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- Análise | The Last Of Us 1x03 ("Long, Long Time")
A beleza do amor e das conexões mesmo em meio ao apocalipse Divulgação: HBO É sempre um desafio para uma série desviar sua narrativa principal em um episódio relativamente auto-contido, com personagens que não seus protagonistas, sem que isso pareça um filler. Mais desafiador ainda é fazer isso ainda no terço inicial da sua primeira temporada, numa obra que, por ser uma adaptação de um dos jogos mais famosos de todos os tempos, é constantemente cobrada pelos fãs da obra original para ser a mais fiel possível. Mas The Last of Us abraça esses desafios e já em seu terceiro episódio entrega o que pode ser um clássico instantâneo da TV. Ainda que vejamos Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey) nos minutos iniciais - com direito a mais um vislumbre do latente e perturbador interesse da garota pela violência -, 'Long, Long Time' não é sobre eles, ao menos não diretamente. É a história de um homem solitário, fechado e paranoico que estava confortável em sua solidão até conhecer o amor de sua vida. Ver Nick Offerman como Bill é simplesmente um deleite, devido à sua composição do personagem - é fascinante a sua linguagem corporal de um homem fechado para o mundo muito antes do apocalipse. É como ver uma versão mais séria e mais ancap do seu icônico Ron Swanson de Parks and Recreation, e o episódio não precisa de muito para mergulharmos no seu mundo particular conforme aproveita os dias iniciais dessa pandemia para obter o máximo de suprimentos possíveis e se isolar de uma vez por todas. É ainda mais poderoso ver sua armadura e suas fortalezas se quebrarem após conhecer Frank (Murray Bartlett), e o que deveria ser apenas uma gentileza a um estranho se converter numa união que atravessa décadas e supera todos os obstáculos possíveis. A montagem é eficaz em costurar os saltos temporais que nos permitem acompanhar a evolução do relacionamento deles (com direito a um breve encontro com personagens que já conhecemos), mas de nada essas costuras adiantariam se Offerman e Bartlett não nos fizessem acreditar que, mesmo em meio ao fim do mundo, um amor como esse poderia brotar e florescer. A forma como o episódio consegue traçar paralelos entre o casal e a jornada de Joel e Ellie é simples, mas poderosa, e a decisão de trazer uma espécie de epílogo após a conclusão da jornada dos dois homens reforça essa conexão entre ambos os pares, algo potencializado pela canção de Linda Ronstadt que dá título ao episódio e ecoa perfeitamente a mensagem aqui passada. 'Long, Long Time' se distingue dos episódios anteriores ao fazer um desvio ousado da narrativa que, no entanto, a amplifica, fechando uma espécie de “primeiro ato” da história de Joel e Ellie e solidificando o laço entre eles. Mais que isso, porém, é a prova de que a série não pretende viver à sombra do jogo, sabendo alterar e expandir onde necessário como toda boa adaptação deve saber fazer, e não apenas seguir à risca a obra original para agradar um nicho. Através da beleza e da sensibilidade da relação de Bill e Frank, a série nos deixa claro que, não importa o mais desolador dos cenários, não estar sozinho sempre nos ajuda a seguir em frente.
- Crítica | Teen Wolf: O Filme
Antigos inimigos e aliados retornam para lutar uma batalha que não justifica sua existência Divulgação: Paramount+ Quando uma fagulha de esperança de que Allison (Crystal Reed) possa voltar a viver, Scott (Tyler Posey) precisa retornar à Beacon Hills para executar um ritual e precisará reunir velhos amigos para isso. O que eles não fazem ideia, é que junto com Allison, um perigoso mal ressurgirá. É essa a sinopse e é bem genérica para fazer jus ao filme. A série em si nunca foi um primor de roteiro, direção ou atributos técnicos, mas por muito tempo sabia entreter e as coisas faziam sentido naquele universo, com protagonistas carismáticos por quem podíamos torcer e nos apegar. Era um “guilty pleasure” honesto e não tinha pretensões maiores. A última temporada foi dividida em duas partes. A primeira trouxe tudo o que fez a gente se apaixonar pela série, mas a segunda entregou uma trama chatíssima e, claro, mal desenvolvida que parecia mais uma extensão de algo que já devia ter acabado. Quando soube do filme, fiquei esperançoso que pudessem dar um final mais digno ao universo do lobo adolescente, mas ledo engano. O principal chamariz era o retorno de Allison. A moça morreu no final da 3ª temporada e isso contou a favor da série. Foi emocionante (aquele grito de Lydia me arrepia até hoje) e mostrou que ninguém estaria a salvo, afinal ela era a protagonista feminina. Foi um movimento ousado que nem toda série do gênero tem coragem de fazer. Séries adolescentes, principalmente as que têm temáticas sobrenaturais, sempre arrumam um jeito de trazer personagens de volta dos mortos, basta o ator estar disponível para retornar. “The Vampire Diaries” era mestre nisso, e até a excelente “Buffy the Vampire Slayer” usou o artifício. Por algum tempo parecia que “Teen Wolf” estava imune a isso, e mesmo com seus tantos defeitos, tivemos mais três temporadas pela frente em que os personagens viveram o luto e seguiram em frente, então por que trazê-la de volta agora? A resposta é um “porque sim” um pouco – ênfase no pouco – mais elaborado. Um ritual que quase não apresenta dificuldade “ressuscita” uma Allison, óbvio, desmemoriada. Ela, convenientemente, só lembra que é uma caçadora de lobisomens e está sendo manipulada pelo vilão da vez, para completar a patacoada. É apenas uma jogada do roteiro para adiar o reencontro da moça com Scott, Lydia (Holland Roden) ou Chris (JR Bourne). Resultado, o filme enrola tanto que mal sobra tempo para nada mais além de alguns abraços rápidos, com exceção de Scott que tem mais alguns momentos com ela. A cena em que ela finalmente relembra do passado é bonita, graças aos flashbacks de cenas da série e ao grito de banshee de Lydia que consegue salvá-la dessa vez. Divulgação: Paramount+ Falando em Lydia, ela sempre foi uma das melhores personagens da série, e sua dupla com Jackson (Colton Haynes) é bacana aqui, traz um alívio cômico válido, mas que nem sempre funciona, porque o texto não ajuda muito. Dylan O’Brien não quis retornar para o filme e quem perdeu fomos nós. Stiles, era um dos pontos mais altos da trama, e não tinha quem não torcesse para o casal ‘Stydia’, como