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- Crítica | Desencantada
De fato, o encanto desapareceu Divulgação: Disney+ Antes de iniciar a crítica que vocês vieram ler, peço licença para voltarmos 15 anos no tempo para que eu possa brevemente escrever sobre Encantada (2007). À época, no auge dos meus 13 aninhos, eu não possuía plataforma para discorrer sobre a experiência incrível e – já sabia eu – inesquecível que tinha acabado de viver diretamente da sala de cinema, então permitam-me aproveitar essa oportunidade de hoje. Primeiro e mais importante de tudo: Amy Adams. Esse papel não ter rendido um Oscar a ela é um dos maiores crimes do cinema americano (e um grande exemplo de como a Academia falha em não considerar a comédia e o filme infantil como cinema). Não é qualquer um que consegue dar vida a uma princesa encantada cartunesca confusa ao acidentalmente cair na cidade mais caótica do mundo real. É muito específico. E, mesmo assim, ao longo de todo o filme, você sabe que Amy Adams nasceu para aquilo. Dos movimentos de mão, ao ritmo da caminhada em pequenos passos de valsa, ao gracioso balançar de cabelo até às expressões realisticamente artificiais – tudo em sua atuação consegue te convencer de que estamos, sim, diante de uma personagem 2d de carne e osso. Por mais absurdo que o plot seja, ela vende. O filme não funcionaria sem ela. Por sinal, todo o casting é impecável. James Marsden como príncipe Edward é um encaixe tão perfeito quanto o sapatinho de cristal no pé da Cinderela. O casal que ele forma com Adams encontram o contraste perfeito em Patrick Dempsey e Indina Menzel, expressamente mundanos, ainda que jamais ordinários (aliás, o que muitos consideram o único erro do filme – o fato de Indina, renomadíssima atriz da Broadway, não ter uma canção – é completamente entendível quando se lembra que ela não é uma personagem fantástica ainda). Divulgação: Disney+ Mas nem só de estrelas se faz um bom filme (eu sei que você também pensou em Cats). Não fosse pelo enredo ousado e inovador e pelas músicas absurdamente memoráveis, o filme não seria o clássico atemporal que nos faz parar para revê-lo pela enésima vez sempre que está passando. Sempre tive a suspeita de que Encantada foi a resposta da Disney à Shrek: uma paródia metalinguística sobre os contos de fadas que tornaram o Estúdio famoso. Porém, se este último, produzido na Dreamworks, concorrente direta da Disney, o fez em tom sarcástico, o primeiro, feito na própria empresa, não poderia fazê-lo. Conseguir abordar as extravagantes (e, convenhamos, por vezes bregas) utopias do mundo fantástico com iguais doses de humor e respeito com certeza exigiu uma dose de genialidade. O amor que o filme recebe até hoje condiz absolutamente com o mérito criativo da obra. Assim, diante de uma produção tão impecável, apenas comemorei o anúncio da sequência tantos anos depois. Aquele conhecido receio de “para que? só vai estragar o orginial” parecia descabido, afinal, com uma história tão rica e icônica, certamente a Disney iria investir em algo a altura. Mesmo que fosse inferior ao primeiro, precisaria de muito esforço para ser ruim. Mas, sinto dizer, o esforço foi quase o suficiente para isso. Divulgação: Disney+ Desencantada tem dois méritos: o primeiro é ter como base um universo tão querido pelo imaginário popular e saber bem aproveitar disso. Não digo apenas em relação ao primeiro filme, mas a todo o cosmo dos contos de fadas. As referências às diversas histórias que marcaram nossas infâncias se tornam uma diversão à parte, como brincar de Onde está Wally? no meio da sessão. É uma nostalgia deliciosa que torna o sorriso inevitável. Em segundo lugar, novamente, Amy Adams. Não fosse suficientemente difícil viver Giselle da primeira vez, agora ela enfrenta o desafio de incorporar, ao mesmo tempo (literalmente) princesa e madrasta, mocinha e vilã. E ela consegue. Em questão de segundos, muda a postura, a entoação e o olhar, sem jamais perder o cartunesco que vive na personagem. Dá gosto ver uma atriz de 48 anos (o que equivale a 70 em Hollywood) vivendo um papel de frescor tão jovem – e o melhor, se divertindo com isso! É visível o quanto reviver Giselle, agora também como produtora do longa, foi uma ótima experiência. Acredito, ainda, que o mesmo possa ser dito para todo o elenco e equipe de produção. De alguma forma, é possível sentir o prazer de (re)criar um mundo tão especial e recheado de magia. É uma pena que o restante não corresponda a esse encantamento – com o perdão do trocadilho. Lembro de ter estranhado quando a Disney divulgou a estreia diretamente em seu streaming e não nos cinemas, mas, depois de assisti-lo, faz todo o sentido. Toda a direção de arte, ainda que simpática, deixa claro o baixo orçamento – especialmente os efeitos especiais, que mais parecem efeitos de qualquer episódio de meia temporada de Feiticeiros de Waverly Place. Divulgação: Disney+ Dessa vez, a história de amor é entre Giselle e sua Morgan (as vezes sua filha, as vezes sua enteada), que, agora adolescente, enfrenta dificuldade de entender a “mãe”. No entanto, ao contrário do que o filme tenta nos convencer, Morgan está certa: Giselle, ainda presa entre a realidade e o reino de Andalasia, não é mais uma excêntrica mas cativante personagem, ela só é… chata. Egoísta ao deslocar toda a família para o subúrbio para satisfazer seus sonhos incompatíveis com o mundo que escolheu viver; inconveniente com as constantes canções motivacionais; e intrometida na vida alheia. Esse, ao meu ver, é o principal problema de Desencantada. O que era para ser um tributo ao primeiro, tornou-se uma versão que nos faz questionar se não estávamos enganados por 15 anos. Como ousam dar músicas tão monótonas e esquecíveis para a mesma personagem que eternizou” Como Ela Sabe que a Ama?”? Chata também é a história. A vilã (interpretada pela Maya Rudolph no seu melhor estilo Maya Rudolph), cuja única motivação é ser a dona da rua, não convence. Suas minions, releituras das meia-irmãs de Cinderela, não convencem no humor (apesar de feitas pelas maravilhosas Yvette Nicole-Brown e Jayma Mays, o que prova a fragilidade do roteiro). O “príncipe encantado” tem tão pouco tempo de desenvolvimento que sequer lembro seu rosto mesmo horas depois de ter visto o filme. Os demais personagens antigos funcionam, mesmo que unicamente através da memória do primeiro. Como bom personagem animado, Marsden não envelheceu um dia e está ainda mais cativante, mas é uma pena que não tenham dado mais espaço para seu Edward, que, trabalhando com o pouco que tem, rouba a cena sempre que aparece. O mesmo acontece com Dempsey, que, apesar de finalmente ter a chance de brincar de contos de fadas, o faz nas cenas mais dispensáveis. Rachel Covey, que retorna como Morgan, é quem se deu melhor em relação ao novo roteiro e, apesar de ser seu segundo grande projeto (ambos com a mesma personagem), consegue entregar tudo que a história pede. E, não menos importante, Indina Menzel ganha destaque e, finalmente, canta! Não diria que me arrependi de ver o filme. Os sorrisos que dei ao reviver uma história tão querida serão sempre válidos. No entanto, termino o filme me perguntando se não seria preferível só ter assistido Encantada de novo… pela octogésima vez. Nota: 2,5/5
