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  • Crítica | Elvis

    Uma cinebiografia exagerada e desenfreada, como foi o Elvis, e como tinha que ser. Divulgação: Warner Bros. Pictures O filme explora a vida e a música de Elvis Presley (Austin Butler), vista através do prisma de sua complicada relação com seu enigmático empresário, o coronel Tom Parker (Hanks). A história mergulha na dinâmica complexa entre Presley e Parker ao longo de 20 anos, desde a ascensão de Presley à fama até seu estrelato sem precedentes, tendo como pano de fundo a paisagem cultural em evolução e a perda da inocência na América. No centro dessa jornada está uma das pessoas mais importantes e influentes na vida de Elvis, Priscilla Presley (Olivia DeJonge). Por mais que você não goste do diretor Baz Luhrmann, você não pode afirmar que ele não tem um estilo próprio de filmagem e que ele consegue imprimir bem esse estilo em qualquer uma de suas produções. Muito brilho, muita alegoria, muita exuberância, muitos efeitos digitais questionáveis e muita música. E em Elvis o diretor não se economizou é bom deixar claro antes de qualquer coisa. Se você acha que esse é um filme biográfico como os “comuns” que tentam se prender puramente aos fatos, não é. Baz usa os fatos e momentos reais da vida do cantor, mas adiciona quase que um tom de fantasia, tamanhos excessos que usa nos filtros, nas edições, nos cortes e nos zooms e no som. Baz certamente pensou, “como posso tornar mais atrativa visualmente a história de um cantor que foi por si só um fenômeno?”, e o resultado é de encher os olhos, independente se você gosta ou não do Elvis. Embalado num ritmo frenético e por canções (em suas versões originais e versões originais do filme) que contam — quase como num musical — os fatos que estão sendo abordados, o filme usa da perspectiva do polêmico Coronel Tom Parker para contar como Elvis se tornou um fenômeno mundo e ícone de uma época. Tom Hanks está muito bem dentro do possível para o caricato personagem. O excesso de maquiagem prostética para assemelhar o ator ao personagem é sim um pouco distrativa, mas como personagem de motivação e usado em momentos chave, o resultado é positivo. Divulgação: Warner Bros. Pictures Mas o grande nome do filme é Austin Butler. Eu já vi alguns filmes anteriores que constam no currículo do ator, mas confesso que não me lembrava dele de maneira alguma por serem participações pequenas. Bom, agora o ator se tornou inesquecível. Com uma atuação visceral e eletrizante, Butler deu vida (e deu voz) de maneira impecável, sem parecer um cover do Elvis performer, mas no detalhe, no tom da voz, no olhar. Acho que o ator que encena um cantor num filme tem que, no mínimo, ousar cantar as músicas do personagem, e Butler deu vários shows nesse quesito. Não dá para ficar inerte à atuação dele da mesma forma que não se ficava inerte à Elvis num palco. Qualquer indicação a prêmios que ele venha a receber será mais do que justo, será necessário. No mais deve-se destacar a maneira que o roteiro contemplou a influência da música e da cultura negra, de forma direta, na carreira de Elvis. O cantor que fazia questão de inserir (usou? apropriou?) músicas de artistas negros em seu repertório teve como base grandes nomes que via com respeito, e que estão em momentos cruciais do filme. Elvis consegue ainda, em meio a todo esse espetáculo visual e sonoro, de maneira competente mostrar os dramas pessoais do grande cantor. A necessidade de aceitação, além da fama, em contrapartida ao desejo de se expressar da forma que queria. Presley não deve ser isento de culpa sobre o rumo que sua jornada tomou, mas foi sim uma vítima do controle obsessivo de Tom Parker e isso trouxe consequências não só para sua carreira como para seu estilo de vida, seus anseios e sua constante necessidade de busca por algo que estava consigo o tempo todo, mas não conseguiam deixá-lo ver. Nota: 5/5

  • Crítica | Em Nome do Céu (Minissérie)

