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  • Crítica | Moana 2

    Continuação é decente mesmo com enredo que insiste em não desenvolver Foto: Divulgação Em Moana 2, novo filme musical da Walt Disney Animation Studios, Moana e Maui se reencontram após três anos para uma nova e incrível jornada com um grupo improvável de marujos. Após receber um chamado de seus ancestrais, Moana parte em uma jornada nos mares distantes da Oceania, desbravando águas perigosas, rumo a uma aventura diferente de todas as que já viveu. Tal qual a morte que nos espera eventualmente em algum ponto de nossas vidas, continuações de animações da Disney que fazem um bom dinheiro são também inevitáveis. Moana 2 traz novos personagens carismáticos, mas que em nada ajudam na progressão da narrativa; novas canções marcantes louvando a natureza e os melhores valores humanos; e amplia os alcances da mitologia dos povos polinésios. Até a primeira metade alguém pode se confundir e achar que está assistindo mais uma vez ao filme original tamanhas são as semelhanças na estrutura do texto. A protagonista-título está lidando com o anseio de deixar sua ilha, dessa vez para procurar outros povos que fortaleçam seus vínculos com o passado. A motivação é diferente do anterior, mas os tratamentos com a problemática são basicamente os mesmos. Talvez o segundo filme tenha a mesma duração do primeiro e a mesma quantidade de músicas, mas tudo aqui parece ser mais compacto, mais contido ou pelo menos não tão inflado. Até mesmo o “vilão” da história tem uma abordagem mais metafórica e hipotética, como uma força da natureza sem um desenho próprio delimitado. Foto: Divulgação E são nessas economias que o derivado se distingue do original. Os números musicais são menos extravagantes, as músicas são mais compassadas (nisso Lin Manuel-Miranda não fez falta) e de alguma forma a mensagem tenta se provar importante a todo momento, enquanto o meio aparenta não querer chamar tanto a atenção. Não que a animação tenha perdido qualidade, embora haja algumas transições que parecem ter sido feitas numa renderização apressada, ou mesmo o brilho do anterior, mas não há tantos vislumbres que façam da plasticidade de Moana 2 seu principal atrativo ou traço mais memorável. Mas talvez o maior obstáculo seja a história que na maior parte do tempo não evolui. Obviamente que ao final temos mudanças na protagonista e o arco principal está num lugar mais adiante de onde se iniciou, no entanto tudo que acontece no longa-metragem até sua meia-hora final anda sobre uma esteira narrativa que resulta num grande déjà vu involuntário que diz menos do que poderia. Mesmo sendo uma produção decente, Moana 2 soa mais como um parágrafo do que como um capítulo. Nota: 3/5

  • Entrevista | Juru e Vitã falam sobre 'Salão de Baile'