- Filmes brasileiros selecionados para o Fest Aruanda 2022
A 17ª edição do evento acontece entre os dias 01 e 07 de dezembro Divulgação: Pérola (Murilo Benício) Na última quarta-feira, 23 de novembro, aconteceu a divulgação dos filmes selecionados para Mostras Competitivas Nacional (longas e curtas) e Mostra Sob o Céu Nordestino (longas e curtas) do Fest Aruanda 2022, que acontece entre 01 e 07 de dezembro na cidade de João Pessoa. Além das mostras, o evento conta com uma série de homenagens. Entre elas: Zezé Motta, Tony Tornado, Jurandy Moura, Eliézer Rolim, Zezita Matos, Fernando Teixeira e Gal Costa. O fundador e produtor executivo Lúcio Vilar abriu a coletiva de imprensa afirmando que o festival "já está na praça, já está em curso através do projeto Aruandando no Brejo Paraibano que realiza um périplo por cinco cidades da referida região, democratizando o acesso para quem está distante da Capital". Confiram a lista completa: MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE LONGAS-METRAGENS: • Andança - Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho (Pedro Bronz) O filme se debruça em imagens documentadas por Beth Carvalho, “A Madrinha do Samba”, ao longo dos 53 anos de palcos e pagodes, para traçar um recorte único e íntimo de sua carreira. • Bia (Taciano Valério) Bia é uma mulher não alheia aos ditames de uma sociedade patriarcal e sexista, e que enfrenta, como tantas outras mulheres, as dificuldades em dar um “não” às práticas heteronormativas, misóginas e sexistas da sociedade em que vive. Doutoranda, investiga o lugar da mulher no espaço da luta da camponesa, traduzida nas mulheres sem-terra, que são personagens reais no filme, através delas Bia busca forças para romper de vez com as estruturas fundacionais do patriarcado, como casamento, família, valorizando o seu trabalho e a sua liberdade. • Fausto Fawcett na Cabeça (Victor Lopes) Documentário sobre o cantor, poeta e compositor de músicas ícones como “Kátia Flávia” e “Rio 40 Graus”, Fausto Fawcett é também autor de cinco romances e diversas performances que desvendam um vasto e singular universo. Partindo de signos reais e cotidianos com raízes em Copacabana, sua obra cruza fronteiras narrativas, filosóficas e temporais para instaurar visões futuristas e experiências sensoriais que chacoalham a aventura humana nos carregando para outros mundos. O destino deste filme-transe é entrar nestes mundos que habitam a mente criativa, inquieta e desafiadora de um artista único. Divulgação • Lupicínio Rodrigues - Confissões de um Sofredor (Alfredo Manevy) Celebra o legado poético de Lupicínio Rodrigues, investigando a contribuição musical e o contexto histórico desse compositor nascido no Rio Grande do Sul e autor de sucessos que ultrapassam gerações. Divulgação • Pérola (Murilo Benício) Baseada na obra de Mauro Rasi, Pérola conta a história de uma mãe pelo olhar de seu filho. Logo após saber da morte da mãe, Mauro volta para sua antiga casa, em Bauru. A partir desse caminho de volta, revive momentos passados de sua família. Divulgação • Propriedade (Daniel Bandeira) Para proteger-se de uma revolta dos trabalhadores da fazenda de sua família, uma mulher se tranca em seu carro blindado. Separados por uma camada impenetrável de vidro, dois universos estão prestes a colidir. Divulgação MOSTRA COMPETITIVA SOB O CÉU NORDESTINO DE LONGAS-METRAGENS: • Cordelina (Jaime Guimarães) Uma mulher peregrina por estradas do interior de Pernambuco e Paraíba e leva um tesouro dentro de uma caixa. Por onde passa encontra pessoas que se encantam com a arte, a vida e a singeleza. Dentro de si ela reflete sobre sua terra, as memórias de sua amiga árvore Angico e conta histórias dentro de histórias. Cordelina é um roadmovie que fala de encantamento e de sempre renascer. Divulgação • Fim de Semana no Paraíso Selvagem (Severino) Entre a margem de uma praia marcada por coqueiros tropicais e a margem oposta cravada de usinas e cargueiros, há um território de disputas desleais entre tubarões e peixes pequenos. É nele que Rejane chega para tentar entender o que aconteceu com seu irmão, um exímio mergulhador encontrado morto em um mar cercado de sombras por todos os lados. Divulgação • Manguebit (Jura Capela) O mangue beat, movimento musical e estético que nasceu em Pernambuco nos anos 90, mudou a visibilidade das periferias e das manifestações culturais da região metropolitana de Recife e colocou o estado na rota do mercado musical mundial, após o lançamento de bandas como Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. O filme MANGUEBIT experimenta a liberdade do pensar do mangue por meio de uma linguagem multifacetada, que reúne ideias e ideais, refletindo a ousadia que deu vazão ao grande símbolo do movimento: uma antena parabólica enfiada na lama dos estuários. Divulgação • Paterno (Marcelo Lordello) Para realizar seu edifício mais ambicioso, Sérgio, um arquiteto de 55 anos, precisa tomar o poder da empreiteira da família com um plano que depende da herança do seu pai Heitor, em estado terminal. No entanto, Sérgio descobre um segredo guardado há muito tempo por Heitor. Começa assim uma busca obsessiva e reveladora do passado de seu pai, algo que desconstruirá Sérgio e todas as suas certezas. Divulgação • Pequenos Guerreiros (Bárbara Cariry) Cosme e Dona Maria, acompanhados do filho Benedito e dos sobrinhos Matheuzinho e Bruna, fazem uma viagem do litoral até a cidade de Barbalha, onde vão pagar uma promessa na Festa do Pau da Bandeira. A viagem é uma descoberta das paisagens, das histórias e das riquezas culturais do sertão. As três crianças vivem um processo de encantamento e afetividade e, depois da bonita aventura, Bruna, Matheuzinho e Benedito serão para sempre grandes amigos. Divulgação MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE CURTAS-METRAGENS: • Mergulho (Marton Olympio e Anderson Jesus) Durante os preparativos para um final de semana na praia, os sentimentos de uma família são confrontados a partir do retorno do filho mais velho, longe há dez anos. Mesmo sem querer eles mergulham nas próprias emoções. • Tiro de Misericórdia (Augusto Barros) O sol ilumina o casal na cama. Ao levantar-se, o rapaz evidencia seu embaraço diante da anfitriã. No correr do dia, a casa transforma-se num templo solene. Ela sai da condição de amante para a de sacerdotisa. Ele transforma seu embaraço em confissão. • Carta Para Glauber (Gregory Baltz) Em 1964, dias após o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil, Gustavo Dahl, cineasta e pensador do cinema brasileiro, escreve uma carta para o amigo Glauber Rocha, que estava em Cannes apresentando seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. • Déjà Vu (Carlos Mosca) Dois produtores de audiovisual independentes, comemoram uma premiação em dinheiro de seu filme, num festival importante. Enquanto se banqueteiam na mesa da cozinha, discutem as “dores e delícias” do cinema. • Desejo e Necessidade (Milso Roberto) Uma família de