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- Crítica | Tetris
Filme aposta no absurdo da realidade para se distinguir num mar de biografias semelhantes Foto: Divulgação De todas as abordagens que um filme sobre Tetris poderia ter, um thriller político certamente era uma das últimas que eu tinha em mente. A princípio, tal abordagem parece até uma escolha deliberada do longa para se distinguir da seara de obras biográficas cada vez mais idênticas entre si, com o trailer ainda nos dando a impressão de que assistiríamos uma sátira. Mas não: a despeito de liberdades típicas de quaisquer adaptações, a história real aqui trazida foi sim composta por disputas internacionais por direitos autorais, espionagem, corrupção política e econômica, titãs midiáticos britânicos e o decadente governo soviético nos últimos anos da URSS. Nosso fio condutor por uma trama surpreendentemente tão intrincada é Henk Rogers (Taron Egerton), um designer de jogos e empreendedor holandês-estadunidense que descobre o potencial do Tetris durante uma convenção em Las Vegas e busca então adquirir os direitos do jogo para a Nintendo no Japão, onde mora. Mas ele logo descobre que há um mar de negociações e cessões de direitos autorais que envolvem, dentre outras pessoas, o bilionário britânico Robert Maxwell (Roger Allam) e seu filho Kevin (Anthony Boyle), que logo se tornam seus adversários na busca por esses direitos. Isso faz com que Henk viaje até Moscou para tentar negociar diretamente com o criador do jogo, Alexey Pajitnov (Nikita Yefremov), mas não tarda para os dois homens se verem como alvos da KGB e de agentes e políticos corruptos do governo de Gorbachev. A despeito do tom de sátira que o material de divulgação passava, Tetris é um filme surpreendentemente sério e até tenso, conforme mergulha nos meandros dessa trama que se torna cada vez mais complexa. Há alguns momentos mais lúdicos que remetem ao próprio jogo, como as passagens de “fases” dentro do roteiro ou as transições de cenas e até mesmo uma perseguição em 8 bits. É uma pena que esses recursos não sejam mais explorados do que poderiam, de modo que suas inserções acabam sendo quebras na sobriedade que a trama tenta trazer — bem-vindas, mas causando um certo desbalanceamento. Foto: Divulgação Chega ser paradoxal, portanto, que o filme ainda assim consiga exalar tamanho absurdo mesmo quando sóbrio. A trama quase labiríntica, permeada por negociações e traições, pode fazer o espectador se perder em alguns momentos, mas isso não acontece por causa do calor que irradia da atuação de Egerton como Rogers. Ainda que o roteiro não chegue a explorar seu lado ambicioso e obsessivo afora uma única cena envolvendo sua família, o ator traz à tela um homem que deseja fazer a coisa certa mesmo no emaranhado conspiratório no qual se envolve. Contudo, ao focar seu protagonismo em Rogers, o filme acaba sacrificando um certo espaço que poderia ser dado a Alexey, de modo que demora para que compremos o vínculo deles dois. Aliás, é quase cômico que Rogers seja não um “white savior”, mas um “capitalist savior” que tem as melhores das intenções em fazer Alexey rico. Poucas vezes vi um filme tão descaradamente anticomunista, repetindo os mesmos chavões que já vimos em outras obras ambientadas na URSS ou que tragam os russos como antagonistas: a ausência de liberdades e direitos, a corrupção e degradação da máquina estatal soviética, os russos bonzinhos que só querem escapar da ditadura comunista, a fotografia cinzenta e opressiva, etc.. Nada sutil em meio ao cenário anti-Rússia que vivemos, e me pergunto se algum dia os EUA descobrirão que a Guerra Fria já acabou. Se o espectador for capaz de deixar esse olhar crítico para o anticomunismo exagerado, porém, encontrará uma obra surpreendentemente envolvente e tensa, mas também bastante divertida quando decide mergulhar no material-fonte do jogo, ou quando reconhece que a história adaptada é tão absurda que não se deve julgar quem achar que ela é fictícia. Embalado pela trilha sonora deliciosamente synth-pop de Lorne Balfe (com direito a versões em japonês de hits pop dos anos 80 como Holding Out For a Hero), Tetris é um daqueles casos onde a realidade supera tanto a ficção que o filme quase não lhe faz jus. Ainda assim, ele merece créditos por saber que dá para extrair dessa realidade material interessante o suficiente (e com uma execução atraente) para se distinguir em meio à produção fordista de biografias que domina Hollywood atualmente. Nota: 3,5/5
- Crítica | Você (2ª temporada, parte 2)
Como confiar em um narrador não confiável? Foto: Divulgação Após o lançamento da primeira parte da quarta temporada de ‘Você’, a Netflix termina mais um capítulo da história de Joe Goldberg (Penn Badgley) com a adição de cinco episódios finais, repletos de reviravoltas cronológicas. Nesse âmbito, tentando surpreender o seu público e corrigir alguns erros de coerência narrativa, a produção explora um artifício divisor de opiniões – a estratégia do narrador não confiável. Com o fim da primeira parte, enfim descobrimos quem é o “eat-the-rich killer” e também stalker de Joe nas horas vagas. Essa revelação não causa alívio algum para Goldberg, visto que as ameaças e invasões soturnas ao seu apartamento continuam constantes. Ademais, o seu pedante romance com Kate (Charlotte Richie) teve de ser temporariamente interrompido diante do caos dos últimos acontecimentos da série. Um pouco mais tarde, recebemos uma informação que transforma a temporada por completo. Surpreendentemente, as sequências explicativas operam de forma positiva, conseguindo prender o seu espectador de uma forma que a primeira parte não estava conseguindo com muito sucesso. No entanto, me incomoda um pouco quando algum produto midiático priva a audiência de informações e, logo em seguida, traz uma reviravolta que não poderia ter sido antecipada. Esse tipo de dinâmica – a de restringir o acesso do público a cenas primordiais – quando feita sem cuidado, acaba soando caricata demais. Foto: Divulgação Ao longo da temporada, nós