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- Crítica | Deadpool & Wolverine
Se esse for o novo MCU, um futuro deprimente nos aguarda Foto: Divulgação Não é novidade para ninguém que os filmes de super-heróis atingiram seu ápice de popularidade alguns anos atrás e posteriormente começaram a sofrer grandes rejeições pelo público em geral e até por aqueles que eram apaixonados por esse universo, mas que ficaram saturados de ver tanto do mesmo, produção após produção. É nesse cenário de fracassos e descontentamentos - com alguns poucos filmes que se salvam - que surge Deadpool & Wolverine, a mais recente aposta da Marvel que tem como carro-chefe o apelo pela nostalgia e a enxurrada de fan service. Olhando para trás e analisando os dois longas anteriores do Deadpool já dava para esperar o que encontraríamos nesse terceiro filme, de piadinhas que quebram a quarta parede até zoação com todo universo cinematográfico da Marvel. Só que dessa vez teríamos uma contribuição a mais, ninguém menos que o Wolverine, adorado por tantos e interpretado pelo querido Hugh Jackman. Logo pensei que não era tão difícil errar nesse, afinal bastava entregar uma boa aventura com algumas pitadas de fan service para agradar aquele fã mais exigente. Infelizmente eu estava bastante enganada a respeito. O alívio cômico, adorado por tantos e presente nos longas anteriores, quando usado vez ou outra durante o desenvolvimento da narrativa conseguiam até trazer um bom equilíbrio para contar a história. Aqui, contudo, o excesso e o exagero de piadinhas que podem até agradar outro público, mas que não me agradaram nem um pouco, serviu somente para diminuir ainda mais minha paciência com o filme que não caminhava para lugar nenhum e que a cada duas frases soltava algo sem sentido somente para ocupar espaço e tempo na tela. Foto: Divulgação Deadpool & Wolverine se pauta unicamente na nostalgia e faz dela seu maior pilar para tentar contar alguma história. No entanto, para a surpresa de quase ninguém, não é só de fan service que se faz um bom filme e isso fica escancarado aqui. Com um roteiro que não vai a lugar nenhum, basicamente inexistente, um fan service excessivo, que até satura, lutas que não empolgam e uma vilã extremamente fraca, praticamente nada nesse longa se sustenta ou se salva, a não ser a trilha sonora que renderam alguns poucos momentos bons. Sinto que a Marvel colocou muitas de suas fichas nesse filme esperando desesperadamente o sucesso e o fim da fase ruim, mas se esse era o trabalho capaz de dar uma respirada e um alívio na Marvel, saio sem muita confiança no que o futuro do MCU tem a oferecer. Mesmo não esperando muita coisa e com baixas expectativas ainda consegui sair decepcionada. No final, o saldo foi um ou outro risinho singelo e fraco, não mais que isso. Nota: 2/5
- Crítica | Um Lugar Silencioso: Dia Um
Filme usa como plano de fundo invasão alienígena para contar história sobre a complexidade das relações humanas Foto: Divulgação Quando o ator John Krasinski anunciou que iria dirigir um suspense de drama pós-apocalíptico roteirizado por ele mesmo e por Scott Beck e Bryan Woods, muita gente torceu o nariz. Afinal, será que o intérprete de Jim Halpert, da icônica série de comédia The Office, iria conseguir entregar um filme razoavelmente bom na sua estreia como diretor? Bom, a resposta nós podemos observar não só no seu longa de 2018, mas também na sua sequência de 2020 e agora em seu trabalho prequel, lançado na última semana nos cinemas. Tudo bem, em Um Lugar Silencioso: Dia Um, John não atua como diretor, mas como colaborador do roteiro e quem assume as rédeas de contar essa história é Michael Sarnoski (diretor do longa indie Pig). Mas, ainda estamos vivendo nesse mundo criado por Krasinski que, mesmo não tendo nada muito diferente de outros filmes e séries do gênero, consegue entregar todas as vezes uma história acima da média do que estamos acostumados a assistir. Neste prequel, acompanhamos a história de Sam (Lupita Nyong'o), uma mulher que é paciente de um local para pessoas em cuidados paliativos e que vai para Manhattan, em Nova York, assistir a um show e comer pizza - programa despretensioso que ela encara como uma despedida da vida. A apresentação logo é interrompida pela chegada dos alienígenas, que criam o caos na cidade conhecida pelo seu constante barulho, e é nesse cenário que Sam se vê na situação de lutar pela própria vida. Só nesse início Um Lugar Silencioso: Dia Um, cria um paradoxo interessante ao colocar uma protagonista que parece conformada com o fim da sua vida para precisar lutar pela sobrevivência. Sam não quer salvar sua família ou tentar desvendar o que são essas criaturas, ela quer ter a última oportunidade de comer um pedaço de pizza que fez parte da sua infância. Quando ela parte em busca disso, junto ao seu gatinho de estimação, Frodo, ela acaba encontrando Eric (Joseph Quinn) e os dois acabam se ajudando de alguma forma a encontrar um propósito no meio do caos. Foto: Divulgação Nos aspectos técnicos, o filme não fica atrás dos seus antecessores e utiliza bem o som, alternado entre os momentos de silêncio. Com uma fotografia também mais característica, deu pra perceber que o diretor, mesmo com as limitações de comandar um prequel, conseguiu imprimir sua própria identidade na história, mas, entrega também excelentes cenas de ação. O elenco, obviamente, se destaca absurdamente e Lupita Nyong’o prova que foi feita sob medida para estrelar bons filmes de suspense em mais uma atuação primorosa. Joseph Quinn também é eficiente e o gato Frodo é um espetáculo à parte. Assim como em seus antecessores, Um Lugar Silencioso: Dia Um não busca explicar como essas criaturas surgiram ou como elas são de forma mais específica, a única coisa que aprendemos é que elas são atraídas por meio do som. Tirando o elemento de surpresa das criaturas que já conhecemos, o filme cria o suspense nas situações em que tensiona para o espectador esses momentos ‘cara a cara’ com os alienígenas. Quem esperava que o prequel fosse dar respostas mais satisfatórias sobre as criaturas pode ter saído decepcionado, mas, não entendeu o objetivo maior que Krasinski sempre quis passar por meio dessa franquia. Posso estar totalmente enganada, mas aqui, as criaturas são apenas subterfúgios de um roteiro que quer falar de relações humanas em meio ao caos de uma forma bem amplificada. E se nos dois primeiros filmes, nós observamos as relações familiares, nesse o drama se foca na dualidade de Sam entre aceitar a própria morte, lutar pela sua sobrevivência e ao mesmo tempo lidar com um luto que ainda está presente. E é isso que torna essa franquia tão particular diante de tantas produções parecidas entre si com essa vontade em colocar como protagonista essas relações e essas complexidades. Muito mais que uma criatura alienígena, o coração dessa história pulsa dentro de algo que é intrínseco à sociedade humana. E realmente isso vale muito mais do que qualquer outra coisa. Nota: 4/5