    Apesar de certos deslizes narrativos, Andrew Garfield faz por merecer sua indicação em Melhor Ator em Série Limitada no Emmy 2022. Divulgação (Hulu) Com uma indicação ao Emmy para o protagonista Andrew Garfield, a minissérie ‘Em Nome do Céu’ chegou recentemente ao catálogo brasileiro do Star+. No enredo, baseado em uma história real, o detetive Jeb Pryre (Garfield) é chamado com sua equipe para investigar o homicídio de uma mulher e da sua filha bebê em uma pequena cidade rural no estado de Utah, nos EUA. Tanto o detetive, quanto os principais suspeitos do crime são adeptos das ideias de Joseph Smith e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Quanto mais se aprofunda na investigação, ele descobre segredos que mudam completamente sua visão do mundo, abalando sua fé ao perceber como os escritos podem ser interpretados dentro de uma visão extremista. ‘Em Nome do Céu’ já começa muito frenética ao nos depararmos com a brutalidade do crime no qual a história gira em torno. Nesses primeiros momentos de investigação conhecemos a família Lafferty e as nuances dos irmãos, em especial o marido da vítima, considerado o principal suspeito em um primeiro momento. Misturando bastante cenas da investigação com cenas do passado, a minissérie segue essa narrativa de ida e volta que funciona em alguns momentos mais cruciais, mas torna a série arrastada em momentos no qual ela poderia ser melhor aproveitada. Acredito que essa seja a principal falha da série, já que com episódios tão longos, ela pode se tornar bastante cansativa para quem resolve acompanhá-la, especialmente para quem não conhece a história da religião, por exemplo. Porém, isso não tira o mérito de ‘Em Nome do Céu’ que com atuações brilhantes mostra como fundamentalistas abusam do fanatismo para atingir os próprios interesses, buscando na religião meios para tal e por causa de ideias deturpadas (e criminosas), sucumbiram perante à lei dos homens e à de Deus. No fim das contas, a minissérie, mesmo difícil de ser digerida em alguns momentos, pode ser uma obra fundamental para entendermos um tema tão atual de uma maneira bem crua, real e sensível.

  • Festival Internacional de Cinema de Veneza 2022 anuncia seus vencedores

    All the Beauty and the Bloodshed e o francê Saint Omer saem como as grandes ganhadoras da 79ª edição. Divulgação: All the Beauty and the Bloodshed (NEON) Considerado por muitos o início propriamente dito da temporada de premiações, o Festival Internacional de Cinema de Veneza realiza em seu último dia a entrega dos prêmios das competições do evento. Confiram os vencedores das seleções oficiais da edição de 2022: Em Competição: Leão de Ouro: All the Beauty and the Bloodshed (Laura Poitras) Grande Prêmio do Júri: Saint Omer (Alice Diop) Leão de Prata de Melhor Direção: Bones & All (Luca Guadagnino) Volpi Cup de Melhor Atriz: Cate Blanchett (Tár) Volpi Cup de Melhor Ator: Colin Farrell (The Banshees of Inisherin) Golden Osella de Melhor Roteiro: The Banshees of Inisherin (Martin McDonagh) Prêmio Especial do Júri: No Bears (Jafar Panahi) Marcello Mastroianni de Melhor Artista Revelação: Taylor Russell (Bones & All) A vitória de marca o terceiro ano seguido que um longa dirigido por uma mulher vence o Leão de Ouro, maior prêmio do Festival de Cinema de Veneza. 2020 • Nomadland (Chloé Zhao) 2021 • L’Événement (Audrey Diwan) 2022 • All the Beauty and the Bloodshed (Laura Poitras) Divulgação: Saint Omer (Super) Mostra Orizzonti: Melhor Filme: World War III (Houman Seyyedi) Melhor Direção: Vera (Tizza Covi e Rainer Frimmel) Prêmio Especial do Júri: Bread and Salt (Damian Kocur) Melhor Atriz: Vera Gemma (Vera) Melhor Ator: Mohsen Tanabandeh (World War III) Melhor Roteiro: Blanquita (Fernando Guzzoni) Melhor Curta-Metragem: Snow In September (Lkhagvadulam Purev-Ochir) Divulgação Além disso, vale destacar que o brasileiro Pedro Harres venceu o Grande Prêmio do Júri da Mostra Venice Immersive com 'From the Main Square', seu curta-metragem alemão. "Circundando sua praça central, uma nova cidade emerge em toda a sua diversidade. Uma encruzilhada de histórias, edificações, esperanças e conflitos. Os laços sociais e as culturas se enraízam. As pessoas nutrem simpatia e cuidam de seus iguais, mas também animosidade para com aqueles que são diferentes. Não demora muito para que uma atmosfera de 'nós contra eles' assuma o controle. From the Main Square é uma experiência interativa de RV que convida o espectador a testemunhar a ascensão e queda de uma sociedade dividida. Uma civilização floresce, com todas as suas contradições, apenas para se tornar um perigo para si mesma." Divulgação