chamavam os fãs. A justificativa para a ausência do rapaz me convenceu, em partes, porque Roden é uma das poucas do elenco que consegue transparecer alguma emoção real em cena. O’Brien fez bem em não retornar, pois poderia correr o risco de ser desperdiçado como tantos outros que voltaram e não serviram para muita coisa além do fator nostalgia, como Shelley Henning e sua Malia, uma das favoritas dos fãs, que serviu apenas para soltar uma tirada cômica ou outra. Seria bom rever Stiles, mas sejamos honestos, sua presença não seria capaz de salvar a trama principal pífia. Estou esquecendo de algo importante? Eu diria que não, já que o fato de Derek (Tyler Hoechlin) morrer se sacrificando não causou qualquer emoção, a não ser decepção. Na luta final, um tanto sem graça, eu diria, Derek acaba segurando o Nogitsune para que Parrish (Ryan Kelley) o queime e acaba se queimando junto, na frente do seu filho adolescente, Eli (Vince Mattis). Com uma direção melhor, a cena poderia até emocionar, infelizmente não é o caso aqui. Me pareceu que, além de encerrar a trama de Teen Wolf com os personagens que conhecemos, Jeff Davis quis introduzir Eli para uma possível continuação da história. Não dá para saber ao certo, além da certeza que minha audiência não terá. O filme não consegue justificar sua existência porque até o “fan service” que entrega não funciona. O fator principal deveria ser a conexão, já estabelecida pela série, que o telespectador tem com os personagens e isso é extremamente mal-usado em 2h20 de duração, sendo esse é o maior desafio que o longa oferece a quem o assiste: conseguir chegar até o fim. Nota: 2/5
- Análise | The Last Of Us 1x05 ("Endure and Survive")
No apocalipse, quem são os heróis e os vilões da história? Divulgação: HBO É no mínimo fascinante a forma com que The Last of Us consegue abraçar clássicos da temática apocalíptica e, ainda assim, se manter tão autêntica e cativante. Com sequências de tirar o fôlego, o quinto episódio da série consegue desenvolver novos personagens, fortalecer a dinâmica de seus protagonistas e conduzir o espectador para um desfecho de cortar o coração. Ainda seguindo a estratégia de voltar ao passado para criar uma maior contextualização do presente, o quinto episódio, em seu primeiro instante, traz a queda da dominação da FEDRA sobre o QZ de Kansas City. Depois de um violento conflito, o grupo comandado pela líder Kathleen (Melanie Lynskey) toma o controle da cidade e não medirá esforços para encontrar os irmãos Henry (Lamar Johnson) e Sam (Keivonn Woodard), os novos personagens em foco deste capítulo. Após conseguirem chegar no esconderijo planejado, Henry e Sam encontram o médico Edelstein e já percebem que não terão comida e suprimentos por muito tempo. É neste pequeno espaço que já percebemos como a dinâmica dos dois irmãos funciona – Henry tenta ser o mais corajoso possível para proteger Sam, o pequeno entusiasta de gibis e super-heróis. Inclusive, a frase de efeito que entitula o episódio, 'Resistir e Sobreviver', é derivada das histórias em quadrinhos do caçula. Os dias se passam rapidamente, a comida está escassa e Henry e Sam não podem esperar pelo médico para sempre. Nós, como visualizadores da série, sabemos que seria uma espera sem propósito. Não há outra solução a não ser sair do esconderijo e tentar trilhar alguma rota que os leve para fora da cidade. É diante desse desafio que acontece o abrupto encontro de Joel e Ellie com os irmãos, cena final do episódio anterior. Depois de dialogarem suas motivações, as duplas chegam a um acordo: irão utilizar túneis subterrâneos para escaparem da guarda de Kathleen, presente nas imediações da cidade. Com a revelação de que Sam sofria de leucemia e necessitava de medicamentos provenientes da FEDRA, Henry confessa a Joel que era um colaborador, ou seja, estava na margem entre as autoridades militares e os revolucionários da oposição. Em conclusão, a morte do irmão de Kathleen foi o preço pelos remédios, o que acabou originando uma verdadeira busca implacável pelos irmãos. Um dos aspectos mais interessantes do episódio 5 é o imediato clique entre Ellie e Sam – duas crianças, nascidas pós surto, que tiveram suas infâncias roubadas pela violência e pelo perigo constante. Essa troca dos dois, além de traduzir muito sobre o background dos personagens, confirma as belas escolhas narrativas de The Last of Us. Por mais que estejamos falando de uma série de ação, o seu foco principal são as relações de lealdade entre aqueles sobreviventes. Acompanhada do constante desenvolvimento de seus personagens, a série consegue ampliar ainda mais o seu universo com a ajuda das ambientações. Neste quinto episódio, enquanto Joel, Ellie, Sam e Henry estão desbravando os perigos dos túneis, eles acabam encontrando um dos chamados assentamentos. Essa riqueza de detalhes em seus cenários trazem informações cruciais sobre como o mundo lidou com o fungo desde o dia do surto, tornando a imersão do espectador ainda mais intensa, seja ele fã ou não do game da Naughty Dog. Ademais, minutos antes do ápice de adrenalina do episódio, a série conclui o raciocínio iniciado por Joel e Henry sobre vilania e heroísmo com uma declaração visceral de Kathleen. Nessa sequência, percebemos de fato que os heróis e os vilões são escolhidos de acordo com o ponto de vista de quem conta a história. Afinal, Kathleen procura vingança por sua perda, Joel persegue a anestesia total de suas emoções e Henry só quer viver para proteger o seu irmão mais novo. Ainda discorrendo sobre a alucinante ascensão dos infectados na superfície, precisamos falar sobre a riquíssima biologia fictícia que envolvem as criaturas de The Last of Us. Neste episódio, vimos pela primeira vez o baiacu, um dos tipos mais raros, perigosos e resistentes dentre os infectados. As caracterizações fenomenais da série ficam por conta de Barrie Grower, também responsável pelos visuais do Rei da Noite, em Game of Thrones (HBO) e do Vecna, em Stranger Things (Netflix). Em seus últimos três minutos, ‘Resistir e Sobreviver’ nos deixa em pedaços. Infelizmente, Joel e Ellie seguem rumo a Wyoming apenas com a companhia um do outro. Agora, nos restam as dúvidas – quais os efeitos das terríveis baixas que Joel e Ellie sofreram nos últimos episódios e quais os limites morais de fazer o que for preciso para sobreviver. De fato, não há como rotular totais heróis e vilões em um mundo pós Cordyceps.
