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  • Crítica | Ghostbusters: Apocalipse de Gelo

    Sequência requenta o pouco de originalidade dos capítulos anteriores Foto: Divulgação Nesta continuação da franquia Ghostbusters, a família Spengler retorna para onde tudo começou: a famosa estação de bombeiros em Nova Iorque. Eles pretendem se unir com os caça-fantasmas originais que desenvolveram um laboratório ultra secreto de pesquisa para levar a caça aos fantasmas a outro nível, mas quando a descoberta de um artefato antigo libera uma grande força do mal, os Ghostbusters das duas gerações precisam juntar as forças para proteger suas casas e salvar o mundo de uma segunda Era do Gelo. O primeiro filme dos famosos caça fantasmas de 1984 surgiu como uma paródia, uma sátira muito bem humorada de filmes sobrenaturais sem qualquer vergonha ou delimitação, como a Hollywood dos anos 80 fazia bem. Até mesmo a primeira continuação, de 1989, já mostrou um desgaste em relação ao bem executado efeito surpresa que o original tinha apresentado, mas ainda assim cumpriu seu papel de, por assim dizer, encerrar o arco dos personagens que facilmente caíram no gosto popular. De lá pra cá a franquia virou quadrinhos, animação, brinquedos, e vários outros itens de mercado para fazer o dinheiro render, como Hollywood sempre fez bem. Em relação aos filmes, em 2016 houve um reboot, uma versão feminina voltada bem para a comédia escrachada; e em 2021 foi lançado Ghostbusters - Mais Além, produção que retomava o universo dos longas dos anos 80, com seus personagens clássicos, mas liderado por novos nomes. Ghostbusters: Apocalipse de Gelo é a continuação do filme de 2021. Mas diferente do anterior, esse já não consegue mais surpreender. Todos os personagens aqui já são conhecidos do público e isso facilita a dinâmica do texto, porém, faz parecer que falta conteúdo novo para motivar a narrativa para além do efeito nostalgia vazio. E falta mesmo. Foto: Divulgação Os poucos bons momentos são garantidos pelo carisma do elenco que trabalha na mesma frequência e tem um timing bem compartilhado no humor. E também pela agilidade da filmagem. A escolha de fazer uma aventura mais cartunesca, mais colorida, mais cafona e mais descompromissada com outros vieses que não seja a comédia ou ação (o filme de 2021 exercita mais o suspense). O quase romance sobrenatural entre uma das protagonistas e uma fantasma é o que tenta dar algum sentimento ao enredo, no entanto, é sufocado pela quantidade de informação repetida. Além dos antigos e novos personagens serem os mesmos, o cenário volta a ser Nova Iorque, o prefeito volta a ser um obstáculo, as piadas são as mesmas, as referências são repetidas... é literalmente tudo o que já foi feito de forma requentada e – trocadilhos à parte – sem vida. Nota: 2/5

  • Crítica | Uma Família Feliz

    Longa faz críticas a classe média alta brasileira com suspense psicológico surpreendente Foto: Divulgação Para quem é fã de suspense, o nome Raphael Montes não é desconhecido. O jovem autor brasileiro se destaca, desde 2012, com tramas de sucesso do gênero, figurando sempre entre os mais vendidos do país. Desde então, Raphael também vem fazendo barulho em outros formatos, seja com a série original Netflix Bom Dia, Verônica, adaptada de uma de suas obras, como roteirista dos filmes da Prime Video que contam a história do crime dos Richthofen ou com seu mais novo trabalho que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 4. Uma Família Feliz é roteirizado por Montes, que também atua como assistente de direção na produção liderada por José Eduardo Belmonte. Na história, conhecemos Eva (Grazi Massafera), uma mãe de duas filhas gêmeas e que, após dar à luz ao seu terceiro filho, sofre com a depressão pós-parto, mesmo tudo apontando que a sua vida é perfeita. Por conta deste fato, estranhos acontecimentos rondam a família fazendo com que Eva se torne a principal suspeita desses casos peculiares, incluindo uma investigação pela polícia. Eva se vê sendo questionada e acusada até mesmo pelo seu próprio marido (Reynaldo Gianecchini) e por toda a comunidade que antes a acolhia. Como leitora assídua do gênero (e também dos livros de Raphael), aproveitei para ler Uma Família Feliz, livro baseado no roteiro do filme, antes de assistir ao longa. Mesmo sendo resultado do produto audiovisual, o livro possui algumas diferenças da história do filme e se aprofunda mais em questões e lacunas não preenchidas durante o tempo de projeção. Por ser narrado em primeira pessoa, a impressão que tive é que o livro funciona quase como um complemento do filme, quase que uma versão estendida e mais explícita do que vemos no cinema. Voltando ao longa, que inicia basicamente com a sua cena final, o telespectador é instigado logo de cara a entrar no jogo de tentar responder a pergunta de “quem matou?”. Dessa forma, nós que assistimos, já somos colocados na posição de detetive desde os segundos iniciais, tentando buscar pistas e desvendar o grande mistério assim que a família perfeita entra em cena dando espaço para uma desconfiança de tudo e de todos que vai aumentando gradativamente conforme o mistério avança. Foto: Divulgação Mistério esse bem amarrado pelo roteiro, que mesmo não entrando em questões mais sérias de uma forma mais profunda, consegue demonstrar as dificuldades de uma mãe no puerpério, que ainda precisa lidar com constantes questionamentos sobre o seu trabalho (Eva confecciona bonecos reborn), com o asseio da casa, com o cuidado de duas gêmeas, com a sua própria vaidade e com o marido. O turbilhão de coisas que Eva precisa dar conta após o nascimento de Lucas é exposto de forma magistral por Grazi Massafera. Ela começa contida e cresce conforme o mistério, ficando cada vez mais visceral e explosiva. Grazi é uma das atrizes mais fortes da geração atual e funcionou perfeitamente em tramas de suspense como o de Uma Família Feliz. Assim como Grazi, Reynaldo Gianecchini também é excelente na pele do pai perfeito, Vicente, assim como Luiza Antunes e Juliana Bim, que interpretam as irmãs Sara e Ângela. As irmãs mostram uma dicotomia interessante de ser observada dentro do contexto do longa, enquanto uma é mais quietinha e gosta de brincar de boneca, a outra é mais falante e quer fazer dancinhas para o TikTok. É um contraponto curioso dentro de um roteiro que também faz suaves (às vezes não tão suaves assim) críticas a classe média alta brasileira e sua hipocrisia constante. Nos aspectos técnicos, Uma Família Feliz me impressionou com um som mais forte e marcado em determinados momentos. Além disso, a direção de José Eduardo Belmonte consegue construir bem a tensão, com uma câmera mais tremida e ousada, que funciona muito bem aliada ao roteiro do filme. O desfecho do longa, sem dúvidas, vai surpreender e deixar de queixo caído até aqueles mais acostumados com grandes reviravoltas, tudo isso sem duvidar da capacidade de entendimento do telespectador, pois, todas as respostas estavam nas entrelinhas desde o seu início. Uma Família Feliz continua provando que o Brasil faz e exporta ótimos filmes do gênero sem deixar de fazer uma boa crítica a sociedade de forma geral. Sem dúvidas, é um longa que vai conquistar o público, especialmente os fãs de suspense, e que deverá ser bastante comentado nas redes sociais daqui pra frente. Nota: 4/5