- Crítica | Ninguém Sai Vivo Daqui
Filme traz história ficcional sobre os horrores do holocausto brasileiro Foto: Divulgação Ainda considerada uma história escondida em um Brasil de passado aterrorizante, o que aconteceu no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, durante mais de 40 anos é considerado o Holocausto Brasileiro por muitos historiadores. Foram mais de 60 mil mortos no hospital psiquiátrico que recebia não só pessoas com problemas mentais, mas também rejeitados pela sociedade como pessoas em situação de rua, LGBTQIAPN+, prostitutas e vítimas de violência sexual. A história da Colônia e dos seus pacientes já foi retratada em alguns documentários e séries e ganhou destaque após o livro-reportagem da autora Daniela Arbex, lançado em 2013. E é inspirado nos fatos narrados neste livro que o longa Ninguém Sai Vivo Daqui, que estreia nos cinemas no dia 11, conta uma história ficcional que acontece dentro do Hospital Colônia. No filme, que se passa na década de 70, conhecemos Elisa (Fernanda Marques), uma jovem enviada no “trem louco” (sim, essa expressão mineira é por esse motivo) para Barbacena após seu pai descobrir uma gravidez antes do casamento. Ninguém Sai Vivo Daqui é uma versão condensada e com algumas cenas inéditas da série Colônia, lançada pela TV Brasil em 2021. Quando chega no Hospital, Elisa precisa lidar não só com a violência institucional praticada na Colônia, mas também com abusos e violências de alguns funcionários. É um cenário devastador, humilhante e extremamente degradante com qualquer ser humano. Mas, mesmo nesse ambiente Elisa faz amizades e encontra neles a força para seguir lutando pela sua sobrevivência. Ninguém Sai Vivo Daqui consegue ambientar bem o espectador no Hospital Colônia e nos faz sentir uma angústia absurda enquanto assistimos, especialmente sabendo que aquilo aconteceu de fato com muitos brasileiros. E um dos maiores destaques para essa imersão tão profunda é por conta do espetacular elenco que o filme traz. Além de Fernanda Marques, que está excelente como a protagonista, temos também no núcleo principal Rejane Faria e Augusto Madeira e as participações especiais de Andreia Horta e Samuel de Assis. Foto: Divulgação Rejane e Augusto, na minha opinião, são o ponto alto do filme. Rejane interpreta uma mulher que vive na Colônia há mais de 30 anos e que nunca conheceu o filho que ali nasceu e foi colocado para adoção. Seu arco traz redenção e também um pouco de alegria e alívio no meio de tantas situações tenebrosas ali vividas e sua atuação muito sincera e verdadeira traz isso para as telas com muita leveza e emoção. Já Augusto interpreta um dos antagonistas da trama, um dos funcionários que abusa Elisa e outras pacientes com frequência. Sua atuação é muito visceral e causa raiva e um choque (especialmente para quem recentemente o assistiu em Encantado’s como o engraçadíssimo Leozinho). Todo esse conjunto muito bom no elenco não evita alguns problemas no roteiro e na montagem. Dirigido por André Ristum, a impressão é que o filme corre em alguns momentos e desenvolve pouco algumas relações e tramas, acredito que justamente por ter sido condensado de um material maior vindo da série, houve algumas perdas narrativas que podem atrapalhar o entendimento de alguns pormenores da sua trama como um todo. De fato, Ninguém Sai Vivo Daqui parece uma boa apresentação para série, que deve, sem dúvidas, desenvolver melhor todas as suas tramas e subtramas. A decisão de manter o filme em tons preto e branco foi algo que me agradou, assim como a forte trilha sonora, que é meio inconstante em alguns momentos. Apesar de tratar de um tema forte e de possuir cenas que seguem essa violência, o filme não exagera no que mostra, diminuindo uma possível espetacularização de um tema tão delicado. Indo para as decisões narrativas do roteiro, devo admitir que a guinada final do terceiro ato para mais um thriller do que o drama do seu início me incomodou um pouco, mas nada também que decaia a qualidade do produto final que foi apresentado. De forma geral, Ninguém Sai Vivo Daqui é um filme (e também série) necessário para relembrarmos e não esquecermos que o Brasil foi palco de um extermínio em massa. Mesmo com traços ficcionais, o filme levanta o tema de um forma muito fiel ao que foi relatado no livro de Daniela Arbex, fazendo jus ao seu material de origem. Com uma segunda temporada confirmada para um final que realmente deixa caminhos abertos, torço para que mais pessoas, a partir do filme, também possam acompanhar a série, conhecendo assim esse capítulo bárbaro da história do Brasil. Nota: 3,5/5
- Entrevista | Ninguém Sai Vivo Daqui