temos sim alguns mínimos indícios do que está realmente acontecendo. No entanto, depois de uma exaustiva sucessão de eventos bizarros, como desmembrar corpos em uma serraria (sem ser notado) e provocar explosões em milionárias casas de veraneio, acabamos um pouco exaustos do exagero. Elucidando também algumas qualidades, o rumo tomado pela série não é de todo mal. Alguns conflitos internos de Joe são abordados de maneira interessante, fazendo com que a audiência possa conhecer um pouco mais sobre como sua mente tenta decidir entre fugir do seu instinto assassino ou simplesmente abraçá-lo de uma vez. Outro aspecto positivo da série é a ótima atuação de Tati Gabrielle como Marianne. Tenho dito que grande parte do terror construído neste final de temporada se dá em função da brilhante performance da atriz. Em conclusão, ao fim do último episódio da quarta temporada, temos um Joe mais maníaco e violento do que nunca. Em meio a tantos voice overs e longos monólogos, a quinta e última temporada de ‘Você’ terá que enfrentar o desafio de encontrar um desfecho prático e racional para a história de Joe. De fato, acredito que essa é a única saída para que a série consiga dosar os seus absurdos e cansativos excessos. Nota: 3/5
- Crítica | Raquel 1:1
Um longa repleto de alegorias onde o delírio febril parece ser o sintoma de uma transformação Foto: Divulgação É difícil dizer o que consegui pensar após assistir ao filme. Necessito tempo de fermentação, por assim dizer, e se possível, entrar em contato com o objeto mais de uma vez. E depois outra vez. E outra. É certo sim, claro, que algumas obras conseguem captar minha atenção precária e tão dispersa de modo violento e repentino, mas, em sua (ou em minha) maioria, o exercício da percepção é sempre árduo, e acompanhado de repetição. Assim que quase sempre acontece, e desta vez não foi diferente. Em seu primeiro longa de horror, Mariana Bastos, diretora e roteirista, nos oferece a história de Raquel (Valentina Herszage), uma jovem que volta a viver com o pai (Emílio de Mello) numa pequena cidade do interior, após perder a mãe brutalmente num crime de feminicídio. Como sugere o título, a ligação é nítida com inícios e a religião cristã, que é onde a jovem se refugia. É completamente natural que após eventos traumáticos, as pessoas procurem a fé, ou outros mecanismos com os quais consigam lidar com perdas e traumas. Raquel é, inicialmente, bem acolhida pelo grupo das jovens, a célula da igreja local, e logo se enturma. Em uma destas células, Raquel se vê diante das palavras retrógradas da Bíblia escritas em outro contexto e tempos sendo aplicadas para uma sociedade com novas necessidades e entendimentos a respeito do ser humano, questiona a validade daquelas palavras e, naquele momento, a sua via crucis começa. Foto: Divulgação Já em seus instantes iniciais, o roteiro de Raquel 1:1 define bem o caminho que a narrativa fílmica explorará quando evidencia a questão do feminismo, do conservadorismo cristão, da violência contra a mulher, e da habitual rebeldia juvenil, que neste caso é mais que bem vinda. Uma cena que parece dar o start à inquietação e inconformidade começa com um pesadelo com sintomas febris, onde Raquel delira, balbuciando palavras. Um destaque positivo é a naturalidade da atuação de Valentina Herszage que, confortável, desempenha a limiaridade que se espera de uma jovem com traumas, esperanças e fé, tudo isso em meio à adolescência, o período mais agridoce e conturbado da vida de qualquer pessoa. (Se você ainda está passando por ela, desejo boa sorte.). A força do olhar que ela demonstra estar sempre entre a candura e a loucura, reforçam o sentimento ambíguo que se deseja retratar. Uma menção ao ator Emílio de Mello que entrega um pai racional e cuidadoso, que cuja relação com a protagonista se nota (ou se intui) um tanto estremecida. O longa também acena para elementos surrealistas e técnicas que compõem o gênero do horror, mas ao despir o gênero, os elementos e a estética - e esta é uma cinematografia que preza por cores específicas, remetendo ao universo sacro da pintura, como na cena final - no centro da trama está uma história de amadurecimento. Como se diz dentro de uma corrente de estudo da literatura, forma é conteúdo; e quando as alegorias ornam o filme quase como easter eggs - seja o quadro pendurado na parede, ou o enorme terço dentro de casa, ou até a simbologia da pedra: morte e vida, perda e revelação - também cumprem a função de contar a história. Mas, a sensação que ficou comigo, após os 90 minutos, é a de que faltou alguma coisa. Talvez pela duração do filme? E se tivesse sido mais longo, teríamos a oportunidade de ver o desenvolvimento maior da personagem Laura, interpretada por Eduarda Samara, que permaneceu ao lado de Raquel desde a pequena ignição de mudança? Teríamos visto um pouco mais da descoberta de si de Raquel? Ou talvez estas questões eram intencionais? Perguntas respondidas ou não, Raquel 1:1 vence quando mostra com beleza e sutilidade que toda e qualquer mudança começa silenciosa e febril, como uma pequena chama. Nota: 3,5/5
- Crítica | Querido Edward (1ª temporada)