  • Crítica | Guerra Civil

    Imagina querer fazer um filme de guerra neutro? Foto: Divulgação Guerra Civil é uma jornada através de um futuro distópico nos Estados Unidos, acompanhando uma equipe de jornalistas militares enquanto eles correm contra o tempo para chegar a Washington DC e conseguir exclusiva com o presidente antes que facções rebeldes cheguem à Casa Branca. Esse é sem sombra de dúvidas um dos filmes mais em cima do muro que já vi. Em parte – e essa é a parte até compreensível – isso se dá pelos protagonistas serem fotojornalistas que passam por cima de suas morais, crenças e éticas para conseguirem os melhores cliques. É uma tentativa de querer pregar o utópico “jornalismo imparcial” e sem consequências, e acredite quem quiser. Quando o roteiro tenta (e infelizmente consegue) ser neutro em relação à política é que a coisa desanda. Em momento nenhum do argumento fica claro precisamente o quê está acontecendo nos EUA, o que se sabe é que o país está em conflito interno por visões políticas e sociais diferente e que um desses grupos está querendo chegar na Casa Branca para matar o presidente. O texto de Garland evita a qualquer custo tomar uma posição sobre o evento. É uma guerra-analogia para uma nação dividida que não consegue se justificar (e vamos combinar que sutilezas e analogias não são o forte do diretor/roteirista). E o pior de tudo a falta de vontade de se justificar, é querer dizer que toda guerra é ruim e ponto, o espectador que lide com essa máxima e com o vago campo de interpretações e suposições que isso implica. Já pensou se existissem guerra de verdade no mundo (ainda mais com os EUA envolvidos) para ter que ensinar o quão prejudicial essas batalhas são? Não que eu esteja pedindo um documentário estilo Cidade Alerta como 20 Dias em Mariupol, era apenas um embasamento entre seus longos minutos de duração para tornar tudo mais palpável e menos vitrine. Foto: Divulgação O esforçado elenco tenta a todo custo dar alguma alma, alguma verdade ao enredo, mas está além da capacidade de Kirsten Dunst, Wagner Moura e companhia tornar todo o barulho e quebradeira importante. Os personagens também não apresentam estímulos ou objetivos, as falas e até mesmo os flashbacks se encontram numa zona cinzenta de emoções limitadas que não define nenhum traço marcante para eles. Na ação pela ação o filme se sal muito bem. As sequências de combate são de grande escala e muito bem coordenadas. O design de som é refinadíssimo e impulsiona tanto as cenas mais intensas quanto as mais introspectivas. Visualmente Garland sempre se resolve muito bem e mais uma vez ele monta belas imagens com a ajuda da fotografia limpa de Rob Hardy. Apesar dos bons momentos de tensão o longa não consegue impressionar com a narrativa neutra. Talvez Garland quisesse passar a impressão do vazio que se instaurou no país no cenário pintado por ele, vazio nas pessoas, nos lugares, nas atitudes. Talvez quisesse fazer um alerta para os estadunidenses sobre os perigos de um futuro iminente. Talvez quisesse mesmo só focar nos jornalistas e na sua missão questionável de cobrir a morte alheia. Talvez. Muitos talvez. Nenhuma certeza, e pior, nenhuma questão também. Só vazio. Um vazio covarde e apolítico. Nota: 2,5/5