André Ristum e Fernanda Marques conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação Lançado nesta quinta-feira, 11, em diversos cinemas de todo o país, o filme Ninguém Sai Vivo Daqui traz para as telas uma história ficcional baseada nos fatos reais que aconteceram no Hospital Colônia em Barbacena. No longa, que se passa na década de 70, conhecemos Elisa (Fernanda Marques), uma jovem enviada para o Colônia após seu pai descobrir uma gravidez antes do casamento. Ninguém Sai Vivo Daqui é uma versão condensada e com algumas cenas inéditas da série Colônia, exibida pela TV Brasil em 2021. Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? , o diretor André Ristum e a protagonista Fernanda Marques conversaram sobre as peculiaridades de adaptar uma obra baseada em fatos reais, inspirada levemente no livro “Holocausto Brasileiro” da Daniela Arbex. “Eu sempre fui um diretor muito focado em trabalhos ficcionais, e, quando eu tive contato com essa história, já havia um documentário importantíssimo, o “Em Nome da Razão” feito pelo Helvécio Ratton e um documentário produzido pela própria Daniela, o caminho ficcional não havia sido explorado ainda. E quando você lê o livro você já sente ali, pelo jeito dela escrever, essa narrativa mais cinematográfica. São tantas histórias, tanta potência ali que eu inicialmente já pensei na produção tanto da série, quanto do filme”, explica André. A ideia da adaptação ficcional nasceu através dos personagens contados por Daniele em seu livro, mas também se baseiam em pesquisas e relatos encontrados pelo diretor e a ideia era retratá-los tanto para o público da série, quanto para o público do cinema de forma similar. De acordo com André, a produção foi gravada com especificidades narrativas para ser adaptada para os cinemas, com gravações de momentos específicos e um roteiro também exclusivo para a sua versão em filme. Foto: Divulgação “Tiveram coisas da história da Elisa que nós precisamos suprimir no processo de edição, mas, são histórias bem amplas e mais aprofundadas dos outros personagens, afinal, no filme temos cerca 1h25 minutos de tela e na série, juntando todos os episódios temos mais ou menos umas três horas e meia. Conceitualmente, inclusive, a série e o filme possuem conceitos sonoros diferentes e uma finalização diferente. É super possível acompanhar e assistir as duas obras, lá temos histórias maravilhosas que não entraram no resultado final do filme, todas essas histórias merecem ser conhecidas”, reflete. Ao decorrer da sua história Ninguém Sai Vivo Daqui trata de temáticas bastante violentas e pesadas, refletindo todo um passado de histórico de violência contra pessoas que tinham algum tipo de doença mental. Para Fernanda Marques, o projeto a colocou, primeiramente, em um lugar de empatia com as pessoas e as situações vividas no Hospital Colônia. “Eu não tinha conhecimento sobre essa história, descobri sobre tudo que aconteceu em Barbacena quando fui fazer o teste. Fiquei muito horrorizada e impactada, inclusive chorei com a cena que eu fiz o teste. Já o processo de preparação foi fundamental para imergir na história, tivemos duas semanas, uma particular com o preparador de elenco e uma segunda semana com o elenco inteiro, onde fizemos várias dinâmicas juntos”, relata Fernanda. A atriz completa que o momento do set de gravação foi de suma importância para uma maior imersão na personagem. “Gravamos em um convento antigo, então era uma arquitetura que nos ajudava a acessar vários lugares da nossa mente para o momento das gravações e nós também gravamos no inverno. Essa junção do espaço, do tempo junto da nossa união como elenco, virando uma grande trupe, fez com que tudo ocorresse de forma muito natural e verdadeira”. Foto: Divulgação Com Andreia Horta, Augusto Madeira, Naruna Costa, Samuel de Assis, Rejane Faria e grande elenco, o diretor de Ninguém Sai Vivo Daqui, buscou encontrar atores que se encaixavam com os personagens e que transmitissem emoções genuínas em tela. “A personagem da Rejane, por exemplo, apesar de todo o peso que carrega por tudo que sofreu, traz uma leveza para a história. Ela tem esse contraponto que é super importante para o processo de criação da personagem. Foi lindíssimo como a gente encontrou e de como esse papel, de fato, chegou na mão da Rejane. Ela veio de Belo Horizonte de ônibus, fez o teste presencial conosco e, durante as gravações, ela descobriu que a avó havia sido internada no Colônia. Parecia algo cármico, de tão verdadeiro que foi a sua entrega à personagem”, explica André. Exibido em alguns festivais ao redor do mundo antes da sua estreia oficial no Brasil, André Ristum relata que a recepção do filme foi extremamente positiva por onde ele passou, trazendo luz a uma temática poucas vezes falada no audiovisual. “O público se conecta independente da sua nacionalidade. Mesmo contando uma história que aconteceu no Brasil, trazemos um tema que fala sobre as questões humanas, questões de injustiça, de saúde mental. Vemos a importância de falar sobre isso quando lembramos que no governo anterior a este chegou a ser discutido a reabertura de instituições como eram o Colônia. Então, é a nossa função como realizadores, escritores, jornalistas, produtores de teatro, enfim, falar e contar essas histórias, para criar pontes de conexão com o público e evitar que exista um retrocesso”. Para André Ristum, o cinema nacional é o que representa a conexão dessas histórias esquecidas com o povo. “Um país sem cultura é um país sem alma e nossas histórias são a alma do nosso povo. Sabemos que o mercado é dominado por uma indústria hegemônica no mundo inteiro e que em alguns países ele domina mais e em outros menos, depende muito da época. O Brasil já passou por momentos melhores, onde a cota de tela nos ajudou bastante a conquistar uma fatia importante do mercado, chegamos a ter mais de 20% de ocupação de salas e da venda de ingressos com o cinema nacional, mas, a coisa decaiu muito após o último governo. Mas temos sim uma alta demanda por produto nacional e isso se deve a construir um desejo, um gosto, de ter contato com as nossas histórias. Então, chegar aos cinemas com um filme como esse é muito importante. Nós precisamos valorizar as nossas histórias”, completa. “Precisamos valorizar nossa cultura e valorizar as produções nacionais. Infelizmente, aparecem cada vez menos oportunidades e menos espaço. Por isso, acho importante essa valorização das nossas histórias, especialmente as que trazem histórias como a que mostramos no filme, para que essas atrocidades nunca mais se repitam”, conclui a atriz Fernanda Marques.