- Crítica | Mato Seco em Chamas
No western distópico de Adirley Queirós e Joana Pimenta, o futuro é revolução e não demora. Divulgação: Vitrine Filmes Você pode não enxergar, mas eu sei que dos olhos de Joana Darc Furtado, temida e conhecida como Chitara, cintilavam as mesmas chamas ardiam pelo chão. Como o poder de uma profecia, ela assiste ao fogo, enquanto duas outras mulheres provam a eficiência da gasolina ao incendiar outro pequeno canto de terra batida. A presença da colônia de motoboys ao redor não intimida nem quando um deles passa uma informação sobre a liberdade de alguém como uma ameaça à liderança dela. Sem hesitação, ela se opõe em poucas palavras: “nós aqui tá se fudendo pra recado de cadeia, parceiro”, e o recado foi dado e compreendido. A resposta, um tímido “pode crer” precede o ruído de adeus dos motores. Nas primeiras impressões, a trama parece se desenrolar em torno dessa gangue composta apenas por mulheres, liderada pela notável Chitara, num ponto clandestino de extração de gasolina. Mas não deixe que a primeira impressão vença a percepção. Neste mundo tudo é real, até a ficção. É na 2ª maior favela do país, lar real de Chitara, Léa, Andréia e Michelle Bolsonaro, que os idealizadores de Mato Seco em Chamas criam um espécie de faroeste — com direito a tudo o que caracteriza o gênero: muitas armas, cenários áridos, disputas por território e comando e muitos planos abertos — matriarcal que luta, discute e expõe, nas perspectivas reais e ficcionais, as condições precárias da comunidade de Sol Nascente. É esse hibridismo presente na obra que a torna mais instigante de acompanhar. A fissura na linguagem fílmica, que é do savoir faire de Adirley, chacoalha a ordem costumeira: a realidade, que fica “fora das câmeras”, e protege a vida pessoal dos atores, aqui é o lastro onde o filme se estende, seja nome próprio, características e experiências pessoais da vida de cada mulher, expressões de gênero, linguajar, sexualidade, etc. Já a ficção, que “pertence” a tudo o que acontece diante do enquadramento das lentes, no longa compõe os detalhes: o local e a extração de gasolina ou o PPP- Partido do Povo Preso que tem como um de seus lemas assistir às pessoas que foram encarceradas em seu processo de ressocialização. (Este último bem que podia ser verdade.) Quando a Força Nacional, munida de tecnologias especiais e recitando uma frase bastante familiar, entra em Sol Nascente decretando toque de recolher com o intuito de subjugar a comunidade e tomar o local de extração de petróleo, a gangue de Chitara ensaia sua insurgência contra a demonstração de autoritarismo. E como se não bastasse, em meio ao clima de tensão, o mais alto cargo da democracia brasileira é preenchido por uma figura já conhecida - que agora já pertence ao nosso passado. Neste momento, imagens reais da manifestação pró-ex-presidente preenchem a tela. Adirley e Joana, com muita gana e sensibilidade, constroem um filme que se inclina para múltiplas discussões sem parecer forçado, monótono ou repetitivo. As muitas ambiguidades da vida na periférica estão presentes no filme e não há vergonha ou impedimento, é exatamente o oposto. Seja no Distrito Federal, aqui na Bahia, ou em qualquer lugar do país, a mensagem é a mesma: nós, a periferia, somos a chama da revolução. Nota: 5/5
- Crítica | Lockwood & Co. (1ª temporada)
Uma versão adolescente de Caça-Fantasmas repleta do humor e charme britânico Divulgação: Netflix Baseada na saga literária de mesmo nome de Jonathan Stroud, Lockwood & Co. poderia ser mais uma série teen genérica dentre as várias lançadas pela Netflix, mas nas mãos de Joe Cornish (diretor de Attack the Block e The Boy Who Would Be King) ela é revestida de um charme irresistível, indo além da sua premissa básica - adolescentes fazendo papel de caça-fantasmas numa Londres alternativa - para entregar uma joia escondida no streaming. No universo da série, 50 anos atrás um evento conhecido como “O Problema” libertou fantasmas pelo mundo, trazendo caos e paralisando o desenvolvimento tecnológico da sociedade. Misteriosamente, apenas crianças e adolescentes podem ver esses fantasmas, de modo que eles são treinados pelos adultos para combatê-los, ingressando em agências de detetives. Após um caso no qual estava envolvida terminar em tragédia, a jovem psíquica Lucy Carlyle (Ruby Stokes) foge para Londres, onde tenta ingressar nas melhores agências, mas acaba entrando na Lockwood & Co., composta apenas por Anthony Lockwood (Cameron Chapman) e George Karim (Al Hadji-Heshmati). Centrando-se nesse trio principal que não foge muito à regra do que já vimos em outras obras infanto-juvenis de fantasia, Lockwood & Co. vive e morre na química do seu elenco, e embora seja um pouco difícil comprar a hostilidade inicial entre George e Lucy, não demora para que o espectador se veja investido na crescente amizade entre os três (e também nas sugestões de romance entre Lucy e Anthony). Embora uma galeria promissora de coadjuvantes seja introduzida no decorrer dos episódios - como o rígido inspetor Barnes (Ivanno Jeremiah), a carismática contrabandista Flo Bones (Hayley Konadu), a desajustada pesquisadora Pamela Joplin (Louise Bradley) e o misterioso vilão Golden Blade (Luke Treadaway) -, é o trio de protagonistas quem realmente nos conquista, mostrando que Joe Cornish continua a ser um exímio revelador de talentos, tal qual foi com John Boyega em Attack the Block. Divulgação: Netflix Porém, onde a série mais acerta é na sua construção de mundo e da sua mitologia. Longe de ter o orçamento vultoso de outras obras da Netflix como Stranger Things, o que se tem aqui é um uso de criatividade e das próprias limitações orçamentárias para nos imergir em um mundo que, embora fantasioso, não deixa de ser crível. A sensação retrô que permeia a obra - como se a sociedade e sua tecnologia tivesse estagnado nos anos 80 - potencializa seu charme, alimentado pelo design de produção, figurino e a trilha sonora, que traz nomes como Bauhaus e The Cure. Mas, a despeito desses méritos, a temporada é prejudicada pela escolha em adaptar os dois primeiros livros da saga original de uma vez só. É perceptível a mudança de tom entre o terceiro e quarto episódios, indicando onde a história do primeiro livro começa e a do segundo termina; e embora a adaptação faça esforços para conectar tudo em um grande arco que liga o trio de protagonistas à maior agência de detetives de Londres e ao próprio mistério d’O Problema, essa repartição dentro da trama da temporada acaba por fragmentá-la. É possível olhar a trinca inicial de episódios como uma grande introdução, mas é inegável que a série engrena de fato quando mergulha na adaptação do segundo livro, apresentando uma história que se sente mais completa. Apesar dessa escolha que acaba por prejudicar a apreciação geral da temporada, Lockwood & Co. se mostra uma grata surpresa em meio ao mar de mediocridade de produções originais da Netflix. Mas com o histórico de cancelamentos do streaming nos últimos tempos, é difícil manter a esperança de que uma série que foi tão pouco divulgada tenha chances de continuar numa futura temporada. Seria uma pena, pois o que temos aqui é uma série divertida, cativante, por vezes assustadora, com uma mitologia e construção de mundo frescas e que tem todos os requisitos para ser um grande sucesso. Nota: 4/5