  • Cannes 2024 – Seleção Oficial

    Maior festival de cinema da França apresenta sua seleção oficial com filme cearense Foto: Motel Destino - Karin Aïnouz Foi divulgada na manhã dessa quinta-feira (11) a seleção oficial de Cannes 2024. 19 filmes disputam a Palma de Ouro na competição principal, entre eles o cearense Motel Destino, do diretor Karim Aïnouz. O diretor natural de Fortaleza compete pelo prêmio pelo segundo ano consecutivo, no ano passado ele esteve no festival com Firebrand, filme britânico ainda inédito no Brasil. A presença de Francis Ford Coppola com seu aguardado filme Megalopolis é um dos maiores destaques da lista. O épico do premiado diretor é seu primeiro longa-metragem em 13 anos e vem sendo desenvolvido por mais de três décadas. Outros nomes bastante conhecidos do público – e do festival – como o grego Yorgos Lanthimos e seu inédito Kinds of Kindness, o canadense David Cronenberg com The Shrouds, e o italiano Paolo Sorrentino com Parthenope, também aparecerão no tapete vermelho do litoral francês. A diretora francesa Agathe Riedinger disputa a Palma com Wild Diamond, seu primeiro longa-metragem. Também entre as diretoras está a indiana Payla Kapadia, com o longa All We Imagine As Light. Kapadia esteve no festival em 2021 onde venceu o prêmio Golden Eye de Melhor Documentário por Uma Noite Sem Saber Nada. No dia 15 de abril, a mostra paralela Semana da Crítica anunciou que o brasileiro Baby integra a competição oficial de sua 63ª edição. No filme do mineiro Marcelo Caetano, Wellington, que após ser libertado de um centro de internação juvenil, se vê sozinho e à deriva nas ruas de São Paulo, sem contato dos pais e sem recursos para reconstruir sua vida. Durante uma visita a um cinema pornô, ele conhece Ronaldo, um homem maduro, que lhe ensina novas formas de sobreviver. Aos poucos, o relacionamento deles se transforma em uma paixão conflitante, oscilando entre a exploração e a proteção, o ciúme e a cumplicidade. Com direção de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, o documentário brasileiro A Queda do Céu foi selecionado para Quinzena dos Realizadores 2024, mostra paralela focada na descoberta de novos cineastas. O filme acompanha o importante ritual fúnebre, Reahu, que mobiliza a comunidade de Watorikɨ num esforço coletivo para segurar o céu. A 77ª edição do Festival de Cannes acontece entre os dias 14 e 25 de maio. Confira abaixo a lista completa da Competição e das demais mostras do festival: Competição Oficial 2024: Foto: Megalopolis - Francis Ford Coppola • Motel Destino (Karim Aïnouz) • Megalopolis (Francis Ford Coppola) • Anora (Sean Baker) • Emilia Perez (Jacques Audiard) • The Shrouds (David Cronenberg) • Bird (Andrea Arnold) • The Apprentice (Ali Abbasi) • Grand Tour (Miguel Gomes) • Kinds of Kindness (Yorgos Lanthimos) • All We Imagine As Light (Payla Kapadia) • Wild Diamond (Agathe Riedinger) • Beating Hearts (Gilles Lellouche) • Parthenope (Paolo Sorrentino) • Caught By The Tides (Jia Zhang Ke) • The Girl with The Needle (Magnus von Horn) • Liminov: The Ballad of Eddie (Kirill Serebrennikov) • Oh, Canada (Paul Schrader) • Marcello Mio (Christophe Honoré) • The Substance (Coralie Fargeat) Mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar): Foto: Boku No Ohisama - Hiroshi Okuyama • Norah (Tawfik Alzaidi) • The Shameless (Konstantin Bojanov) • Le Royaume (Julien Colonna) • Vingt Dieux ! (Louise Courvoisier) • Who Let the Dog Bite? (Laetitia Dosch) • Black Dog (Guan Hu) • The Village Next to Paradise (Mo Harawe) • September Says (Ariane Labed) • L’Histoire de Souleymane (Boris Lojkine) • The Damned (Roberto Minervini) • On Becoming a Guinea Fowl (Rungano Nyoni) • Boku No Ohisama (Hiroshi Okuyama) • Santosh (Sandhya Suri) • Viet and Nam (Truong Minh Quý) • Armand (Halfdan Ullmann Tøndel) Fora de Competição: Foto: Furiosa: Uma Saga Mad Max - George Miller • Furiosa: A Mad Max Saga (George Miller) • Horizon: An American Saga - Chapter 1 (Kevin Costner) • Rumors (Evan Johnson, Galen Johnson e Guy Maddin) • She's Got No Name (Peter Ho-Sun Chan) Midnight Screenings de Cannes 2024: Foto: Twilight of the Warrior: Walled In - Soi Cheang • The Balconettes (Noémie Merlant) • I, the Executioner (Seung Wan Ryoo) • The Surfer (Lorcan Finnegan) • Twilight of the Warrior: Walled In (Soi Cheang) Cannes Premiere 2024: Foto: Everybody Loves Touda - Nabil Ayouch • C'est Pas Moi (Leos Carax) • Everybody Loves Touda (Nabil Ayouch) • Le Roman de Jim (Arnaud Larrieu, Jean-Marie Larrieu) • The Matching Bang (Emmanuel Courcol) • Miséricorde (Alain Guiraudie) • Rendez-Vous Avec Pol Pot (Rithy Panh) Mostra Semaine de la Critique (Semana da Crítica): Foto: Baby - Marcelo Caetano Sessão de Longas • Baby (Marcelo Caetano) • Blue Sun Palace (Constance Tsang) • The Brink of Dreams (Nada Riyadh e Ayman El Amir) • Julie Keeps Quiet (Leonardo Van Dijl) • Locust (KEFF) • Block Pass (Antoine Chevrollier) • Simon of the Mountain (Federico Luis) • Ghost Trail (Jonathan Millet) - Filme de Abertura • Queens of Drama, (Alexis Langlois) • Across the Sea (Saïd Hamich Benlarbi) • Animale (Emma Benestan) - Filme de Encerramento Sessão de Curtas • Alazar (Beza Hailu Lemma) • A Menina e o Pote (Valentina Homem) • As Minhas Sensações São Tudo o Que Tenho Para Oferecer (Isadora Neves Marques) • What We Ask of a Statue Is That It Doesn’t Move (Daphné Hérétakis) • Ella se Queda (Marinthia Gutiérrez Velazco) • Montsouris Park (Guil Sela) • Absent (Cem Demirer) • Radikals (Arvin Belarmino) • Supersilly (Veronica Martiradonna) • Dancing in the Corner (Jan Bujnowski) Mostra Quinzaine des Cinéastes (Quinzena dos Realizadores): Foto: Baby - Marcelo Caetano Sessão de Longas • A Queda do Céu (Eryk Rocha & Gabriela Carneiro da Cunha) • This Life of Mine (Sophie Fillières) • In His Own Image (Thierry de Peretti) • Christmas Eve in Miller's Point (Tyler Taormina) • Desert of Namibia (Yôko Yamanaka) • Sharq 12 (Hala Elkoussy) • Eat the Night (Caroline Poggi & Jonathan Vinel) • Eephus (Carson Lund) • Gazer (Ryan J. Sloan) • Ghost Cat Anzu (Yôko Kuno & Nobuhiro Yamashita) • Good One (India Donaldson) • Mongrel (Chiang Wei Liang & You Qiao Yin) • Visiting Hours (Patricia Mazuy) • A Savana e a Montanha (Paulo Carneiro) • Sister Midnight (Karan Kandhari) • Algo Viejo, Algo Novo, Algo Prestado (Hernán Rosselli) • Los Hiperbóreos (Cristóbal León & Joaquín Cociña) • Volveréis (Jonás Trueba) • To a Land Unknown (Mahdi Fleifel) • Universal Language (Matthew Rankin) • Plastic Guns (Jean-Christophe Meurisse) Sessão de Curtas • After the Sun (Rayane Mcirdi) • Extremely Short (Kōji Yamamura) • Immaculata (Kim Lêa Sakkal) • Antoine, Élise and Léandre (Jules Follet) • Mulberry Fields (Nguyễn Trung Nghĩa) • Nuestra sombra (Agustina Sánchez Gavier) • O jardim em movimento (Inês Lima) • Very Gentle Work (Nate Lavey) • Quando a terra foge (Frederico Lobo) *Matéria em construção sujeita a alterações mediante anúncios

