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- Crítica | Está Tudo Bem Comigo?
Longa traz história honesta e verdadeira sobre a autodescoberta como LGBTQIAP+ Foto: Divulgação Lançado na última semana na Max, o longa Está tudo bem comigo? era esperado por bastante tempo pelo público que acompanha festivais de cinema. Em 2022, ele foi aclamado por vários críticos no Festival de Sundance, mas demorou para conseguir distribuição. Agora, quase dois anos depois, acompanhamos a história de Lucy e Jane, duas melhores amigas que se conhecem durante a maior parte de suas vidas e acham que sabem tudo o que há para saber uma sobre a outra. Mas quando Jane anuncia que está se mudando para Londres, Lucy revela um segredo pessoal guardado há muito tempo: ela é lésbica. Enquanto Jane tenta ajudar Lucy a se descobrir como LGBTQIA+, a amizade das duas se transforma em caos. Protagonizado por Dakota Johnson e dirigido por Tig Notaro e Stephanie Allynne, o longa de 1h27 não tenta propor nada muito inovador em seu roteiro. Lucy é uma jovem adulta que não consegue se conectar com nenhum homem e sofre para se identificar como mulher lésbica para si mesma e para os outros. Esse momento doloroso da protagonista é bem representado por Dakota, que entrega uma atuação muito convincente e forte em muitos momentos, provando sua versatilidade como atriz em projetos mais alternativos. Diferente de Lucy, que se torna para os espectadores uma personagem muito identificável, sua amiga Jane já causou o oposto dos sentimentos em mim. Com decisões extremamente egoístas, Jane é uma personagem irritante em alguns momentos e inclusive atrapalha o desenvolvimento da protagonista. Devo dizer que me peguei pensando algumas vezes que o filme e a história de Lucy andariam melhor sem a presença de Jane em muitos momentos. Acredito que esse foi o ponto que mais me gerou incômodo enquanto assistia, mesmo com as duas atrizes possuindo bastante química em cena. Foto: Divulgação Está tudo bem comigo? embarca nessa dualidade de conflitos sobre ser quem você é e o medo que você sente ao assumir esses sentimentos. Misturando um pouco de humor ácido com essas reflexões mais humanas sobre ser uma mulher lésbica na atualidade, o filme trabalha muito bem essas questões, numa jornada de descoberta de uma jovem mulher de 32 anos que possui dificuldade em se abrir para o novo e que se sente nervosa e ansiosa a maior parte do tempo. O roteiro do longa leva em consideração esses sentimentos e nos traz uma protagonista que, acima de tudo, quer encontrar a felicidade. Neste mês do orgulho, relembramos sempre diversas obras protagonizadas por pessoas LGBTQIAP+. Muitas delas apelam para a violência, para mostrar as situações agressivas que a população está sujeita a enfrentar todos os dias. Já outras, seguem a vertente da comédia ou apelam para o drama para nos causar um impacto. Mas, existem obras como Está tudo bem comigo?, que busca tratar o assunto da forma mais cotidiana e autêntica possível, sendo uma história que deixa o coração mais quentinho do que nos fazer derramar lágrimas, por exemplo. É uma história de autodescoberta, de amizade e das reflexões que a experiência humana de viver nos causa todos os dias. Nota: 3,5/5
- Entrevista | Elenco e criador de ‘A Máquina do Destino’ contam detalhes da segunda temporada
O criador David West Read e parte do elenco da série de comédia da Apple TV+ conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação/ Apple TV+ Na última quarta-feira (24), sem muito alarde, a Apple TV+ estreou a nova temporada de uma de suas séries menos conhecidas e mais simpáticas. A Máquina do Destino (The Big Door Prize) – série de comédia baseada no livro de mesmo nome, este escrito por M.O. Walsh – teve os três primeiros episódios da segunda temporada divulgados no streaming, com os demais sendo liberados semanalmente, criando expectativas sobre os vários mistérios que permeiam a pequena cidade fictícia de Deerfield após a chegada de uma máquina que revela o potencial da vida de seus moradores. Porém, exclusivos que somos, nós do Oxente, Pipoca? já assistimos toda a temporada, que conta com um excelente amadurecimento da escrita, reencontrando e aprofundando o equilíbrio entre humor e sensibilidade dos episódios anteriores, e mostrando muito mais segurança em explorar seus deliciosos personagens. Além disso, tivemos o prazer de conversar com exclusividade com o criador e alguns atores para saber mais sobre os bastidores da série. Foto: Divulgação/ Apple TV+ Quando elogiamos o criador David West Read (também escritor e produtor da super aclamada Schitt’s Creek) pela habilidade de fazer ótimo humor sem apelar pro “politicamente incorreto” ou ofender nenhum grupo marginalizado, ele nos agradeceu e afirmou que, de fato, busca comédias de “grande coração”, onde conseguimos criar carinho por todos os personagens. “Numa série como essa parece ser especialmente importante passar empatia e compaixão porque é uma história sobre pessoas se conhecendo de uma forma mais profunda. Cidadãos de uma pequena cidade que fazem certas suposições porque eles acham que se conhecem – já que todo mundo conhece todo mundo em uma cidadezinha – e aí, por causa dessa máquina que faz grandes perguntas, as pessoas passam a revelar seus sonhos secretos, que leva a situações engraçadas, por estarem saindo de suas zonas de conforto, mas também leva a maior empatia e compaixão pois percebemos que todos temos paixões secretas, assim como medos e ansiedades, e é isso que une as pessoas”. A máquina, no entanto, é só um catalisador inicial para os personagens, que, ao longo de ambas as temporadas, são quem realmente ganham destaque ao longo dos episódios. “Nós queremos que a série seja sobre as pessoas e o que elas fazem como resultado da máquina, e não uma obsessão sobre o mistério da máquina em si. Então nós abordamos um pouco sobre esse mistério no começo de ambas as temporadas – e, nessa nova, tem um