- Análise | The Last Of Us 1x04 ("Please Hold to My Hand")
Repleto de drama, comédia e tensão, o episódio aprofunda a relação entre Joel e Ellie Divulgação: HBO Depois de uma crescente de qualidade vista desde o piloto até o episódio 3, em "Por favor, segure minha mão", quarto episódio da série, fica evidente que o ritmo diminui um pouco quando comparado aos outros. Contudo, isso não quer dizer que o episódio foi ruim - longe disso -, já que as expectativas foram correspondidas com um lindo desenrolar da relação entre os protagonistas, boas cenas de ação e novos personagens e mistérios que foram apresentados. Esse novo episódio pode até ter em certo ponto desacelerado quando comparado a outros, mas sem dúvida alguma não perde em nada sua grandiosidade e maestria ao contar mais um capítulo da história. Após chegar à casa de Bill e Frank, pegar alguns suprimentos e o carro deixado por Bill, a dupla de protagonistas embarca em uma jornada em busca de Tommy, irmão de Joel. Logo no começo dessa "roadtrip" são alvos de uma emboscada organizada por um grupo de pessoas ali presente. Ao se deparar com esse pessoal nada amigável, no meio de um tiroteio, em um cenário que se vê obrigado a matar para não morrer, Joel é obrigado a tomar atitudes difíceis que pelo modo que são feitas deixam transparecer um pouco todo o sofrimento pelo qual o protagonista já passou e a amargura e dor que é lidar com tudo isso. Mesmo com um episódio menor, de 45 minutos, a história caminha bem e cada minuto é muito bem aproveitado para focar nos personagens e desenvolvê-los. É notório que essa dupla de protagonistas é especial. Pedro Pascal (Joel) e Bella Ramsey (Ellie) atuam juntos com uma sintonia que é fenomenal. Eles conseguem ir da comédia ao drama em um piscar de olhos e exalam um carisma que faz com que o telespectador se apaixone ainda mais e fique ansioso por vê-los juntos e saber o rumo que a história irá tomar para aqueles personagens. Ao longo dos últimos três episódios transmitidos acompanhamos um Joel reticente e sempre com pé atrás em sua relação com a Ellie. Aqui vemos essa barreira que separa os dois sendo quebrada aos poucos e a aproximação e cuidado de um com o outro crescendo. É engraçado perceber que a relação da dupla vai evoluindo pelas situações em que eles se encontram, mas também por eles serem muito parecidos. A Ellie, assim como o Joel, com aquele jeito fechado e abusado, já passou por muita coisa que deixam marcas e refletem em ambas as personalidades. Por todo o peso que carrega em seus ombros e por atitudes que teve que tomar para sobreviver, muitas vezes esquecemos que Ellie é apenas uma garotinha de 14 anos e órfã. Esse episódio ao mesmo tempo que nos mostra momentos que resgatam a criança existente em Ellie através de piadas sem graças ou chateando o Joel com besteiras e brincadeiras, também mostra seu amadurecimento ao ter que atirar em uma pessoa para salvar Joel. Para aqueles que ainda estavam receosos com a escolha da Bella Ramsey como Ellie esse episódio serviu para mostrar que essa escalação foi perfeita e encaixou demais. É muito difícil assistir esse episódio e não se apaixonar pela Bella como Ellie, a vontade que dá é de colocá-la em um potinho e guardar para sempre. Além do ótimo desenvolvimento de personagens, o episódio consegue mostrar boas cenas de ação com muito tiroteio e tensão para aqueles que reclamavam que a ação havia sido esquecida e estavam desvirtuando daquilo que estava no jogo. Da mesma maneira, novos personagens e novos mistérios são apresentados e servirão para dar andamento à história e provavelmente mudarão os rumos que tudo tomará. Por fim, esse episódio deixa claro que os fungos não são a parte mais ameaçadora, e mais importante que isso são as pessoas e o que elas se tornaram nesse novo mundo pós-pandemia. Pode até ter sido o capítulo menos impactante até o momento, mas serviu para desenvolver e caminhar com a história, mostrar como a relação de Joel e Ellie fica mais forte a cada segundo que passam juntos e encher de curiosidade os telespectadores pelo que está por vir.
- Análise | The Last Of Us 1x06 ("Kin")
A vulnerabilidade é a paisagem da desolação Divulgação: HBO É comum que adaptações audiovisuais, televisivas ou cinematográficas, de produções distópicas, pós-apocalípticas de livros ou games, à exemplo de Resident Evil ou Jogos Vorazes, deem enfoque às vidas e histórias dos personagens principais já apresentados ao longo da trama. A partir de agora acho pertinente marcar que, antes do debut da série, eu nunca tinha tido contato com nada do universo de The Last of Us. Preciso marcar também que, de minha parte, acho que há uma espécie de generosidade nas decisões de roteiro de incluir personagens que não são os principais da história (Joel e Ellie), ou que tampouco farão diferença substancial para o rumo da série, só para construir mosaicos de perspectivas das vidas que também foram arrasadas pela pandemia de Cordyceps. Depois da traumática cena do episódio anterior em que Henry, após tirar a vida do irmão, entra em choque e se suicida, a primeira cena do episódio seis, Parentesco, contempla a imensidão. E é essa imensidão que aparece, a todo tempo, paralela aos relacionamentos ao longo do episódio, como duas faces de uma circunstância: A vastidão e o pequeno cômodo - seja um quarto de garota, uma cabana de madeira no meio do nada, ou uma caverna como abrigo temporário. A grandeza e os detalhes que só podem ser vistos numa proximidade. O primeiro encontro do episódio com o casal surpreendentemente bem-humorado de senhores no autoexílio chama atenção pela linguagem íntima deles. Os olhares que se reconhecem, a linguagem corporal de hábito e tranquilidade, a franqueza e a naturalidade que só um relacionamento de longa data possui. Caminhando para o final de seus destinos (e para o final da série), Joel e Ellie estão diante do ponto de mudança - o fatídico, na cena do encontro com os protetores da Comuna onde vive o irmão de Joel, e o figurado, como o “rio da morte”, o Estige dessas trajetórias: uma transição, passagem. O reencontro com Tommy numa vida que, em algum nível, relembra a normalidade de um mundo sem a doença, traz à tona os ressentimentos pelo passado e pelas escolhas presentes. O irmão que buscou construir uma vida, enquanto ele, anos após a inesperada e cruel morte da filha, ainda foge dos vínculos - seja com Tess ou agora com Ellie. São confrontados, os dois, pela inadequação dentro dos portões da cidade. Quando desabafa de modo franco com o irmão, expõe pela primeira vez a mescla da dor do envolvimento e a percepção da própria falibilidade, e recorre ao irmão pedindo que ele cumpra a missão de levar Ellie ao destino final. A frase “i’m failing in my sleep” é dita como um segredo. O refazer da vida diante da desolação requer vulnerabilidade. A vulnerabilidade, mesmo diante do fim do que o mundo costumava ser, ainda continua sendo uma escolha. Depois do ataque de forasteiros, o episódio encerra com Ellie também reconhecendo sua incapacidade e afeto diante de Joel, já desmaiado após o golpe certeiro. A semelhança entre a cena inicial e a final, a vastidão e a solidão, num ciclo fechado. A vulnerabilidade é a paisagem da desolação.