  • Crítica | Rising Up At Night

    Filme congolês retrata problema social com intensidade, mas não apresenta conclusão Foto: Divulgação O documentário de Nelson Makengo mostra o dia-a-dia de moradores de Kinshasa, capital e maior cidade da República Democrática do Congo, que fica dias sem energia elétrica – além de sofrer com inundações – enquanto se planeja construir a maior central elétrica no país. O diretor conta através de personagens reais como diferentes pessoas lidam com as mesmas questões: insegurança e escuridão. Kudi mobiliza a população do seu bairro para comprar o cabo roubado para que a eletricidade possa ser restaurada a tempo para as festas de final de ano. No Natal, Kudi se transforma em Papai Noel e flashes de luzes e esperança iluminam as ruas de Kinshasa. No Monte Mangengenge, um local sagrado, o Pastor Gédéon prega a luz de Cristo como caminho para a fé e a luz. Enquanto isso, o jovem Davido procura abrigo depois que sua casa foi inundada pelo rio Congo. Ele passa o tempo malhando e esperando o rio baixar em sua vizinhança. Entre a esperança e a fé religiosa. Foto: Divulgação As mais variadas interpretações para a escuridão são vistas pela perspectiva de Makengo e dos moradores apresentados ao público. O cineasta faz questão de filmar a maioria do tempo durante a noite e finais de tarde para enfatizar o escuro como maior obstáculo, e ao mesmo tempo que consegue expressar as situações conflitantes por meio de uma quase experiência imersiva, por vezes fica difícil acompanhar o desdobramento de algumas cenas. Nos poucos momentos que a câmera foca em luzes artificiais de lanternas e velas elas parecem mais incomodar e endossar aquele contexto desesperador do que serem uma solução. A fé quase desesperadora e as emoções levados ao limite são o norte do filme, porém a falta de protagonismo dentre os habitantes postos em evidência impede a narrativa de se desenvolver e parece não sair do mesmo lugar de onde partiu, imprimindo uma repetitividade que compromete a frágil e fragmentada sensibilidade que luta para ser consolidada. Nota: 3/5