- Crítica | Maxxxine
Uma viagem aos anos 80 e a consolidação de uma estrela Foto: Divulgação “In this business, until you’re known as a monster, you’re not a star”.* Provavelmente a frase será repetida à exaustão por diversas pessoas que forem escrever sobre o filme, já que, ela sintetiza o teor da história que será vista logo após as palavras de Bette Davis sumirem da tela e a jornada de Maxine Minx iniciar. Uma trilogia que iniciou como um slasher despretensioso com X - A Marca da Morte, e partiu para um terror mais psicológico com Pearl, finalmente ganha seu capítulo final em um clima maior de suspense carregado de referências com Maxxxine. Com Ti West na direção e tomando o comando sozinho do roteiro, o filme dá um bom encerramento para o universo criado, mas, escorrega um pouco para validar o seu próprio fim. Indo por partes, Mia Goth continua sendo o grande destaque. Abandonando toda aquela aura sonhadora e delirante de Pearl, ela agora incorpora a ambição e o poder que Maxine transmite. Sem que precise ainda provar algo, Mia mesmo assim mostra durante todo o filme o porquê de merecer estar no protagonismo, ela tem uma força quase hipnótica, que prende a sua atenção a qualquer coisa que seja feita em tela. Sua interpretação nesta personagem, que é o total oposto da protagonista do filme anterior, só deixa ainda mais evidente todo o seu talento e carisma. Goth segura a trama nas mãos mesmo quando parece que ela está para afundar, e faz de Maxine a monstruosa estrela que ela deveria ser. Há uma gama de nomes bastante conhecidos fazendo participação, Halsey, Lily Collins, Bobby Cannavale e Elizabeth Debicki. Contudo, quem se sobressai é Kevin Bacon e Giancarlo Esposito. Não que todos não sejam lembrados, Debicki com sua Liz autoritária e impaciente se sai muito bem, mas em comparação, Bacon puxa para si o papel de coadjuvante sem fazer quase esforço algum, seu personagem sorrateiro é um dos pontos positivos do filme. Esposito tem um papel menor e ainda assim marcante, como sempre. Quando ele surge, já se espera que seja um personagem sem escrúpulos e venha aquele olhar característico, mas, de início, parece ser alguém comum, e isso que faz com que ele tenha seu brilho próprio, há na sua interpretação uma maestria muito singular que é muito boa de assistir. Foto: Divulgação Minha parte favorita de toda a produção é, sem pestanejar, a direção de arte e a trilha. Ambientado nos anos 80, há uma verdadeira imersão àquela década, quase como uma máquina do tempo que viaja para o passado e transmite através das câmeras tudo que está imortalizado na história. O figurino bem pensado e os cenários, literalmente, hollywoodianos ajudam ainda mais a fazer essa viagem. Além disso, a trilha que também parece congelada naquele espaço de tempo colabora para que haja essa conexão com a história. A direção de Ti West se mantém bem, mas seu roteiro aqui parece se perder um pouco. É uma história que prende a atenção, com certeza, mas há uma sensação de insipidez quando deveria ser o seu clímax. Todo o início e o desenrolar vai bem até pouco mais da metade, parece haver sentido no caminho que segue, todos os pontos vão sendo entregue e levando a crer que haverá um encerramento apoteótico, só que essa apoteose não chega. Apesar de saber se encerrar, há uma falha nas resoluções dos problemas criados e nos mistérios movidos, e não é nem uma questão de expectativa, é realmente uma mornidão que se agiganta sobre o seu ato final. O uso do conservadorismo agravante em relação a Hollywood parece uma boa ideia a ser usada, no entanto, mal aproveitada. Maxxxine pode até não ser o melhor da trilogia, mas está longe de ser um filme ruim. Desapontante, talvez, mas com méritos. Nos serve uma protagonista inegavelmente marcante, uma história que apesar das falhas é boa de acompanhar, além, é claro, de mortes e mais mortes, como já é esperado. Pode não ser o que se esperava para encerrar a trilogia que ganhou o coração de muitos, mas ele ajuda a consolidar ainda mais Mia Goth como uma verdadeira estrela. Além de valer muito para o entretenimento, o que seria de um filme sem pelo menos esse poder, não é? Nota: 3,5/5 *"Nesta indústria, até que você seja visto como um monstro, não é uma estrela."