  • 'Os Fabelmans' vence o Festival de Cinema de Toronto 2022

    O filme de Steven Spielberg garante o primeiro lugar do People's Choice Award no TIFF 2022. Divulgação: Universal Pictures Como já era esperado, The Fabelmans foi eleito o Melhor Filme do Festival de Cinema de Toronto 2022 pelo público do evento canadense, garantindo o favoritismo do longa na temporada de premiações 2022/23. Baseado na infância de Spielberg e situado no Arizona da era pós-Segunda Guerra Mundial, a trama segue um jovem chamado Sammy Fabelman que descobre um segredo de família e explora como o poder dos filmes pode ajudá-lo a ver a verdade. Vale ressaltar que o People's Choice Award do TIFF tem um ótimo grau de acerto na temporada de premiações, sempre catapultando seus ganhadores para o Oscar: 2021: Belfast (Melhor Roteiro Original no Oscar) 2020: Nomadland (Melhor Filme, Direção e Atriz no Oscar) 2019: Jojo Rabbit (Melhor Roteiro Adaptado no Oscar) 2018: Green Book (Melhor Filme, Roteiro Original e Ator Coadjuvante no Oscar) 2017: Três Anúncios Para um Crime (Melhor Atriz e Ator Coadjuvante) 2016: La La Land (Melhor Direção e Atriz) Confiram os vencedores das honrarias do Toronto International Film Festival 2022: TIFF People's Choice Award: The Fabelmans (Steven Spielberg) Runner-Up¹ (2° Lugar): Women Talking (Sarah Polley) Runner-Up² (3° Lugar): Glass Onion - Um Mistério Knives Out (Rian Johnson) Courtesy of TIFF TIFF People's Choice Documentary Award: Black Ice (Hubert Davis) Runner-Up¹ (2° Lugar): Maya and the Wave (Stephanie Johnes) Runner-Up² (3° Lugar): 752 Is Not a Number (Babak Payami) Courtesy of TIFF TIFF People's Choice Midnight Madness Award: Weird - The Al Yankovic Story (Eric Appel Runner-Up¹ (2° Lugar): Pearl (Ti West) Runner-Up² (3° Lugar): The Blackening (Tim Story) Courtesy of TIFF FIPRESCI Prize: A Gaza Weekend (Basil Khalil) Platform Prize: Riceboy Sleeps (Anthony Shim) NETPAC Award: Sweet As (Jub Clerc) Amplify Voices Award for Best Canadian Feature Film: To Kill A Tiger (Nisha Pahuja) Special Mention for Best Canadian Feature Film: Viking (Stéphane Lafleur) Courtesy of TIFF O 47º Festival Internacional de Cinema de Toronto aconteceu entre os dias 8 e 18 de setembro deste ano e o Oxente, Pipoca? estava presente. Vocês podem conferir nossas críticas na área de Festivais do site.

  • Marte Um foi o escolhido para representar o Brasil no Oscar 2022

    O filme de Gabriel Martins tentará uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar do ano que vem. Divulgação: Embaúba Filmes Produzido pela Filmes de Plástico e Canal Brasil, a Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais anunciou hoje, 5 de setembro, que Marte Um representará o país na categoria voltada para filmes internacionais do Oscar 2023. Escolhido pela Comissão de Seleção independente, o longa de Gabriel Martins concorria contra outros cinco filmes (A Mãe, A Viagem de Pedro, Carvão, Pacificado e Paloma), mas acabou levando a melhor. A trama segue os Martins, família negra de classe média baixa, seguem a vida entre seus compromissos do dia-a-dia e seus desejos e expectativas, mesmo com a tensão de um governo conservador que acaba de assumir o poder no país. Em meio a esse cotidiano, Tércia cuida da casa enquanto passa por crises de angústia, Wellington quer ver o filho virar jogador de futebol profissional, Eunice tem um novo amor e o pequeno Deivinho sonha em colonizar Marte. Elenco: Rejane Faria, Carlos Francisco, Camilla Damião, Cícero Lucas, Ana Hilário, Russo APR, Dircinha Macedo, Tokinho e Juan Pablo Sorrin Produção: André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia

  • Crítica | Garotos de Bem (La Scuola Cattolica)

    Um caso de 1975 que poderia muito bem se passar em 2022. Divulgação Em um entardecer de 29 de setembro 1975, Rosaria Lopez e Donatella Colasanti foram agredidas, assediadas e violentadas sexualmente por mais de um dia por três meninos pertencentes a uma escola católica italiana que fazia parte da alta burguesia da sociedade. Angelo, Gianni e Andrea e a violência perpetuada pelos mesmos é retratada no filme italiano Garotos de Bem, lançado na Netflix na última quarta-feira, 15, e lançado no Festival Internacional de Cinema de Veneza no ano passado. Baseado na história real do caso criminal conhecido popularmente como o “Massacre de Circeo”, o filme usa como base o livro semibiográfico de um dos colegas de classe do trio. Edoardo Albinati traz sua própria experiência na escola, reflexões sobre sua adolescência e críticas sobre as forças que produziram a Itália contemporânea contadas em uma adaptação que mistura uma trama de amadurecimento e percepção com um dos crimes reais que mais abalou o país na década passada. Dirigido por Stefano Mordini emprega um tanto de sua experiência em documentários nas descrição dos fatos, mas, segue aqui uma linha narrativa meio paradoxal, que se mistura em meio ao tempo de uma contagem regressiva para o momento mais tenso e cruel do longa-metragem. Essa confusão temporal e a vasta gama de personagens masculinos causa um problema de narrativa, que fica meio nebulosa, e pode deixar o longa maçante em sua parte inicial. “Garotos de Bem” consegue demonstrar perfeitamente como o abandono parental, o acúmulo financeiro, a falta de limites e a masculinidade tóxica podem se combinar e gerar três cidadãos que se consideram “de bem” perante a sociedade, mas, que na verdade, escondem dentro de si uma violência grotesca misturada com um ódio e menosprezo por aqueles que consideram inferior, especialmente as mulheres. Divulgação O filme também flerta com a discussão política mostrando a predileção dos jovens por regimes autoritários como o nazifascismo, e, com atos cruéis repetidamente cometidos contra minorias, os rapazes faziam o que bem entendiam sob a luz do dia sem que houvesse reação da sociedade e da escola. Dentro desse regime católico do local de estudo, também é mostrado as faces de uma hipocrisia regrada pelo uso de figuras religiosas como esconderijo para um comportamento doentio, fato que vemos na nossa sociedade até os dias de hoje. É preciso alertar que “Garotos de Bem” é extremamente explícito em suas cenas de violência e nudez, fato que me incomoda em determinados momentos, que são usados para chocar o telespectador ao demonstrar o crime cometido pelos três jovens. Mas, o que realmente causa choque e quase parece um soco no estômago é ler as letras que sobem após a cena final, relembrando os desdobramentos do caso na Itália e o fato de foi preciso um crime dessa magnitude para que o estupro deixasse de ser considerado um crime contra a moral pública e passasse a ser um crime contra a pessoa, aumentando a sua pena. Lembrar que dos três criminosos, um foi liberado em 2005 e matou mais duas mulheres, o outro fugiu e morreu sem ter sido preso e que o outro segue livre até hoje desde 2009, é perceber também que a violência contra a mulher se perpetua e pode ser vista até os dias de hoje. A história de “Garotos de Bem” retrata um caso de 1975 que poderia muito bem se passar em 2022. E isso é mais revoltante do que qualquer outra coisa. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Trancada