  • Crítica | Abigail

    Suspense brinca com gêneros e diverte até onde possível Foto: Divulgação Um grupo de criminosos profissionais sequestra uma jovem bailarina, Abigail (Alisha Weir), filha de um figurão do submundo do crime e a levam para uma mansão distante, onde ela deverá aguardar por uma grande recompensa para ser liberada. Tudo segue nos conformes até que coisas assustadoras passam a acontecer no lugar e os sequestradores terão que lidar com a menina, com o terror desconhecido e com a dúvida sobre seus parceiros. A dupla de diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett tem, até o presente momento, mostrado uma filmografia voltada exclusivamente para o terror. Usando sempre de muito sangue e reviravoltas como identidade das suas produções eles tem exibido constância especialmente no primeiro ato: sabem aproveitar o tempo inicial para construir boas introduções, apresentação de personagens bem elaborada, cadência regular na montagem. Em resumo, uma excelente preparação para o desbunde dos atos seguintes. E não falo isso por irregularidade, é porque realmente o enredo muda de direção para um cenário extremamente caótico, o que funciona precisamente como contraponto ao início mais equilibrado. E eis a beleza de chegar a um filme completamente ignorante sobre a narrativa: as reviravoltas realmente funcionam. Mas o longa tentou se preparar também para aqueles que são bombardeados pelo material promocional porque acredite, tem muitas reviravoltas mais uma vez, porém mais do que precisava. O roteiro tem prazer em surpreender o espectador, mas aqui chega a um ponto de não passar confiança no material que estava sendo exposto, como se precisasse a todo momento, do segundo ato em diante, estar impactando para sustentar o ritmo e segurar a atenção de quem está assistindo. Foto: divulgação O elenco guiado pela brilhante Melissa Barrera se entrega á experiência sem pudor e dança conforme a música, e toca de tudo aqui, tem comédia, tem terror gore, tem ação e até um pouco de drama meloso. Todos os coadjuvantes têm momentos marcantes, até mesmo o magnético Giancarlo Esposito que sempre está em ótimos papeis porque no fundo é o mesmo personagem em produções diferentes. Destaque para o carismático o memorável Angus Cloud em seu último trabalho e para a estrela do filme: Alisha Weir. A jovem atriz irlandesa deu um espetáculo em Matilda: O Musical (2022) e mostra de novo que tem potencial para ir mais longe do que eu imaginava. Num mundo onde já tivemos Sexta-Feira 13 (1980), Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio (1981) passando por O Segredo da Cabana (2011) até chegar em Casamento Sangrento (dos mesmos diretores) o suspense que repete a fórmula “personalidades diferentes confinadas num ambiente hostil tentando sobreviver a um mal desconhecido” não é lá nenhuma novidade, o que vai validar é a abordagem, e Abigail apesar de divertir bastante, não tem tanto impacto nem nos (inúmeros) efeitos surpresa. Nota: 3/5

  • Crítica | Apple Cider Vinegar

    O ciclo da vida contado como uma fábula contemporânea sobre rochas Foto: Divulgação O que têm em comum uma pedra nos rins, um vulcão em Cabo Verde e um geólogo inglês? Este é o enigma colocado pela cineasta Sofie Benoot neste brilhante meandro entre o minúsculo e o infinito. Mesclando um documentário sobre a natureza e uma fábula filosófica, este é um quebra-cabeça que convida a examinar a ligação entre o corpo humano e o planeta. A diretora Sofie Benoot mistura roteiro ficcional com não-ficcional e apresenta com uma roupagem elegante um filme interessante sobre a relação do homem com o seu entorno. Conduzido por uma personagem que se apresenta como uma narradora aposentada de programas de natureza dominicais (à la BBC), a cineasta veste este alter ego que mistura suas ideias e sentimentos com os da narradora-personagem. Dublado pela suave e inconfundível voz da lendária atriz Siân Phillips, a persona mostra um vouyerismo naturalista – herdado da profissão – de admirar paisagens através de câmeras de observação esperando aparições e flagra do reino animal como um hobby. E entre contemplações e questionamentos, o fio condutor da narrativa é uma pedra dos rins que extraída da pessoa por trás do documentário (a diretora? a personagem?) e as questões que esse mineral trouxe sobre pedras, sobre como estes itens pouco apreciados por nós seres humanos medianos apresenta beleza e, muito além disso, importância para a biosfera. O inusitado ponto de partida, no entanto, só ganha força pela subjetividade da voz e sua vontade de entender a casualidade e a espontaneidade de uma natureza viva que independe das vontades humanas para se expressar. É interessante ver como o argumento cria paralelos entre a estabilidade e a permeabilidade das rochas com sensações e emoções humanas. Mas apesar da abordagem bastante simpática e muito bem conduzida não se engane: é um documentário antológico de natureza no seu interior, mesmo sendo cheio de poesia no exterior. A produção não apresenta as belas e grandiosas imagens dos famosos programas de canais à cabo, prefere a introspecção dos universos particulares que apesar das dimensões e distâncias são mais comuns do que parecem. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Rivais