    Em entrevista para o Oxente, Pipoca?, diretories destacam a jornada do filme Foto: Divulgação Surgida em Nova York por volta da década de 1960, a cultura Ballroom se destaca pela realização dos balls (bailes), onde os participantes têm a liberdade de experimentar novas formas de expressão de identidade, gênero e potencial artístico através dos movimentos corporais, e tem como um de seus principais registros o documentário Paris is Burning (1990), de Jennie Livingston. No Brasil, a cultura Ballroom chegou ao Brasil há pouco mais de uma década, e a cena fluminense é o foco do documentário Salão de Baile, dirigido pela dupla Juru e Vitã e que tem contado com exibições pelo país afora, bem como no exterior. Entrevistada pelo Oxente, Pipoca?, a dupla de diretories falou a respeito das influências, o processo de produção do documentário e a sua jornada em festivais e salas de cinema. Questionade a respeito das possíveis influências que Paris is Burning teve sobre a produção de Salão de Baile, bem como das diferenças entre os dois filmes, Juru diz que o primeiro é uma referência incontornável dentro do cenário audiovisual a respeito do Ballroom, mas que durante o processo de gravação de Salão de Baile diferenças foram sendo notadas, o que levou a dupla a buscar um diálogo crítico com Paris is Burning. Elu destaca que a realização do filme só foi possível com editais públicos, um da prefeitura de Niterói e outro da Rio Filme, mas ainda assim as gravações foram feitas com um baixo orçamento. Entretanto, isso não impediu que elu e Vitã buscassem remunerar todas as pessoas envolvidas na produção. “A gente queria dar alguma dignidade, alguma estrutura para as pessoas que estavam participando, para que elas tivessem condições de poder de estarem performando, reproduzindo o que a gente vive na vida, nos bailes, compartilhar um pouco do que a gente vive”, diz elu. Vitã complementa dizendo que é inegável a influência de Paris is Burning na cena Ballroom — destacando como elus voltaram ao filme durante o processo de montagem de Salão de Baile para se “apropriar” dele —, mas que também foram adotadas outras referências audiovisuais, como a série documental Segura Essa Pose, disponível na Globoplay. Para ela, o Ballroom conta com ramificações notáveis nos campos da dança, da moda e da música, e agora o audiovisual também está se tornando uma extensão relevante da cena. Foto: Divulgação Devido à origem estadunidense do Ballroom, uma questão surgida na entrevista diz respeito ao uso de anglicismos e a maneira pela qual a cena local consegue “abrasileirar” ou não termos e conceitos do movimento. Juru afirma que o mundo do Ballroom é fortemente definido por regras muito próprias, muitas das quais surgiram nos anos 1970 e 1980, onde termos como “mulher trans” e “homem trans” ainda não haviam surgido. Se por um lado nos EUA haveria a categoria de “Femme Queen”, o Brasil possui a categoria de “travesti”, mas os termos não são necessariamente intercambiáveis, especialmente pelo fato de que acessos a procedimentos cirúrgicos e hormonais ocorrem de formas diferentes em ambos os países. Para Vitã, mesmo com sua origem estadunidense e afrodiaspórica, o Ballroom ainda conta com outras referências culturais, como as artes marciais asiáticas ou termos do francês. No Brasil, a herança africana se destaca, com o uso de termos do iorubá, por exemplo. Mas sobre manter o uso de certos termos em inglês, ela afirma: “a gente usa [o inglês] porque é como foi criado, então também é uma referência a essa ancestralidade. Então a gente tá aqui criando novas formas e ressignificando tudo isso, mas usar os termos em inglês é se lembrar do contexto onde surgiu, não apenas nos Estados Unidos, mas na periferia de Nova York dos anos 70, com pessoas pretas e latinas, que eram marginalizadas. Então é importante reforçar isso e também fazer pontes com outras culturas”. Por fim, Juru e Vitã não escondem o orgulho pela trajetória que Salão de Baile vem tendo, com exibições em festivais nacionais e internacionais. “Parece um sonho”, diz Juru. “Tá dando muito certo e tem sido muito potente a gente conseguir se conectar com essas cenas fora do Brasil, além das trocas com cenas locais nas exibições onde estivemos presentes. Rolaram até performances [de Ballroom] dentro dos festivais, e mesmo quando a gente não tá presente as pessoas articulam. (...) Eu acho que a gente conseguiu fazer o filme que fez porque estava falando de uma cena que a gente conhecia muito bem, e tinha uma relação de afeto com as pessoas que estão ali e que construíram o filme”.