    Longa de suspense traz protagonista forte que luta para proteger os filhos. Divulgação: Synapse Distribution Disponível desde 30 de setembro nas plataformas da Claro tv+, iTunes/Apple, Google/Youtube e Vivo Play, o filme Trancada (Shut In) foi lançado nos EUA em fevereiro e é dirigido por por D.J Caruso, de “Eu Sou o Número Quatro” e “Paranoia”. O longa acompanha a jovem Jessica (Rainey Qualley) e seus dois filhos. Enquanto organiza a casa de sua mãe em uma localidade remota para vendê-la, ela é surpreendida pelo ex-namorado violento, Rob e Sammy, um perigoso foragido da justiça. Para se vingar de Jessica, Rob a tranca na despensa da casa. Aproveitando-se da situação, Sammy retorna à casa atrás de Lainey, a filha mais velha do casal. Desesperada, Jessica procura uma saída para salvar seus filhos do perigo iminente. O grande destaque, sem dúvidas, é a protagonista Rainey Qualley (sim, a irmã da Margaret Qualley de “Maid” e “The Leftovers”). Esse é o seu maior papel até então e ela dá conta do recado em momentos extremamente angustiantes. É possível perceber como a atriz se apropria dos aspectos físicos e emocionais da sua personagem para demonstrar o desespero perante a situação. O roteiro deixa explícito as dificuldades de Jessica diante das adversidades e, principalmente, da sua vontade em proteger os seus filhos custe o que custar. Divulgação: Synapse Distribution Tecnicamente, o longa explora bem o tom sombrio e assustador das localidades afastadas e abusa das cores frias em quase todas as cenas, ajudando a criar uma atmosfera tensa. E, mesmo abusando dos clichês do gênero em alguns momentos, consegue prender o telespectador durante a sua 1h28 de duração, especialmente por tratar de assuntos como violência doméstica e abuso de substâncias. Com 60% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes, o filme é uma boa pedida para os amantes de histórias tensas de suspense. Com atuações e personagens envolventes, “Trancada” tem momentos tensos que se complementam por meio de ótimos arcos de redenção e de amor maternal. Nota: 3/5