A série tem boas intenções, mas peca pelo excesso Foto: Divulgação Baseada no livro homônimo de Ann Napolitano, a série conta a história de Edward (Colin O’Brien), um menino de 12 anos que é o único sobrevivente de um acidente de avião. Enquanto ele e outras pessoas afetadas pela tragédia tentam entender o que aconteceu, amizades, romances e conexões são formadas pelo grupo de enlutados que passa a se reunir para que tentem superar o trauma. Edward passa a morar com sua tia Lacey (Taylor Schling) e o marido dela, John (Carter Hudson). Os dois tentam esconder dele as inúmeras cartas que ele vem recebendo de toda parte dos Estados Unidos para que ele não se sinta ainda mais pressionado com o fardo. A série começa muito bem, eu diria. Os dois primeiros episódios são bem dramáticos, mas diante da situação, imagino que não teria como ser diferente. Ambos escritos por Jason Katims, que atua como showrunner e foi o primeiro nome que me chamou atenção na produção por ter sido um dos principais roteiristas da espetacular ‘Friday Night Lights’ e o criador da ótima ‘Parenthood’. Katims sabe emocionar, ainda que use artifícios conhecidos, como os flashbacks das vítimas que conseguem despertar empatia em quem assiste. Seguindo essa narrativa não linear de início, a série não tem vergonha de se assumir um dramalhão e algumas cenas, ainda que apelativas – como a da queda do avião – emocionam, bem como a descoberta dos familiares sobre o que aconteceu. Então, pelo menos durante esses momentos iniciais, você assiste ciente que vai se comover, afinal é uma história sobre luto e perdas irreparáveis e é isso que ela te entrega. No entanto, a partir do terceiro episódio, os maiores problemas da série começam a tomar forma. São dez episódios no total, dos quais, uns quatro não precisavam existir. Mas existem porque são DEZESSEIS atores no elenco principal para o roteiro dar conta. Quem se destaca desde o início é Connie Britton, que faz fútil Dee Dee. Foi outro nome que me chamou atenção e ela é, de fato, a personagem mais interessante. Britton interpretando uma mulher supérflua não é novidade, assim como sua trama, mas o talento da atriz é tanto, que ela caminha com facilidade pelo humor e pelo drama. Talvez seja por isso que sua história empolgue mais do que tantas outras que somos obrigados a acompanhar. O núcleo central vai se tornando cada vez mais enfadonho à medida que Edward vai se rebelando. É compreensível pelo trauma que ele passou e pela idade que ele tem, mas com o passar dos episódios os desdobramentos vão se tornando cada vez mais repetitivos, e outros, que poderiam significar algo ficam perdidos, como por exemplo, Edward lembra do pai apenas no episódio 8 e pouco o menciona anteriormente, enquanto conversa sempre com o irmão e constantemente pergunta da mãe à tia. Foto: Divulgação Como eu já disse, são vários personagens, e eles vão tomando conta da tela com seus enredos chatíssimos. Não vou citar todos especificamente, porque realmente são vários e não valem a pena. Tem uma trama política, tem duas traições, tem gravidez inesperada... E só de citar essas tramas, você já sabe exatamente o que esperar delas. Falta carisma nos nossos “heróis”, os quais o roteiro luta para dar alguma profundidade, mas falha bastante com um desenrolar pra lá de previsível, o que faz com que eu pouco me importe com eles. Os personagens contracenam bastante, mas nunca estabelecem conexões realmente fortes. A série quer passar essa impressão, mas também deixa a desejar. Não há a sensação de que aquele grupo que se reúne naquela igreja realmente precise um do outro, a não ser em alguns casos particulares, mas não como um grupo de fato. A impressão que fica, é que eles se gostam, mas nada além, ainda que eles se refiram como “família” no último episódio. Palavras são poderosas, mas há certas coisas que precisam serem mostradas para serem críveis. No penúltimo episódio, Edward acha as cartas e foge desnorteado. Mais uma vez parece algo que já vimos. As tais cartas que o título faz referência, servem principalmente para deixar um gancho para uma possível 2ª temporada e é por isso que eu tenho me referido à produção como série, e não minissérie como eu achei que seria. Caso seja renovada, provavelmente não estarei assistindo. Sabe aquele sentimento de “essa reunião poderia ter sido um e-mail?”, ou sendo mais específico, essa série poderia ter sido um filme. Eu sei que o intuito é mostrar uma grande tragédia e a extensão da vida durante o luto e após, mas é necessário que haja histórias e personagens que sustentem isso por dez episódios e nem todos conseguem. Há excesso de personagens, há excesso de episódios, há excesso de tramas paralelas, há excesso de melodrama. Enfim, excesso não falta, o que falta é um filtro para que o que há de bom na série seja espremido. É um diamante muito bruto, que precisa de muita lapidação para que justifique sua existência e não seja só mais uma no mar de opções que temos para assistir hoje em dia. Nota: 2,5/5
- Crítica | O Agente Noturno (1ª temporada)
Sem revolucionar o gênero, série empolga por sua trama ágil e seus personagens carismáticos Foto: Divulgação Há um ano, o agente do FBI, Peter Sutherland (Gabriel Basso), encontrou uma bomba em um vagão de um metrô e conseguiu salvar a vida de vários passageiros. Hoje, ele tem a função de monitorar uma linha de emergência noturna que nunca toca. Quando o rapaz finalmente atende uma ligação, uma moça chamada Rose (Luciane Buchanan) está do outro lado da linha implorando por socorro. Agora, os dois estão envolvidos em uma grande conspiração onde há um infiltrado na Casa Branca. Eles não fazem ideia em quem podem confiar, só sabem que agora terão que lutar por suas vidas e encontrar a verdade. De início, já nos questionamos o porquê de Peter ser relegado a uma, aparentemente, irrelevante função, depois de um grande ato heroico. A cena do ato em questão é a primeira da série e já diz a que veio, construindo muito bem a tensão até chegar ao clímax. Ditando o ritmo que veremos pelos nove capítulos seguintes, é assim que Shawn Ryan deixa sua assinatura nos dois primeiros episódios que são escritos por ele. O roteirista atua como o showrunner da série e foi o fator principal que me chamou atenção nela. Ainda que não tenha o grau de complexidade da excelente ‘The Shield’ – que também foi criada por Ryan – por exemplo, ‘The Night Agent’ não economiza sua história, mas mostrando o experiente escritor que é, Ryan não está interessado em apenas nos encher de viradas na trama, porque ele sabe que há de se investir em personagens para que o todo funcione. Eu gosto como esses personagens vão sendo apresentados porque parecem enredos desconexos, mas em determinado ponto as tramas se cruzam. É necessário que conheçamos aquelas pessoas para o que quer que aconteça com elas gere uma comoção mais genuína e quem assista se importe com isso, principalmente em tramas onde há um perigo constante. Me