    Um show de tensão e sensualidade Foto: Divulgação O diretor italiano Luca Guadagnino se tornou mundialmente conhecido após lançar, em 2017, o filme Me Chame Pelo Seu Nome, baseado na obra homônima escrita por André Aciman e vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado no Oscar de 2018. De lá Para cá, seu nome retornou às telas com Suspiria, em 2018, e Até os Ossos, em 2022. Esse ano ele nos traz Rivais, com Zendaya, Josh O’Connor e Mike Faist compondo o elenco principal. Sabe aqueles momentos “já olhou para alguém e pensou: o que passa na cabeça dela?”? É assim que nos sentimos ao assistir as cenas daquele fatídico jogo. Com os três personagens ligados, e as trocas de olhares constantes entre eles, a tensão se torna palpável instantaneamente. Só no decorrer de tudo é que finalmente vamos descobrindo o que se passa na cabeça deles, mas, até chegar lá, o filme nos entrega vários minutos deliciosos de um entretenimento de qualidade amparado por sensualidade, erotismo e um texto fluido escrito por Justin Kuritzkes. Um dos componentes principais deste filme é o entrosamento que há entre o trio escolhido. Sozinhos, cada um já tem uma presença em tela magnífica, quando se juntam em dupla tudo se eleva, mas quando estão os três juntos, a coisa alcança um nível magistral absurdo. Tem tanto impacto em tela que não tem como não ficar vidrado vendo aquelas performances. Não consigo destacar nenhum, pois, achei os três tão bem encaixados que é como se fossem partes de um corpo maior em harmonia para entregar um resultado excelente, e, a meu ver, conseguiram. É essa química que faz o restante dar certo. Foto: Divulgação Guadagnino explora esse detalhe durante todo o filme, não apenas a presença abstrata de suas atuações, mas também todo o potencial corporal dos três. Eles evocam a sensualidade no menor dos movimentos, é possível sentir a tensão e o desejo. Não apenas o erotismo é bem trabalhado, como quase se torna uma dança coreografada a passos milimetricamente ensaiados, e, como se fosse um desafio, a trilha sonora vibrante pega tudo isso e joga vários patamares acima. Ela faz com que você sinta toda a pulsação e deixa uma sensação hipnótica, onde a única coisa que é possível fazer é apreciar e esperar pelo próximo passo. Para além das atuações, temos um enredo que vai se moldando em volta de um único jogo. Assim como os movimentos de uma bola de tênis, a história vai e volta no tempo até chegar ao seu fim. Sem pressa alguma, vemos se desenrolar todos os percalços dos três personagens que fizeram aquele momento acontecer. A cada nova informação aquele jogo vai ficando cada vez mais excitante, até chegar ao glorioso ápice do match point. Não apenas do jogo, mas na finalização da trama do trio. Rivais empolga, encanta, hipnotiza e te faz vibrar a cada cena. É charmoso, caótico e absurdamente sensual. Um dos filmes recentes mais gostosos de assistir e uma experiência cinematográfica que vale muito a pena. Nota: 4,5/5

  • Crítica | A Primeira Profecia

    Diretora estreante conta com estilo versão feminina de uma história de terror marcante Foto: Divulgação A jovem noviça americana Margaret (Nell Tiger Free) é enviada a Roma para começar uma vida de serviço à Igreja. Aos poucos ela acaba desvendando uma aterrorizante conspiração que deseja provocar o nascimento do mal encarnado. É empolgante ver uma diretora jovem cheia de ímpeto e criatividade para se expressar. Isso é algo que o gênero de terror talvez apresente mais do que os outros gêneros, diretores estreantes que mostram bastante habilidade com a câmera a ponto de transformarem simples movimentos, enquadramentos básicos e muita Gestalt purinha em filmes notáveis. E é precisamente isso que a estadunidense Arkasha Stevenson faz em seu primeiro longa-metragem, A Primeira Profecia. Quando se tem um prelúdio de um dos terrores mais conhecidos e cultuados da história do cinema todos os alertas se acionam para a qualidade do material que está por vir, afinal, os longas de produção seriado dos estúdios caça-níquel estão cada mais sem personalidade, seja no roteiro e pior ainda na plástica. Mas esse soube como fazer o básico para um terror funcionar: assustar e surpreender. Não tem nada de inovador nem de experimental (a sequência de desdobramentos é até bem previsível). Não tem muitas metáforas nem sutilezas, é um filme bem explícito sobre perspectivas de ser mulher; sobre escolhas femininas, sobre poder feminino, sobre abuso, sobre o papel da mulher na Igreja Católica. Mas o fato de evitar analogias não deixa o todo menos eficiente, na verdade deixa até mais claro e direto evitando interpretações que talvez desvirtuem do que o texto está querendo expor. Foto: Divulgação Desgosto do termo “terror psicológico” porque eu desconheço outra forma em que o terror funcione se não pelas impressões mentais, mas usa-se esse termo quando uma obra não aborda primariamente questões sobrenaturais, místicas e/ou metafísicas. A Primeira Profecia consegue unir tudo isso numa mesma vestimenta sem que seja necessário distinguir um do outro (conta também com ótimas construções de body horror). A atriz Nell Tiger Free conduz com maestria a diegese filmada e preenche a câmera com um magnetismo característico do suspense, traço que mostrou com maestria durante os anos da série Servant. Entre os coadjuvantes os desataques são: o sempre contundente Bill Nighy que aparece em poucos momentos, porém significativos; e uma assustadora Sonia Braga que interpreta uma madre sombria e soturna, e que dá o tom da narrativa. É um terror comercial sólido e bem pintado. Assusta nas situações óbvias e também nas entrelinhas, e surpreende com habilidades imagéticas que cria excelentes momentos. Arkasha Stevenson é um nome para ganhar destaque, resta saber se ela sempre conseguirá espaço para imprimir suas ideias ou se os grandes orçamentos sufocarão sua vontade e sua liberdade criativa. Nota: 4/5