novo patamar que considero muito interessante visualmente – mas, em um certo ponto, não é sobre as mudanças da máquina que estamos preocupados, mas sim nas mudanças internas nas pessoas nessa cidade”, conta Read. Ainda nesse tópico, ele afirma que observa na narrativa uma “pequena crítica” sobre nossa relação com a tecnologia: como nossos aparelhos tecnológicos parecem saber mais sobre nós e nossos futuros que nós mesmos e como há uma tendência de depositar uma confiança quase acrítica sobre eles. Foto: Divulgação/ Apple TV+ Nessa nova fase, novos laços são formados, como é o caso da agora verdadeira amizade entre o protagonista Dusty (Chris O’Dowd) e o scene stealer Giorgio (Josh Segarra). Josh se declara fã e conhecedor dos trabalhos de O’Dowd, o que o trouxe uma grande admiração e forte respeito pelo colega, e acredita que isso pode ter impactado na aproximação dentro e fora das telas. Menos curiosos que seus personagens, os atores afirmam que nunca procuraram saber sobre seus futuros em cartomantes ou adivinhos. No entanto, O’Dowd revelou que, na universidade, usava uma técnica de leitura de mãos, ensinada por sua tia, para “impressionar garotas”. No entanto, conta ele, “tempos depois, ela me disse que inventou tudo”. Um dos diferenciais da série é trazer uma história rica diversidade entre os personagens, mas sem nunca abordar a raça como fator determinante de suas personalidades. Cass (Gabrielle Dennis) é uma mulher sonhadora, acolhedora e com problemas internos. O fato de ser negra não influencia em nada sua jornada. Da mesma forma, Hana (Ali Maki) vive seus dilemas como pessoa nova numa pequena comunidade, mas jamais é destaca por seus traços asiáticos. “Poder interpretar personagens que são completamente humanos, que não são apenas um arquétipo ou tem só um aspecto de personalidade, cheio de caixas os limitando. É tão libertador e maravilhoso! Acho que ser ator e ser criativo é sobre isso: ser capaz de explorar todo o espectro de emoções e humanidade” , diz Maki. Complementando, Dennis lembra que “diversidade é muito importante, óbvio. (...) Mas eu adoro que a premissa não é sobre a raça. Somos só seres humanos contando histórias humanas, e acho que isso eventualmente acabará ajudando a interseccionar as linhas delimitadas pela cor. Sim, tem diversidade na tela, visualmente, mas contando histórias sobre experiências humanas que todos nós deveríamos poder nos identificar.” E certamente nos identificamos. Prepare seu psicológico para grandes reflexões com a nova temporada de A Máquina do Destino, disponível na Apple TV+.
- Crítica | Planeta dos Macacos: O Reinado
Longa aborda início da estratificação social símia com muito dinamismo Foto: Divulgação Planeta dos Macacos: O Reinado inicia com um salto no tempo após retomar exatamente onde se encerrou Planeta dos Macacos: A Guerra (2017). Muitas sociedades de símios cresceram desde quando César levou seu povo a um oásis, enquanto os humanos foram reduzidos a sobreviver e se esconder nas sombras. Apesar de ter sido o responsável pela segurança da nova geração de primatas evoluídos, muitos não conhecem os feitos de César. E é neste novo cenário que um líder macaco começa a escravizar outros grupos para encontrar tecnologia humana, enquanto um jovem primata que viu seu clã ser capturado, embarca em uma viagem para encontrar a liberdade, sendo uma jovem humana a chave para todos. A brilhante trilogia mais recente da franquia iniciada em 2011 por Rupert Wyatt e finalizada em 2017 por Matt Reeves mostrou como o planeta humano aos poucos foi sendo dominado pelos macacos. Aqueles filmes tinham suas próprias questões e motivações dentro de um universo completamente diferente do que se conhecia pelo planeta dos macacos em questão. E apenas ao final do terceiro capítulo o espectador tem um vislumbre do que pode começar a parecer o clássico filme dos anos 60. Não é à toa que O Planeta dos Macacos de 1968 se tornou uma das ficções científicas mais cultuadas do cinema. Além de adaptar com esperteza o romance francês, inserindo ainda mais analogias sociais no subtexto, ele abriu um universo todo novo a ser explorado e desdobrado em incontáveis sequências, o que Hollywood ama. E a influente produção do grandioso Franklin J. Schaffner é o gabarito para a estrutura narrativa do novo filme. Foto: Divulgação A produção faz questão de deixar claro que é o início de uma nova saga, ainda que una passado e futuro (tanto para a nossa linha do tempo quanto para a linha do tempo da história, grandezas inversamente proporcionais), e com isso ele bem de várias referências diretas ao original. O início de três personagens desbravando, a perseguição e captura de humanos em meio a um campo de vegetação alta e a ambientação do terceiro ato são apenas os destaques mais claros do que roteiro e direção queriam pinçar do longa estrelado por Charlton Heston. De qualquer forma, dentro do razoável, o filme opera bem de forma independente para quem está chegando agora. O foco do texto aqui é o como o personagem César se tornou uma figura messiânica para os símios. E como todo profeta que se preze tem suas palavras de harmonia e compaixão distorcidas para virar motivos para matar. Já se tem uma estrutura social bem mais complexa do que se havia visto, e esse novo status quo interfere diretamente na dinâmica de como o filme se apresenta. O diretor Wes Ball procura nunca evidenciar de forma banal essa hierarquia, ele deixa que o espectador descubra devagar, quase que como explorando, as causas e as consequências de cada camada e de cada personagem. Quanto aos quesitos técnicos visuais é realmente surpreendente como conseguiu-se avançar ainda mais na renderização, na textura e nos aspectos digitais que são o alicerce da produção. É até bem reconfortante haja visto que nos últimos anos os blockbusters tenham entregados resultados cada vez mais cansados e sem personalidade. A fotografia também contribui com o excelente desempenho plástico e consegue desenhar com nitidez e saturação equilibrada até os momentos mais escuros. Destaque também para os jogos de câmera que se divertem usando e testando movimentos e ângulos que parecem nunca ter sido utilizados nos filmes anteriores. Toda a saga dos Planetas dos Macacos evoca a dialética da conflituosa relação humana com a natureza e como as pessoas lidam com as consequências desse embate, e esse não é diferente. E honestamente enquanto a mensagem for necessária e o meio souber como tratar o assunto – sem se repetir e respeitando o tempo de amadurecimento de uma produção carregada de traços digitais – que venham mais analogias sociais através dos primatas. Nota: 4/5