afeiçoei aos dois protagonistas. Peter é jovem e muito me agrada como a série mostra que ele não tem aquela experiência de tantos outros agentes que já vimos que se safam de qualquer situação. Ele consegue, mas não facilmente. Rose é destemida, impulsiva e claro, não possui treinamento algum, mas age sempre que necessário e eu curti bastante isso. Obviamente eles se envolvem romanticamente e têm uma boa química. A construção do casal vai acontecendo junto com o desenvolvimento individual de cada um, na medida certa, sem que Rose esteja lá somente para ser o par do protagonista como é habitual em produções do gênero. Foto: Divulgação À princípio, Peter confia na Chefe de Gabinete da Presidenta, Diane Farr, interpretada pela sempre fantástica Hong Chau, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por A Baleia. Foi ela que o propôs sua nova função e desde então é a quem ele mais responde. Com exceção da peruca horrenda da personagem, ela é um dos pontos mais interessantes da série porque sempre paira uma dúvida no ar sobre de que lado ela está. Outros personagens com bastante relevância são Chelsea (Fola Evans-Akingbola) e Monks (D.B. Woodside), agentes do Serviço Secreto encarregados da segurança particular de Maddie (Sarah Desjardins), filha de alguém importante no Governo, que eu não vou dizer quem é porque há um pequeno mistério sobre. É por causa deles que eu mencionei “enredos que parecem desconexos”. Mas não se enganem. É uma série enxuta, e se eles aparecem é porque existe uma razão. O saldo final é extremamente positivo. Há inúmeros filmes e séries com a mesma temática de uma grande conspiração envolvendo Washington DC, e esse é mais um exemplo. Dos bons, felizmente. É baseada no livro de Matthew Quirk – o qual eu não posso comparar porque não li, confesso – e tem tudo o que se espera. Mas o que vale é o modo como as coisas são executadas. A série não tem pretensões de revolucionar o gênero, portanto ela é honesta na sua proposta com drama e reviravoltas bem elaboradas, ainda que algumas previsíveis, mas necessárias para a narrativa. E claro, cenas de ação de tirar o fôlego, tiroteios e perseguições muito bem dirigidos e lutas corpo a corpo tão bem coreografas que te deixam pasmo com a verossimilhança. O entretenimento é garantido nesta temporada viciante e, às vezes, é só o que a gente precisa. Só há um livro, pelo que pesquisei, e o último episódio pode funcionar tanto como um final de série quanto de temporada. Estou muito satisfeito, mas acho que mais histórias poderiam ser contadas com esses personagens. Se forem, estarei acompanhando. Nota: 3,5/5
- Crítica | Falando A Real (1ª temporada)
As nuances bem-humoradas entre dor, amor e luto Foto: Divulgação A união da comédia ao drama já é uma técnica centenária utilizada por diversas formas de arte. O objetivo da chamada “dramédia” é proporcionar ao seu público aquele velho sorriso de canto, mesmo quando a vida não contribui com esse processo. É com essa noção em mente que a nova série do Apple TV+, Falando a Real, consegue prender a atenção do seu público e entregar uma sequência de episódios leves e divertidos, mesmo quando o seu tema central gira em torno de um medo unânime – perder quem nós mais amamos. A série conta a história de Jimmy (Jason Segel), um psicólogo que está enfrentando um luto profundo após a morte repentina de sua esposa. Sobrecarregado e buscando uma forma de escapismo através de álcool e drogas, Jimmy também não está sendo o pai mais presente para Alice (Lukita Maxwell), sua filha adolescente, o que acaba provocando um afastamento brusco entre os dois. Enquanto realiza um dos seus atendimentos, Jimmy simplesmente foge das regras e resolve “falar a real” para os seus pacientes, adotando algumas formas nada convencionais, ou profissionais, de orientar o processo terapêutico. Foto: Divulgação Talvez o que seja o grande diferencial de ‘Falando a Real’ é a sua autenticidade ao trazer os dilemas de Jimmy acompanhados dos vários conflitos que os seus pacientes estão enfrentando. O cuidado que os criadores Bill Lawrence, o próprio Jason Segel e Brett Goldstein tiveram ao construir um seriado melancólico, porém esperançoso, foi essencial para trazer o tom mais adequado para a obra. Ao passo que a série traz a sensação de nostalgia de algumas sitcoms mais antigas, o seu roteiro é tão atual e provocativo que o telespectador não pode evitar a sensação de estar vendo algo novo. No mais, dentre as coisas que chamam atenção na produção, a química do ciclo principal de personagens é a mais relevante delas. A dinâmica de Jimmy com Gaby (Jessica Williams) e Paul (Harrison Ford), respectivamente sua colega de trabalho e seu superior, possui um timing cômico rápido e, muitas vezes, até elegante. Além disso, o arquétipo mentor-pupilo funciona muito bem entre Ford e Segel – é irresistível acompanhar o crescimento pessoal dos dois ao longo da temporada. Concluindo, Falando a Real é um acalento para tempos difíceis. De fato, escrever uma comédia sobre perda é uma tarefa complicada, visto que há uma linha tênue entre o olhar otimista e o irrealista. Mas, é com um certo prazer que recomendo Falando a Real como uma série que cumpre com os seus objetivos – nos divertir, emocionar e, acima de tudo, acreditar que há uma luz no fim do túnel. Nota: 4,5/5
- Crítica | Shazam: Fúria dos Deuses