- Crítica | Twisters
Com ação mais encorpada, filme repete erros e acertos da primeira versão Foto: Divulgação Kate Cooper (Daisy Edgar-Jones) é uma ex-caçadora de tempestades assombrada por um encontro devastador com um tornado durante seus anos de faculdade e que agora estuda padrões de tempestades nas telas em segurança na cidade de Nova York. Ela é atraída de volta às planícies por seu amigo, Javi (Anthony Ramos), para testar um novo sistema revolucionário de rastreamento. Lá, ela cruza seu caminho com Tyler Owens (Glen Powell), o carismático e imprudente ícone das redes sociais que se diverte postando suas aventuras de caça a tempestades com sua equipe barulhenta. À medida que a temporada de tempestades se intensifica, fenômenos aterrorizantes nunca vistos são desencadeados e Kate, Tyler e suas equipes concorrentes se encontram diretamente no caminho de múltiplos sistemas de tempestades convergindo sobre o centro de Oklahoma na luta de suas vidas. Twisters é uma continuação da cultuada produção de 1996 e que não demanda ter assistido ao primeiro para se consolidar, afinal de contas o tornado, Oklahoma e um equipamento chamado “Dorothy” são os únicos pontos que existem de forma exatamente igual em ambos os filmes. Dito isto, a versão de 2024 expõe uma estrutura narrativa quase que idêntica ao original. São dois grupos formados por incontáveis personagens coadjuvantes no interior de Oklahoma competindo para quem consegue chegar mais perto do tornado e, em meio a isso, um conflitante casal de protagonistas. No entanto, as motivações são diferentes e nesse quesito o novo filme consegue apresentar um texto mais elaborado e que permite desdobramentos mais criativos e reviravoltas mais bem arquitetadas. A presença do personagem Javi, por exemplo, torna a dinâmica do casal branco executável apenas a partir do final do segundo ato, embora honestamente todo o público já saiba desde o momento inicial que eles irão, de alguma forma, terminar juntos. E a ideia de um casal entre os protagonistas, romanticamente falando, enquanto no filme dos anos 90 é o combustível do enredo, nesse não chega nem a sair do plano das ideias, mas consegue construir bons momentos cafonas, melosos e engraçados. Foto: Divulgação E isso se dá ao trio de protagonistas que transbordam carisma. O galã Glen Powell é um dos queridinhos do momento em Hollywood, mas não é só por ser intimidantemente bonito, ele já provou em seus trabalhos recentes que tem um rico repertório e consegue fazer muito com pouquíssimo que recebe as vezes. Aqui ele faz o que faz de melhor, passeia entre o cafajeste e o bom moço e agrada todo mundo. Não menos talentoso é o ator e cantor Anthony Ramos que divide facilmente o domínio das cenas com a estrela do filme: Daisy Edgar-Jones. A simpática atriz britânica está presente em quase todas as cenas e entrega uma atuação magnética que se soma a um trabalho de corpo espetacular. Os efeitos funcionam muito bem e não passam do ponto onde o absurdo começa a se despregar do real. Todas as sequências de ação sofrem com as mesmas intercalações que o original, mas o ritmo é mais encorpado e conciso. E a trilha sonora repleta de country ajuda a construir a atmosfera rural que o argumento precisa para consolidar a ambientação. Assim como o primeiro, é farofa, sabe que é farofa, mas gostaria que tivesse (ainda) mais destruição e menos camadas nos personagens com todo respeito ao ótimo elenco e ao roteirista esforçado, afinal de contas, quem vai ver um filme sobre desastres ambientais quer mesmo é ver, no mínimo, tornados pegando fogo (na falta de vacas voando). Nota: 3,5/5
- Crítica | Bandida: A Número Um
Excelente condução e elenco brilhante fazem o espectador querer mais (porque de fato merecia) Foto: Divulgação Aos nove anos, Rebeca (Maria Bomani) é vendida pela avó para o bicheiro que comandava a Rocinha. Disputada por bicheiros e traficantes, a comunidade passa por mudanças de poder. Rebeca vira mulher do traficante chefe e, com a morte dele, sua sucessora. Confesso que já tive minha cota de filmes brasileiros sobre tráfico, crime organizado e favelas. Entre produções aclamadas e comédias satíricas para lá de vergonhosas o tema, e suas infinitas possibilidades de abordagem, me cansou. E foi cheio de ressalvas que cheguei para a sessão de Bandida: A Número Um e para a minha surpresa fui completamente contrariado, ainda bem. Logo nos primeiros instantes é perceptível que o diretor João Wainer estava apresentando uma produção complexa no melhor sentido da palavra. Ao abrir com uma narração da protagonista numa cena em preto e branco e com enquadramentos fechados Wainer avisa ao público que apesar da temática agressiva esse é longa intimista, emotivo e perspicaz. A direção de elenco fez um trabalho primoroso, e cada ator que aparece merecia um parágrafo de destaque para si, mas vou resumir nas duas forças imperantes: Maria Bomani e Jean Amorim. Não vou entrar em méritos feministas afinal este não é meu local de fala e não quero meter os pés pelas mãos, mas a história de uma mulher que direta e indiretamente comandou o tráfico de drogas, cenário literalmente dominado por homens, em uma das maiores favelas do Brasil é uma história de força e empoderamento, e para isso era necessária uma atriz que ao mesmo tempo que expressasse vulnerabilidade, expressasse também tenacidade. E Maria transmite todas as verdades e da personagem Rebeca sem qualquer amarra ou trava. Ela consegue ser agressiva, afável, sensual, impositiva em pouquíssimo espaço de tempo (o filme tem menos de uma hora e meia de duração) sem perder a coesão e rigidez. E entre os incontáveis nomes do elenco masculino, Jean Amorim rouba a cena. Até mesmo quando o personagem “Pará” não tem linhas de diálogo o olhar carismático e aficionado do ator brilham e se molda perfeitamente à vivacidade da atuação de Maria. Foto: Divulgação A condução de Wainer apresenta uma fluidez tão suave que faz o curto filme passar ainda mais rápido. Fico sempre receoso quando digo nos textos que tal cineasta parece brincar na direção porque pode soar como uma ação descompromissada ou sem cuidado, mas me refiro ao lado lúdico que o resultado apresenta, ao dinamismo apresentado em contrapartida às direções mais sistemáticas e rigorosas quanto ao estilo. Wainer usa imagens documentais reais dos