retirantes do interior vem à feira de Campina Grande a procura do pai que partiu em busca de trabalho. Partiu dividido entre o desejo de ficar e a necessidade do sustento. Logo eles descobrem o turbilhão que é a vida na sociedade urbana. Com sua dinâmica que mói os indivíduos e destrói aquela família já dilacerada. Esse é o mote do espetáculo "A FEIRA" da dramaturga LOURDES RAMALHO encenado nesse filme com a expressão corporal dos integrantes do Balé cidade de Campina Grande em uma performance que expressa os sentimentos dessa jornada pela feira central de Campina Grande, que é considerada patrimônio histórico-cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN. • Sangue Por Sangue (Ian Abé e Rodolpho de Barros) Longe de tudo e de todos, três homens selam seus destinos. • Saindo com Estranhos da Internet (Eduardo Wahrhaftig) Dezenas de milhões de pessoas estão usando algum aplicativo de paquera. Este é o relato de alguns usuários compartilhando histórias sobre encontros bons e ruins e suas impressões sobre paquerar na era dos smartphones. • Quarentena (Adriel Nizer e Nando Sturmer) Brasil. É noite. Mãe e filho descobrem que não estão sozinhos durante a quarentena. • Eles Não Vêm em Paz (Pedro Oranges e Victor Silva) Enquanto dois irmãos assistem uma matéria de jornal sobre seres extraterrestres, o irmão mais velho faz uma analogia sobre o seu mundo ser invadido por visitantes indesejados. • Socorro (Susanna Lira) Um grito de socorro da líder comunitária Socorro do Burajuba, do município de Barcarena, no Pará, considerado como uma "zona de sacrifício" ambiental e social. • Filme de Quarto (Raffaella Rosset) Num apartamento esvaziado no centro de São Paulo uma mulher divide a sala com uma imagem. Enquanto isso, uma infiltração ameaça o prédio. • Tekoha (Carlos Adriano) Em 6 de setembro de 2021, seguranças privados de fazendeiros queimaram uma casa familiar Guarani Kaiowá, no Tekoha Ava’te, em área de Retomada, na Reserva de Dourados (Mato Grosso do Sul). A ação violenta e criminosa foi registrada em vídeo (um plano só, de 02 min 52 seg) pelo Povo Guarani Kaiowá. Em 29 de dezembro de 2021, membros de igreja pentecostal queimaram uma casa de reza Guarani Kaiowá, no Tekoha Itay Ka’Agwyrusu, em Douradina (Mato Grosso do Sul). Também registrada em vídeo pelo Povo Guarani Kaiowá (um plano só, de 51 seg). A Oga Pysy (Casa de Reza) é patrimônio coletivo da cultura e da religião do Povo Guarani Kaiowá. Para os Guarani Kaiowá, Tekoha é a definição de terra indígena, território étnico e vital dos povos originários do Brasil – um lugar onde se é. O filme apresenta fragmentos de três cantos Guarani Kaiowá, do Cacique Getúlio, chamados Ñengary (canto-reza), traduzidos especialmente para este filme por Douglas Diegues em colaboração com Dani Guarani Kaiowá (da região de Dourados) e Gregorio Gómez Centurión. MOSTRA COMPETITIVA SOB O CÉU NORDESTINO DE CURTAS PARAIBANOS: • Aratu (Firmino de Almeida) Uma mãe solteira reencontra seu filho desaparecido há anos enquanto luta pelo seu direito à moradia numa comunidade de ocupação. Ao passo que uma antiga figura dofolclore brasileiro entra em cena. • A Praça de Joás (Gutenberg Pequeno) A destruição e demolição de obras e monumentos históricos tem ocorrido com mais frequência nos últimos anos, talvez por uma tentativa de apagar os fatos históricos ali representados, de um lado não satisfeito com tal memória. Situação que chega a Praça de Joás, onde a placa da praça foi apagada logo após sua inauguração, talvez por insatisfação de quem não conheceu Joás. Sendo assim, Mana, Régis Soares, Pedro Osmar, Escurinho e Walber resolvem contar um pouco da história do amigo e líder comunitário que deu nome à praça. • Anjos Cingidos (Laercio Filho e Maria Tereza Azevedo) Sertão nordestino início do século XX. A mortalidade infantil é uma das mais altas de todo o país. Dezenas de crianças morriam todos os dias, muitas delas sem sequer terem sido batizadas, sendo negado as mesmas o direito de um sepultamento dentro da tradição cristã, dominante naquelas terras. • A Espera (Ana Célia Gomes) Busca refletir sobre anseios, sentimentos, sonhos... É sobre como viver em mundo que apenas se espera ser notado, encontrar e receber amor, afeto e cuidados. • Calunga Maior (Thiago Costa) Ana, uma escritora, recentemente órfã, que decide se aventurar pelos becos da memória e seu relacionamento rompido com a mãe e a avó. • Era Uma Noite de São João (Bruna Velden) Dona Dorinha, uma viúva idosa cumprindo quarentena no interior do Sertão, relembra da janela de seu sobradinho a sua história de vida através das festas juninas da cidade ao longo dos anos. • Não Existe Pôr do Sol (Janaína Lacerda) Um terraplanista, Cláudio Wagner, viaja até a praia para refutar a teoria da terra redonda, porém, no caminho, coisas estranhas acontecem. • O Rebanho de Quincas (Hipólito Lucena e Rebeca Souza) Joaquim é um simples pastor de ovelhas, habitante do Cariri paraibano. Vive o seu cotidiano dividido entre a lida da criação, trabalho com o qual sobrevive, e a leitura em sua biblioteca repleta de almanaques e livros de filosofia. Depois de uma noite mal dormida, toma uma decisão importante. • Rendeiros (Romero Sousa) Três gerações de rendeiros do cariri paraibano é o ponto de partida deste documentário que apresenta homens que tecem renda renascença em um universo predominantemente feminino. MOSTRA CALEIDOSCÓPIO UNIVERSITÁRIO - UFPB • Outras Maneiras (Malu Ramos) Quando descobri que a fotografia sempre foi muito mais do que um registro do cotidiano. • Miau (Allyson Souza) Quando uma amiga próxima desaparece, Bento e Mari iniciam uma investigação que os leva a uma antiga lenda da UFPB. • Rapadura (Erika Paz) João é um sertanejo que decide conhecer a vida na capital da Paraíba, quando tenta a sorte com um bilhete premiado. O que ele não espera são as trapaças nas quais se mete através de sua prima, Júlia, que dificultam sua chegada ao prêmio. • Fobia Social (Sydney Nelson) Youtuber que sofre de fobia social é chamado para apresentar um evento, ao se preparar psicologicamente algo lhe deixa incerto. • Luna (Debora Lucia) Luna é mãe da casa das milhões, e uma pessoa influente na cena ballroom local, acompanhamos seu dia a dia, sua história, dificuldades e alegrias sobre a óptica dela, e de pessoas próximas também incluídas e influentes na cena • Afrocantos (Ana Beatriz Rocha) Afrocantos traz relatos de mulheres negras de diferentes ocupações, elas contam sobre os desafios do racismo, a busca da identidade e o poder da autodefinição. O fio condutor das narrativas é a canção ‘A mulher do fim do mundo’, de Elza Soares. O filme surge da crença de que músicas pretas são uma forma de intelectualidade orgânica, por isso vale a pena buscar histórias reais representadas em famosos versos da música brasileira. Afrocantos é sobre ancestralidade, autoamor e arte. Patrocínios e parcerias – A 17ª edição do Fest Aruanda tem patrocínio master do Grupo Energisa, da Cagepa e copatrocínio da PBGás, via Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, sob a chancela do CCHLA-UFPB e da Bolandeir@rte&Films, produtora do evento.