  • Crítica | Órfã 2: A Origem

    A sequência que ninguém esperava que fosse existir. Divulgação Desde o ano passado, uma enorme safra de bons filmes de terror pode ser vista nos cinemas e streamings, desde reviver franquias amadas a novas trilogias, o catálogo e a qualidade vem se tornando exponencial. No meio disso tudo veio algo que provavelmente ninguém esperava; um segundo longa sobre Esther, ‘A Órfã’, que conquistou o público em 2009 pelo teor da sua história e a reviravolta empolgante envolvendo a protagonista. No que tange a essa prequela protagonizada por Isabelle Fuhrman, o maior questionamento levantado foi: o que um novo filme sobre uma personagem com um plot já revelado poderia trazer como novidade? Essa é, com certeza, o que move Órfã 2: A Origem. Como já é de conhecimento geral, Esther não é órfã e muito menos criança, seu nome verdadeiro é Leena, e é assim que a vemos no início deste segundo filme, que se passa anos antes dos eventos do anterior. O público é levado até a Estônia, onde vemos pela primeira vez Leena no Instituto Saarne, uma clínica psiquiátrica onde ela foi internada após cometer assassinatos. A partir daí não há muita novidade, a vemos trilhar seu caminho até se transformar em Esther, uma garota que até então havia desaparecido nos EUA e ela tomou proveito disso para fugir para a América do Norte. Uma das qualidades de 'Órfã' é a capacidade de gerar suspense com apenas detalhes, e criar um thriller alucinante sem se prender aos jumpscares desnecessários. Isabelle Fuhrman ainda consegue entregar uma Esther enigmática mesmo após 13 anos, e o grande charme da personagem neste filme está no olhar, já que, devido a passagem de tempo e da atriz já estar adulta, há pouco uso de um enquadramento mais distante, focando no seu rosto e suas expressões, e até tornando-a uma mina para essa prequela. Outro grande destaque no elenco fica por conta de Julia Stiles (10 Coisas que Eu Odeio Em Você), que interpreta a mãe da garota desaparecida de quem Leena rouba a identidade. Uma grande dúvida que foi gerada em relação a Fuhrman reprisando o papel foi: como uma adulta poderia interpretar novamente uma criança? E é aqui que entra um dos maiores defeitos desse terror, pois, constantemente é utilizado dublê de corpo e efeitos para trazer o tom infantil da personagem, no entanto, o resultado é escancaradamente ruim. Quando há cenas em que mostra Esther próxima de adultos, é perceptível uma alteração de tamanho em diversos momentos, fazendo com que sua estatura mude várias vezes, além da decisão de lentes para Fuhrman que não foram utilizadas no primeiro filme, deixando a personagem bastante diferente. Como dito no primeiro parágrafo, como produzir um filme onde sua protagonista além de já ter sido morta, ter seu plot conhecido? Provavelmente é essa a pergunta que move o longa e que deve gerar o interesse do público para assisti-lo, e a resposta vai ser satisfatória. Até a metade, ele entrega uma parte da história de Leena que o espectador já sabia, mas não tinha sido mostrado em tela, e é uma boa introdução, e então chega o momento aguardado; a reviravolta, e ela não só responde a pergunta inicial como dá um novo rumo para a trama, elevando o nível de suspense e ansiedade de quem o assiste para saber como será finalizado. Contudo, outra coisa que se torna um defeito é a rapidez com que tudo se desenrola após essa revelação, a história corre de forma um tanto abrupta para o seu fim, não dando o devido tempo da nova informação ser trabalhada de uma maneira melhor e digerida pelo espectador. Para encerrar, mesmo sem potencial para se tornar uma grande franquia, ‘Órfã 2: A Origem’ é o filme que ninguém esperava, mas que vai ganhar a atenção de muitos (talvez até mais que o primeiro, mesmo com os defeitos), no entanto, não há mais caminhos para a personagem de Isabelle Fuhrman, ou será que tem? Por enquanto o que pode ser dito é que entregaram uma trama inesperada que se encaixou com a história de Leena/Esther, e vale a pena conferir. Nota: 3,5/5

  • Crítica | RRR: Revolta, Rebelião, Revolução

    Bromance e luta anticolonial no melhor blockbuster do ano. Divulgação: RRR (Netflix) Após assistir RRR, de S.S. Rajamouli, a impressão que fica é que ficamos muito mal-acostumados com a mediocridade da grande maioria dos blockbusters hollywoodianos. Se as mais de 3h de duração a princípio podem assustar, ao final fica a sensação de que dificilmente Hollywood saberia usar tão bem cada minuto dessa duração da forma como Rajamouli faz, entregando um filme que não nos permite descansar, mas num bom sentido. O diretor também incorpora uma eclética mistura de gêneros. Sim, é um épico histórico situado na Índia dos anos 1920 dominada pelos britânicos, mas também é um filme de ação no melhor estilo brucutu dos anos 80; por vezes é quase um filme de super-herói, em outras é comédia, musical ou romance (bromance). Rajamouli dá a cada um desses gêneros seu espaço para brilhar, construindo uma trama bem-delineada em 4 atos distintos, no qual acompanhamos a relação tanto de amizade quanto de antagonismo entre os dois personagens principais, Komaram Bheem (N.T. Rama Rao Jr.) e Alluri Sitarama Raju (Ram Charan). Divulgação: RRR (Netflix) Bheem é um líder tribal que é encarregado de buscar uma menina de seu povo que foi sequestrada por um perverso governador britânico da administração colonial (Ray Stevenson). Já Raju é um policial que é visto como traidor por se juntar aos colonizadores, e é encarregado de se infiltrar em movimentos pró-independência para encontrar um misterioso líder revolucionário que é ninguém menos do que Bheem. O problema? Ambos se conhecem ao ajudarem num resgate e viram amigos sem saberem da identidade real um do outro. Assim, o filme se constrói na tensão de quando a verdade vai ser revelada e o que os dois protagonistas farão com sua amizade quando isso acontecer. Toda essa tensão, contudo, é amenizada pelas escolhas estilísticas e de gênero que o filme abraça sem pudor. No entanto, se tudo soa hiperbólico, das cenas de ação (como a referida sequência do resgate, um ataque com animais aos colonizadores e o clímax) à sequência de dança onde Bheem e Raju humilham os britânicos, também nada soa gratuito. Muitas vezes o filme é brega e exagerado, mas é uma proposta que funciona dentro desse universo; afinal de contas nem sempre o cinema precisa ser demasiadamente realista, não é mesmo? Divulgação: RRR (Netflix) Contudo, há uma camada a mais que ajuda a diferenciar RRR: ambos os protagonistas são baseados em figuras históricas reais que atuaram combativamente na luta anticolonial da Índia contra os britânicos. Ainda que não haja nenhum registro de que os verdadeiros Bheem e Raju de fato se conheceram (o primeiro foi morto em 1940 e o segundo em 1924), Rajamouli adota uma ótica revisionista que engrandece o filme, não apenas ao unir as duas figuras, mas também no trato aos britânicos. Alguns podem reclamar que estes são tratados como vilões caricatos e unidimensionais, mas quantas vezes o cinema ocidental fez o mesmo com personagens indianos e asiáticos? É uma outra escolha visando um certo exagero, mas que condiz perfeitamente com o tom da obra. RRR é uma demonstração perfeita do quanto nós, ocidentais, estamos muitas vezes condicionados a um modelo único de se fazer cinema. Trata-se de um longa impressionante do primeiro ao último segundo, que ainda por cima está embebido numa forte simbologia anticolonial que, mesmo com alguns exageros, ilustra bem as chagas da colonização no país. Porém, esse fator só eleva a fascinação com uma obra que se configura como o melhor blockbuster de 2022 e meu filme favorito do ano até o momento. Nota: 5/5