anos 90 para ambientação, explora planos detalhes, câmera rápida, músicas como acessório móvel, e diversas outras convenções que operam numa sólida consonância para a criação de texturas e camadas do rico roteiro. O maior obstáculo do filme é sem dúvidas a limitação da duração. Os dois primeiros atos conseguem se moldar aos seus 30 minutos de duração cada, porém o ato final merecia pelo menos mais uns 20 minutos de modo que a conclusão não ficasse corrida e engolindo detalhes essenciais para uma melhor desenvoltura de situações cruciais para o fechamento do enredo. De toda forma, o resultado é superpositivo e traz consigo frescor ao subgênero de ação policial bem conhecido nosso. Além do frisson já esperado pelas sequências explosivas – que trazem um desenho de som claro e límpido –, o romance e a excitação são bem concebidos, o drama bem embasado, e o suspense segue um percurso estiloso e bem resolvido. É um filme que fala pouco, mas que diz muito e com eloquência. Nota: 4/5
- Entrevista | Diretora de “O Estranho” fala do trabalho sobre ancestralidade no longa
Flora Dias conversou com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação Hoje (20), estreia nos cinemas nacionais O Estranho , co-dirigido por Flora Dias e Juruna Mallon. O filme é ambientado no aeroporto de Guarulhos, o qual foi construído sobre solo indígena, e acompanha Alê (Larissa Siqueira), uma funcionária de pista cuja história familiar foi sobreposta pela construção do aeroporto, cujas memórias e o futuro dela e de seus companheiros estão permeados por uma questão em comum: rastros de um passado em território em constante transformação. Em entrevista para o Oxente, Pipoca? , Flora Dias contou que, inicialmente, a ideia era que o filme se passasse em um aeroporto não-especificado, reforçando a ideia de “não-lugares” cunhada por Marc Augé, que se refere à natureza transitória e ausência de conexões humanas nesses espaços. Porém, à medida que a personagem Alê foi sendo construída, a equipe chegou à conclusão de que o aeroporto de Guarulhos era o ambiente ideal para o filme se passar. A própria cidade em si se revelou uma surpresa positiva para a própria produção da obra. “A gente começou a estudar a história da cidade e fomos sendo surpreendidos. Guarulhos é um território múltiplo, com muitas camadas, e quanto mais a gente mergulhava nas coisas mais o filme ia crescendo”, afirmou Flora. Foto: Divulgação Para ela, a questão da ancestralidade se conecta a um espaço como um aeroporto através da jornada de Alê na trama. “Ela olha para esse território e se lembra de algo que foi soterrado pelo aeroporto. Ela se emana desse território, e ao se aproximar dele se funde a ele também. A própria história dela foi alterada e violentada (...). Ela é amiga do rio e até conversa com ele, tá próxima das matas e vê a terra surgir por debaixo do concreto”, disse. O trabalho com o elenco, que envolveu atores profissionais e não-profissionais, foi pautada por muita sensibilidade e imersão, de modo que tanto os atores levavam aspectos seus para os personagens quanto vice-versa. Flora ainda destaca o tamanho minúsculo da equipe de produção — apenas 11 pessoas no set —, o que acabou por formar uma espécie de família marcada pela cumplicidade e apoio. No que se refere às diferentes linguagens e estéticas adotadas durante o filme, Flora revela que essa era a ideia desde a versão inicial do roteiro, mesclando elementos ficcionais e documentais para atender a proposta do longa. Como exemplo, a cena em que Alê e dois colegas dançam kuduro no meio do saguão do aeroporto nasceu de um momento em que a diretora assistiu a dois funcionários do espaço fazerem uma rápida dancinha antes de voltarem a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Instantes fugazes como esses são, portanto, possibilidades de se questionar a lógica elitizada de ambientes como o maior aeroporto do país, e tais questionamentos só poderiam ser possíveis com a recusa a enquadrar O Estranho dentro de um gênero ou lógica pré-concebida. “Eu não acredito muito nessa oposição de ficção e documentário, cinema é sobre é sobre narrar na maneira que for preciso, como as coisas pedem para ser narradas”, disse Flora. Foto: Divulgação
- Crítica | The Boys (4ª temporada)
Série ainda diverte com sua mesmice, mas quase se perde em tramas paralelas Foto: Amazon/ Divulgação Depois de uma boa 3ª temporada, mas que já mostrava sinais de cansaço com a produção tendo poucos avanços, a 4ª temporada chega deixando isso ainda mais claro. Com a sutileza de um trator, a narrativa critica o extremismo colocando Luz-Estrela (Erin Moriarty) – agora como Annie apenas – do lado oposto ao Capitão Pátria (Anthony Starr) e seus fiéis seguidores, enquanto este tenta ter o apoio de Victoria Neuman (Claudia Doumit) e fazê-la chegar à presidência dos Estados Unidos. Butcher (Karl Urban) segue sua própria agenda e não tem interesse na paz que Annie quer propagar, já que seus dias parecem contados, ele não tem tempo a perder e seu desejo de vingança aumenta, ainda que ele tente convencer Ryan (Cameron Crovetti) a deixar o pai. Nesta trama principal, entram duas interessantes adições. A superinteligente Mana Sábia (Susan Heyward), que começa como uma ajudante do Capitão Pátria e não hesita em dizer a verdade, quando ele se vê – finalmente – cercado de apenas bajuladores. É ela quem desenha o plano para derrotar Annie, trazendo Espoleta (Valorie Curry) para a jogada, uma reacionária da extrema-direita disposta a tudo pela atenção do líder dos Sete. O que norteia a temporada, apesar de tudo ser tão previsível, é que o passado volta para assombrar, basicamente, todos os personagens. O problema aqui são os enredos que não conversam com a trama principal e parece que existem apenas para preencher tempo de tela, para afastar os personagens e adiar coisas inevitáveis e não há qualquer desenvolvimento para eles porque as intenções são boas, mas os contornos são cansativos já que sabemos onde irão nos levar desde o primeiro momento, como a de Hughie (Jack Quaid) e do Francês (Tomer Capone), por exemplo. Leitinho (Laz Alonso), Profundo (Chace Crawford), Ashely (Colby Minifie), Kimiko (Karen Fukuhara) e Trem-bala (Jessie Usher) estão em papeis coadjuvantes, mas cada um tem sua devida importância. Eventualmente, quando Hughie e Francês