísis Broken: Bom, ano passado eu estava no Festival do Rio com meu documentário, Apolo, que ganhou dois prêmios: Melhor Documentário e Melhor Trilha. Quando fui receber o prêmio de Melhor Documentário, falei que só 0,01% de todos os personagens da televisão e do cinema eram pessoas trans e que a gente precisava de oportunidade para contar as nossas histórias na tela.
Aquele discurso também foi para mim, para eu internalizar que aquele é um espaço que a gente precisa ocupar. Esse espaço de um dos festivais mais importantes do Brasil e da América Latina, que é o Festival do Rio, também precisa ser ocupado por nós.
Principalmente agora, nesse momento que a gente está vivendo politicamente, nesse retrocesso político. A gente sabe que, se Flávio Bolsonaro for eleito, o cinema brasileiro vai perder muito. E quem é que mais vai perder? É quem já estava à margem, quem já estava nesse 0,01%.
Então, a gente está vivendo um momento em que o cinema brasileiro é muito importante para a democracia brasileira. E A Margem do Rio é esse filme. É um filme que contesta essa avalanche conservadora, protestantista, desses valores de “Deus, pátria, família”. Mas que Deus é esse? Que pátria é essa? Que família é essa?
E isso acontece em contraponto ao ano passado, quando eu vim com um filme que fala sobre uma família trans, que está nesse lugar de disrupção.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme já passou por outros festivais e vem acumulando reconhecimentos e prêmios ao longo desse caminho. Como tem sido acompanhar essa trajetória e perceber que a história está chegando a públicos e espaços tão diferentes?
Ísis Broken: Para mim, é extremamente gratificante. O cinema brasileiro, principalmente o cinema nordestino, merece mais público. Ele merece ser visto, merece ser divulgado, merece estar nos holofotes, não só no Brasil, mas no mundo.
A gente cria coisas maravilhosas, belíssimas, lindíssimas, com uma qualidade que não perde para nada da gringa. Então, estar nesses lugares é só um reflexo do cinema incrível que a gente faz aqui no Brasil e, principalmente, dos diretores estreantes, o Matheus e o Enock, que são diretores que têm uma visão poética muito bonita.
Então, estar ocupando esses lugares é só um direito nosso, sabe? Acho que é isso. Durante muitos anos, a gente foi apagado do mapa. Quando a gente falava de produção nordestina, as produções nordestinas só apareciam naquele lugar estereotipado de que o Nordeste é atrasado, tem retrocesso, que o Nordeste é só seca, é só cangaço. Mas o Nordeste é muito mais que isso, muito mais.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): 'A Margem do Rio' é um filme nordestino, o que significa para você vê-lo ocupando esses espaços de destaque no circuito de festivais e sendo reconhecido por seu trabalho artístico?
Ísis Broken: Para mim, é recompensador demais. Eu fico muito feliz em ver que o filme está ganhando notoriedade não só nacional, agora no Festival do Rio, mas também internacional. A gente acabou de ganhar um prêmio em Locarno.
E isso, para mim, é um reflexo de um trabalho muito bem feito, de um trabalho duro que, enfim, tirou minhas noites de sono, e tenho certeza que tirou as noites de sono de muitas pessoas também da equipe.
É um filme de cinema de guerrilha mesmo. A gente tem que lutar contra a falta de investimento. Se os filmes do Sudeste já não têm investimento, os filmes do Nordeste estão sempre naquele lugar de fazer malabarismo para pagar as contas sendo artista, sendo um artista nordestino.
E aí, quando chegam as eleições, todo mundo espera que o Nordeste segure tudo nas costas. Mas, depois que passam as eleições, todo mundo esquece do Nordeste. Esquece que o Nordeste é potente, que o Nordeste é inteligente, que o Nordeste sabe votar, que o Nordeste é o Brasil, é a cara do Brasil.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como 'A Margem do Rio' surgiu na sua vida? O que te fez se aproximar desse projeto e dessa personagem?
Ísis Broken: Quando apareceu a proposta para fazer esse filme, eu tinha uma outra proposta de um outro filme, mas falei para o meu agente: “Eu quero fazer cinema pernambucano, eu preciso fazer cinema nordestino”.
Eu começo minha carreira como cantora trazendo Sergipe, a sergipanidade, para o radar nacional. A gente não conhecia, ninguém conhecia Sergipe, Sergipe não estava nesse radar nacional de cultura. Sendo que Sergipe é o estado que mais tem grupos folclóricos nordestinos, que mais tem grupos folclóricos no Brasil, no mundo. Então, Sergipe é muito rico culturalmente.
E trazer minha sergipanidade, uma pitadinha ali da sergipanidade para esse filme, foi muito bonito. Essa personagem foi construída também a partir de muitas amigas minhas travestis, que são DJs, e desse lugar mesmo de criação, sabe? De um laboratório, assim, um laboratório travesti, um laboratório performático, um laboratório que transcende.
Além de tudo, a personagem é uma mãe, né? Ela é uma mãe das travestis. Então, eu também sou mãe, e isso me possibilitou construir camadas a mais nessa personagem. Uma camada de realmente ser uma mãe da vida real ali, ser mãe na ficção.
Então, ser uma mãe travesti hoje, no meu dia a dia, é muito revolucionário. Ser uma mãe travesti é revolucionário. E ser uma mãe travesti no cinema é mais revolucionário ainda. Porque a gente mostra que nós temos os nossos clãs, nós iremos nos fortalecer, iremos derrotar esse sistema. A gente está corroendo esse sistema por baixo.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para você, o que espera que fique com o público depois de assistir a 'A Margem do Rio'? Existe algo na história, nos personagens ou nas questões levantadas pelo filme que você gostaria especialmente que as pessoas levassem consigo?
Ísis Broken: Falando pela minha personagem, ela é a mãe da casa, da house, e está sempre acolhendo. É realmente um lugar de proteção. Então, eu acho que nós, da comunidade LGBT, precisamos ter um senso de unidade, de pertencimento. E eu acho que essa personagem fala muito sobre isso, sobre pertencer.
E eu acho que é exatamente isso que o público tem que levar do cinema: sair com força para a luta. A gente vê que a extrema direita está tendo um avanço significativo, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo. E eu acho que a arte vai poder salvar a gente, sabe? Só a arte salva. Só o amor pode modificar as coisas.
E eu acho que a comunidade LGBT ama muito. Então, eu quero que o público também saia amando, amando a gente, amando o mar e com mais entendimento de si, sabe? E entendimento de uma coisa muito maior, que é ser LGBT e, principalmente, ser uma pessoa trans no país que mais mata pessoas trans no mundo.
Então, eu estou muito feliz com o que a gente construiu nesse filme e espero que toque o coração de muitas pessoas.



