- Crítica | Andor (1ª temporada)
Resgatando a identidade política de Star Wars numa das melhores séries do ano. Divulgação: Disney+ “A autoridade é frágil. A opressão é a máscara do medo.” É decepcionante - e ao mesmo tempo previsível - que Andor não tenha ganhado o mesmo destaque que as outras do universo de Star Wars no Disney+. Seria fácil apontar a má qualidade das séries anteriores, The Book of Boba Fett e Obi-Wan Kenobi, como uma justificativa para o desinteresse do público nesta nova obra, mas diria que o problema vai além e abrange a despolitização que afeta parcela significativa dos fãs da saga, apesar das referências e analogias políticas nada sutis imprimidas desde que Uma Nova Esperança foi lançado em 1977. Se naquela época George Lucas estava olhando para a Guerra do Vietnã e a Alemanha Nazista para se inspirar na construção do conflito entre a Aliança Rebelde vs. Império, na (injustamente) criticada trilogia prequel ele não escondeu os paralelos com o 11 de setembro e a Guerra ao Terror promovida pelos EUA. Ao assistirmos Andor, vemos que seu criador, Tony Gilroy, dá continuidade a esses processos traçando linhas muito nítidas entre a opressão sistêmica do Império que vemos na série e os avanços da extrema-direita em diversos países pelo mundo nos últimos anos. Quando um personagem diz no episódio 5 que “é mais fácil se esconder atrás de 40 incidentes do que de um único incidente” para descrever as ações imperiais, é inevitável não traçar um paralelo com o que vimos nos últimos 4 anos no governo Bolsonaro, onde éramos tão bombardeados com seus escândalos e perversidades que se tornou fácil depois de um tempo normalizar suas ações. A falta de intimidade de Tony Gilroy com o universo de Star Wars se mostra uma bênção, pois permite que ele traga apenas o essencial da saga dentro de uma roupagem que nunca vimos antes, ou ao menos não nesse nível. Esqueça jedis, a Força, sabres de luz ou um monte de aventuras centradas apenas na família Skywalker: temos aqui seres humanos ordinários até mesmo quando realizam ações extraordinárias, lutando batalhas com as quais podemos nos relacionar. Se Rogue One (roteirizado e parcialmente dirigido por Gilroy) já adicionava peso às ações dos rebeldes em Uma Nova Esperança, Andor faz o mesmo por aquele filme, conseguindo aplacar quaisquer medos dos que achavam que uma “prequel de uma prequel” era 2x desnecessária. Ao mergulhar na vida de seu protagonista-título (vivido soberbamente por Diego Luna) anos antes dos eventos de Rogue One, a série consegue trazer um arco de evolução sutil, mas que cresce episódio após episódio, conforme vemos Cassian sair do seu torpor individualista para enfim abraçar o que está destinado a ser: um dos líderes mais notáveis da Rebelião. Não é um arco linear, e a série é ainda melhor quando faz isso: ainda que ele não seja o mais simpático dos protagonistas, sua complexidade é inegável, e Luna abraça cada uma de suas facetas, de modo que sua jornada aqui apenas engrandece o que vimos dele no filme. Mas Andor não se limita a seu protagonista, e ainda bem por isso. A forma como trabalha e articula seus núcleos (sem medo de inseri-los tardiamente, como é o caso do maravilhoso arco em Narkina-5) é uma demonstração de maturidade e segurança por parte de Gilroy e seu time de roteiristas e diretores. Seria impossível listar todos os nomes que se destacam dentre o elenco, mas além do já referido Luna, não posso deixar de enaltecer os trabalhos de Genevieve O’Reilly (Mon Mothma), Stellan Skarsgard (Luthen Rael), Denise Gough (Dedra Meero), Kyle Soller (Syril Karn), Andy Serkis (Kino Loy) e Fiona Shaw (Maarva Andor), apenas para citar alguns dentre tantos. Embora haja alguns momentos que remetem ao caráter mais sci-fi e space opera dos filmes de Star Wars, o que temos aqui é uma série com pé no chão e que não tem medo de adotar seu próprio ritmo, sempre pagando seus dividendos nos momentos certos - e nos levando ao êxtase quando esses momentos chegam, como atestam os terceiro, sexto, décimo e último episódios. Ao abraçar essa estética mais realista, é nítido como acompanhamos a história através de cenários que soam reais e imersivos, com o CGI sendo usado apenas quando necessário. Novos e intrigantes mundos se abrem à nossa frente, de cantos desconhecidos da velha conhecida Coruscant até a pobreza industrial de Ferrix, passando pelo planeta a la Blade Runner que abre a série ou as instalações antissépticas do Império. Tudo soa palpável e vivo, mas também decadente e opressivo quando necessário, o que é potencializado pelos elementos técnicos da série. Dentre estes, destaco a brilhante trilha de Nicholas Brittell, que “dessacraliza” os tons épicos e românticos que John Williams compôs para os filmes para trazer algo que é moderno, pulsante, tenso e distinto - tal qual a própria série. Mesmo com todas as minhas expectativas para Andor, não esperava que elas fossem superadas com tamanha facilidade diante de uma série que se distingue radicalmente de tudo que já vimos antes em Star Wars, mas ao mesmo tempo reforça e resgata alguns dos pilares fundamentais da saga, especialmente no que tange à política. Em sua primeira temporada, Andor não se sagra apenas como uma das melhores séries do ano, mas também como uma das melhores, quiçá a melhor obra audiovisual já vista em Star Wars até hoje. Nota: 5/5
- Filmes nacionais que serão lançados em novembro nos cinemas
Os premiados 'A Mãe', 'Paloma' e 'Carvão' estão entres os lançamentos do mês Divulgação: A Mãe Após um mês de outubro lotado de documentários, os filmes de ficção voltam com força no circuito brasileiro em novembro. Confiram quais filmes nacionais estrearão nos cinemas: 03/11: • O Clube dos Anjos (Drama, 101 min) Direção: Angelo Defanti Elenco: Otávio Muller, Matheus Nachtergaele, Paulo Miklos, Marco Ricca, Augusto Madeira, André Abujamra, César Melo, Ângelo Antônio, Samuel de Assis, António Capelo Sinopse: Nenhum deles pôde resistir. Ao longo dos anos, as reuniões mensais do Clube do Picadinho – confraria que há décadas reúne sete amigos de longa data – passaram de rituais de poder a melancólicas assembleias de fracassos. O fim seria seu único destino digno. Até a chegada de um misterioso cozinheiro que passa a lhes servir magníficos banquetes. Os laços de amizade estão de volta, é a gula como celebração da vida. Mas há um porém: depois de cada jantar, um integrante da confraria amanhece morto. Qual é o real motivo das mortes? E, sobretudo, por quê estes homens continuam retornando aos jantares? • Carvão (Drama, 108 min) Direção: Carolina Markowicz Elenco: Maeve Jinkings, Cesar Bordon, Jean Costa, Romulo Braga, Camila Mardila e Pedro Wagner Sinopse: Numa pequena cidade do interior, uma família recebe uma proposta rentosa, mas também perigosa: hospedar um desconhem sua casa. Antes mesmo da chegada dele, no entanto, arranjos precisarão ser feitos, e a vida em família começa a se transformar. Porém, nenhum dos familiares, e muito menos o próprio hóspede, vê suas expectativas cumpridas. • Kevin (Documentário, 81 min) Direção: Joana Oliveira Sinopse: É a primeira vez que Joana, uma brasileira, visita sua amiga Kevin na Uganda. Elas se tornaram amigas há 20 anos quando estudaram juntas na Alemanha e faz muito tempo que não se veem. A partir desse encontro, o filme tece a fina trama que é uma conversa entre duas amigas: as histórias do passado, os desejos, os caminhos trilhados, os diferentes modos de encarar a matéria do vivido e um elo de amor e sororidade que resiste à distância e ao tempo. Divulgação: Embaúba Filmes 10/11: • Aldeotas (Drama) Direção: Gero Camilo Elenco: Gero Camilo e Marat Descartes Sinopse: Filme inspirado na peça Aldeotas, de Gero Camilo, conta a história de dois amigos que se separam aos 17 anos em meio aos conflitos da adolescência turbulenta na pequena e conservadora Coti das Fuças, interior do Brasil. Levi, poeta, cansado de sofrer abusos, cumpre o plano de fugirem pra uma cidade grande mais liberal. Enquanto Elias, oprimido pela violência do seu pai, desiste de partir. Aos 50 anos, Levi volta para reencontrar o amigo no dia de seu funeral onde as memórias dos dois são revividas antes do último adeus. • Arthur Moreira Lima - Um Piano Para Todos (Documentário, 83 min) Direção: Marcelo Mazuras Sinopse: Arthur Moreira Lima é um pianista excepcional. Atuou nos palcos mais importantes do mundo, tocou com as Filarmônicas de Leningrado e de Moscou e com as Sinfônicas de Berlim e de Viena, entre tantas outras, sob a regência de grandes maestros como