- Filmes brasileiros selecionados para o Fest Aruanda 2022
A 17ª edição do evento acontece entre os dias 01 e 07 de dezembro Divulgação: Pérola (Murilo Benício) Na última quarta-feira, 23 de novembro, aconteceu a divulgação dos filmes selecionados para Mostras Competitivas Nacional (longas e curtas) e Mostra Sob o Céu Nordestino (longas e curtas) do Fest Aruanda 2022, que acontece entre 01 e 07 de dezembro na cidade de João Pessoa. Além das mostras, o evento conta com uma série de homenagens. Entre elas: Zezé Motta, Tony Tornado, Jurandy Moura, Eliézer Rolim, Zezita Matos, Fernando Teixeira e Gal Costa. O fundador e produtor executivo Lúcio Vilar abriu a coletiva de imprensa afirmando que o festival "já está na praça, já está em curso através do projeto Aruandando no Brejo Paraibano que realiza um périplo por cinco cidades da referida região, democratizando o acesso para quem está distante da Capital". Confiram a lista completa: MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE LONGAS-METRAGENS: • Andança - Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho (Pedro Bronz) O filme se debruça em imagens documentadas por Beth Carvalho, “A Madrinha do Samba”, ao longo dos 53 anos de palcos e pagodes, para traçar um recorte único e íntimo de sua carreira. • Bia (Taciano Valério) Bia é uma mulher não alheia aos ditames de uma sociedade patriarcal e sexista, e que enfrenta, como tantas outras mulheres, as dificuldades em dar um “não” às práticas heteronormativas, misóginas e sexistas da sociedade em que vive. Doutoranda, investiga o lugar da mulher no espaço da luta da camponesa, traduzida nas mulheres sem-terra, que são personagens reais no filme, através delas Bia busca forças para romper de vez com as estruturas fundacionais do patriarcado, como casamento, família, valorizando o seu trabalho e a sua liberdade. • Fausto Fawcett na Cabeça (Victor Lopes) Documentário sobre o cantor, poeta e compositor de músicas ícones como “Kátia Flávia” e “Rio 40 Graus”, Fausto Fawcett é também autor de cinco romances e diversas performances que desvendam um vasto e singular universo. Partindo de signos reais e cotidianos com raízes em Copacabana, sua obra cruza fronteiras narrativas, filosóficas e temporais para instaurar visões futuristas e experiências sensoriais que chacoalham a aventura humana nos carregando para outros mundos. O destino deste filme-transe é entrar nestes mundos que habitam a mente criativa, inquieta e desafiadora de um artista único. Divulgação • Lupicínio Rodrigues - Confissões de um Sofredor (Alfredo Manevy) Celebra o legado poético de Lupicínio Rodrigues, investigando a contribuição musical e o contexto histórico desse compositor nascido no Rio Grande do Sul e autor de sucessos que ultrapassam gerações. Divulgação • Pérola (Murilo Benício) Baseada na obra de Mauro Rasi, Pérola conta a história de uma mãe pelo olhar de seu filho. Logo após saber da morte da mãe, Mauro volta para sua antiga casa, em Bauru. A partir desse caminho de volta, revive momentos passados de sua família. Divulgação • Propriedade (Daniel Bandeira) Para proteger-se de uma revolta dos trabalhadores da fazenda de sua família, uma mulher se tranca em seu carro blindado. Separados por uma camada impenetrável de vidro, dois universos estão prestes a colidir. Divulgação MOSTRA COMPETITIVA SOB O CÉU NORDESTINO DE LONGAS-METRAGENS: • Cordelina (Jaime Guimarães) Uma mulher peregrina por estradas do interior de Pernambuco e Paraíba e leva um tesouro dentro de uma caixa. Por onde passa encontra pessoas que se encantam com a arte, a vida e a singeleza. Dentro de si ela reflete sobre sua terra, as memórias de sua amiga árvore Angico e conta histórias dentro de histórias. Cordelina é um roadmovie que fala de encantamento e de sempre renascer. Divulgação • Fim de Semana no Paraíso Selvagem (Severino) Entre a margem de uma praia marcada por coqueiros tropicais e a margem oposta cravada de usinas e cargueiros, há um território de disputas desleais entre tubarões e peixes pequenos. É nele que Rejane chega para tentar entender o que aconteceu com seu irmão, um exímio mergulhador encontrado morto em um mar cercado de sombras por todos os lados. Divulgação • Manguebit (Jura Capela) O mangue beat, movimento musical e estético que nasceu em Pernambuco nos anos 90, mudou a visibilidade das periferias e das manifestações culturais da região metropolitana de Recife e colocou o estado na rota do mercado musical mundial, após o lançamento de bandas como Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. O filme MANGUEBIT experimenta a liberdade do pensar do mangue por meio de uma linguagem multifacetada, que reúne ideias e ideais, refletindo a ousadia que deu vazão ao grande símbolo do movimento: uma antena parabólica enfiada na lama dos estuários. Divulgação • Paterno (Marcelo Lordello) Para realizar seu edifício mais ambicioso, Sérgio, um arquiteto de 55 anos, precisa tomar o poder da empreiteira da família com um plano que depende da herança do seu pai Heitor, em estado terminal. No entanto, Sérgio descobre um segredo guardado há muito tempo por Heitor. Começa assim uma busca obsessiva e reveladora do passado de seu pai, algo que desconstruirá Sérgio e todas as suas certezas. Divulgação • Pequenos Guerreiros (Bárbara Cariry) Cosme e Dona Maria, acompanhados do filho Benedito e dos sobrinhos Matheuzinho e Bruna, fazem uma viagem do litoral até a cidade de Barbalha, onde vão pagar uma promessa na Festa do Pau da Bandeira. A viagem é uma descoberta das paisagens, das histórias e das riquezas culturais do sertão. As três crianças vivem um processo de encantamento e afetividade e, depois da bonita aventura, Bruna, Matheuzinho e Benedito serão para sempre grandes amigos. Divulgação MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE CURTAS-METRAGENS: • Mergulho (Marton Olympio e Anderson Jesus) Durante os preparativos para um final de semana na praia, os sentimentos de uma família são confrontados a partir do retorno do filho mais velho, longe há dez anos. Mesmo sem querer eles mergulham nas próprias emoções. • Tiro de Misericórdia (Augusto Barros) O sol ilumina o casal na cama. Ao levantar-se, o rapaz evidencia seu embaraço diante da anfitriã. No correr do dia, a casa transforma-se num templo solene. Ela sai da condição de amante para a de sacerdotisa. Ele transforma seu embaraço em confissão. • Carta Para Glauber (Gregory Baltz) Em 1964, dias após o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil, Gustavo Dahl, cineasta e pensador do cinema brasileiro, escreve uma carta para o amigo Glauber Rocha, que estava em Cannes apresentando seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. • Déjà Vu (Carlos Mosca) Dois produtores de audiovisual independentes, comemoram uma premiação em dinheiro de seu filme, num festival importante. Enquanto se banqueteiam na mesa da cozinha, discutem as “dores e delícias” do cinema. • Desejo e Necessidade (Milso Roberto) Uma família de retirantes do interior vem à feira de Campina Grande a procura do pai que