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Entrevista | “A Índia é um país de histórias que remontam há milhares de anos”: SS Rajamouli fala sobre o sucesso de “RRR”

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 2 horas
6 min de leitura

Diretor está em São Paulo para receber o Prêmio Leon Cakoff, a ser entregue nesta segunda (19) durante a Mostra de SP.


Divulgação


O cinema indiano é um dos mais vastos e bem-sucedidos do mundo, mas ainda é pouco conhecido entre o público ocidental, incluindo o brasileiro. Isso, porém, mudou com o estrondoso sucesso de RRR, dirigido por SS Rajamouli, cujo alcance global se refletiu na sua vitória no Oscar de Melhor Canção Original pela música Naatu Naatu – a primeira por um filme indiano na história da premiação. Na história, ambientada durante o período da dominação colonial britânica no país, os líderes revolucionários Komaram Bheem (N. T. Rama Rao Jr.) e Alluri Sitarama Raju (Ram Charan) forjam uma improvável amizade enquanto seguem em suas próprias missões para derrubar a ocupação britânica. Você pode conferir a crítica do filme aqui:


O sucesso de RRR foi o culminar da bem-sucedida carreira de Rajamouli na Índia, que inclui obras como Eega (2012) e as duas partes do épico Baahubali (2015; 2017). O cinema de Rajamouli é caracterizado pela mistura de gêneros como o melodrama, ação, fantasia e guerra, e possui fortes inspirações da mitologia e da espiritualidade indiana. O diretor, nascido no estado de Karnatka, é um dos grandes expoentes do cinema de Tollywood, desenvolvido nos estados de Andhra Pradesh e Talengana e que tem como principal idioma o telugo.


Agora, Rajamouli está em São Paulo para receber o Prêmio Leon Cakoff, que será concedido a ele pela Mostra de SP nesta segunda (19) em reconhecimento à sua carreira e talento por recriar um cinema popular, elaborado e complexo, em que as fórmulas e os gêneros são ferramentas e estratégias para um espetáculo do deslumbramento. Além do prêmio, ele também oferecerá uma masterclass em conjunto com uma exibição de RRR.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Rajamouli, que discutiu sobre o sucesso divisor de águas de RRR e a possibilidade deste sucesso conferir mais visibilidade ao cinema indiano. Além disso, ele também comentou sobre a escolha de trazer no filme dois protagonistas que, na vida real, jamais se conheceram, bem como sobre seu trabalho futuro com o longa Varanasi, a ser lançado no ano que vem. Confira a entrevista abaixo:

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Sr. Rajamouli, é um prazer te conhecer e poder dizer que “RRR” é um dos meus filmes favoritos da vida e está até no meu top 4 do letterboxd. Minha primeira pergunta diz respeito a uma rejeição ainda perceptível do público ocidental aos filmes épicos indianos, sobretudo pela influência que recebemos dos blockbusters de Hollywood, sua ênfase no realismo e rejeição à fantasia e ao lúdico. O que você acha que fez “RRR” ter tanto sucesso ao redor do mundo - ao ponto de marcar a primeira vitória da Índia no Oscar - e quais outros épicos indianos similares a ele você indicaria para o público brasileiro conhecer mais do cinema do seu país?


SS Rajamouli: Para mim, o sucesso de RRR é algo realmente muito importante. A Índia é um país de histórias, que remontam a milhares e milhares de anos — mitologias, história, folclore — além de diversas versões dessas narrativas. Sempre compartilhamos nossas histórias com o público indiano, e nossos contadores de histórias sempre sentiram que o mundo todo deveria conhecê-las.


Infelizmente, não temos um sistema que nos permita levar nossas histórias para o mundo. Com RRR, creio que foi a primeira vez que conseguimos romper fronteiras — sair do nosso país — e fazer com que o mundo, ao menos, prestasse um pouco de atenção. Não estou querendo dizer que todo mundo conhece RRR. Mas, após décadas e mais décadas, quase 100 anos de cinema indiano, RRR foi o primeiro filme a levar ao mundo o cenário, a paisagem da nossa terra. Isso me deixa extremamente orgulhoso, extremamente grato e extremamente honrado.


E quanto a outros filmes... você está me perguntando sobre um país que produz mil filmes por ano, há 80 ou 90 anos. Então, por onde começar? São tantos filmes! Mas, hoje em dia, o público é muito inteligente — extremamente inteligente — e, se as pessoas quiserem assistir a algo, não precisamos dizer-lhes absolutamente nada. Eles pegam o celular, digitam tudo, têm contatos por toda parte e sabem mais sobre o cinema indiano do que eu mesmo poderia contar. Mas, se você gosta de RRR, então você gosta do meu estilo de contar histórias, como nos meus dois filmes anteriores, Baahubali 1 e Baahubali 2, que formam uma série. Vale ressaltar que são obras míticas; não são realistas, possuem uma natureza fantástica. Mas é possível encontrar vestígios de RRR nesses filmes.