Kurt Sanderling, KiriIl Kondrashin, Mariss Jansons e Jesus Lopez-Cobos. Já sem a necessidade de brilhar nas grandes casas de espetáculos do mundo, hoje o pianista percorre o interior do Brasil a bordo de dois caminhões, levando a música erudita aos cantos mais esquecidos do País e democratizando o acesso à sua arte. • Paloma (Drama, 113 min) Direção: Marcelo Gomes Elenco: Kika Sena, Samya de Lavor e Ridson Reis Sinopse: Paloma é uma mulher trans que está decidida a realizar seu maior sonho: um casamento tradicional, na igreja, com o seu namorado Zé. Ela trabalha duro como agricultora numa plantação de mamão, e está economizando para pagar a festa. A recusa do padre em aceitar seu pedido obrigará Paloma a enfrentar a sociedade rural. Ela sofre violência, traição, preconceito e injustiça, mas nada abala sua fé. • A Mãe (Drama, 80 min) Direção: Cristiano Burlan Elenco: Marcelia Cartaxo, Hélio Cícero, Debora Maria da Silva, Tuna Dwek, Dunstin Farias, Rubinho Ferreira, Helena Ignez, Dinho Lima Flor, Ana Carolina Marinho, Carlos Meceni, Che Moais, Badu Morais, Mawusi Tulani e Henrique Zanoni Sinopse: Segue a jornada de Maria, migrante nordestina e vendedora ambulante em busca de seu filho Valdo, supostamente assassinado por policiais militares durante uma ação na vila onde mora. Em busca de descobrir o paradeiro do filho, Maria enfrenta diversas adversidades. Ela não tem nenhuma notícia que a ajude a encontrá-lo. Essa tragédia deixa uma ferida profunda na personalidade de Maria, que passa a viver sob a marca da insegurança e da impunidade. Divulgação: CUP Filme 17/11: • Nada É Por Acaso (Drama, 106 min) Direção: Márcio Trigo Elenco: Rafael Cardoso, Giovanna Lancellotti, Mika Guluzian e Tiago Luz Sinopse: Marina volta de uma viagem com cinco milhões de reais em sua conta. Agora, ela só quer seguir em frente sem olhar para trás e encarar o que fez. Contudo, os encontros constantes entre Marina, Maria Eugênia, Henrique e o filho do casal, não podem ser apenas uma coincidência. As duas mulheres vão descobrir que estão unidas por laços de amor e amizade que remontam para além dessa vida. • Os Bravos Nunca Se Calam (Comédia, 104 min) Direção: Marcio Schoenardie Elenco: Duda Meneghetti, Eduardo Mendonça, Mirna Spritzer e José Rubens Chachá Sinopse: Dois irmãos, distanciados pela vida, se unem para investigar o possível assassinato de seu pai. Usando o carro do falecido e às vésperas do lançamento póstumo de seu livro conspiratório, Caio e Manoela percorrem a cidadezinha natal em busca de personagens da vida de Joaquim para trazer honra de volta à família... ou algo do tipo. • Kobra Auto-Retrato (Documentário) Direção: Lina Chamie Sinopse: Em uma noite de insônia, Kobra revê sua vida desde a infância difícil na periferia até o sucesso mundial como muralista, os acontecimentos se desenrolam entre a realidade e o sonho. Nessa trajetória de vida, desde o grafite ilegal nas ruas de São Paulo até pintar grandes murais em mais de 30 países, Kobra, um artista singular que representa tantos outros em suas batalhas, passa a entender a arte de rua como voz política e democrática. • Diário de Viagem (Drama, 99 min) Direção: Paula Kim Elenco: Manoela Aliperti, Eucir de Souza e Virginia Cavendish Sinopse: 1995, São Paulo. Logo após a implantação do Plano Real, Liz, 13, é mandada para um intercâmbio na Irlanda. Seus pais de classe média emergente estão otimistas, mas na percepção da adolescente a viagem é um total fracasso. Liz retorna ao Brasil com um transtorno alimentar que limita sua vida em todos os âmbitos e encara os desafios do crescimento e da descoberta. Distribuição: Pandora Filmes 24/11: • Alice dos Anjos (Fantasia, 76 min) Direção: Daniel Leite Almeida Elenco: Tiffanie Costa, Fernando Alves Pinto, Cris Magalhães, Pajé Aripuanã, Vicka Matos, Dayse Maria Sinopse: No quintal da casa de sua avó, no sertão nordestino, Alice dos Anjos encontra um apressado bode preto que usa terno e gravata. Tentando alcançá-lo, a menina cai em um buraco e é transportada para um mundo mágico, repleto de personagens malucos e muitas aventuras. Em uma livre e divertida adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, Daniel Leite Almeida combina diferentes figuras e temas do imaginário brasileiro à clássica história de Lewis Carroll. • Serial Kelly (Drama) Direção: René Guerra Elenco: Gaby Amarantos, Igor de Araújo, Paula Cohen, Aline Marta Maia, Márcio Fecher, Ane Oliva e Pedro Wagner Sinopse: Enquanto cumpre uma agenda de shows em inferninhos pelo sertão, Kelly, uma cantora de forró eletrônico, também vai deixando um rastro de mortes pelo caminho. Em seu trajeto de consumo compulsivo e violência, ela atravessa um nordeste novo, espiral de um desenvolvimento também apocalíptico. Quando passa a ser investigada pelos assassinatos de três homens, sua turnê mambembe também se transforma uma estratégia de fuga. E de estrela ascendente ela se torna uma heroína marginal, a temida e procurada Serial Kelly, a primeira serial Killer mulher do Brasil. Confiram a programação dos cinemas de sua cidade (principalmente os de rua) para não perderem nenhum lançamento. Informações coletas no Filme B e Ingresso.com
- Crítica | Flordelis - Questiona ou Adora (2022)
As várias faces de uma história sórdida protagonizada pela hipocrisia moral Divulgação: Globoplay Três anos após mais um crime que parou o Brasil, o Globoplay e O Globo unem-se à Boutique Filmes, e trazem ao streaming a série-documentário sobre o assassinato do Pastor Anderson do Carmo e o envolvimento de sua esposa e ex deputada-federal Flordelis. Os seis episódios são nomeados após passagens bíblicas marcantes (mesmo recurso utilizado em Missa da Meia-Noite), que fornecem o background necessário para a identificação do simbolismo e a relação com o desenrolar dos acontecimentos. A narrativa não-linear para construir o mosaico das histórias de Flordelis, Anderson, e das outras pessoas intrincadas não confunde tanto quanto os múltiplos nomes, apelidos e rostos dispostos na história; além de delegados, peritos, e todo o corpo técnico de profissionais envolvidos ao longo do extenso processo. Mas não há motivos para desistir de assistir, como em toda boa trama, alguns acontecimentos são deixados pelo caminho para a explicação posterior, e quando isto acontece, a sensação é de que mais uma chave de compreensão foi entregue. “Uma deusa, uma louca, uma feiticeira?” A produção não economiza na tentativa de sintetizar a mulher e a persona Flordelis, e obtêm êxito quando, através da numerosa contraposição de depoimentos, abre espaço para que quem assiste possa também agrupar opiniões sobre ela. Interessante perceber que esse julgamento pode ser uma armadilha perigosa, já que a lógica dicotômica surge rapidamente em função de simplificar uma figura tão complexa como a da ex-deputada. Quem é a mulher que surge na favela do Jacarezinho, acolhendo crianças dentro de casa, com um sonho de igualdade e melhores oportunidades para seus “filhos”? É um chamado glorioso, divino? A mulher mítica, a imagem da super-mãe que enfrenta todos os obstáculos, desafia autoridades – em dado momento conta-se, pelas vozes de Anderson e Flor, o dia em que ela contraria uma ordem do então juiz da vara da Infância, face a face, clamando pela intervenção da autoridade divina–, que progressivamente, desponta na mídia sempre incansável por justiça, emprestando a voz às composições que tocam o coração de milhares de fiéis com canções que buscam devolver a autoestima dos que creem nas promessas do deus cristão; a mulher negra, pobre, favelada, torna-se símbolo da ascensão social, que neste âmbito, também significa ascensão espiritual, é desnudada. Enquanto mostra-se frágil e quebrável, inapta para estar só, e carente da onipresença do marido, é também a mandante de um crime cruel, e manipuladora; Patrona de uma residência cuja estrutura perversa de castas priva o acesso de alguns membros vistos apenas como serviçais, a serva de Deus, cujo espírito veio do Sétimo Céu, a mulher irredutível, numa posição autoritária, “masculina” – visto que questiona algumas concepções pré-estabelecidas de gênero engendradas na estrutura do Evangelicalismo no Brasil. Mostra-se sacerdotisa, confiável pela comunidade enquanto é fraude e farsa para outros. Mas em nenhuma hipótese, uma mulher que não atrai atenção, e que não sabe portar-se diante do escrutínio da sociedade. “O profundo e o escondido” No ano de 2018, com a eleição do futuro ex-presidente Jair Bolsonaro e a explosão do Evangelicalismo no Poder Público, o ideal