partiu em busca de trabalho. Partiu dividido entre o desejo de ficar e a necessidade do sustento. Logo eles descobrem o turbilhão que é a vida na sociedade urbana. Com sua dinâmica que mói os indivíduos e destrói aquela família já dilacerada. Esse é o mote do espetáculo "A FEIRA" da dramaturga LOURDES RAMALHO encenado nesse filme com a expressão corporal dos integrantes do Balé cidade de Campina Grande em uma performance que expressa os sentimentos dessa jornada pela feira central de Campina Grande, que é considerada patrimônio histórico-cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN. • Sangue Por Sangue (Ian Abé e Rodolpho de Barros) Longe de tudo e de todos, três homens selam seus destinos. • Saindo com Estranhos da Internet (Eduardo Wahrhaftig) Dezenas de milhões de pessoas estão usando algum aplicativo de paquera. Este é o relato de alguns usuários compartilhando histórias sobre encontros bons e ruins e suas impressões sobre paquerar na era dos smartphones. • Quarentena (Adriel Nizer e Nando Sturmer) Brasil. É noite. Mãe e filho descobrem que não estão sozinhos durante a quarentena. • Eles Não Vêm em Paz (Pedro Oranges e Victor Silva) Enquanto dois irmãos assistem uma matéria de jornal sobre seres extraterrestres, o irmão mais velho faz uma analogia sobre o seu mundo ser invadido por visitantes indesejados. • Socorro (Susanna Lira) Um grito de socorro da líder comunitária Socorro do Burajuba, do município de Barcarena, no Pará, considerado como uma "zona de sacrifício" ambiental e social. • Filme de Quarto (Raffaella Rosset) Num apartamento esvaziado no centro de São Paulo uma mulher divide a sala com uma imagem. Enquanto isso, uma infiltração ameaça o prédio. • Tekoha (Carlos Adriano) Em 6 de setembro de 2021, seguranças privados de fazendeiros queimaram uma casa familiar Guarani Kaiowá, no Tekoha Ava’te, em área de Retomada, na Reserva de Dourados (Mato Grosso do Sul). A ação violenta e criminosa foi registrada em vídeo (um plano só, de 02 min 52 seg) pelo Povo Guarani Kaiowá. Em 29 de dezembro de 2021, membros de igreja pentecostal queimaram uma casa de reza Guarani Kaiowá, no Tekoha Itay Ka’Agwyrusu, em Douradina (Mato Grosso do Sul). Também registrada em vídeo pelo Povo Guarani Kaiowá (um plano só, de 51 seg). A Oga Pysy (Casa de Reza) é patrimônio coletivo da cultura e da religião do Povo Guarani Kaiowá. Para os Guarani Kaiowá, Tekoha é a definição de terra indígena, território étnico e vital dos povos originários do Brasil – um lugar onde se é. O filme apresenta fragmentos de três cantos Guarani Kaiowá, do Cacique Getúlio, chamados Ñengary (canto-reza), traduzidos especialmente para este filme por Douglas Diegues em colaboração com Dani Guarani Kaiowá (da região de Dourados) e Gregorio Gómez Centurión. MOSTRA COMPETITIVA SOB O CÉU NORDESTINO DE CURTAS PARAIBANOS: • Aratu (Firmino de Almeida) Uma mãe solteira reencontra seu filho desaparecido há anos enquanto luta pelo seu direito à moradia numa comunidade de ocupação. Ao passo que uma antiga figura dofolclore brasileiro entra em cena. • A Praça de Joás (Gutenberg Pequeno) A destruição e demolição de obras e monumentos históricos tem ocorrido com mais frequência nos últimos anos, talvez por uma tentativa de apagar os fatos históricos ali representados, de um lado não satisfeito com tal memória. Situação que chega a Praça de Joás, onde a placa da praça foi apagada logo após sua inauguração, talvez por insatisfação de quem não conheceu Joás. Sendo assim, Mana, Régis Soares, Pedro Osmar, Escurinho e Walber resolvem contar um pouco da história do amigo e líder comunitário que deu nome à praça. • Anjos Cingidos (Laercio Filho e Maria Tereza Azevedo) Sertão nordestino início do século XX. A mortalidade infantil é uma das mais altas de todo o país. Dezenas de crianças morriam todos os dias, muitas delas sem sequer terem sido batizadas, sendo negado as mesmas o direito de um sepultamento dentro da tradição cristã, dominante naquelas terras. • A Espera (Ana Célia Gomes) Busca refletir sobre anseios, sentimentos, sonhos... É sobre como viver em mundo que apenas se espera ser notado, encontrar e receber amor, afeto e cuidados. • Calunga Maior (Thiago Costa) Ana, uma escritora, recentemente órfã, que decide se aventurar pelos becos da memória e seu relacionamento rompido com a mãe e a avó. • Era Uma Noite de São João (Bruna Velden) Dona Dorinha, uma viúva idosa cumprindo quarentena no interior do Sertão, relembra da janela de seu sobradinho a sua história de vida através das festas juninas da cidade ao longo dos anos. • Não Existe Pôr do Sol (Janaína Lacerda) Um terraplanista, Cláudio Wagner, viaja até a praia para refutar a teoria da terra redonda, porém, no caminho, coisas estranhas acontecem. • O Rebanho de Quincas (Hipólito Lucena e Rebeca Souza) Joaquim é um simples pastor de ovelhas, habitante do Cariri paraibano. Vive o seu cotidiano dividido entre a lida da criação, trabalho com o qual sobrevive, e a leitura em sua biblioteca repleta de almanaques e livros de filosofia. Depois de uma noite mal dormida, toma uma decisão importante. • Rendeiros (Romero Sousa) Três gerações de rendeiros do cariri paraibano é o ponto de partida deste documentário que apresenta homens que tecem renda renascença em um universo predominantemente feminino. MOSTRA CALEIDOSCÓPIO UNIVERSITÁRIO - UFPB • Outras Maneiras (Malu Ramos) Quando descobri que a fotografia sempre foi muito mais do que um registro do cotidiano. • Miau (Allyson Souza) Quando uma amiga próxima desaparece, Bento e Mari iniciam uma investigação que os leva a uma antiga lenda da UFPB. • Rapadura (Erika Paz) João é um sertanejo que decide conhecer a vida na capital da Paraíba, quando tenta a sorte com um bilhete premiado. O que ele não espera são as trapaças nas quais se mete através de sua prima, Júlia, que dificultam sua chegada ao prêmio. • Fobia Social (Sydney Nelson) Youtuber que sofre de fobia social é chamado para apresentar um evento, ao se preparar psicologicamente algo lhe deixa incerto. • Luna (Debora Lucia) Luna é mãe da casa das milhões, e uma pessoa influente na cena ballroom local, acompanhamos seu dia a dia, sua história, dificuldades e alegrias sobre a óptica dela, e de pessoas próximas também incluídas e influentes na cena • Afrocantos (Ana Beatriz Rocha) Afrocantos traz relatos de mulheres negras de diferentes ocupações, elas contam sobre os desafios do racismo, a busca da identidade e o poder da autodefinição. O fio condutor das narrativas é a canção ‘A mulher do fim do mundo’, de Elza Soares. O filme surge da crença de que músicas pretas são uma forma de intelectualidade orgânica, por isso vale a pena buscar histórias reais representadas em famosos versos da música brasileira. Afrocantos é sobre ancestralidade, autoamor e arte. Patrocínios e parcerias – A 17ª edição do Fest Aruanda tem patrocínio master do Grupo Energisa, da Cagepa e copatrocínio da PBGás, via Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, sob a chancela do CCHLA-UFPB e da Bolandeir@rte&Films, produtora do evento.