voltam a fazer parte da narrativa relevante, a temporada ganha mais foco e ritmo. O plano ainda é o mesmo de sempre: derrotar o Capitão Pátria, mas pelo menos é divertido. Foto: Amazon/ Divulgação O humor “5ª série” continua um dos pontos altos com os roteiristas colocando a criatividade em evidência em determinadas sequências envolvendo sexo e violência, como aquela absurda da sauna, a foto que Butcher enviou para Neuman ou uma luta sangrenta em meio a uma festa que tinha The Marvelous Mrs. Maisel como tema. O Profundo se mostra como um ótimo alívio cômico e se me dissessem que Chace Crawford seria engraçado na época que Gossip Girl estava no ar, eu diria que era mentira, mas que bom que aqui ele tem espaço para mostrar um pouco de versatilidade. Outro aspecto positivo são as interações entre Mana Sábia e Capitão Pátria. Por ser a única pessoa que ele escuta, ela não mede as palavras e o humilha sempre que pode, o que é uma dinâmica nova em meio a tanta mesmice. De início, tal qual todo personagem sabichão da tv ou cinema, a personagem irrita um tanto, mas Heyward usa o texto a seu favor e logo vira o jogo. E Anthony Starr, claro, continua um destaque absoluto em seu exagero que quase ultrapassa os limites para cair numa caricatura. O que deixa ainda mais clara a limitação de Cameron Crovetti quando contracena com ele. Erin Moriarty teve uma boa evolução e sua personagem finalmente ganha mais nuance e fica menos chata, vamos ser sinceros. O Prime Vídeo liberou sete episódios para o Oxente, Pipoca?, então esta crítica é com base neles, e mesmo que quatro episódios já tenham disponibilizados na plataforma, evito spoilers ao máximo. O que eu posso dizer é que os três primeiros realmente são os mais fracos e a temporada ganha fôlego depois deles. Porém, mesmo tendo momentos inspirados, a sensação de “já vi isso antes” ainda é frequente, só que não deixa de divertir e eu estou bem curioso para saber o que o último episódio nos reserva. A sátira que a série sempre quis fazer seja a política ou ao capitalismo, sempre foi bem óbvia, mas nesta temporada está ainda mais. O que é compreensível para que parte da audiência entenda de vez o que realmente está sendo criticado, porém a outra parte sente sua inteligência questionada. É uma regressão, quando deveria haver um avanço, já que estamos caminhando para a temporada final, ainda que a jornada entretenha. Nota: 3/5
- Crítica | All We Imagine as Light
Um ingresso de cinema que serve como uma passagem a Mumbai Foto: Divulgação Não é surpresa para quem acompanhou o Festival de Cannes de perto (ou de longe, pelas redes sociais) que a primeira metade do festival foi morna, sem grandes reações positivas, além de Bird e The Substance . Já nos seus últimos dias, o festival trouxe duas grandes surpresas: The Seed of the Sacred Fig e o filme indiano All We Imagine as Light , que tive a oportunidade de ver antecipadamente. O longa dirigido por Payal Kapadia segue a história de Prabha e Anu, duas enfermeiras que se encontram em relações amorosas complicadas e embarcam em uma viagem em direção a uma cidade praiana onde “uma floresta mística se torna um lugar onde seus sonhos podem se manifestar.” Sem sombra de dúvidas, o ponto alto do filme é sua fotografia, que consegue capturar a cidade de Mumbai, principalmente no período noturno, de uma maneira que faz o espectador sentir que vai sair da sala do cinema diretamente para a cidade. Suas cenas também capturam a essência frenética que já conhecemos de outros filmes indianos, de uma maneira sutil e única. Foto: Divulgação Payal Kapadia, que também já dirigiu documentários, cria uma obra de arte com duas mulheres no epicentro da história, nos cativando de um jeito que qualquer espectador que assistir a este filme vai se sentir transportado ao hospital onde elas trabalham. A história segue as personagens de uma maneira fluída, sem tentar encher o espectador de informações, garantindo que ninguém fique entediado. Seguimos suas rotinas de uma maneira que gradualmente nos conectamos às personagens, cada vez mais nos aproximando do longa. A diretora usa sua familiaridade com documentários a seu favor. Uma das cenas mais impactantes do filme é sua abertura, que conta com múltiplas imagens da cidade, contextualizando o espectador sem uma história aparente, até que as imagens começam a desacelerar, nos guiando à história principal do longa. Apesar de não ter visto os outros filmes selecionados para a seleção 'In Competition' de Cannes, não me surpreende que este filme tenha ganhado o Grand Prix no festival. O filme consegue conquistar o que o júri normalmente está à procura: algo que não vimos antes. Principalmente em um ano com a maioria dos filmes eurocêntricos, o filme indiano conseguiu conquistar o júri presidido por Greta Gerwig com suas fortes personagens e uma fotografia impactante. Nota: 4/5
- Crítica | 13 Sentimentos
Uma conflitante história de desamores Foto: Divulgação Até que ponto os sentimentos podem se sobrepor à visão crítica? Muito se é falado sobre a subjetividade da arte e do quanto ela é interpretativa a partir do ponto do espectador, no entanto, para que aquele produto artístico ganhasse forma, foi necessária uma mão de obra por trás e toda uma pá de escolhas técnicas e tomada de decisões para que chegasse à sua forma final. Certo? Tendo em vista isso, pergunto novamente: até que ponto os sentimentos podem se sobrepor à visão crítica? Penso que nunca tive um misto de sensações conflitantes dentro de mim quanto após assistir 13 Sentimentos. Contudo, vamos por partes. O filme traz a história de João (Artur Volpi), um homem gay de 32 anos que recém saiu de um relacionamento que durou uma década e agora está buscando formas de preencher a lacuna deixada com esse encerramento. Além desse detalhe, ele também vê sua janela de oportunidade profissional se fechar ao descobrir que o roteiro que estava escrevendo não foi aceito, e que agora precisa procurar outros meios, e como já trabalha também com edição, acaba encontrando uma forma de usar isso a seu favor. (Informação importante!) A história já começa a partir do ponto em que ele retorna de sua viagem, já solteiro, e inicia sua jornada nada heróica pelos aplicativos da vida. Confesso que esse primeiro momento me causou um certo desconforto, apesar de gostar da maneira