  • Crítica | Wicked

    Talvez a narrativa predominante seja apenas o que os poderosos querem que seja enxergado Foto: Divulgação Dorothy e os sapatinhos vermelhos, o espantalho, o homem de lata, o leão covarde, a bruxa boa e a bruxa má, o caminho dos tijolos dourados, a cidade das esmeraldas, Over the Rainbow, o mágico de Oz. A fábula que faz parte do imaginário popular nasceu da mente de L. Frank Baum em 1900, chegou aos cinemas em 1939 e tornou-se um dos maiores e mais influentes clássicos até então. De lá pra cá, O Mágico de Oz virou referência e diversas outras obras surgiram do cerne da sua história, algo bastante usual quando falamos de tramas importantes para a cultura de forma geral. Foi nos anos 90 que o romancista americano Gregory Maguire resolveu se aprofundar na Bruxa Má do Oeste, uma das mais icônicas vilãs do cinema, da cultura americana e que moldou o nosso imaginário sobre bruxas desde o filme clássico, sendo verde, cruel, de chapéu pontudo e voando em uma vassoura. Gregory lança o livro “Wicked: A História Não Contada das Bruxas de Oz” e tenta responder uma grande questão filosófica sobre vilões de uma forma geral: as pessoas nascem ou se tornam más? Utilizando o livro como base, em 2003, o compositor Steven Schwartz criou a peça de mesmo nome Broadway que estreou com as atrizes Idina Menzel e Kristin Chenoweth nos papeis principais. O espetáculo é um dos mais bem-sucedidos da história da Broadway e é um dos únicos a arrecadar mais de US$ 1 bilhão em bilheterias - ao lado de O Fantasma da Ópera e O Rei Leão com adaptações ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Mas, querendo ou não, a grandiosidade de Wicked ainda estava muito nichada ao público ligado ao teatro musical, muito fiel e forte, sem dúvidas, mas desconhecida aos olhos de quem não se interessa tanto por essa arte. Aos olhos de Hollywood, apostar em uma adaptação tão conhecida era só questão de tempo e depois de uma pré-produção de mais de 10 anos, foi pelas mãos do roteiro de Winnie Holzman e Dana Fox e com a direção e o olhar aguçado do talentoso Jon M. Chu, que Wicked chega aos cinemas nesta semana, dividindo sua grandiosa história em duas partes, tal como os atos que dividem a peça que o inspirou. Foto: Divulgação Logo nos primeiros segundos de projeção somos lembrados da trama clássica de O Mágico de Oz, especialmente do seu final, onde a Bruxa Má do Oeste havia sido morta por Dorothy e que agora o povo de Oz comemora alegremente o fato do mal ter sido derrotado e da bruxa ter morrido sozinha e solitária. Glinda (interpretada por Ariana Grande) aparece enaltecida pelo povo e, depois de ser questionada sobre o fato de ter sido amiga da bruxa, somos introduzidos para a parte da história que conta o outro lado da moeda. De forma geral, sem dar muitos spoilers, Elphaba (Cynthia Erivo) é uma jovem do Reino de Oz, incompreendida por causa de sua pele verde incomum e por ainda não ter conseguido domar seus poderes. Renegada pelo pai, que prefere sua irmã, sua rotina é tranquila e pouco interessante, mas ao iniciar seus estudos, por acaso, na Universidade de Shiz, seu destino encontra Glinda, aqui ainda Galinda, uma jovem popular e ambiciosa, nascida em berço de ouro e extremamente privilegiada, depois de um ódio mútuo no início, as duas iniciam uma inesperada amizade. No entanto, suas diferenças, como o desejo de Glinda pela popularidade e poder, e a determinação de Elphaba em permanecer fiel a si mesma, entram no caminho, o que perpetuado no futuro de cada uma e em como as pessoas de Oz as enxergam. Curiosamente, Wicked inspirou uma grande parte das histórias que vemos hoje sobre humanização de vilões e a busca por uma resposta do motivo pelo qual eles se tornam maus. Esse tipo de trama, em um universo tão já saturado de spin-offs e prequels, pode te fazer pensar que a história não consegue trazer nada de novo sob essa ótica vilanesca. Os vilões são vilões e pronto. Mas será mesmo que é só isso? Em Wicked, mergulhamos em uma trama que, desde o início, nos mostra que talvez a narrativa predominante é a apenas o que os poderosos querem que seja enxergado. Utilizando-se da originalidade de contar sua história única através de um dos gêneros mais especiais e do mesmo modo que a fotografia ou a trilha sonora podem revelar mais sobre as personagens e seus relacionamentos entre si, as canções que fazem parte da narrativa de Wicked também possuem esse poder e engrandecem uma história que brilha ao abraçar a sua fantasia como um todo. O maestro deste universo é Jon M. Chu (responsável por In The Heights - Um Bairro em Nova York de 2021, outra excelente adaptação do teatro musical), que conduz a trama com uma câmera ágil, que quase se mescla com a beleza visual criada pelos efeitos visuais. Com uma fotografia que abraça essa mistura entre os tons rosas e verdes, Wicked também se torna um deleite pela sua entrega na direção de arte e cinematografia. Foto: Divulgação Mas, quem torna Wicked o que de fato ele é são suas duas protagonistas. E mesmo que Glinda seja colocada como coadjuvante, vejo as duas aqui como iguais, quase como polos opostos que se atraem e se completam por serem tão diferentes e tão parecidas ao mesmo tempo. Ariana Grande é uma Glinda que conquista pelo seu texto sagaz, mas também por uma atuação que não se distancia do material original, mas que consegue ter vida própria dentro das referências da cantora. Ela, que é uma grande fã do musical, se viu com o papel de sua carreira em mãos e honrou o desafio com maestria, alterando até o tom de voz e a forma como ela pronunciava as palavras ao cantar. Se Ariana brilha no cômico, Cynthia Erivo brilha mais nos momentos dramáticos com uma atuação intensa e angustiante, quando vamos entendendo tudo o que Elphaba passou e a sua decepção com quem ela reverenciava. Com um senso de justiça e uma grande vontade de mudar as desigualdades ao seu redor, Elphaba é uma personagem repleta de nuances e Erivo conta isso com maestria através da atuação. Além das protagonistas, Wicked tem um ótimo elenco coadjuvante que, na mesma medida, entrega boas atuações e boas performances nos atos musicais. Por falar na parte musical, Wicked une a tradição da Broadway com canções que ficam na sua cabeça por semanas depois de ouvi-las. A versão do filme mudou pouco comparada a versão original, entregando performances que ressoam até em quem não costuma gostar tanto. O destaque, na minha opinião, vai para as versões de “Popular”, “What is this Feeling?” e, claro, “Defying Gravity”, o grande ápice da história que se torna o clímax perfeito para o encerramento dessa primeira parte. Conheci Wicked em 2013 quando ouvi em Glee uma das versões do musical e me apaixonei pela música que falava sobre desafiar a gravidade como uma metáfora para acreditar em si mesmo. A partir daí, entrei nesse mundo do teatro musical e admiro a história de Elphaba e Glinda com um carinho e uma familiaridade enorme. Devo dizer que aquela majestosidade que via nos vídeos gravados do teatro não pareciam que iriam ser transposta nas telas. Parecia muito difícil, irreal, diferente. Torci o nariz no anúncio da adaptação, fiquei com o pé atrás quando vi as escalações e entrei no cinema com mais medo do que ansiedade de ver uma peça tão importante pra mim ganhar uma outra vida. Quando depois de quase 2h40, ouvi as primeiras notas de “Defying Gravity” tocarem e Elphaba dizer que “algo mudou em mim, algo não é mais o mesmo”, também vi as lágrimas rolarem no meu rosto e senti aquela mesma sensação de familiaridade que Wicked me proporciona. Algo também mudou em mim e não sou mais a mesma após ver Wicked nos cinemas. Nota: 4,5/5