- Crítica | O Dragão do Meu Pai
O poder da fantasia imaginativa como rota de fuga Divulgação: Netflix Lançado na Netflix no último dia 11, 'O Dragão do Meu Pai' é uma obra de animação produzida pelo mesmo estúdio responsável por 'Wolfwalkers', indicado ao Oscar em 2021. Ele aborda a história de Elmer, narrada por um filho seu, sobre como ele conheceu um dragão após uma mudança de cidade que precisou fazer com sua mãe. Dirigido por Nora Twomey, o filme animado é regado de aventura e fantasia que prendem a atenção do início ao fim, e mais importante; com uma qualidade estupenda. O primeiro tópico a se comentar é sobre a elaboração de seus traços, que têm um requinte visual absurdo e ao mesmo tempo uma simplicidade que combina com a proposta da obra. Com o uso e o abuso da criativade, o filme traz uma aura de aconchego de forma a fazer o público ficar preso à tela enquanto o assiste, além de ter cores vibrantes que hipnotizam o espectador, seja criança ou adulto. A trilha é outro ponto a ser abordado por fazer complemento direto com o visual. A escolha da sonoridade encaixa perfeitamente com o traço, as cores e a história, fazendo um agregamento magnífico. Com um roteiro que não faz rodeios, ele monta a trama com rapidez e eficiência, conseguindo transportar para as telas a mente de quem o assiste, trazendo com sua simplicidade uma sensação de identificação em algum momento. Bastante sutil e ágil, o enredo desenvolve bem o personagem principal, e eleva sua história através da imaginação. Divulgação: Netflix Apesar de a arte ser algo subjetivo, o longa se molda em volta de uma interpretação bastante singela. Deixando claro que o nosso imaginativo pode muitas vezes nos tirar de situações complicadas, ele aborda com clareza através dos problemas de Elmer, que a fantasia é um guia necessário de vez em quando. O filme se torna grandioso ao executar isso de maneira que atinja tanto o público infantil quanto o jovem-adulto, mesmo as interpretações para cada um chegue de maneira diferente. Para encerrar, se faz cada vez mais necessário que produções animadas que se vendem para todos os públicos consigam transmitir sua história com clareza e firmeza, sem que pareçam pedantes e óbvias. 'O Dragão do Meu Pai' resgata um pouco daquele desejo de mais originalidade em produções deste tipo, mesmo que seja uma adaptação (muito bem feita). É uma animação que encanta por transbordar criatividade e fantasia, e saber usar tudo isso a seu favor sem se fazer óbvia demais. Nota: 4,5/5
- Crítica | Procura-se
Comédia romântica brasileira é uma boa adaptação do livro e deverá agradar os fãs do gênero Divulgação: HBO Max Depois do lançamento de “No Mundo da Luna”, a HBO Max inseriu em seu catálogo mais uma obra audiovisual inspirada nos livros de Carina Rissi. Dessa vez, o livro “Procura-se um Marido” foi moldado para o formato de filme e recebeu o título de (apenas) “Procura-se” e chegou à plataforma na última sexta-feira, 25. Na história, Alicia é uma mulher que gosta de curtir a vida, viajar, ir para festas e baladas e ter uma vida boa, tudo é graças ao dinheiro do avô - que ela ama. Mas Alicia vê sua vida desmoronar quando o avô morre e sua herança é lida para sua família e ela se vê sem nada no testamento, já que o avô alega que a neta não tem maturidade nem para cuidar da empresa, nem da mansão e nem do dinheiro que a jovem deveria herdar. Isso, é claro, só poderá ser desviado caso ela esteja casada e permaneça com o parceiro por mais de um ano. A jovem, para burlar a retrógrada ideia do avô, resolve se envolver em um casamento fake com Max, um dos funcionários da empresa do avô. No elenco, destacam-se o casal principal interpretado por Camila Queiroz e Kleber Toledo que também são um par romântico na vida real. A química em cena também já foi vista na novela “Êta Mundo Bom” da Rede Globo e em “Procura-se” os dois repetem a dose e criam um Max e uma Alicia bem convincentes e próximos aos descritos nas páginas de Carina Rissi. Mari, melhor amiga de Alicia, é interpretada pela carismática Noemia Oliveira que traz em todas as suas cenas uma leveza, acertando bastante nos principais momentos cômicos da trama e tendo uma ótima química em cena com Camila. Divulgação: HBO Max Roteirizado por Guilherme Ruiz, Carolina Minardi, Alessandra Ruiz e Angélica Lopes e dirigido por Marcelo Antunez, “Procura-se” tem o cuidado de revitalizar alguns aspectos do livro, escrito em 2012, para o momento atual em que vivemos e faz algumas mudanças bem-vindas na obra. Óbvio que por ser uma adaptação, a profundidade do livro se perde tentando condensar quase 600 páginas em apenas 1h30 de longa e a impressão que fica é que tudo acontece rápido demais. Outro problema do filme é a resolução final da história que tenta evitar a vilanização dos personagens, entregando um fechamento simplista e um pouco questionável. Porém, “Procura-se” tem, em sua essência, tudo que o livro de Carina Rissi propõe para os fãs de romances clichês e se torna uma excelente opção para quem busca isso em uma história nacional. Com outra adaptação confirmada e um possível gancho para, quem sabe, um novo filme no mesmo universo de “Procura-se”, Carina Rissi pode se tornar a Thalita Rebouças das adaptações literárias para jovens adultos. Um bom material original ela tem, só precisa de alguém que consiga adaptá-los da melhor forma. “Procura-se” quase chegou lá. Nota: 3,5/5
- Crítica | Guardiões da Galáxia: Especial de Festas