- Crítica | Back To Black
Cinebiografia não consegue definir seu objetivo e resultado é inexpressivo Foto: Divulgação O filme mostra desde o início da carreira de Amy Winehouse em Camden até os seus últimos dias e tenta resumir os altos e baixos (muito mais os baixos) da rápida e marcante passagem da cantora pela música. Sempre abro meus textos com sinopses ou resumos, oficiais ou não, para evitar ao máximo entregar mais informações do que o necessário. E confesso que foi uma batalha conseguir juntar as palavras do parágrafo anterior, porque Back to Black não é uma homenagem, não celebra nada e pode ser uma péssima primeira impressão para toda uma nova geração que pode ter o primeiro contato com a artista através desse longa. Back to Black é o nome do segundo álbum de estúdio de Winehouse e um dos mais cultuados discos das últimas décadas. Porém, apesar do filme ter o mesmo título, o foco não é o trabalho da cantora, e sim o relacionamento pra lá de tóxico com Blake Fielder-Civil que serviu de motivação para o álbum. Como sempre falo, recorte é fundamental para uma boa cinebiografia, saber exatamente o que quer mostrar facilita o compilado da vida de uma pessoa em alguns minutos. Mas mesmo com suas delimitações bem marcadas, o longa não decide se quer criticar, elogiar, questionar ou mesmo apresentar Amy Winehouse. Foto: Divulgação Uma produção que escolhe gastar a maior parte de seu precioso tempo listando os problemas de uma das maiores e mais influentes cantoras da história da música em vez de exaltar seus êxitos e conquistas se mostra apelativa, preguiçosa e sem interesse em construir uma imagem diferente daquela do senso comum. O roteiro não consegue ir além daquilo que os tabloides mostravam nas crises da inglesa e ainda assim usa várias frases de efeitos e músicas conhecidas para tentar dar sentimento e sentido ao que está apresentando. A atuação mimética de Marisa Abela convence mais quando ela se esforça menos para parecer Amy, o mesmo problema apresentado por Kingsley Ben-Adir em Bob Marley: One Love, também desse ano. A direção de Sam Taylor-Johnson parece ter fetiche em reproduzir milimetricamente performances famosas da cantora no palco e gasta uma energia desnecessária que poderia ser revertida em momentos mais intimistas que dariam mais textura a atuação. De qualquer forma, Marisa canta bem e como cover tem um bom resultado. O visual não é marcante, o texto não impressiona e o conjunto é completamente esquecível. É um filme que não se procura em se expressar de forma criativa e nem se arrisca a ponto de cometer grande erros, é tudo morno, sem embasamento e que em nada faz jus a genialidade, a personalidade e ao talento de Amy Winehouse. Nota: 2,5/5
- Crítica | A Filha do Palhaço
A arte irônica do cômico e do trágico Foto: Divulgação/ Embaúba Filmes Imagine que você tenha que conviver por um tempo com um familiar com quem você não tenha proximidade, intimidade, e que não se sinta tão à vontade próximo. Seria estranho, não é? Porém, imagine também que você precise desse momento de aproximação para esclarecer alguns pontos e questões da vida e entre os dois. Parece menos assustador, certo? Bem, é assim que temos A Filha do Palhaço. A adolescente Joana (Lis Sutter), decide passar um tempo na casa de seu pai, Renato (Demick Lopes). Os dois nunca tiveram um relacionamento de pai e filha normal, ela, que morava com a mãe, só tinha a rápida presença dele nos natais, então é aparente a mágoa que há naquele contato inicial. Uma raiva contida da filha e, ao mesmo tempo, uma curiosidade e necessidade de conhecer aquele homem a quem chamava de pai. O desenvolvimento da trama acontece em volta dessa convivência, e a partir dela vai moldando a história dos dois e, principalmente, as questões pessoais do pai. Enquanto nos apresenta aquela dança de sentimentos e ressentimentos entre os dois, também somos apresentados à solidão de Renato, um “ex-ator” que agora vive profissionalmente de apresentações de comédia com sua personagem, Silvanelly. Demick Lopes é, inquestionavelmente, o maior destaque do elenco. A entrega de todas as emoções de seu personagem, faz com que o público as sinta e as compreenda. A dor de sua perda, seus conflitos, sua solidão. Demick transmite com tanta veracidade, que não há como não se conectar ao seu Renato, e isso faz com que em muitos momentos fique difícil não reparar na ausência de sentimentos de sua colega de cena. A direção guia tudo com a maestria necessária para trazer o equilíbrio que a trama pede. Renato traz tantas questões e problemas guardados em si, que esse dueto entre a atuação de Demick e a direção de Pedro alavanca a obra a outro patamar. Você consegue sentir o que o personagem sente, e a graça irônica de como alguém que trabalha com comédia possa ter uma carga dramática tão volumosa é o que dá o toque à história. Apesar de estar no palco rindo e fazendo os outros rirem enquanto Silvanelly, Renato traz em si uma solidão palpável, e no olhar de ser intérprete fica nítida toda a guerra que há dentro de si, o que torna fácil a conexão com quem assiste. Ele mergulha em sua necessidade em trabalhar no palco, mas por trás, é aquela famosa frase clássica que impera; “ninguém sabe como tá a mente do palhaço”. Foto: Divulgação/ Embaúba Filmes Pedro Diógenes rege o filme com a mão necessária, coloca todos os sentimentos em seu local devido e não se prende a exageros para evocar a emoção de seu drama. O roteiro, assinado por Diógenes e Amanda Pontes, começa e encerra no ponto certeiro, deixando a sensação de satisfação com a história. Nas questões técnicas o longa também não deixa a desejar, o uso da fotografia é bastante bem aproveitado, principalmente nas cenas em que Demick é o foco. A trilha acompanha bem a trama e o drama, e o encaixe fica bem equilibrado. A participação de Jesuíta Barbosa agrega, mesmo que seu personagem tenha pouco tempo em tela, sua atuação deixa uma marca. Falando agora como um cearense orgulhoso de sua, é difícil não lembrar do queridíssimo Paulo Diógenes e sua eterna Raimundinha durante o filme. Outro detalhe muito bacana é poder reconhecer vários dos locais por onde o longa passa, e isso trouxe a mim uma sensação maior de proximidade e conexão com a história. Um sentimento de que o cinema pode (e deve) estar em todos os lugares. É gratificante ver e saber que o cinema cearense continua trazendo obras tão boas assim, e torço para que haja ainda mais oportunidades para contar histórias da nossa gente na nossa terra. Nota: 4/5
- Crítica | DOM (3ª temporada)
Temporada final encerra série de forma objetiva Foto: Divulgação/ Amazon Studios Pedro Machado Lomba Neto/Pedro Dom/Bandido Gato (1981-2005). Quando em junho de 2021 a série estreou, o final do protagonista já era definido, por mais que o destino do seriado ainda não estivesse previsto naquela época. Inspirado na história de um dos criminosos cariocas mais conhecidos no início dos anos 2000, a produção do Prime Vídeo se montou em três temporadas, e em 2024 chega ao fim. Criada por Breno Silveira (1964-2022), Dom constrói sua trama em volta da vida de Pedro Dom e seus familiares, amigos e parceiros. Após uma estreia marcante e um segundo ano morno, o encerramento veio em uma temporada mais enxuta e objetiva. Sempre fico absurdamente satisfeito e extasiado com o nível de produção dessa série, em que suas três temporadas, teve a parte técnica como a mais elevada. É notória a qualidade e o cuidado que tiveram em tudo que a envolvesse. Com a somatória de som, fotografia e direção de arte, ela se monta num pedestal de grande grandeza que é um verdadeiro primor. Confesso que aquela lente do protagonista me causa incômodo desde o primeiro momento de sua aparição, mas acaba se tornando um mero detalhe com o decorrer do tempo, pois, a série se prova de maneira categórica e mostra o seu lugar de pertencimento no audiovisual. Aproveitando a deixa, seria impossível escrever qualquer coisa sobre essa criação de Silveira sem citar o maravilhoso Gabriel Leone. Enquanto na estreia seu personagem estava um momento de maior deslumbramento e no segundo ano em um estágio mais contigo, nesse encerramento ele veio com um tom de aceitação. Leone é de uma espetacularidade tão ímpar, que sua interpretação de um protagonista desvirtuado causa um certo hipnotismo em que você acaba se apegando a ele. É uma entrega que já vinha sendo feita de forma incrível desde 2021, e que neste final fechou o ciclo com chave de ouro. Gabriel Leone mostra mais uma vez que é um dos melhores atores não apenas de sua geração, mas incluindo também todos os que ainda estão em atividade atualmente. Foto: Divulgação/ Amazon Studios Desde a segunda temporada a série já indicava como se daria o fim de Pedro Dom, rememorando algumas vezes aquela cena do túnel e da granada e dando um vislumbre do que estava por vir. Retornando com cinco episódios, a produção já deixava claro que não haveria pormenores desnecessários, mas ainda deixando alguns. Ao contrário da primeira temporada, em que éramos apresentados às histórias dos personagens e Victor tinha seu passado ali contado, mas que fazia sentido estar na trama, nesse encerramento a maioria de suas cenas parecem deslocadas, mesmo que tenham permanecido na temática dos anos anteriores. Apesar de haver alguns momentos de viagem ao passado que se conectam ao protagonista, de forma geral, Victor é um personagem que não tem a necessidade de estar sempre em tela para que a trama discorra. Fora isso, há uma objetividade explícita no roteiro em querer finalizar a história de Pedro Dom sem arrodeio. A direção também não deixa a desejar, trazendo mais cenas de ações bem guiadas e eletrizantes, e tendo o domínio do equilíbrio com os momentos de drama. O ápice do trabalho está no episódio final com a sequência de Dom no túnel seguida pelas reações de seus familiares ante aquela notícia. Há uma sensibilidade logo após o estardalhaço tão bem orquestrada que evoca a emoção de quem está assistindo. Além, é claro, da parte sonora, uma trilha que se ergue com o drama que a cena pede e a torna um dos melhores encerramentos de uma série. Por fim, Dom foi uma série que soube como começar, como contar a sua história e como encerrar no momento oportuno. Uma produção deslumbrante que pede e merece aclamação, e deixa o desejo por mais produtos com a mesma qualidade técnica e histórias que empolguem. Nota: 4/5
- Entrevista | Diretor e atriz de “Amarela” falam do lançamento do curta-metragem no Festival de Cannes