  • Crítica | Arcanjo Renegado (2ª Temporada)

    A representação fiel do atual cenário político e social do Brasil. A segunda temporada de ‘Arcanjo Renegado’, série do Globoplay que estreou em 2020, encerrou recentemente e trouxe de volta aquele clima pesado de perigo e caos envolvendo crime, milícia, política e religião, de uma forma tão realista que a sensação ao assistir é a de que colocamos em um telejornal. Estrelada por Marcello Melo Jr. e com um elenco coadjuvante cheio de gente talentosa, a série volta com um tom ainda mais denso, tendo em vista o período pré-eleição no Brasil e todas as nuances que esse jogo político envolve, desde os bastidores até ao que nos é mostrado. Em seu segundo ano, a série volta sem enrolação, e apesar dos dez episódios, ela entrega em cada segundo alguma informação importante, que em algum momento será utilizada no meio da trama, sem deixar pontas soltas ou fazer colocação de drama apenas para causar choque no telespectador. Após o assassinato de um importante político no cenário do Rio de Janeiro na temporada anterior, vemos essa temporada se desenrolar a partir daí trazendo de volta o perigoso e valioso Mikhael, que sem muito esforço consegue se meter no meio de todas as tramas sendo uma figura preciosa para a história. A base central desse novo ano se dá por um tema que desde 2018 se tornou frequente na política; as fake news, e é muito interessante a forma crua que o roteiro mostra ao público como elas são criadas e introduzidas à população, causando alvoroço e tirando de foco os responsáveis por alguma coisa que geraria algum julgamento, prisão ou execução. Nesse ponto, uma figura bastante presente é o repórter independente Ronaldo Leitão, que se envolve no meio disso tudo através de Mikhael e é alvo frequente de ataques dos políticos e policiais corruptos envolvidos. Sem se ater somente a esse tópico, a temporada destrincha de maneira minuciosa como age a milícia dentro da polícia e da política, causando estragos quase irreversíveis de forma que tudo desmorone para o lado daqueles que são sua oposição. Outro ponto que abordado de maneira técnica, é a inserção de religiosos nesse poder político, coisa que não precisamos ir longe para saber como acontece, e o uso que fazem da fé para demonizar aqueles que pensam de forma contrária apenas visando benefícios para os seus, em prol de uma posição que os mantenham visíveis como mandantes e figuras de retidão. A temporada também consegue encaixar em sua trama um problema social do cotidiano; o racismo, aqui abordado tanto pelo tratamento dentro da política como pelo policial. Sem fazer demagogia, o texto é claro, direto e didático em mostrar como o racismo escancarado e o estrutural funcionam e afetam diversos setores e pessoas. Um dos pontos positivos nessa questão, é que a série não se prende somente na violência e nem sendo carrasca com corpos pretos, ela usa nuances simples, se aproveitando em sua maioria do próprio protagonista; um policial preto, para se fazer clara. A direção das cenas de ação continua tão boa quanto na temporada anterior, trazendo à tela diversos momentos de tensão visual de enfrentamento corpo a corpo, e os atores se saem bem em sua maioria e um roteiro bem feito, apesar de alguns vícios da televisão. Em um ano como o que estamos, ela conseguiu trazer temas pertinentes, importantes e necessários de serem vistos e explicados, e fez isso com uma qualidade visual absurda. Fica o desejo para uma próxima temporada ainda melhor, como mostrado no final dessa, com um tema tão importante quanto os já mostrados. Nota: 4/5