como se dão os diálogos, que ao invés de balões com mensagens, é feita em tela com os personagens falando aquilo que conversam. O que me gerou o desconforto não foi isso, mas o texto mesmo, esse primeiro diálogo meio enlatado entre João e sua possível paquera, que parece algo que o twitter de 2018 amaria. Passando esse primeiro momento, o filme se desenrola em volta da vida do protagonista que, mesmo em negação, não sabe como lidar com sua própria solidão, mais conversas, mais encontros, mais saídas. Mais diálogos ruins. Até certo ponto (quase o final), o roteiro se mostra algo meio engessado, quase como uma primeira ideia que não foi esculpida corretamente para filtrar o que fosse desnecessário e trazer as melhorias para o texto. Por consequência disso, a maior parte dos diálogos não soam tão naturais quanto as situações pedem. Foto: Divulgação Com exceção dos minutos finais, a direção de Daniel Ribeiro parece não encontrar o ponto certo de condução, deixando o texto ainda mais a mercê de uma certa robotização. As partes técnicas do longa também parecem algo não finalizado, como se não tivessem amadurecido o suficiente para se chegar ao ponto que deveria. Senti durante quase todo o filme que não estava assistindo ao produto devidamente tratado, era como se fosse um rascunho que ainda estava em processo de edição. Os enquadramentos e a fotografia não trouxeram o frescor e a leveza que a trama pedia. O grande trunfo realmente fica com o pré-final. Aquela cena dos dois personagens na cama é tão bem posta e conduzida, bem dirigida e produzida que pareceu ter sido algo feito à parte e encaixado ali depois. É uma das sequências mais bonitas que já tive o prazer de assistir. Em comparação a todo o filme, pareceu outra mão ali. Dando créditos e méritos, as escolhas musicais e de trilha foram bem acertadas na medida do possível e Volpi conseguiu segurar o rojão no protagonismo. Michel Joelsas também se sai bem e seus momentos em cena são satisfatórios. Agora volto à pergunta que fiz lá no início, depois de tudo que falei, como é possível ter algum sentimento bom em relação a um filme que eu mesmo declarei como falho? É aqui que entra o meu conflito. Enquanto todo o meu lado racional e crítico conseguiu notar todas essas coisas, as ausências e as necessidades técnicas mais refinadas, o meu emocional se chocou com a história de forma geral. Em comparação à quantidade de produções realizadas mundialmente em um ano, é ainda muito escasso histórias que trazem o cotidiano de um adulto gay em seus conflitos sentimentais em relação a si e ao mundo. É nisso que o filme consegue ter algum acerto, claro que cada vivência é diferente e as experiências serão divergentes para cada pessoas, contudo, há algo que é universal em algum âmbito: a frustração. Eu o assisti 2 vezes e ainda demorei alguns dias matutando em como transmitir em palavras o que minha razão e minha emoção me fizeram pensar. Confesso que quando dei o primeiro play, estava em um dia péssimo, e isso colaborou ainda mais para uma aproximação com a história, eu tinha um desejo muito grande de me conectar e de gostar de tudo, mas, houve decepção com tudo que já citei. Não costumo escrever dessa forma, quase como um desabafo, mas foi frustrante para mim de forma pessoal que 13 Sentimentos não atingisse as expectativas desejadas. Meu anseio é que haja mais espaço para bons enredos e premissas como essa, só que melhor elaboradas. Eu ainda não sei se a forma correta seria dizer que "apesar dos defeitos, eu consegui gostar da história" ou se seria "apesar de gostar da história, não consegui ignorar os defeitos". Mas está tudo ali. Tem um início, tem um meio, e tem um fim (muito bonito, repito), e mesmo que tenha achado brega a explicação do título ali no final, não sei se sobrou 13 sentimentos em mim, mas pelo menos 1 eu senti. Nota: 2,5/5
- Crítica | In A Violent Nature
Um terror que oferece uma nova e refrescante abordagem ao gênero Foto: Divulgação Um dos gêneros cinematográficos mais rentáveis da indústria neste momento é o terror. Isso não se aplica apenas a filmes de grandes estúdios, mas também a produtores independentes que conseguem produzir filmes menores com pouco dinheiro, atraindo o público fiel do gênero. Isso geralmente acontece com filmes de qualidade duvidosa ou filmes que, mesmo com um pequeno orçamento comparado ao de grandes franquias, ainda conseguem trazer algo nunca antes visto. Felizmente, no caso de In A Violent Nature , o filme consegue impressionar qualquer espectador que esteja aberto a assisti-lo. O longa canadense mostra Johnny, uma criatura que aterroriza um grupo de adolescentes que acidentalmente o ressuscitaram. O protagonista segue com seus violentos e sangrentos ataques ao grupo com o objetivo de recuperar uma lembrança de seu passado. Não tenho dúvidas de que, se o filme de estreia na direção de Chris Nash chegar ao grande público, a maioria dos espectadores não passará dos primeiros vinte minutos. O longa usa sua lentidão para nos introduzir à história, até segura a feição do protagonista, mostrando-o apenas de costas, tendo grande parte do longa gravada em uma perspectiva de terceira pessoa, o que adiciona à estética única introduzida pelo diretor. Outra interessante escolha de Nash é não adicionar nenhum elemento sonoro não diegético, o que funciona muito bem para os espectadores, que conseguem se sentir dentro do universo criado. Foto: Divulgação Sem sombra de dúvidas, o ponto alto do filme são suas mortes. Existe uma combinação perfeita entre mortes clássicas e novas maneiras de assassinar personagens, chocando o espectador. Infelizmente, existem alguns problemas com algumas mortes em questão, como partes de corpos não convincentes, mas os visuais criados e os efeitos usados fazem qualquer pessoa esquecer os erros, deixando-nos apenas lembrar de seus incríveis visuais. Isso também serve para fazer a audiência relevar algumas falhas de roteiro e marcação, que poderiam ter sido facilmente consertadas antes da produção do longa. Chris Nash conseguiu fazer um longa que coloca seu nome no radar de todos os amantes do terror no cinema. Com uma história interessante e uma perspectiva nova ao gênero, o diretor faz uma ótima estreia. Não tenho dúvidas de que, se você se abrir para o filme, ele irá te impressionar. Nota: 4/5