Natal, clichês, bizarrices e Kevin Bacon Divulgação: Disney+ Tenho uma relação ambígua com o Natal: embora adore a data em si (por ser um momento de reunião da minha família para comemorar o aniversário de meu avô), não tenho nenhuma paciência para o período que a antecede e toda a temática envolvida, seja nas decorações, na música ou no cinema. Dito isso, é óbvio que não se poderia esperar uma trama clichê de Natal em um especial de TV dos Guardiões da Galáxia, e é exatamente isso que acontece. Temos aqui um episódio(?)/mini-filme(?) que honra algumas das melhores características dos dois filmes da equipe, embora nem sempre alcance o mesmo charme ou o mesmo nível. Na trama, vemos Drax (Dave Bautista) e Mantis (Pom Klementieff) em busca do melhor presente de Natal para Peter Quill (Chris Pratt), ainda abalado pela ausência de Gamora (Zoe Saldana). Para isso, eles decidem ir à Terra para sequestrar ninguém menos do que Kevin Bacon, herói de infância de Quill conforme aprendemos no primeiro filme. Obviamente nada sai como esperado, e é daí que o especial tira sua força e as suas risadas, especialmente pela forma como Bacon, interpretando a si mesmo, é tratado no decorrer da narrativa. Embora o especial seja menos sobre a equipe em si e mais sobre a parceria de Drax e Mantis, essa se revela uma decisão acertada, visto que a junção dos dois foi um dos melhores acertos do segundo filme e isso se repete aqui. É justo dizer até que Mantis é a verdadeira protagonista desse especial, ainda mais pela conexão que o roteiro de James Gunn estabelece entre ela e Peter. Divulgação: Disney+ Essa conexão é talvez a mais importante informação apresentada aqui, o que é compreensível, pois o especial serve como uma ponte entre os dois primeiros filmes (e Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato) e o vindouro terceiro filme que encerrará a atual formação da equipe. Logo, ele escapa da cada vez mais saturada necessidade do MCU de interconectar todos os seus filmes e séries, servindo como uma aventura mais autocontida e despretensiosa que joga suas próprias regras. Isso acaba sendo uma lufada de ar fresco, mas por outro lado não posso deixar de sentir que o formato de especial acaba retirando um pouco do potencial da história aqui apresentada. A duração de cerca de 40 minutos faz com que o roteiro pareça eliminar certas partes que ajudariam melhor na coesão da história, precisando apressá-la em alguns momentos. Além do mais, vejo aqui um problema que já vinha observando em Guardiões da Galáxia 2 e Peacemaker, que é a tendência de Gunn em não saber por um ponto final em algumas de suas piadas, por vezes estendendo-as até que percam a graça. Essas falhas, contudo, não impedem que esse especial cumpra seu objetivo: trazer toda a pieguice e fofura do Natal sob o viés cômico e tresloucado dos Guardiões da Galáxia sob a batuta de Gunn. É clichê e dispensável? Sim, mas nem sempre isso precisa ser um demérito, e o que vemos aqui é mais uma vez a confirmação de que a equipe é uma das melhores preciosidades dentro do MCU. Nota: 3,5/5
- Crítica | Os Banshees de Inisherin
Um passaporte direto para Inisherin Divulgação: Searchlight Pictures Qual seria sua reação se um de seus amigos mais próximos deixasse de gostar de você do dia para a noite, e, sem sequer dar uma explicação? Esse é o dilema que Pádraic (Colin Farrell) passa quando Colm (Brendan Gleeson) decide que seu antigo amigo não faz parte da nova etapa de sua vida. Martin McDonagh (Três Anúncios Para Um Crime) consegue achar o tom perfeito em ‘Os Banshees de Inisherin’, que enquanto traz algumas das situações mais inusitadas, consegue as transformar em ótimos momentos dramáticos. Um dos muitos acertos do longa é o seu elenco, que muitas vezes nem precisa falar para nos levar a uma cidade do interior da Irlanda, neste caso a ilha fictícia de Inisherin. Farrell e Gleeson entregam uma dinâmica tão boa enquanto “brigados” que até me faz querer um prequel só para ver a antiga relação deles. O filme também conta com Kerry Condon interpretando Siobhán, irmã de Pádraic e Barry Keoghan interpretando Dominic, o filho do policial da ilha, que é considerado por muitos como o mais burro do local, ambos conseguem ter ótimos momentos em tela, e além de ajudar a principal dinâmica do filme, também mostram desenvolvimento de seus personagens. Ao pensar nas lindas locações que o filme se passa, não surpreende que o diretor de fotografia, Ben Davis, entrega visuais deslumbrantes, que até poderiam servir como uma propaganda para o turismo local. Além de conseguir perfeitamente capturar incríveis visuais naturais, os elementos adicionados à tela, no contexto da história, muitas vezes conseguem elevar as imagens criadas que deixam o público de boca aberta. Divulgação: Searchlight Pictures Se tem uma coisa que o espectador vai lembrar após sair da sala do cinema, é a única e incrivelmente criativa história de McDonagh. A incrível conexão que o espectador pode ter com pelo menos um dos personagens apresentados, cria um ambiente de autorreflexão, onde os temas mostrados brilham ao deixar quem o assiste pensando. Outro enorme elemento usado pelo diretor é a comédia, que eleva a história surrealista para um lugar onde todos os elementos exagerados funcionam. ‘Os Banshees de Inisherin’ é uma das melhores comédias do ano, e, ao passo que consegue trazer temas atemporais. O filme traz grandes atuações de Colin Farrell e Brendan Gleeson com uma dinâmica fantástica, além da incrível participação de Kerry Condon e Barry Keoghan. Apesar de ser uma história incrivelmente criativa, o filme pode acabar caindo no mesmo lugar do último longa do diretor, que apesar de ter chegado na temporada de premiações, caiu no esquecimento da maior parte dos espectadores. Nota: 4,5/5 *assistido em Toronto, Canadá