Genérico e superficial, filme falha ao apostar na mesma fórmula do seu antecessor Foto: Divulgação É mais do que notório que as sequências são algo que Hollywood aposta desde o início dos blockbusters. Se fez sucesso, as chances são altíssimas de um filme virar franquia, principalmente se for o caso de um universo compartilhado, como é (ou era) o DCEU. Mas, será que valeu a pena trazer Shazam: Fúria dos Deuses à vida? Neste filme, acompanhamos os eventos após o primeiro longa. Billy Batson (Asher Angel) e seus irmãos ainda estão aprendendo a conciliar a vida adolescente com os alter egos de super-heróis adultos. Quando um trio vingativo de deusas antigas chega à Terra em busca da magia roubada delas há muito tempo, Shazam (Zachary Levi) e seus aliados são lançados em uma batalha por seus superpoderes, suas vidas e o destino do mundo. O roteiro aqui tentou reproduzir exatamente a mesma fórmula do primeiro filme: um humor “pastelão”, mas que consegue agradar algumas pessoas de certa forma, além de uma jornada de redenção do protagonista que não se sente digno de ter o poder que recebeu. Mas, por trazem novos personagens para a trama, a história permanece superficial, deixando de lado alguns aspectos que poderiam ajudar a fazer tudo ter mais sentido. Foto: Divulgação Apesar disso, o elenco, que é muito bom por sinal, tenta trabalhar com o que tem em mãos. Zachary Levi nunca foi conhecido por uma boa atuação, mas ele consegue entregar alguns momentos que tocam o espectador. Porém, toda a emoção construída no terceiro ato vai por água baixo quando a história é simplesmente resolvida com a aparição de uma super-heroína muito conhecida. A impressão que se dá é que não houve muito esforço em entregar algo original ou relevante para os fãs que acompanham o universo da DC. Diferente do primeiro, que foi um respiro em meio a tantos outros filmes que batiam na mesma história, este aqui não consegue sair da sua própria fórmula. Shazam: Fúria dos Deuses é uma oportunidade perdida da DC em se reinventar e pensar fora da caixa. Mesmo com cenários interessantes, um CGI não tão duvidoso, o filme se perde dentro de si mesmo e não final traz uma história confusa, que pode até agradar alguns, mas que não traz nenhuma mudança significativa para o DCEU de hoje. É um filme divertido, mas só isso. Nota: 2,5/5
- Crítica | Creed III
Michael B. Jordan oferece novas possibilidades à icônica franquia Foto: Divulgação Poucas franquias definem tão bem a expressão “em time que está ganhando não se mexe” como Rocky. Ela é norteada por uma fórmula bem definida, simples e previsível — um protagonista azarão de bom coração que enfrenta adversários poderosos nos ringues do boxe —, mas graças ao seu carisma e charme conseguiu se elevar para além do lugar comum para entregar uma série de filmes memoráveis, até mesmo os seus mais fracos. A aplicação dessa fórmula se estendeu para sua franquia sucessora Creed, mesmo com o foco migrando de Rocky Balboa (Sylvester Stallone) para Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do seu falecido ex-rival e amigo Apollo Creed (Carl. Weathers). Na superfície, Creed III não parece divergir muito dessa fórmula, entregando vários dos pontos que já vimos nos filmes anteriores — mais especificamente, Rocky III. No entanto, o filme ao mesmo tempo aponta para novas direções que a franquia pode tomar, principalmente em sair da sombra da franquia-mão. Isso é ainda mais evidente pela notória ausência de Balboa (embora mais por divergências nos bastidores do que por uma real necessidade de tirá-lo de cena) e uma maior e mais autônoma exploração do próprio Creed, que se vê forçado a confrontar seu próprio passado pelo retorno de Damien “Dame” Anderson (Jonathan Majors), um velho amigo da infância e adolescência que passou décadas preso após um crime no qual os dois estiveram envolvidos e agora quer voltar aos ringues para sagrar-se campeão. Ainda que jamais tenhamos ouvido alguma menção a Dame nos filmes anteriores, sua inserção aqui soa orgânica, e, mesmo que o personagem possua uma clara função narrativa — de catalisador de conflitos entre Creed e sua família e seus negócios —, ele é alavancado por uma performance poderosa de Majors, um dos meus atores favoritos da atualidade. Diferente de outros antagonistas vistos nas obras anteriores, o filme e o trabalho de Majors dão espaço suficiente para entendermos as motivações e nos colocarmos no lugar do personagem, que se revela talvez o antagonista mais notável e complexo que a franquia já teve, mesmo com o arco ligeiramente previsível que recebe. Sua química com Jordan consegue construir toda a história de fundo desses personagens, a camaradagem que um dia existiu e a rivalidade agridoce que é construída até culminar na luta final. Foto: Divulgação Ao mesmo tempo, o roteiro de Keenan Cogler (primo de Ryan Coogler, diretor do primeiro Creed) e Zach Baylin também busca olhar a vida doméstica de Creed, permitindo que figuras como sua esposa Bianca (Tessa Thompson) e sua filha Amara (Mila Davis-Kent) não sirvam apenas como acessórios para a evolução do protagonista, mas existam como personagens em seu próprio direito. Aliás, o interesse de Amara pelo boxe não apenas prenuncia um futuro para a franquia, como também abre espaço para vermos as lutas internas de Adonis e como elas se expressam nas lutas externas dele, apontando até mesmo para uma breve discussão sobre masculinidade negra e violência nas figuras dele e de Dame. Jordan, que tem aqui sua estreia na direção, pode não entregar um trabalho do calibre de Coogler em Creed, mas faz um trabalho notável que aponta para um futuro promissor atrás das câmeras. Ele e o diretor de fotografia Kramer Morgenthau conseguem trazer uma sensação distinta para as lutas, assumindo uma câmera que é mais frenética e nervosa, mas que nos permite sentir cada golpe e soco. Além disso, sua declarada inspiração nos animes shonen é facilmente sentida, especialmente na fantástica luta final, que deve figurar como uma das melhores da franquia, não só pela violência exibida, mas pelo impacto emocional conferido aos personagens, adotando até algumas escolhas estilísticas que fogem do padrão para Rocky/Creed, mas que se encaixam perfeitamente aqui. Creed III não necessariamente reinventa a roda, mas consegue ser o primeiro filme na franquia que demonstra sua capacidade de andar com as próprias pernas sem estar em constante débito com Rocky. Ainda que a ausência de Rocky Balboa não seja plenamente justificada, é um prazer ver Adonis Creed assumindo cada vez mais o papel de protagonista — e no caso de Michael B. Jordan, esse protagonismo é duplo, já que seu trabalho à frente e atrás das câmeras mostra que sua paixão e dedicação por essa franquia pode levá-la a novos e fascinantes lugares. Nota: 4/5