André Hayato Saito e Melissa Uehara conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação O Festival de Cannes nunca esteve tão brasileiro. São seis filmes nacionais concorrendo na 77ª edição do festival, dentre os quais Amarela, curta-metragem dirigido por André Hayato Saito que concorre à Palma de Ouro. Ambientado em São Paulo durante a final da Copa do Mundo de 1998, a obra acompanha Erika Oguihara (Melissa Uehara), de 14 anos, uma adolescente nipo-brasileira que rejeita as tradições de sua família japonesa e que está ansiosa para comemorar um título mundial pelo seu país. Em meio a tensão que progride durante a partida, Erika sofre com uma violência que parece invisível e adentra em um mar doloroso de sentimentos. Em entrevista exclusiva concedida ao Oxente, Pipoca?, André Hayato e Melissa Uehara partilharam das suas experiências como pessoas nipo-brasileiras no audiovisual nacional, da importância de Amarela neste cenário e o impacto do filme estar concorrendo em Cannes. Curiosamente, ambos se encontram em extremos opostos da experiência com o audiovisual: André já dirige filmes desde 2003, quando fazia faculdade, enquanto Melissa – que chegou a fazer parte do The Voice Kids em 2020 – faz sua estreia nas telas com Amarela. De acordo com Melissa, a proposta de Amarela dialoga com muitas situações que viveu enquanto nipo-brasileira. “Você cresce se sentindo diferente da maioria das pessoas que conhece, já que o raro seria ser asiático aqui no país. Eu era a única amiga asiática na escola, assistia televisão e nunca me identificava realmente com alguém”. A atriz destaca que um dos momentos em que se sente mais confortável é ao cantar, o que fazia com recorrência em colônias japonesas de que participou com a família. Porém, a participação em festivais como o The Voice Kids pouco dialogava com sua própria cultura, de modo que participar de Amarela representou um divisor de águas em sua vida. “Eu participei do curta por indicação de uma amiga em comum que tenho com o André e na primeira vez que li o roteiro – ainda nem era o roteiro oficial – me identifiquei demais com a história, me tocou muito, porque para quem é nipo-brasileiro sabe que é assim. E acho que isso foi um dos motivos que me fez tentar esse projeto, já que nunca tinha feito nada relacionado com audiovisual antes, eu nunca tinha atuado em nada”, diz ela. Foto: Divulgação Já para André, Amarela representa a culminação de uma série de obras que levam as experiências nipo-brasileiras para o audiovisual. Trata-se de uma trilogia composta também por outros dois curtas-metragens: Kokoro to Kokoro e Vento Dourado. O primeiro aborda os laços de amizade entre sua avó paterna e sua melhor amiga japonesa; enquanto o segundo tem como personagem principal sua avó materna, Haruko Hirata, que aos 94 anos se encontra no limiar do existir e convive com a filha Sumiko, sua cuidadora há 18 anos. Ambos os curtas, assim como Amarela, nasceram de inquietações do diretor com o seu lugar enquanto descendente de japoneses no Brasil e da relação com a sua ancestralidade. “Eu acho que a gente, como asiático no Brasil, carrega alguns estereótipos que são muito enraizados, que foram muitos espalhados e que a gente carregou por muito tempo em silêncio. Por isso que a sinopse [de Amarela] fala de uma de uma ‘dor silenciosa’. Dentro do cinema somos minoria, obviamente, e nos últimos anos que eu obtive mais consciência a respeito da minha raça, da minha identidade, de estar num set de filmagem e ter um olhar mais crítico sobre como nós somos representados”, diz André, que destaca o feito de ter uma equipe predominantemente amarela na produção do curta. No que se refere a escolha por situar a obra na Copa do Mundo de 1998, o diretor destaca os sentimentos nacionalistas que envolvem a competição e faz uma provocação sobre o quanto esse “nacionalismo” pode também ser excludente: “Esse lugar da identidade nacional e cultural é algo no qual a gente se encontra bastante, mas é um patriotismo meio estranho, meio efêmero. Tá todo mundo igual e com a camiseta verde e amarela e tá todo mundo torcendo pelo país, e todos são ‘brasileiros’. Mas era comum ouvir perguntas do tipo: ‘você vai torcer pro Brasil ou pro Japão?’, porque a gente é afirmado como o ‘japonês’, o ‘chinês’ ou outros termos pejorativos”. André chega a afirmar que por um tempo odiava ser considerado japonês e queria ser visto apenas como brasileiro, recorrendo então ao futebol como um instrumento de pertencimento. “Então eu senti que esse lugar poderia ser um plano de fundo para as dores que essa personagem sente, dores que as pessoas acham que tem a ver com o jogo ou a Copa em si. Mas na verdade tem muito mais camadas de dores ali silenciadas, que ninguém enxerga, então eu acho que teve essa coisa biográfica”, afirma ele. Foto: Divulgação Quanto à presença de Amarela em Cannes, André e Melissa mal escondem a empolgação e o orgulho pelo filme estar selecionado para concorrer no festival de cinema mais importante do mundo. “A ficha ainda não caiu que estou indo para Cannes me ver, eu ainda não vi o curta completo, mas estou morrendo de ansiedade pela experiência. O meu primeiro papel da vida ser protagonista de um curta que transmite uma mensagem tão importante e que agora também vai ser apresentado em Cannes, para milhares de pessoas, é uma honra enorme, um sonho”, diz a atriz. Já André destaca as diversas demandas do festival que precisa atender – como trailer, release, press kit, a inserção de legendas em inglês e francês para a exibição, dentre outras –, mas revela sua animação para esse momento tão importante. “Não consigo nem acreditar nessa frase: ‘estamos concorrendo à Palma de Ouro’. E é muito legal se ver representado, levar essa diversidade não só para as telas, mas também na equipe [de produção]. A gente tá falando do lugar de fala específico dos asiáticos brasileiros, mas também é a oportunidade de ampliar os horizontes e empatizar com outras realidades, contextos, culturas e raças, e assim ir quebrando a cultura branca dominante na contação de histórias”, declara o diretor. E o que virá depois de Cannes? André planeja seu primeiro longa-metragem, Crisântemo Amarelo, o qual será uma expansão da narrativa e das temáticas apresentadas em Amarela. A expectativa é de que ele e sua equipe obtenham os fundos necessários a tempo de contar com Melissa em idade hábil para reinterpretar sua personagem do curta. Fica aqui a nossa expectativa e torcida para que a projeção em Cannes assegure novas oportunidades para André, Melissa e outros profissionais nipo-brasileiros que atuam no nosso audiovisual e merecem contar suas próprias histórias.