  • Crítica | Marte Um (Representante do Brasil no Oscar 2023)

    A fenomenal visão de Gabriel Martins sobre viver em uma sociedade eclipsada pela passividade do indivíduo. Divulgação: Embaúba Filmes Como seguir a vida quando todas as suas escolhas parecem estar condicionadas à ocasião? Ou quando você não consegue ter voz ativa para falar por si próprio? Como reagir a um mundo que parece te induzir ao fracasso? Lutando contra as probabilidades, os personagens de Marte Um acabam respondendo esses questionamentos e mais alguns no decorrer do filme, que foi o escolhido para representar o Brasil numa tentativa de indicação ao Oscar 2023. Dirigido pelo cineasta Gabriel Martins, ele nos leva ao seio de uma família mineira na periferia de Contagem vivendo seu cotidiano num período um tanto conturbado para os quatro membros; Tércia e Wellington, os pais, Eunice a irmã mais velha e Deivinho, o caçula. É acolhedora a forma como ele molda personagens sem estereótipos genéricos comuns em filmes que retratam as periferias do Brasil, a maneira como Martins os conduz com sutileza e dignidade mostra o nível de respeito nessa produção pelas vivências de milhares de pessoas Brasil afora. É importante ressaltar, pois, pelo olhar de quem está longe, haveria uma disparidade gigantesca do que foi mostrado, e enquanto cidadão que se identifica com aquilo, é gratificante poder consumir uma obra pensada com visível afeição. Indo pelo começo, ele nos apresenta os personagens numa perspectiva descontextualizada do quadro geral, vamos conhecendo-os gradativamente nas cenas iniciais em que cada um vai se encaixando na história posteriormente. Desde seu primeiro momento, o longa já mostra o seu ritmo, não há nada frenético ou um ápice, ele evolui sem pressa alguma e deixa claro que tudo o que vemos em tela vai importar. O desenvolvimento da trama está intrinsecamente ligada aos quatro membros da família, são eles que dão o tom até o final, e são igualmente trabalhados durante todo o percurso da história, mesmo cada um tendo sua própria subtrama, o que traz ainda mais brilho para a produção, eles têm uma desenvoltura quando reunidos que prende a atenção rapidamente. Divulgação: Embaúba Filmes Não tem como destacar qual dos personagens é o mais interessante, pois, todos são trabalhados com calma e objetividade, o que deve ser destacado é a forma como Martins coloca em linearidade as suas tramas. Ele faz um trabalho tão meticuloso enquanto os desenvolve que cada segundo agrega mais honestidade à história, a começar por Eunice, a personagem mais enigmática da trama, interpretada duramente por Camila Damião. Por diversos momentos tem uma aparição sutil, onde a sua presença é o que mais marca, principalmente no início onde ela não tem textos, e que mesmo assim, de uma forma introspectiva, cativa a atenção e endossa a sua trama e as camadas da personagem que podem ser desvendadas no decorrer do tempo. Duas figuras que se complementam sendo opostos, são Tércia e Wellington, os pais da família, interpretados por Rejane Faria e Carlos Francisco. Quando juntos, temos dois personagens corriqueiros do cotidiano do cidadão médio, e tem muita naturalidade na conjunção que os dois fazem. Assim como Eunice, ambos tem um condicionamento à mudança de perspectiva quando longe dos outros, Wellington é aquele tipo de homem prestativo, mas que tem um passado que colaborou para ele se tornar quem é no presente, que em dado momento o faz sucumbir, e que a partir disso consegue ter uma visão mais ampla sobre as alterações que vêm acontecendo em sua família. Já Tércia é a figura que une, que tenta estar presente, mas que tem seus próprios devaneios e dúvidas, é a porta para o toque místico dentro da trama. Deivinho, interpretado por Cícero Lucas, é o responsável por denotar o tom de subserviência diante das vontades de terceiros sobre si, mas não o único. Divulgação: Embaúba Filmes Nada disso seria possível sem o roteiro de Gabriel Martins. Como dito anteriormente, somente uma vivência real dentro daquilo retratado no filme poderia entregar textos tão respeitosos e verossímeis. Martins deixa claro a todo instante que não há fantasia em nada do que é mostrado, é tudo objetivo e em constante paralelo com o cotidiano periférico, e o que dá mais qualidade ao seu texto é a simplicidade e o uso que ele faz dela dentro da trama, é uma visão bastante límpida, que em momento nenhum tenta iludir o espectador ou o induzir a algo fora do eixo apenas para causar algum choque, ou comoção. Não há tentativas de se apropriar de histórias para gerar desconforto, nem para diminuir ou menosprezar os personagens ali retratados. Ainda nesse tópico, é aqui onde há a inserção dos questionamentos citados no começo do texto. Claro que não são perguntas elucidadas ao público de maneira direta, são questões que permeiam os pensamentos enquanto acompanhamos o desenrolar da história e as frustrações dos personagens. Há constantemente uma discussão social sobre o livre-arbítrio e até onde vai o seu limite, e ‘Marte Um’ mostra com sutileza que nem sempre se trata sobre liberdade de escolhas, mas de condicionamento por situações que o indivíduo passa. São coisas tão sutilmente enraizadas na vida diária que por diversas vezes calamos a própria voz em razão disso. Divulgação: Embaúba Filmes Em uma produção onde tudo se encaixa milimetricamente fica até difícil dizer o que mais se destaca, porém, em 'Marte Um', o grandiosíssimo destaque é, sem sombra de dúvidas, a direção primorosa. O bom de poder dirigir aquilo que escreveu, é que vai haver um embasamento próprio para conduzir cenas específicas que em outras mãos poderiam não ter o resultado esperado. Gabriel Martins encanta como diretor, ele escancara o seu talento com tamanha maestria que cada cena se torna um take memorável, é uma aula sobre como fazer um longa de forma certeira. Se o Oscar fosse uma premiação mais ampla e justa, essa já seria uma indicação inquestionável para a categoria. Outro ponto que traz mais qualidade a todo esse conjunto é a trilha, com destaque para o início e o fim, quando ela é o maior artifício usado. Daniel Simitan fez um trabalho extraordinário de captação de sons e cenas, transformando o que já era bom em ótimo. A edição também merece uma citação, pois, magistralmente bem executada, ela faz transições que elevam o nível do longa em vários pontos. Por fim, Marte Um é um presente para o público em 2022, e será uma indicação muito bem acertada caso consiga avançar na próxima fase de seleção do Oscar. É um filme sobre viver, sobre escolher e principalmente sobre resistir. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Blonde