  • Crítica | Música

    Sinestesia, herança brasileira e os dilemas do amor se unem nessa divertida comédia romântica. Foto: Divulgação Desde pequeno me vi cercado pela música. Ter um ouvido absoluto e um pai músico que me apresentou às suas bandas favoritas desde cedo fez com que a música e a musicalidade sempre tivessem um lugar cativo no meu dia a dia, de maneiras muitas vezes assombrosas — como ao memorizar álbuns inteiros ou cultivar obsessões como marcar o tempo das músicas que estou “ouvindo” em minha cabeça e até fazer beat box de bateria, instrumento que eu também toco. Talvez por isso, essas manias e idiossincrasias tenham me feito ser empático à condição que aflige Rudy (Rudy Mancuso). Embora não se assuma frontalmente como um musical, Música faz jus ao seu título (pelo menos em sua primeira metade) ao explorar como a sinestesia de seu protagonista está diretamente ligada à sua forma de ver e viver o mundo, e como a incapacidade das outras pessoas de entender sua condição e seu interesse em viver da música o aflige. Mas não se preocupe, este não é um drama sério: Mancuso, que traz para a tela uma vaga adaptação de sua própria vida, constrói uma obra leve e divertida, explorando tanto sua condição sinestésica quanto sua herança brasileira, tudo isso enquanto nos conduz pelos caminhos da comédia romântica. Foto: Divulgação Esse lado romântico da obra vem através de um triângulo amoroso entre Rudy, sua ex Haley (Francesca Reale) e seu novo interesse amoroso Isabella (Camila Mendes), que também partilha das raízes brasileiras como ele. Infelizmente é aqui que Música vacila; embora a química de Mancuso e Mendes seja cativante de assistir — não à toa, os dois começaram a namorar durante a produção do filme —, o triângulo pouco agrega ao conflito dramático da obra. Na verdade, ele se torna apenas irritante depois de um tempo, e pior: rouba o espaço das demais vertentes que o longa quer trabalhar. Felizmente, há os momentos que nos apresentam visualmente a riqueza da sinestesia de Rudy, e que me fizeram desejar que esse flerte com o musical fosse muito além. Além do mais, diversas cenas possibilitaram com que, como brasileiro, me sentisse contemplado por ver um longa estadunidense que consegue quebrar o estereótipo de latinos como uma entidade homogênea, tanto em instantes simples — como o uso de Canta Canta, Minha Gente, de Martinho da Vila — como na fluidez e transições incríveis entre o inglês e português, especialmente nas cenas de Rudy e sua mãe (vivida pela própria mãe de Mancuso, em toda a sua glória de carioca suburbana). É uma pena, portanto, que o lado da comédia romântica acabe empalidecendo frente às outras abordagens trazidas em Música, e digo isso como um devoto fã do gênero. Acaba gerando uma desigualdade na obra, mas felizmente é possível ver como ela se sustenta por outros méritos, ilustrando um potencial caminho para Rudy Mancuso na direção — e se for para ver mais da sua química com Camila Mendes e seu amor pela música e pelo Brasil sendo mais explorados, mal posso esperar. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Matador de Aluguel

    Um remake que aposta em diversas ideias estilísticas mas que falta paixão Foto: Divulgação Se na versão original de 1989 temos James Dalton como um homem formado em filosofia se tornando o segurança de um bar de beira de estrada do Missouri, neste remake temos um ex-lutador de UFC que acaba tendo a mesma ocupação, dessa vez em um clima tropical. Não há como negar que a fórmula é atualizada e segue a onda de filmes de ação pós-John Wick com suas lutas coreografadas, ainda que nesse caso esses elementos não sejam tão bem aproveitados por se tratar de um remake que não consegue compreender a fórmula do filme B e porque ela funcionou na época. No escopo geral, temos alguns elementos interessantes no modo que o filme apresenta um forasteiro chegando no vilarejo para proteger pessoas indefesas, como um bom western. Ao mesmo tempo que o filme não me parece tão interessado nessa postura, já que os personagens de modo geral parecem desinteressantes, e as sucessivas cenas de luta que acontecem no bar são filmadas e montadas de forma frenética de maneira que a câmera trêmula e que chicoteia o espectador a cada 2 segundos, além dos planos fechados que me parecem totalmente sem paixão. Não tenho problema nenhum em assistir cenas que mais parecem emular um videogame, o problema é quando os efeitos visuais são usados de forma excessiva e artificialidade acaba minando a imersão da ação. O que acaba indo no caminho contrário da forma que o personagem do Jake Gyllenhaal é inserido na trama, que tem que enfrentar seus demônios ao ter que encarar o seu passado traumático. Talvez se o filme adotasse de fato essa postura de artificialidade do videogame no filme como um todo, me agradaria um pouco mais, pois o Conor McGregor acaba entregando uma performance que estranhamente perpassa pelo divertido e pelo assustador, como um genérico chefão de um jogo de luta. Embora McGregor retrate uma versão exagerada de si mesmo na vida real, ele representa a maior ameaça física para o personagem de Gyllenhaal e uma fonte de energia para o filme. É tão exagerado e ridículo, como um personagem irlandês dos Looney Tunes que o filme imediatamente ganha uma energia diferente sempre que ele aparece. No entanto, mais uma vez as cenas de luta entre ele e Gyllenhaal são prejudicadas pela coreografia brutal, movimentos de câmeras e pelos efeitos visuais, reduzindo todo o seu potencial em mera plasticidade. Foto: Divulgação Para um filme que deveria apresentar algumas sequências de combate corpo a corpo memoráveis, elas acabam sendo estranhamente as partes menos memoráveis do filme, e parece engessar durante a segunda metade do filme, assumindo que todo o potencial será descarregado no confronto final, mas que também não acaba convencendo quando chega o momento. O principal interesse da direção de Doug Liman parece seguir ideias estilísticas de diretores como Michael Mann e Michael Bay, sem nunca se aproximar da substância emocional e existencial que esses diretores apresentam. Onde a versão original acerta justamente por trazer o calor, o tesão e todos os demais elementos que tornam o filme vivo e pungente. Por sua vez, um filme que por sua vez poderia ser visto na tela grande acaba se transformando em um exemplo claro do estilo de cinema de streaming e da abordagem mainstream dos filmes de ação. De modo que apresenta imagens ativas e com direção frenética, narrativas familiares que se concentram exclusivamente na trama e apenas ela, diálogos divertidos que não conseguem realmente arrancar risadas, no final das contas, não oferece muito mais do que uma ênfase exagerada na coragem e da virilidade de Dalton em comparação com a fraqueza de seus inimigos. Nota: 2/5