de Brasil Cristão alastrou-se junto à onda conservadora que já vinha dando sinais de crescimento ao redor do mundo. A nítida debandada de líderes religiosos para o Congresso Nacional como representantes ou apoiadores de pautas mais à direita, que intercedesse pela tal “família tradicional brasileira” (alguém sabe do que eles estão falando?), pelo livre exercício de expressão religiosa – desde que seja apenas da fé cristã –, e claro, do homem vestindo azul e da menina vestindo rosa. É neste delírio em forma de projeto de nação, combinada à fraqueza e inaptidão do Estado Nacional em políticas de emprego, renda, fome, e saúde pública, que as lideranças religiosas pentecostais e neopentecostais ganham força em projetos que resgatam a humanidade de pessoas desassistidas (e estes esforços devem ser reconhecidos), pelo caríssimo preço da lealdade aos supostos “servos de Deus” na política. É neste cenário que surge o cavalo azarão, Flordelis, a quinta deputada mais votada do Rio de Janeiro, com quase 200 mil votos e uma promessa: vamos cuidar das crianças do Brasil. As ligações políticas com nomes proeminentes do conservadorismo político brasileiro foram se multiplicando proporcionalmente à fama do trabalho com a Igreja, o trabalho musical, e o trabalho social que visava “desburocratizar a adoção no país”, contando com o apoio da ministra Damares Alves. A fama de Flordelis não servia a ela, apenas. No auge que estava antes do crime, quem compartilhasse dos caminhos e acordos fornecidos por ela, certamente estaria em bons lençóis. A série é perspicaz quando ressalta isto: Flordelis foi um fenômeno criado e mantido também pelo storytelling da mídia, dos seus investidores, que ganhavam dinheiro e capital social ao partilhar das ligações proporcionadas pela proximidade com a “diva” gospel. Mas, como toda casa dividida não subsiste, ao primeiro sinal de instabilidade, os apoios foram retirados, e as entranhas, expostas. Os segredos internos: da casa, dos filhos e netos, dos relacionamentos e jogos de poder entre filhos biológicos e adotados; e externos, em forma de planos megalomaníacos pela busca do maior poder de demanda e cumprimento de exigências pessoais através da máquina pública, são colocados no display. Curioso perceber como a casa, de forte apelo imagético por ser a única da vizinhança com cor externa vibrante que destoa do padrão bucólico do bairro de classe média-alta, funciona como uma miniatura do funcionamento das relações gerais estabelecidas ao redor da matriarca: uma relação de dependência em quereres. Muitos queriam ascender socialmente (dentro e fora da casa, até mesmo Anderson e Flordelis, que supostamente passaram por algum momento de dificuldade financeira), desfrutar de benesses e acessos. A partir do terceiro episódio o turning point é intrigante, e o “Por Que?” ecoa durante a descoberta dos passos traçados por cada membro chave envolvido no complô que resultou na morte do Pastor. Confesso que diversas vezes pensei “não era mais fácil se separar?”. Que deus é este que vira o rosto para um assassinato, mas se enfurece com um divórcio? Farsa, infâmia, calúnia ou justiça divina? Ao final do último episódio, os testemunhos imponentes do casal à bradar por verdade, justiça, clareza durante pregações, vociferando perguntas sobre integridade e retidão moral numa alusão não-intencional ao versículo que se tornou mote do governo vigente cravam-se no ar como uma resposta indireta e silenciosa. Nota: 4,5/5
- Crítica | Verão Fantasma (Mostra Online Floripa Que Horror!)
Onírico e musicalizado, o filme valsa pelo horror com liberdade Divulgação Ambientando em uma casa de praia que parece estar dimensionalmente distante da sociedade, 'Verão Fantasma' dá um mergulho no horror com uma abordagem não convencional. A história discorre em volta de Martin, personagem introspectivo que se isola nesse local em busca de um amigo de infância que desapareceu. É ali onde ele conhece Lucas, com quem acaba se envolvendo, até que surgem mais personagens 'intrusos' nesse cenário. Com uma textura de gravação caseira, o filme traz à tela uma sensação onírica através da trama, com um leve vai e vem entre presente e passado, ele vai se moldando inicialmente num leve drama até apresentar suas características de horror. Um ponto positivo do longa está na decisão criativa de mesclar o horror com o musical, algo já visto em 'Sinfonia da Necrópole' no próprio cenário nacional, e indo mais longe, em 'The Rocky Horror Picture Show'. Em 'Verão Fantasma', essa mescla é o que lhe dá um diferencial dentro do próprio enredo, deixando de lado a parte visual do terror sobre o que vai acontecendo aos personagens, ele foca no 'pós', utilizando os seus "fantasmas", por assim dizer. Ainda nesse tópico de musical, antes se apossar desse gênero, ele já dá indícios de que vai seguir uma rota diferente, no entanto, com cenas cansativamente arrastadas, ele apresenta momentos em que os personagens se descontraem através da música que destoam um pouco da proposta. Já a parte musical, em que há o uso de uma ópera bastante macabra, ele consegue se sair melhor, com uma execução originalmente sua e com uso de efeitos visuais que trazem melhoria para seu enredo. A utilização gráfica de elementos do mar o deixam num patamar só seu, onde pode trabalhar livremente. Divulgação O seu roteiro demonstra um desejo ávido de fazer cinema, de querer estar nesse ambiente de filmes, e apesar dos deslizes, o esforço merece gratificações. Já em relação a seus personagens, há uma falha de desenvolvimento, ele nos apresenta um protagonista que é visivelmente introspectivo, mas que não o trabalha ou o aprofunda bem, deixando-o um tanto superficial. Seus companheiros de cena também sofrem dessa mesma falta. Há também uma ausência de entrega no que diz respeito ao elenco, não vemos atuações marcantes ou que mereçam destaque. Apesar da simplicidade da produção, 'Verão Fantasma' merece créditos pela ideia e criatividade. Sendo seu ato final o melhor, ele ainda consegue se sair bem em seu início até chegar no ápice. Tem uma trilha simples, mas que se encaixa com a sua proposta, e que dá um toque de horror com uma sensação de nostalgia. Experimental e audacioso, ele é uma boa experiência para quem já curte o horror, e é um respiro de alívio em relação a ampliar temas e gêneros dentro do cinema nacional. Nota: 3/5
- Crítica | A Praia Do Fim Do Mundo (Mostra Cinema LABCeará - Lei Aldir Blanc)
A melancolia da arte como trunfo para mensagem de preservação Divulgação Localizada na cidade de Caucaia, no Ceará, a praia do Icaraí vem sofrendo uma destruição gradativa ao longo do tempo, com um abandono aparente por parte das autoridades responsáveis. A praia antes valorizada, acabou perdendo prestígio, se deteriorando em decorrência das ações humanas que culminaram em consequências naturais. 'A Praia do Fim Do Mundo', filme dirigido pelo cearense Petrus Cariry, se utiliza dessa trama e localidade para criar uma história original em Ciarema, uma cidade fictícia. Abordando o descaso do poder público com uma visão bastante artística, ele leva às telas uma mensagem de socorro inserida no meio de muita melancolia. Através das personagens Helena (Marcélia Cartaxo) e Alice (Fátima Macedo), que interpretam mãe e filha, acompanhamos todo o drama do abandono e do desabrigo das pessoas da comunidade que se veem obrigadas a irem embora por não haver uma solução viável para a permanência. A relação das duas é o que move toda a trama, com um toque de mistério envolvido, elas têm diálogos embativos em momentos específicos do longa, com um texto rápido e repleto de subjetividades. Apesar disso, ele se mantém enigmático do início ao fim, dando espaço para grandes cenas visuais e emblemáticas para a história, fazendo uso da ausência de falas por diversos momentos. Divulgação Ele se monta com uma trilha que tem um misto de instrumentais com sons naturais, tornando-o uma experiência imersiva muito agradável e reflexiva. Ajudando na imersão, há uma fotografia trabalhada em preto e branco e com foco nos cenários, expandido a visão do espectador para ir mais além do que o que está centrado em tela. Existe nele algo magnético, que concentra em seus minutos uma fórmula que faz com que o espectador fique antenado e atiça a curiosidade sobre o que está por vir. A direção de Petrus segue espetacular, e é muito satisfatório a forma como ele conduz cenas e atores, nos dando um conjunto de obra que encanta pelo trabalho bem executado. Marcélia Cartaxo, que é uma atriz sensacional, entrega aqui a sua personagem mais introversa com uma atuação acertada em todos os níveis que Helena pede. Seu maior poder está nos momentos de silêncio, em que ela conduz a personagem de tal maneira que torna impossível não apreciá-la e admirá-la ainda mais. Divulgação Perpassando por todos os dramas das personagens, o longa traz nas entrelinhas um sentimento de tristeza e de perda. Ele se utiliza de toque místico para retratar a urgência sobre a crise ambiental ali envolvida. Essa misticidade dá ao filme uma nova camada que consegue se mesclar diretamente com as histórias das personagens e com o enredo como um todo. Ele não entrega o mistério só por mistério, deixa subentendido várias nuances que vão se afunilando para um final consternador e ponderativo. 'A Praia do Fim do Mundo', além de seu propósito como filme e arte, é também mais um dos grandes acertos do cinema nacional e cearense. Tem uma veia artística esplêndida e deixa claro que estamos prontos para navegar por águas cada vez mais imersivas, criativas e fantasiosas. É um filme que vem pronto para ser discutido e apreciado, é desafiador e necessário, e pode ser considerado um presente de valor imensurável de Petrus Cariry para o público. Nota: 4,5/5