- Crítica | X-men '97 (temporada 1)
A melhor produção da Marvel em anos é um melodrama político e emocionante que honra a equipe Foto: Divulgação Dado o histórico recente do estúdio, fui conferir X-Men ‘97 com os dois pés atrás. Dos super-heróis, eles sempre foram meus favoritos, então posso dizer que estava receoso com o que assistiria. Já no primeiro episódio meus medos caíram por terra e dava para notar que Beau DeMayo, o showrunner, e sua equipe talentosa sabiam o que estavam fazendo. Continuando a clássica série animada, que foi ao ar de 1992 a 1997, porém construindo uma independência, mesmo com toda a nostalgia presente. Os X-Men ainda estão tentando se reestruturar depois de perder o Professor X, Scott assume a liderança, mas uma grávida Jean Grey tem dúvidas sobre o seu futuro na equipe e a segurança do seu filho sendo um mutante em uma sociedade que não os aceita. Tudo fica mais abalado com a chegada de Magneto à mansão, informando que o desejo de Charles Xavier era de que ele fosse o novo líder, enquanto a raça humana está cada vez mais intolerante. É apenas o ponto de partida de uma série que aborda diversos conflitos dramáticos, políticos e respeita a essência das histórias em que são baseadas e dos personagens. Não há como se falar nos X-Men e não citar o preconceito contra minorias. É uma metáfora há tempos usada nas mais diversas mídias em que os mutantes foram retratados e mesmo sendo mostrado de modo bastante expositivo, ainda parece ser impossível para alguns entenderem. Enquanto o Professor X era pacífico até demais, Magneto sabe muito bem o que precisa ser imposto e tem consciência de que a maioria da raça humana despreza os mutantes, não importando quantas vezes os X-Men já salvaram o mundo. O drama se complementa com ação em sequências belíssimas, onde há um impacto real ali e o visual é, de fato, deslumbrante. O traço do desenho é muito bonito, embora a movimentação seja um pouco lenta, provavelmente com o intuito de remeter às animações dos anos 90, época em que a trama se passa. Foto: Divulgação A forma como o arco central da temporada vai sendo construído é surpreendente e muito bem escrita. Reviravoltas não faltam, sejam das mais folhetinescas, como romances secretos que levam a triângulos amorosos ou sacrifícios emocionantes. Além dos personagens já citados, o foco se divide, a princípio, entre Vampira, Gambit, Tempestade, Jubileu, Fera, Morfo e Wolverine. Cada um tem seu momento de brilhar, e diferente dos filmes, Logan não é o protagonista isolado. Este é um dos maiores trunfos da produção, porque com uma gama de personagens incríveis, é um desperdício deixar que apenas um tenha um desenvolvimento apropriado. Todos têm seu momento de brilhar e o formato episódio ajuda que a cada semana o foco mude de um para outro, o que garante mais nuances e camadas a eles e faz com que intensifique nossa reação quando alguma tragédia acontece, por exemplo. É uma estrutura funcional, mesmo que o quarto episódio seja o mais fraco da temporada por ter Jubileu – carismática, mas de longe a menos interessante – no centro da trama, ele ainda é um alívio necessário para o que viria a seguir. É fantástico e ao mesmo tempo doloroso, principalmente no espetacular quinto episódio, chamado “Remember It”, e como o nome já diz, é um daqueles difíceis de esquecer. Os eventos dele vão reverberar até o último episódio e desconfio que pelo resto da série. Falando nele, o fantástico último episódio reúne tudo que fez a temporada ser tão excepcional. Emoção, lutas incríveis, reviravoltas, desenvolvimentos de personagens, a parceria dos X-Men e uma pitada de cafonice que faz parte do charme e o gancho deixado para o que vem a seguir me anima bastante. Foi um acerto enorme do Disney+ que a exibição fosse semanal. A cada episódio podíamos discutir os acontecimentos e ansiar pelo seguinte, enriquecendo ainda mais a experiência. É difícil falar sem spoilers, mas o sentimento de que os X-Men são uma família, com conflitos internos e externos, dramáticos e políticos é o coração da série, mas sem deixar a ação de lado, afinal estamos falando de super-heróis, que mesmo com poderes e um gene diferenciado, ainda são extremamente humanos, quer a sociedade aceite ou não. Esta é a verdadeira essência da equipe e fico muito feliz como a animação conseguiu honrar esta dinâmica, e mesmo que de forma didática, abordou temas maduros como casamento, luto, religião e intolerância. O que vimos em tela é realmente bonito, seja em conversas mais íntimas ou nas sequências de batalhas mais viscerais, onde os poderes são usados exalando criatividade e que me fizeram duvidar que um filme live action faça jus. Eu sei que eu quero mais do que vi aqui, porque agora com a confiança restaurada, só posso esperar o melhor. Nota: 5/5
- Crítica | A Hora Da Estrela
Relançado nos cinemas, filme seminal de Suzana Amaral emprega um olhar irônico e melancólico ao clássico de Clarice Lispector Foto: Vitrine Filmes “Me diga uma coisa: você é feliz?”, pergunta Glória (Tamara Taxman) em determinado momento a Macabéa (Marcélia Cartaxo), a protagonista de A Hora da Estrela. Ao que esta responde apenas: “feliz serve pra quê?”. Essa simples troca de diálogos resume muito da essência do filme, que adapta o último romance lançado por Clarice Lispector em vida. Relançado nos cinemas em uma versão remasterizada pela Sessão Vitrine Petrobrás, o longa de estreia de Suzana Amaral é talvez um dos grandes clássicos do nosso audiovisual, conquistando diversos prêmios, inclusive o Urso de Prata de Melhor Atriz para Marcélia no Festival de Berlim em 1986. Longe de apresentar um fio narrativo sólido, A Hora da Estrela segue as desventuras de Macabéa, uma jovem e ingênua alagoana de 19 anos que se muda para o Rio de Janeiro após a morte da tia que a criava. Enquanto trabalha como datilógrafa e alimenta sonhos de ser artista um dia — mesmo sendo desprezada pela sua origem nordestina, sua aparência e seu semianalfabetíssimo —, ela se envolve com Olímpico de Jesus, também nordestino como ela, mas a relação não demora a apresentar suas fraturas. O olhar feminino de Suzana Amaral para conduzir essa história é fortemente carregado de uma ironia nas escolhas