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Crítica | Não Estamos Sonhando (Mostra de SP 2026)

Vinicius Oliveira

26 de out de 2026 · 2 min de leitura

Longa alagoano trabalha a filmagem de corpos políticos pelas lentes do universo do pole dance

Divulgação
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Um dos grandes efeitos das políticas públicas de fomento ao audiovisual brasileiro foi a possibilidade de que estados que historicamente não tinham uma tradição na feitura de longas-metragens enfim pudessem produzi-los. Neste ano, já tive a oportunidade de assistir no Olhar de Cinema a um filme alagoano que reflete esse momento atual para o estado, Olhe Para Mim, e a ele se soma Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur.


Ambientado em Maceió, o longa acompanha Ciro (Pedro Leão), que se divide entre os estudos na faculdade de Medicina na UFAL e o trabalho como professor de pole dance. A vida universitária é ameaçada pelos cortes de bolsas, e o trabalho – voltado apenas para os amigos mais próximos – não rende o suficiente. Quando ele é expulso de casa pela madrinha homofóbica (Nívea Maria), sua única alternativa é se abrigar na casa do vizinho, o DJ Antonio (Luciano Pedro Jr.), que mora com a prima Deyze (Tamylka Viana).


Como o título já indica, Não Estamos Sonhando se ancora no embate entre os sonhos e a idealização contra o peso esmagador da realidade. O ambiente universitário, com seus problemas de classe e falta de aporte a minorias, esmaga e oprime os personagens, que encontram no pole dance um lugar de escape e expressão de suas próprias identidades. Nesse sentido, a direção de Arthur trabalha com esmero a fisicalidade destas performances, filmando seus corpos com um teor político declarado, e o universo do pole dance se encaixa como uma luva nesse sentido, não só pelo aspecto da sensualidade ligado a ele, mas também por ser um espaço para corpos e identidades dissidentes.


Apesar disso, o filme nunca chega a conseguir conectar efetivamente esses dois universos, mesmo pelo contraste pretendido (talvez com exceção da sequência no ônibus). As atuações, embora não comprometam, revelam uma certa limitação em determinadas cenas, sobretudo na grande discussão de Ciro e os amigos perto do final. Mesmo a relação deste com Antonio, que parece ser sugerida como um grande mote do filme, acaba sendo um tanto escanteada durante parte da projeção e é retomada apenas em partes na sua reta final. O grande enfoque acaba sendo muito mais a relação do grupo de amigos, que, além de Ciro, é formado por Veneno (Pedro Walisson), Marília (Gessyca Geyza), Cristiane (Elaine Lima) e Pam (Huná), e sempre que o filme se detém sobre eles e suas performances, ele mostra toda sua potencialidade e força.


Não Estamos Sonhando parte das especificidades do universo do pole dance para construir uma narrativa de resistência e pertencimento. O final do filme, por mais aberto que possa parecer, é a consolidação dessa narrativa, e mesmo que as partes relacionadas às vivências universitárias dos personagens possam soar truncadas ou distraiam daquilo que o filme tem como mérito (que são as performances no pole e a relação dos personagens com este universo), não deixam de ressoar com o momento atual do Brasil. No fim das contas, o grande acerto do filme está em como sabe filmar seus corpos e fazer disso um ato político.


Nota: 3/5


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há 21 horas
2 min de leitura
Longa alagoano trabalha a filmagem de corpos políticos pelas lentes do universo do pole dance

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Um dos grandes efeitos das políticas públicas de fomento ao audiovisual brasileiro foi a possibilidade de que estados que historicamente não tinham uma tradição na feitura de longas-metragens enfim pudessem produzi-los. Neste ano, já tive a oportunidade de assistir no Olhar de Cinema a um filme alagoano que reflete esse momento atual para o estado, Olhe Para Mim, e a ele se soma Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur.


Ambientado em Maceió, o longa acompanha Ciro (Pedro Leão), que se divide entre os estudos na faculdade de Medicina na UFAL e o trabalho como professor de pole dance. A vida universitária é ameaçada pelos cortes de bolsas, e o trabalho – voltado apenas para os amigos mais próximos – não rende o suficiente. Quando ele é expulso de casa pela madrinha homofóbica (Nívea Maria), sua única alternativa é se abrigar na casa do vizinho, o DJ Antonio (Luciano Pedro Jr.), que mora com a prima Deyze (Tamylka Viana).


Como o título já indica, Não Estamos Sonhando se ancora no embate entre os sonhos e a idealização contra o peso esmagador da realidade. O ambiente universitário, com seus problemas de classe e falta de aporte a minorias, esmaga e oprime os personagens, que encontram no pole dance um lugar de escape e expressão de suas próprias identidades. Nesse sentido, a direção de Arthur trabalha com esmero a fisicalidade destas performances, filmando seus corpos com um teor político declarado, e o universo do pole dance se encaixa como uma luva nesse sentido, não só pelo aspecto da sensualidade ligado a ele, mas também por ser um espaço para corpos e identidades dissidentes.


Apesar disso, o filme nunca chega a conseguir conectar efetivamente esses dois universos, mesmo pelo contraste pretendido (talvez com exceção da sequência no ônibus). As atuações, embora não comprometam, revelam uma certa limitação em determinadas cenas, sobretudo na grande discussão de Ciro e os amigos perto do final. Mesmo a relação deste com Antonio, que parece ser sugerida como um grande mote do filme, acaba sendo um tanto escanteada durante parte da projeção e é retomada apenas em partes na sua reta final. O grande enfoque acaba sendo muito mais a relação do grupo de amigos, que, além de Ciro, é formado por Veneno (Pedro Walisson), Marília (Gessyca Geyza), Cristiane (Elaine Lima) e Pam (Huná), e sempre que o filme se detém sobre eles e suas performances, ele mostra toda sua potencialidade e força.


Não Estamos Sonhando parte das especificidades do universo do pole dance para construir uma narrativa de resistência e pertencimento. O final do filme, por mais aberto que possa parecer, é a consolidação dessa narrativa, e mesmo que as partes relacionadas às vivências universitárias dos personagens possam soar truncadas ou distraiam daquilo que o filme tem como mérito (que são as performances no pole e a relação dos personagens com este universo), não deixam de ressoar com o momento atual do Brasil. No fim das contas, o grande acerto do filme está em como sabe filmar seus corpos e fazer disso um ato político.


Nota: 3/5


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