- Crítica | Wandinha (1ª temporada)
Jenna Ortega prova mais uma vez que é uma das melhores jovens atrizes da atualidade Divulgação: Netflix Lançada nesta quarta-feira, 23, a série "Wandinha" da Netflix tem como seu principal objetivo restaurar uma personagem clássica no imaginário cultural da nova geração e agradar aqueles já familiarizados com a história da família Adams. A série original, inspirada em cartoons que saiam em jornais e revistas, foi ao ar entre 1964 a 1966 e deixou uma marca pouco antes vista dentro da indústria da cultura popular. É difícil alguém não conhecer Gomez, Morticia e todo o clã Adams e foi segurando um legado que envolve videogames e um filme extremamente bem sucedido em 1991 que a Netflix resolve apostar na já bem sucedida história. A aposta de "Wandinha" ser o mais novo sucesso da plataforma está nas mãos dos roteiristas Miles Millar e Alfred Gough com a direção de Tim Burton. A presença do diretor aclamado dita bem o tom da produção desde o seu início e é um chamariz para os fãs das produções góticas do cineasta. No elenco, o streaming também traz boas fichas que prometem atrair o público. Sua protagonista é interpretada por Jenna Ortega, atual fenômeno do terror moderno, que sempre apresenta boas e surpreendentes atuações e em "Wandinha" isso não foi diferente. Jenna é a encarnação de Wandinha e é ela que torna assistir os oito episódios da série algo extremamente prazeroso. Ela acerta no tom em uma personagem que é completamente fora do padrão de protagonistas de séries juvenis. Sua personalidade mórbida e fechada, esconde por trás uma adolescente como qualquer outra, que sente dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo e que passa por problemas com os pais e com situações rotineiras da adolescência (como o primeiro amor). Divulgação: Netflix Além da excelente performance de Jenna, Gwendoline Christie também está maravilhosa como a diretora da "Nevermore Academy" e Catherine Zeta-Jones e Luis Guzmán são ótimas novas versões de Morticia e Gomez. Outro destaque é Christina Ricci (interprete de Wandinha no filme de 91) como uma das professoras da Academia. Sua presença tem um "quê" de nostalgia e também traz uma oportunidade de rever uma atriz tão talentosa em um papel cômico e divertido. Narrativamente falando, a história de "Wandinha" é similar a de outras séries juvenis com personagens singulares. Por conta da suas ações violentas, a jovem é mandada para uma academia repleta de alunos problemáticos e precisa lidar com um mistério que assola além dos muros da escola. O plot não surpreende, mas é consistente e segura muito bem sua trama durante os oito episódios. A nova fórmula pode não agradar aqueles que esperavam ver os valores da família Adams nas telas, mas, "Wandinha" consegue entender bem o seu público-alvo e entrega uma história que é puro entretenimento e que deverá angariar novos fãs para personagem e deixa uma mensagem extremamente positiva para os mais novos de como crescer em um mundo que te considera diferente. Nota: 4/5
- Crítica | O Território (Citronela DOC - Festival de Documentários de Ilhabela 2022)
Lutando pela própria existência em meio a uma sociedade corrompida pela falta de empatia Divulgação: National Geographic A luta dos povos indígenas persiste desde a chegada dos portugueses ao Brasil, e, quando em 2018, para a vaga de presidência, ganhou o candidato que representava o avanço de tudo que havia de ruim, já se acendeu um alerta de que o país entraria em um período deturpado e de governabilidade excludente para quem não fosse rico ou branco. Bem antes disso já se ouvia os discursos acalorados contra demarcação de terras, o ódio escancarado contra indígenas e outras minorias, até que, mesmo após falas horrendas e de cunho depreciativo contra qualquer pessoa com o mínimo de decência, foi eleito o novo presidente. Com esse resultado, vieram os desmontes em diversas áreas do setor ambiental e de cuidado com Amazônia e natureza de modo geral, algo que foi se agravando mais e mais, e com a nomeação de um ministro do meio ambiente que tinha total intuito de destruí-lo em prol dos próprios bolsos, o pesadelo aumentou exponencialmente. O aumento de queimadas em regiões outrora de preservação e o aparelhamento com órgãos fiscalizadores para que se fizesse a famosa ‘vista grossa’, fizeram com que cada vez mais indígenas sofressem perdendo territórios e na maioria das vezes a própria vida. ‘O Território’, documentário produzido por Darren Aronofsky e Sigrid Dyekjaer e com direção de Alex Pritz, acompanha os Uru-eu-wau-wau, uma comunidade indígena no norte de Rondônia, e sua luta contra o desmatamento que se aproxima com rapidez da área demarcada onde vivem. Luta não somente pela preservação de sua terra, mas da própria existência. Com uma visão intimista sobre o cotidiano dos Uru-eu-wau-wau, a produção nos coloca dentro da situação de maneira que possamos enxergar a gravidade disso tudo de forma crua e sem qualquer maquiagem. Divulgação: National Geographic A nossa Amazônia é, por enquanto, ainda extremamente bonita, com uma extensão de florestas e rios, ela é como um paraíso que merece toda a preservação. Toda essa beleza foi transmitida para as telas neste documentário, que tem uma fotografia sublime e encantadora, e traz uma qualidade visual ímpar para a obra. A produção soube explorar com exuberância o poder que a natureza tem, repassando um aconchego e um desejo de estar ali naquele meio. O que agrega ainda mais valor a isto é a trilha, que veio simples e bem elaborada dentro da proposta do que o documentário queria mostrar ao público. Com um propósito óbvio desde seu início, ele aborda a temática mostrando a ação dos dois lados, explorando as possíveis motivações por trás das atitudes das pessoas que cometiam queimadas, e como isso estava muito acima deles. Fica claro o uso de peões menores para alardear o pânico enquanto os verdadeiros beneficiários agiam de longe. O ápice do documentário é, sem sombra de dúvidas, a infelicidade de registrar enquanto era produzido a morte de um membro importante dos Uru-eu-wau-wau, e a tristeza que isso desencadeia na comunidade. A maneira como eles reagem a esse evento trágico causado pelo homem branco, apesar de dolorosa é também bonita, a forma como eles enxergam a passagem de um de seus membros e como buscam força nisso para prosseguir na causa com mais afinco. 'O Território' é um documentário cru e objetivo, que usa da arte e das qualidades técnicas para transmitir algo tão importante. Além da mensagem, é bonito também poder conhecer um povo que enxerga a natureza como parte de si e o respeito que têm com tudo ao seu redor, o tratamento que dão à sua terra e a importância gigantesca que veem nela. Enquanto para o outro lado aquele território só é visto como uma possibilidade de lucro e benefícios que só surgiriam com a destruição do local e seus moradores. É, acima de tudo, uma produção urgente e necessária, que dá luz sobre os malefícios enfrentados atualmente em escala nacional. Nota: 5/5
- Crítica | Piggy (Cerdita)