estéticas e formais que nos guiam através da jornada de Macabéa, seja nos diálogos curtos e ácidos, no humor seco e nas quebras de expectativa (a cena da personagem “flertando” com o guarda da estação de metrô é excelente nesse sentido). Mas essa ironia não esconde — e não me parece querer esconder — a profunda melancolia que cerca essa personagem. Na verdade, é justamente por ir por um caminho mais “cômico” (entre aspas pois o filme passa longe de ser uma comédia) que Suzana denuncia ainda mais gravemente as opressões que afligem nossa protagonista. Foto: Vitrine Filmes Assim, há algo de mordaz e também de doloroso em ver o quanto Macabéa sofre e o quanto parece muitas vezes alheia a esse sofrimento, em especial aqueles causados pelas pessoas próximas a ela, como Glória e Olímpico. Mas é um grande mérito da direção de Suzana e da atuação de Marcélia que a personagem nunca é relegada a uma posição de “coitadismo”. Pelo contrário, há uma vida pulsante nela, o desejo de crescer, de experienciar o que desejada. É fácil ver porque Marcélia foi contemplada com o urso de Prata logo em seu papel de estreia: ela confere diversas nuances a Macabéa, dotando-a de uma agenda própria (em especial em relação à sua sexualidade, a despeito da opressão que lhe é imposta por ainda ser virgem) e também de contradições e falhas — como na cena em que se recusa a ser chamada de baiana por Glória, por achar que “todo baiano é macumbeiro”. É justamente por ser tão perceptível em Macabéa sua autonomia e vivacidade, em contraste com uma postura conformista e passiva em diversos momentos, que o final dela é ainda mais trágico — mesmo que, novamente, seja carregado da mais fina ironia, dada as predições feitas pela cartomante Carlota (Fernanda Montenegro numa curta, mas marcante aparição). Apesar de alguns leves tropeços na direção da cena final em si, toda a sequência climática do filme captura perfeitamente a maneira como ele trilha um caminho que é até meio cínico, mas possui profunda empatia pela sua protagonista, que se constitui como uma das melhores criações do nosso cinema. De quebra, ainda nos permitiu vislumbrar pela primeira vez o imenso talento de Marcélia Cartaxo, que segue sendo uma das melhores atrizes brasileiras vivas. Nota: 4/5
- Crítica | Furiosa: Uma Saga Mad Max
Prelúdio foca no desenvolvimento dos personagens e deixa o frenesi em segundo plano Foto: Divulgação À medida que o mundo começa a desabar, a jovem Furiosa (Anya Taylor-Joy) é arrancada do Lugar Verde das Muitas Mães e entregue às mãos de uma grande horda de motociclistas liderada pelo senhor da guerra Dementus (Chris Hemsworth). Varrendo o deserto, eles encontram a cidadela presidida por Immortan Joe (Lachy Hulme). Os dois tiranos travam uma guerra pelo domínio, e Furiosa deve sobreviver a muitas provações enquanto reúne os meios para encontrar o caminho de casa. O cineasta australiano George Miller é a mente responsável por moldar o cinema de ação pós-apocalíptico como se conhece. Do final dos anos 70 até hoje, entre erros e acertos, ele conseguiu criar o equilíbrio entre fantasia e real que constitui o DNA de Mad Max e que foi reproduzido e adaptado por inúmeras outras franquias. Em seu último filme no universo, Mad Max: Estrada da Fúria (2015), Miller entregou o filme definitivo do gênero e provou que a demora para retomar fez muito bem ao conteúdo e à técnica. Dessa vez o diretor parece estar mais confortável para explorar as nuances dos novos cenários e personagens, fazendo parecer, de fato, um filme da saga Mad Max em vez de um filme Mad Max. Furiosa é um filme de certo modo silencioso, não apenas pelas poucas falas da protagonista, mas também pela falta dos excessivos barulhos metálicos e roncos de motores que são marcas registradas Mad Max. O primeiro ato todo valoriza bem a falta de ruídos e diálogos com um design de som limpo e bem desenhado. E esse tom mais retraído e comedido – bastante presente na abertura e encerramento – contrasta bem com o desenvolvimento do filme, onde ele apresenta um ritmo mais frenético a sequências coreografadas de forma impecável. E isso prejudica a cadência dos momentos, dando a impressão de que a introdução e a conclusão são mais demoradas do que deveriam. Foto: Divulgação Mas os barulhos metálicos e roncos de motores continuam existindo e colaborando para a criação de cenas de visuais deslumbrantes. Na verdade, toda o caprichado trabalho artesanal da direção de arte segue um primor, ajudando a transmitir veracidade e solidificar as escolhas da cenografia. Os efeitos visuais digitais, no entanto, variam na qualidade das renderizações e algumas vezes em vez de auxiliar acaba sendo um ruído. Quanto à fotografia, Simon Duggan tenta seguir o marcante trabalho de John Seale e acerta ao explorar cores e saturação ainda não testados, mas a iluminação por vezes entrega uma artificialidade discrepante entre as cenas externas e as cenas de estúdio. Anya Taylor-Joy é uma protagonista segura e que mostra não depender das palavras para se expressar e dominar as situações. Chris Hemsworth equilibra o tom vilanesco entre o humor e o esquisito e ostenta um coadjuvante com traços de personagem principal. Quem merece destaque também é talentoso Tom Burke que mesmo com uma rápida participação consegue marcar alguns dos melhores pontos da produção. Mesmo não tendo um resultado tão redondo quanto o anterior, Furiosa é um longa que se impõe não apenas pela grandeza, mas pela seriedade e pelo respeito em seu próprio conteúdo que desenvolveu ao longo dos anos culminando em sua produção, da mesma forma que segue experimentando, acertando e errando, mas nunca se repetindo. Nota: 4/5
- Crítica | The Return Of The Projectionist