 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme traz versões ficcionais de dois grandes líderes da independência indiana que, até onde se sabe, não se conheceram na vida real. O que o motivou a imaginar essa história onde os dois se tornam grandes amigos e aliados e, diante da história da Índia, Brasil e tantos outros países que foram colonizados pelas nações europeias, o que podemos aprender das trajetórias deles?


SS Rajamouli: Para mim, ao escrever a história, vários pensamentos e diferentes pontos de vista acabam se unindo. No início, eu só queria contar uma história sobre amizade. Pensei: "Bom, tenho astros que são meus amigos próximos – N. T. Rama Rao Jr. e Ram Charan – e seria fantástico se eles trabalhassem juntos". Assim, eu poderia criar uma trama centrada na amizade. Essa foi a semente inicial.


Então, que tipo de amizade? Quem são essas pessoas? Naquela época, o meu estado foi dividido em dois. Falavam a mesma língua, mas, após uma espécie de revolução que estava ocorrendo, ele acabou sendo dividido. Havia muito ódio entre os dois lados. Eram as mesmas pessoas, a mesma língua, mas, por causa dessa divisão do estado, surgiu muito ódio, o que me deixava muito triste. Eu pensava que somos um só, que não estamos separados. Podemos ter nos separado, pode ter surgido uma fronteira, mas somos um só. Eu também queria fazer algum tipo de declaração; não sou uma pessoa voltada para a política, mas, como artista, senti que precisava expressar isso. Foi então que surgiu a ideia de criar isto.


Então pensei: tudo bem, se existem dois desses líderes, Alluri Sitha Rama Raju e Komaram Bheem, que vêm de dois lugares distintos (embora, na época, não fossem separados) e que são muito respeitados, vistos quase como semideuses, pensei: mesmo sendo uma obra de ficção, se eu apresentar os dois como amigos, por que nós também não podemos ser amigos? Se nossos líderes, se nossos deuses, são amigos, por que nós não podemos ser amigos?


E o que podemos aprender com isso? Significa que, como em qualquer país, sempre observamos uma certa fragmentação entre as pessoas; existe sempre um "nós" e um "eles". Mas, na verdade, se recuarmos um pouco e analisarmos a perspectiva, não há "nós" e "eles": somos apenas nós. Somos sempre nós. Sempre haverá alguém tentando nos separar, criando essa distinção entre "eles" e "nós". Se não cairmos nessa armadilha, se sentirmos que estamos juntos, que somos um só, e se dermos as mãos, poderemos salvar nosso país, assim como Raju e Bheem salvam aquela criança.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando um pouco do futuro, seu próximo filme, “Varanasi”, está previsto para lançar no ano que vem e promete ser ainda mais ambicioso do que seus filmes anteriores, além de ser o filme indiano mais caro já feito. O que podemos esperar dele? Eu vi que é uma história que você planeja há muito tempo, então o que possibilitou que você dirigisse esse filme agora?


SS Rajamouli: Eu adoro o espetáculo. Quer dizer, o motivo pelo qual vamos a uma sala de exibição para assistir a um filme em uma tela grande – a própria natureza do cinema – me mostra que ele precisa ser grandioso, precisa ser um espetáculo; o público deve ficar impressionado e sair satisfeito. Por isso, o espetáculo sempre me atrai, tanto como espectador quanto como roteirista. Mas, ao mesmo tempo, sei que, se for apenas um espetáculo, as pessoas vão se cansar muito rapidamente. É preciso que haja uma emoção que impulsione esse espetáculo. Por isso, sempre que começo a buscar uma história, procuro uma emoção que possa se expandir até se tornar um espetáculo, e não o contrário.

Então, no momento em que captei isso em Varanasi, deparei-me com uma relação – inicialmente rompida e depois restaurada – entre pai e filho, e também com uma bela relação entre um rapaz e uma moça, um homem e uma mulher. Pensei, então, que, ao colocar esses elementos sob uma perspectiva específica, eu conseguiria criar um grande espetáculo.


É um projeto muito ambicioso, de uma escala imensa; cada episódio, por si só, equivale a um filme completo. É como se tivéssemos seis ou sete filmes reunidos em um só. Foi um trabalho árduo, um esforço imenso dedicado à realização desta obra. Estou feliz, pois estamos concluindo as filmagens; faltam apenas mais 10 dias e o processo estará finalizado. Chegamos, enfim, ao fim das gravações; foram dois anos extremamente cansativos e desafiadores. Agora, seguimos para a pós-produção.

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