A crueldade social elevada ao seu grau mais doentio Divulgação: Paramount+ Baseado num curta-metragem de mesmo nome, ‘Piggy’ é um longa franco-espanhol dirigido por Carlota Martínez-Pereda e estrelado por Laura Galán. Ambientado numa pequena cidade, acompanhamos Sara, uma adolescente com excesso de peso que ao se banhar numa piscina, é alvo de bullying por parte de outras três garotas, que logo depois são sequestradas por um homem misterioso que por alguma razão não a faz mal. Laura Galán é o maior destaque do elenco, sua personagem como alvo fácil da imbecilidade social, torna possível com que ela transpareça sentimentos e reações verossímeis. Sua raiva pode ser vista com clareza e até compartilhada pelo público, e suas frustrações são compreensíveis em todos os níveis, é perceptível o incômodo da personagem em diversas situações, tanto na questão de ataques quanto entre sua família. Quem merece menção aqui também é Richard Holmes, que interpreta o homem desconhecido. Carregado de mistério, esse é o personagem que mais contracena direta ou indiretamente com Sara. Seus momentos se dão com poucos diálogos, havendo uma necessidade expressiva de sentimentos e sensações a olho nu. Ele é uma figura que amedronta sem fazer muita coisa, Richard repassa bem essa aura de mistério e medo que o personagem pede, e fica mais evidente quando ele está em contato com outras pessoas. A narrativa é bastante rápida e tenta ser direta, ela se desenvolve bem dentro do que propõe e se vê que sua abordagem é feita usando elementos que vão agregar à história de modo geral. Tem um roteiro claro e sem muitas nuances, mas a direção de Carlota em momentos de tensão é bem efetuada. A execução dos instantes finais do filme poderiam ter tido uma visão ampla, contudo, não chega a ser um defeito. Em momento algum o filme tenta transparecer lições de moral, apesar da obviedade na crítica social. Mesmo com o título e a personagem dando margens para uma história que poderia ser de vingança, ele alavanca um novo tema dentro disso tudo que deixar o clima mais pesado; o abuso. Além do já esperado e sofrido bullying com a protagonista pelo seu peso, há uma inserção de drama ampliando abusos que ela sofre fora desse tema, em sua família e com o homem desconhecido, sendo esse o que mais constrange e amedronta. Para encerrar, 'Piggy' é um bom terror psicológico com um misto de slasher que faz o público se conectar à trama com facilidade. Sua força está na protagonista do início ao fim, e Galán consegue puxar para si essa responsabilidade e executá-la bem. Nota: 3,5/5
- Crítica | Derry Girls (3ª temporada)
Com três temporadas, série irlandesa chega ao fim sendo uma das melhores comédias adolescentes dos últimos tempos Divulgação: Netflix Distribuída mundialmente pela Netflix, a série “Derry Girls” teve sua terceira e última temporada lançada neste mês de outubro no streaming. Criada em 2018 por Lisa McGee, a série conta, de modo principal, as aventuras de Erin (Saoirse-Monica Jackson), Orla (Louisa Harland), Clare (Nicola Coughlan), Michelle (Jamie-Lee O'Donnell) e James (Dylan Llewellyn) na pequena cidade de Derry, na Irlanda do Norte durante a década de 90. Além de frequentarem uma escola secundária para meninas católicas, o grupo de amigos ainda precisa enfrentar os desafios da adolescência. De plano de fundo na vida desses jovens surge um conflito político que assolou a Irlanda na época, onde Derry era um dos principais palcos de disputa entre protestantes e católicos. É quase como acompanhar um documentário irônico, divertido e espirituoso em uma zona de guerra. Em três temporadas, o assunto foi ganhando forma e se inserindo nas narrativas de cada personagem e dos seus conflitos internos. Mas os problemas perpassam a política e suas violências e entram nas temáticas que se encaixam na vida de qualquer adolescente: Problemas com dinheiro, status social, brigas com a família, e dificuldades na escola são alguma das coisas que Erin, Orla, Clare, Michelle e James enfrentam ao longo dos episódios. E é no decorrer dessa trama que “Derry Girls” conquista o telespectador e transforma esses personagens em quase amigos íntimos da nossa vida. Divulgação: Netlix Afinal, é muito difícil não se apegar a essa galera. A série tem uma vibe muito nostálgica, engraçada e familiar, segue em uma crescente até a sua terceira temporada e termina de uma forma espetacular sem perder seu charme e diálogos fortes e afiados. Seguindo a estrutura clássica das sitcoms, “Derry Girls” sabe executar bem todos os clichês do gênero durante os menos de 30 minutos por episódio. Sendo pouco conhecida no Brasil e sabendo o momento certo de parar de contar uma história, a série terminou sem muito alvoroço e deixou em mim uma sensação muito contraditória, pois, eu facilmente assistiria mais uns 200 episódios sobre a vida de cada um. Mas, a série termina de uma forma tão incrível que é impossível querer um outro final. No fim das contas, o que importa é que “Derry Girls” merece ser assistida e compartilhada, mesmo depois do seu fim, para a nossa geração e para a geração mais nova que vem por aí. Sua temática nunca envelhece e ter Erin, Orla, Clare, Michelle e James te acompanhando, nem que por pouquíssimo tempo, na adolescência deve valer muito a pena. Nota: 5/5
- Crítica | Selena Gomez: Minha Mente e Eu
Documentário demonstra a necessidade de abordar a temática das doenças mentais e da importância de vozes como as de Selena Divulgação: Apple TV+ Selena Gomez é um nome conhecido por crianças, jovens e adultos desde 2007. Ela iniciou sua carreira na série infantil “Barney & seus amigos” mas foi catapultada ao sucesso após estrelar “Os Feiticeiros de Waverly Place” na Disney Channel. Desde então, Selena vem posicionando seu nome na indústria em diversos setores do entretenimento, se destacando como cantora e atriz em um mundo cada vez mais hiperconectado nas redes sociais e na vida das celebridades. Crescendo e sendo observada a cada passo, Selena, agora com 30 anos, viveu altos e baixos na sua carreira. As histórias por trás do que era exposto pela mídia, a estrela conta em seu novo documentário que lança amanhã, 4, na Apple TV+. “Selena Gomez: Minha Mente e Eu” é um retrato intimista da artista que explora a sua luta contra o lúpus, a bipolaridade e a depressão nos últimos seis anos da sua carreira. O filme é dirigido por Alek Keshishian, responsável pelo clássico “Na Cama com Madonna”, de 1991. Já no início do documentário, voltamos ao ano de 2016 em plena era ‘Revival’ e no ápice da turnê que circulava por todo os EUA. Selena, neste momento, havia alcançado um alto nível de popularidade com o sucesso de suas canções e permanecia sempre em evidência na mídia após o seu conturbado relacionamento com o também cantor Justin Bieber. Nestas circunstâncias, a jovem vivia em uma situação de alto estresse mental e precisou encerrar a turnê mais cedo após um grave episódio de ataque de pânico. Divulgação: Apple TV+ A partir daí, Selena precisou entender, lidar e conviver com o diagnóstico de lúpus e todas as consequências (físicas e mentais) que a doença trouxe para sua vida. No documentário, conseguimos perceber as dores e as frustrações de uma menina jovem, amada por milhares, que não conseguia encontrar o amor próprio no meio de tantas turbulências em sua vida pessoal. Todo esse processo de cura e de reencontrar a si mesma e as pessoas ao seu redor é documentado e é incrível perceber como, aos poucos, Selena ia se reconstruindo para se tornar uma mulher cada vez mais consciente dos seus problemas. Para mim, pessoalmente, Selena sempre foi um grande exemplo ao ser tão aberta e honesta com seus fãs e com o resto do mundo ao falar sobre doenças mentais de uma maneira tão íntima. Mesmo se sentindo insuficiente em vários momentos, Selena ainda persiste em dar o seu melhor e utilizar o seu alcance global para conscientizar cada vez mais pessoas acerca do tabu em relação a doenças como depressão, ansiedade e bipolaridade. “Minha Mente e Eu” mostra essa progressão da Selena de 2016 à Selena que conhecemos agora. Perpassando pelo lançamento do seu mais recente álbum e da pandemia da Covid-19, os telespectadores têm acesso a uma parte da estrela que ainda é desconhecida por grande parte da mídia e entram (literalmente) nas entrelinhas das frases escritas em seu diário durante esse período conturbado. Com 1h35, “Minha Mente e Eu” é um documentário simples, muito bem feito e produzido tecnicamente, que tem como seu ponto mais forte o amor e a vontade da sua protagonista em estar viva e continuar inspirando cada vez mais pessoas. Merece ser assistido por fãs, admiradores e até por quem apenas a conhece por nome. Tenho certeza que admiração perante a artista como ser humano, sem dúvidas, crescerá. Nota: 4,5/5