- Crítica | Close
A pureza da arte na dor e na tragédia Foto: Divulgação Enquanto crianças, quando há liberdade e às vezes sorte, somos instigados e entregues à fantasia e à imaginação, onde o mundo é aquilo que fazemos dele e nada em nossa volta tem força o suficiente para colidir com nossos ideais. Nesse curto espaço de tempo, em comparação com o restante da nossa estadia na terra, não precisamos nos preocupar com questões mundanas e supérfluas, e apenas nos entregamos àquilo que nos apraz. No entanto, há um período na vida humana, ali pelo final da infância quando entramos na puberdade, em que nos tornamos mais suscetíveis aos deslumbramentos por novas descobertas e onde as reações ao redor começam a nos afetar de maneira mais profunda e até perversa, em boa parte das vezes, onde passamos a ter mais consciência de como é o convívio em sociedade e, pela inexperiência, acabamos sendo afetados de formas que não podemos controlar nossas próprias condutas. Quando se sai do seu ambiente de conforto em que pode ser livre para agir como te agrada, e cai em um local novo onde não há o costume de ver suas ações com a mesma naturalidade que você mesmo, tudo muda de figura, independente do quão satisfeito seja com seu jeito de viver. Existem diversos preconceitos enraizados na sociedade que são disseminados já no início das nossas vidas, e fazem com que algumas pessoas o repassem adiante em decorrência de ver algo diferente daquilo que se tem convívio diário. Se tratando de pessoas que crescem longe da heteronormatividade, essa estranheza se eleva mais e tudo é encarado de forma torta e enxergada com certa maldade, e assim se cria um mundo em que não pode haver proximidade sincera e desprovida de interesses terrenos e corrompidos entre dois garotos. Foto: Divulgação Close, dirigido por Lukas Dhont, que o escreveu juntamente a Angelo Tijssens, nos apresenta Leo e Remi, dois pré-adolescentes que cresceram juntos num local mais afastado da zona urbana e iniciam juntos a vida numa nova escola. Longe dos olhares maliciosos, os dois garotos têm uma relação de cumplicidade em que compartilham o mundo um do outro sem qualquer ressentimento ou intenções secundárias. A introdução do longa nos mostra uma ambientação de segurança e inocência entre os dois, em que nada parece afetá-los e onde ambos demonstram ser o que podem ser naquele momento, sem qualquer pressão ou cobrança social, ou familiar. São apenas dois garotos coexistindo juntos. Contudo, quando os dois são levados a um novo ambiente escolar, as percepções vão se alterando para ambos, que com a exposição a fatores externos, tornam-se mais sensíveis às reações de seus semelhantes. Enquanto um se fecha, o outro se machuca por não ter a mesma recepção ao que se é dito ou feito. O roteiro nos permite permear pela história dos dois e apreciar a sutileza de como tudo acontece. Não há necessidade de atos exagerados ou uso de palavras explícitas para que seja compreendido o que se passa em tela, são os detalhes que nos causam toda a dor e nos permite sentir cada emoção que aqueles personagens estão sentindo. Eden Dambrine e Gustav de Waele, responsáveis por interpretar Leo e Remi, respectivamente, nos entregam atuações com naturalidade e também uma força magnética. Ambos demonstram aptidão para repassar os sentimentos que seus personagens precisam expor, que nos deixa em suspense e nos leva a crer que aquilo ali é tão real que não podemos ter outra reação a não ser a de sentir um doloroso aperto no peito. Foto: Divulgação Somado a uma fotografia singela, locações belíssimas e uma trilha sonora tímida, mas reconfortante, temos uma obra que foi pensada do início ao fim com o propósito de emocionar pela simplicidade. Lukas Dhont tem uma mão pesada e, ao mesmo tempo, suave sobre como dirigir as cenas, e entrega um trabalho muito bem feito que não se perde em nenhum instante. Todo o foco está no enredo e nas emoções, e não há sequer um instante em que isso não é notado, desde o ato mais simples de um sorriso ao desespero da dor e da perda. É um trabalho tão suntuoso que, após assistir, se passarão meses e ele ainda ficará marcado nas lembranças e ainda estaremos o digerindo como se o tivéssemos visto horas atrás. A magia dele também está em conseguir reproduzir com exatidão a vivência de milhares de garotos que crescem precisando se resguardar para não sofrerem. Ele explora a dor em diversas nuances e em diversos sentidos da palavra, não poupa seus personagens e nem o público, é um soco certeiro até no coração mais duro. Ao mesmo tempo, é também uma obra de arte linda que encanta pelo seu visual, sua magnitude e pela sua execução. É um filme pensado para te fazer querer passar horas e horas absorvendo e falando sobre ele enquanto também lhe tira todas as palavras. É reflexivo, bonito, bem feito, mas acima de tudo, doloroso. Nota: 4,5/5
- Crítica | Triângulo da Tristeza
O meme da “crítica social f***” em divertidos – e às vezes sofríveis – 147 minutos Foto: Divulgação Crítica social e cinema andam juntos desde cedo. O audiovisual é um recurso excelente para expor contradições e injustiças da vida contemporânea para um grande número de pessoas de maneira provocante e atraente, sendo essa temática responsável por alguns dos melhores e mais icônicos filmes da história. Nos últimos anos, mais especialmente desde o fenômeno de Parasita (Bong Joon-ho, 2019), uma versão específica dessa crítica tem se popularizado: a narrativa eat the rich, isto é, uma tentativa de retaliação contra a burguesia, seja apontado a podridão da classe, seja projetando uma vingança aparentemente legítima nos personagens da trama. The White Lotus, Entre Facas e Segredos, O Menu e Morte Morte Morte são alguns exemplos bastante atuais dessas histórias – todas elas contadas com um tom satírico que, acertadamente, tem se tornado parte dessa estética, contribuindo para evidenciar os absurdos da vida ostensiva. Recente adição a esse interessantíssimo grupo é Triângulo da Tristeza, triplamente indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro, estes últimos para o sueco Ruben Östlund. O filme estreou em maio do ano passado, em pleno Festival de Cannes, e desde então vem chamando atenção pelo humor ácido e irreverente. Mas existe um limite claro entre a sátira bem construída e um amontoado de esquetes, e Triângulo da Tristeza se arrisca demais entre as duas searas. Foto: Divulgação Dividido em três partes conectadas pelos personagens e não muito mais que isso, o filme começa nos apresentando à tão cobiçada e desconfortável vida de dois jovens e ricos modelos, Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean). Em três sequências de puro desconforto cômico, Carl participa de uma audição bizarra; é solicitado para mudar de assento num desfile, cedendo o privilégio da primeira fila para alguém mais no auge dos 15 minutos de fama que ele; e se vê numa discussão com Yaya que se inicia sobre pagar a conta e termina com o que de fato esse relacionamento tem de lucrativo (em todos os sentidos que essa palavra pode expressar) para ambos. Tudo nesta primeira parte é excelente, do timing da direção e da química entre os atores até o diálogo propositalmente vazio, passando por uma montagem que sustenta o silêncio até quase ficar incômodo. Começa a segunda parte. Carl e Yaya estão num iate, mais posando que vivendo. A esse ponto, já estamos investidos no romance instagramável dos dois e ansiosos para saber onde esse amor funcional nos levará… e aí o filme esquece deles. O foco muda e passa a ser a relação dos excêntricos hóspedes com a tripulação, que subservientemente aceita cada ordem, por mais extravagante e humilhante. Thomas Smith (Woody Harrelson), um comunista declarado que usa o álcool como antídoto para sua contradição de trabalhar para o 1%, é o capitão do navio, que tem como evento de gala um jantar com sua presença. Chegando a hora da tão aguardada cerimônia, com hóspedes em suas melhores roupas e tripulação em melhores sorrisos servis, a embarcação vai ficando mais e mais instável, o que é muito bem representado pela movimentação de câmera mimetizando as ondulações turbulentas. Recapitulando: estamos claustrofobicamente restritos a uma embarcação de médio porte no meio do mar, com pessoas desprezíveis, num movimento oscilante e nauseante. Agoniante o suficiente? Não para Östlund, que acrescenta uma sequência escatológica de uma literal enxurrada de vomito e merda. Foto: Divulgação Aos olhos desta crítica – que deve confessar, tem estômago fraco e nunca foi muito fã do uso do nojo para chocar – é aí que o filme sai da esfera da sátira e entra na do ridículo. É nítida a intenção do cineasta em contrapor a aparência limpa e imaculada da elite com toda a podridão que verdadeiramente tem por dentro, mas o exagero e o absurdo em tudo que permeia essa cena causa muito mais que a repulsa esperada, se tornando quase insuportável de assistir. Mas a sequência é tão longa que, depois que você decide encará-la, ainda dá tempo de se acostumar e, pior ainda, se entediar. Lembro de, sentada na sala de cinema, desejar estar em casa, apertando o botão de adiantar essa que, certamente, foi pensada com a pretensão de ser uma das cenas mais icônicas do ano. As desventuras no iate desembocam na terceira e última parte, com parte dos hóspedes e da tripulação náufragos numa ilha aparentemente deserta. Dinheiro, títulos e seguidores não importam aqui, e os papéis se invertem: agora, quem comanda é Abigail (incrivelmente interpretada por Dolly de Leon), ex-cozinheira da embarcação e única com qualquer habilidade de sobrevivência ali. No maior chavão freiriano, a oprimida passa a oprimir e rebaixar os demais sobreviventes, utilizando comida, conforto e sexo como moeda de troca nesse novo sistema em que ela é a capitã, talvez para dar o troco… ou talvez porque todo ser humano é mesmo podre. O Triângulo da Tristeza é equilátero: formado por três partes completamente diferentes – desde a paleta de cores ao ritmo de montagem – unidas por uma temática e alguns personagens que por vezes o próprio filme esquece que tem. Isso não é necessariamente ruim, mas também não é exatamente bom. Ao final, nos resta uma salada (mal digerida, diga se de passagem) de caricaturas e sátiras sociais que querem dizer muito mas não conseguem de fato exprimir nada do que já não tenhamos visto melhor antes. Nota: 3/5
- Crítica | Sra. Harris Vai A Paris
A Sra. Harris é a prova de como a solidariedade impulsiona a realização de sonhos Foto: Divulgação Ao longo da história, a palavra ‘elegância’ já foi atrelada a uma vasta coleção de significados. Pode-se dizer que esse termo era exclusivamente ligado a uma simbologia de status e poder, com o intuito de acentuar a diferenciação socioeconômica entre as classes. Ainda que essa relação se perpetue até os dias atuais, a modernidade trouxe um novo significado para o elegante – a ideia de atemporalidade. É assim que podemos caracterizar a essência da ilustre personagem principal do longa Sra. Harris Vai a Paris, uma comédia simples, bem-humorada e bem sucinta em seus objetivos. Dirigido por Anthony Fabian, o filme em questão, cujo título é bem autoexplicativo, conta a história de Ada Harris (Lesley Manville), uma empregada doméstica dos anos 50, viúva, com um coração de ouro e agora um novo sonho – ter um vestido Dior. Desde que, em uma de suas faxinas, o seu coração clamou por esse desejo, a Sra. Harris decide fazer tudo que está ao seu alcance para ir até Paris e lá, comprar o seu vestido tão sonhado. Felizmente, com muito esforço e algumas idas e vindas de sorte, nossa querida protagonista consegue embarcar para a capital francesa. No entanto, ao chegar lá, o ambiente da alta costura não se mostra disponível e acessível a Ada, que embora tenha trabalhado horrores para conseguir dinheiro o suficiente para comprar o seu vestido, a sua presença ali é inicialmente vista como estranha e inadequada. Há certa relutância por parte da gerente Madame Colbert (Isabelle Huppert) em acolher a Sra. Harris como uma cliente da maison Dior, pelas