    Um retrato de Marilyn Monroe sob a ótica da objetificação e da violência contra a mulher. Divulgação: Ana de Armas em Blonde (Netflix) Nesta quarta-feira, 28, a Netflix disponibilizou em seu streaming o filme Blonde, uma cinebiografia fictícia escrita e dirigida por Andrew Dominik e baseada no romance de 2000 de mesmo nome de Joyce Carol Oates. Desde o anúncio de Ana de Armas como a intérprete de Marilyn até as entrevistas mais recentes do elenco e da produção, o filme vem sendo cercado de polêmicas e causou grande expectativa do público em geral após ser aplaudido de pé por 14 minutos no Festival de Veneza. Com longas duas horas e quarenta e seis minutos, ‘Blonde’ começa mostrando a infância da atriz que veio a se tornar um ícone da cultura pop até os dias de hoje. É desde esse começo que vimos a visão do diretor em enfatizar os momentos mais trágicos da artista. Não que Norma Jeane (nome verdadeiro de Marilyn) não tenha sofrido traumas e tristezas em sua vida, ela sofreu e muito. Porém, fica claro que a intenção do diretor não foi salientar a grande força que era Marilyn nas telas e com o público e sim mostrar a sua trajetória como um grande circo de horrores. Divulgação: Ana de Armas em Blonde (Netflix) ‘Blonde’ usa do poder de ser uma cinebiografia fictícia para exagerar e dramatizar todas as situações vividas pela atriz que são de conhecimento público. Falta sensibilidade ao colocar tantas cenas grotescas em tela, cenas essas que desrespeitam não só a memória de Marilyn como também ofende as diversas mulheres que (provavelmente) assistiram o filme. Andrew Dominik (diretor conhecido por-pasmem-filmes de faroeste com bastante violência) não tem nenhuma cautela durante essas quase três horas de longa e esmaga o telespectador com cenas de estupro, agressões e nudez gratuita. Além disso, utiliza-se de uma ferramenta tosca que parece ter saído de um comercial político conservador ao mostrar para o telespectador um bebê (grande) no útero de uma Marilyn prestes a abortar e usa do fato de Marilyn não ter um pai para a demonstração de um feitiche doentio onde a personagem chama seus parceiros de ‘pai’. Em uma perspectiva maior, o filme tem os destaques positivos na atuação quase que impecável de Ana de Armas e na fotografia que mescla elementos em preto e branco com o colorido. Ana é realmente a única parte memorável de ‘Blonde’ e fica óbvio que ela sustenta com sua atuação a história fantasiosa e misógina de Dominik. Não existe nada que justifique a forma como a figura de Marilyn foi retratada pelo diretor. A desculpa de que o longa é uma ‘visão artística’ não é motivo para reduzir uma figura tão emblemática ao estereótipo da loira burra hipersexualizada e surtada que vive beirando o colapso. Divulgação: Ana de Armas em Blonde (Netflix) É deprimente para a sociedade feminina perceber que, 60 anos depois, a atriz continua sendo sexualizada e violentada de várias formas possíveis. Não importa a qualidade estética e técnica, ‘Blonde’ é mais um longa que demonstra as mulheres do pior jeito possível: através da perspectiva e das lentes de um homem hétero e branco. Nota: 1,5/5

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