De fato, a arte existe porque a vida não basta Foto: Divulgação Pode haver uma diferença de idade de 50 anos entre Samid e Ayaz, mas eles compartilham uma paixão pelo cinema. Ambos estão repletos de ideias para revitalizar o cinema na sua aldeia situada nas colinas do Azerbaijão. Assim que o tão esperado Santo Graal – uma lâmpada de projetor – chegar depois de muitos meses, o cinema estará lotado de moradores locais... Mas será que a mágica funcionará? O contraste de gerações, a paixão pelo cinema e a saudade do passado imortalizaram foram imortalizados pelo clássico italiano Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore. Tanto que, se você assistiu à produção dos anos 80, eventualmente a memória o trará à tona durante os ligeiros minutos do documentário. Mesmo sem a emotiva trilha sonora do eterno Ennio Morricone, e pintado em meio às belas paisagens naturais do Azerbaijão em vez da Itália, o filme do diretor Orkhan Aghazadeh é carregado de significado e transparente em relação a eles. Não há floreios, alegorias ou figuras de linguagem para incrementar o roteiro, e nem precisa. As motivações dos personagens são transmitidas com uma honestidade quase inocente que não dá para não sentir junto com eles todo o leque de sensações vividas em cena. Entre os temas discutidos em conversas agradáveis e simples o uso da tecnologia é um dos que se destacam. A réplica ao velho discurso hipócrita imperialista de que essas ferramentas facilitariam a vida de “todos” nunca irá acabar ou envelhecer, afinal, já em 2022 (ano em que o filme se passa), por mais que o mundo esteja inserido e dependente de recursos eletrônicos e digitais para existir de algumas formas eles atuam mais como obstáculos do que como catalisadores. Abri com a frase do eterno Ferreira Gullar porque ela sintetiza muito bem a importância da arte como instrumento de preenchimento de espaços e vazios incompreendidos – e às vezes conhecidos mesmo. Filmes que para nós, que provavelmente leremos esse texto de alguma plataforma que está ao nosso alcance sempre que precisarmos, pode ser um mero passatempo entre inúmeros outros que temos, para outros é um propósito de vida. E não falo de propósitos de cineastas ricaços que querem se provar melhores e maiores com o passar do tempo ou de atores sedentos por prêmios e fama, são propósitos de sobrevivência, de prazer em ver os outros felizes, de ter pelo que acordar no dia seguinte. Nota: 4/5
- Crítica | Plano 75
Uma premissa tão absurda quanto real é tratada sob uma ótica sensível, mas limitada Foto: Divulgação Há lugar para o envelhecimento no nosso mundo contemporâneo? Basta ver comentários no Twitter que tratam a chegada dos 30 anos como o fim de nossas vidas (como se vivêssemos na Idade Média) para ver que o ato de envelhecer é quase imperdoável, desembocando em um etarismo explícito. Considere então o cenário do Japão, que possui a população que envelhece mais rápido no mundo, o que obviamente se traduz em gastos previdenciários. É nesse cenário que Plano 75, de Chie Hayakawa, se desenrola, nos apresentando um futuro (ou presente) distópico onde o governo japonês impõe o plano do título, o qual dá a opção de todos os idosos com 75 anos ou mais escolherem como morrer. O filme segue três histórias distintas que se entrecruzam. Temos Mishi Kakutani (Chieko Baisho), uma funcionária de um hotel que está chegando aos seus 80 anos e tenta a todo custo prosseguir com sua vida, mesmo com o peso da idade e as dificuldades de viver numa sociedade cada vez mais etarista. Já Himoru Okabe (Hayato Isomura) é um orgulhoso funcionário do Plano 75, mas que se vê assombrado pelo retorno de uma figura do seu passado que deseja receber os benefícios do plano para morrer. E Maria (Stefanie Arianne) é uma imigrante filipina que deseja ter as melhores condições para custear uma delicada cirurgia para sua filha, e que por isso passa a trabalhar num dos crematórios vinculados ao plano. O que mais chama a atenção em Plano 75 é a sutileza e sensibilidade com a qual o filme trata essa temática, e nisso residem suas forças — mas também suas fraquezas. Ao apostar no drama dos personagens e em uma estética naturalista, Hayakawa torna esse cenário tão absurdo e eugenista muito mais real do que poderíamos imaginar, o tipo de coisa que facilmente se veria no capitalismo pós-moderno que desumaniza cada vez mais os indivíduos. O roteiro, co-escrito por Hayakawa e Jason Gray, evita verborragias didáticas para pintar muito sutilmente este universo, em especial no bloco de Kakutani, onde vemos diversas situações em que essa personagem sofre na pele as marcas do etarismo até que ela se veja tão sufocada que não lhe resta alternativa exceto recorrer ao plano. Foto: Divulgação É esse bloco, aliás, o grande destaque do filme, muito por causa da atuação contida, mas singela, de Baisho, que reflete a dignidade, a dor, as alegrias e tristezas que permeiam sua personagem. Há um latente senso de sobrevivência que a instiga a continuar lutando, mesmo que não haja mais espaço para uma pessoa da sua idade naquela sociedade, e por isso nos pegamos torcendo para que ela não escolha morrer. Em especial, a introdução de uma atendente do plano (Yuumi Kawai) cujo papel é “confortar” Kakutani e garantir que ela siga o processo sem desistir de morrer amplia ainda mais os dilemas éticos sugeridos pelo filme — com direito a uma rápida, mas impactante, quebra da quarta parede que nos provoca enquanto espectadores em relação a esse dilema. Infelizmente, a força desse bloco não é encontrada nos outros dois, mesmo que estes possuam suas próprias agendas. Há até um drama sincero no arco de Okabe, mas o de Maria é o mais deslocado e mal-trabalhado dos três. Embora eles tenham seu papel de ampliar os olhares a respeito do universo em que o filme se situa (uma das melhores cenas é aquela em que Okabe descobre o que é feito às cinzas dos idosos cremados), o longa não consegue sustentá-los com a mesma elegância e fluidez do que vemos no bloco de Kakutani. Assim, fica a percepção de que Plano 75 só consegue aproveitar a riqueza da sua premissa até certo ponto, justamente porque escolhe se ancorar em seus personagens — e em apenas um deles temos uma potencialidade dramática que nos permite navegar nesse ambiente tão moralmente complexo e perturbador. Mas de maneira paradoxal, muitas das forças do filme advêm dessa escolha narrativa, especialmente quando o olhar é dirigido à sua protagonista idosa. E que bom ver uma atriz como Baisho dar conta do papel, mostrando que talento é uma coisa que não se perde com a idade. Num mundo tão etarista (e isso inclui a própria indústria do cinema), essa lição bem que podia ser posta em prática. Nota: 3,5/5