razões que todos nós já sabemos. Entretanto, é justamente nesta casa de moda que o rumo da protagonista cruza caminhos com o Marquês de Chassagne (Lambert Wilson), com a modelo Natasha (Alba Baptista) e também com o do diretor de finanças Andre (Lucas Bravo), peças fundamentais na estadia de Ada em Paris. Foto: Divulgação Esta já é a segunda adaptação cinematográfica do romance homônimo de Paul Gallico, e, o que o filme de Fabian possui como um grande triunfo diferencial tem nome e sobrenome: a atriz Lesley Manville, que com todo seu carisma, consegue nos apresentar uma Sra. Harris irresistivelmente autêntica. Desde os seus momentos com a melhor amiga, Vi (Ellen Thomas), até às pequenas doses de afeto para com o gentil Archie (Jason Isaacs), Manville consegue colocar a dose perfeita de encanto, sem nunca beirar o caricato. Portanto, logo começamos a perceber que estamos assistindo um conto de fadas disfarçado, que dedilha minimamente sobre questões trabalhistas em uma Paris suja e destoante. Em ‘Sra. Harris Vai a Paris, seus coadjuvantes também fazem um bom papel em dar suporte a história e movimentar a narrativa. Analisando de uma forma mais técnica, é muito curiosa a maneira com que o longa faz com que as mais absurdas coincidências parecerem aceitáveis e críveis, já que realmente estamos situados no pequeno conto de fadas de Ada. Seja pela fotografia inebriante ou pelo figurino impecável, e indicado ao Oscar 2023, diga-se de passagem, da esplêndida Jenny Beavan, tudo contribui para essa plena impressão que estamos vivendo no sonho da Sra. Harris. Em conclusão, Sra. Harris Vai a Paris é um deleite – tudo é extremamente simples, leve e moral. De fato, o destino não tem sido muito amigável para Ada Harris, porém, ela ousa desafiá-lo sendo o mais gentil e solicita possível. Com o filme, extraímos que a generosidade pode nem sempre nos trazer retornos imediatos, porém, demonstrar-se uma pessoa aberta para ajudar o próximo será sempre uma das formas mais nobres de conduzir a vida, mesmo quando ela mesma acaba levando tudo da gente (inclusive um certo vestido especial). Nota: 4/5
- Crítica | Living
Adaptação cativante prova que o carpe diem do Kurosawa segue atemporal e infalível Foto: Divulgação Williams (Bill Nighy) é um funcionário público veterano, e uma peça importante dentro da burocracia de Londres que luta para se reconstruir após a Segunda Guerra Mundial. Williams passa seus solitários dias soterrado em papeladas de seu trabalho, sem qualquer perspectiva de futuro, sem qualquer ânimo para viver e sem qualquer motivação para fazer outra coisa além da sua travada rotina. Após um diagnóstico médico que o faz pensar sobre seus dias restantes de vida, o velho homem busca novos horizontes e novas maneiras de aproveitar suas horas, e entre prazeres e obrigações ele descobre que o grande feito da sua vida ainda está por vir e esteve sempre bem próximo. O roteiro do japonês Kazuo Ishiguro é baseado no filme Ikiru (1952) do aclamado diretor Akira Kurosawa e consegue adaptar com sucesso a história para o contexto inglês pós-guerra. E por mais que o filme de Kurosawa seja um fenômeno de unidade estilística – uma das grandes qualidades do diretor – a adaptação consegue trazer um frescor em relação à obra original. Começando pelas abordagens usadas nos filmes e como se apresentam desde o momento inicial. Enquanto o filme de Kurosawa imprimia uma versão mais pessimista e logo no frame inicial estampa uma lâmina de raio-x exibindo a doença do protagonista, o sensível diretor sul-africano Oliver Hermanus opta por introduzir o enredo principal através de um carismático personagem secundário que, assim como o espectador, vai se aprofundando na história principal à medida em que vai conhecendo os demais personagens. Acho que na verdade esse é o grande triunfo de Living, fazer com que o enredo parecesse mais adorável do que ele realmente é. Ikiru é, apesar de bastante sentimental, uma lição de moral essencialmente pessimista e com várias visões negativas e críticas em relação à sociedade e ao ser humano moderno/pós-moderno. E Living consegue mudar o tom e introduzir mais alívios cômicos mesmo mantendo todas as críticas e pontos de vista negativos. O serviço público é visto como uma grande máquina ultrapassada e enferrujada, o homem é um ser indiferente, e o sistema capitalista não permite que todos gozem dos mesmos prazeres em vida. A sociedade é mecânica, engessada aversa a qualquer mudança, a qualquer tentativa de melhora que fuja do padrão preestabelecido pelo “sistema”. Estamos muito distantes dos anos 50? Foto: Divulgação Hermanus filma de uma maneira precisa e purista com poucos cortes e usa uma estética plástica bem estruturada numa fotografia que trabalha com primor sombras e blocking. A fotografia opera em uníssono com a direção de arte de Helen Scott que mostra uma Londres sisuda e imponente. O filme não é em preto e branco, mas foi filmado com uma paleta bem reduzida, trabalhando quase sempre em tons de branco e cinza para se contrapor com as sombras constantemente presentes. Não menos importante, Bill Nighy está incontestável no papel principal. O ator consegue permear pelos diferentes momentos do filme sem perder o pesar no olhar, sem perder a vaga esperança de que seus finitos dias se prolonguem mesmo sabendo que isso é inevitável. Ao mesmo em que a atuação de Nighy parece ser a peça central de um grande quebra-cabeças, ela também parece ser a imagem que é forma quando todas as peças estão no lugar. Living tem duas difíceis missões: a de mostra sentimento num mundo sem expressões e sem demonstrações e cada vez mais acostumado com isso; e a de remontar um filme de um dos maiores diretores da história do cinema, e o longa se sai muito bem nelas. Não é todo filme que consegue contemplar temas tão universais como a morte, propósito de vida e legado pessoal com tanta graça e com tanta elegância. Nunca é tarde para se debruçar e refletir na velha história do homem que começou a viver quando descobriu que estava morrendo. Nota: 4/5