  • Crítica | Godzilla e Kong: O Novo Império

    Se o primeiro peca pela falta esse peca pelo excesso Foto: Divulgação O novo capítulo da saga de crossover dos mais famosos titãs do cinema continua com uma aventura que coloca o todo-poderoso Kong e o temível Godzilla lado a lado contra uma colossal ameaça desconhecida, escondida em nosso mundo, capaz de colocar em risco a própria existência deles - e a nossa. Godzilla e Kong: O Novo Império mergulha ainda mais fundo na história das duas criaturas, em suas origens e nos mistérios da Ilha da Caveira, e desvenda a batalha mítica que ajudou a forjar esses seres extraordinários, ligando-os à humanidade e seu destino para sempre. Lembro que fui assistir à primeira batalha dos monstros em 2021 sem saber exatamente o que o que ia ver, afinal nunca conheci a fundo as mitologias das duas criaturas e não conseguia pensar em como eles iam preencher quase 2 horas de filme, mas esperava quebradeira em escala macro e muita ação. O resultado do entanto não supriu a expectativa – tem ali um roteiro pra justificar toda a quebradeira, mas o que interessa mesmo é o destroço, são as criaturas brigando e fazendo maior alvoroço possível nos prédios de seja lá qual cidade e nisso o filme não entrega o que deveria. Os conflitos são bem curtos comparados com o restante do enchimento de linguiça do roteiro. Já nesse segundo eles não foram nem um pouco sutis. A fantasia da Terra Oca é quando o primeiro filme ganha personalidade e – sendo bem positivo – justifica a realização do longa. E na continuação mais da metade do enredo se passa nesse universo, com mais monstros, mais cores, mais luzes (inclusive acho que merecia sim um alerta para pessoas fotossensíveis), mais barulho e muito mais destruição. Além da Terra Oca a turnês dos titãs passa pela Espanha, Itália, França, Egito e Brasil. Foto: Divulgação Exagero é a senha pra essa ficção científica. Tudo veio carregado em relação ao anterior, mas nem tudo é essencial (na verdade nem o filme é necessário, mas sigamos). Alguns dos novos monstros estão aqui só para fazer o roteiro render e em nada somam ao texto. As escolhas estéticas também são conflitantes, hora com matizes claras, hora com neons foscos, hora efeitos bem renderizados, hora composições pra lá de cafona. Até mesmo a importância dos personagens parece desbalanceada, sendo o Godzilla um coadjuvante da história principal do Kong. A produção toda imprime um desequilíbrio causado pelo excesso. De tudo. Assisti recentemente à questionável comédia A Bolha (2022) que conta sobre uma equipe de um filme que se reúne durante a pandemia do coronavírus e se isolam para a gravação do sétimo capítulo de uma franquia de filmes de dinossauros. Entre piadas boas e péssimas e ideias que com certeza funcionaram melhor no papel do que na execução, uma das alfinetadas mais certeiras são os personagens do longa a ser filmado e suas falas clichês, suas motivações sem fundamento e resoluções abertas. Pois bem, temos em Godzilla e Kong: O Novo Império os exatos mesmos personagens num contexto de narrativa quase igual ao filme fictício de A Bolha e infelizmente não tem a menor graça. Pelo menos dessa vez os humanos não disputam espaço em cena com os monstros e são reduzidos a pontos de apoio para as bestas gigantes. Depois de uma produção bem filmada, bem escrita e bem amarrada como Godzilla Minus One (2023) é até irônico ver tanto dinheiro empregado numa obra que quer ganhar seu público falando alto e dizendo nada, literalmente no grito. Mesmo como diversão descompromissada falta essência para fazer peso no fundo da memória, porque como espetáculo visual ele cumpre seu papel, mas disso Hollywood já tá cheio. Nota: 2,5/5

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