  • Entrevista | Davi Pretto fala sobre ‘Continente’

    Diretor do longa de terror brasileiro conversa sobre referências, cinema nacional e as violências que permeiam suas histórias Foto: Divulgação “Um filme que evoca uma violência histórica no Brasil”. É assim que o diretor Davi Pretto define Continente, longa lançado em 31 de outubro em vários cinemas pelo país. Escrito também por ele, em parceria com Igor Verde e Paola Wink, a trama se passa no interior gaúcho e o local foi ponto de partida para a criação da história. “Numa relação de um encontro eu conheci o Igor em 2017 e a gente virou amigo desde então. Eu estava querendo desenvolver um projeto novamente no Pampa gaúcho, onde eu tinha acabado de filmar meu outro longa, Rifle, e mesmo ele sendo carioca, o Igor tinha um interesse pelo Pampa e a gente começou a desenvolver um roteiro juntos, que não era o Continente. Terminamos esse roteiro, que nunca foi produzido, e logo em seguida começamos a escrever Continente, desde 2018. Em dado momento a Paola se juntou a nós, porque foi um processo muito longo. Tudo surgiu do interesse em comum de fazer um filme que explicitar como essa região significava pra gente”, explica Davi, em entrevista exclusiva para o Oxente, Pipoca?. “Então esse espaço [dos Pampas] como um espaço que significa muita coisa. Foram quatro anos de escrita e muita coisa aconteceu nesse meio tempo, mas mas mas partiu um pouco desse interesse e tinha muito essa imagem na nossa cabeça dessa casa de fazenda essa casa colonial como um símbolo desse sistema de violência e essa relação com esse espaço que sempre existe nessas nessas regiões que é esse vilarejo, é quase como se uma imagem precisasse da outra, porque isso é uma coisa que tu vê repetidas vezes quando viaja no interior. Esse sistema de violência, que para existir, precisa produzir violência”, relata o diretor. Foi durante o processo de escrita que os roteiristas de Continente perceberam que o realismo não era mais suficiente para contar a história. “Eu sempre tive uma relação meio peculiar com o realismo. Nos meus filmes, Castanha e o Rifle, o realismo é um pouco estranho e tem um pouco do fantástico, sempre dentro do realismo. Em Continente nos demos conta, mais frontalmente, que a gente precisava explorar outros lugares conseguir dar conta do que queríamos nos debruçar e daí o gênero meio contaminou o filme dentro dessa proposta de uma divisão também, porque eu acho que isso em um determinado momento nos pareceu muito claro: que o filme se revelaria também para o próprio espectador, assim como ele se revelou pra gente”. “Quando estávamos escrevendo, nunca pensamos muito em referências como balizas. Acho que na escrita o processo era muito mais de debate sobre para onde esse tema nos levava. Eu, o Igor e a Paola também produzimos uma série documental chamada Voz da Pele da EBC, sobre o passado escravocrata do Brasil até os tempos de hoje, no mesmo momento que estávamos desenvolvendo o roteiro de Continente e isso reverberou no roteiro pensando na questão dessa herança de violência e de como isso ainda permanece. Mas na verdade, acho que durante a feitura do filme, o cinema que eu gosto e consumo aparece através da minha cinefilia também”. No centro do filme, como protagonista da trama, está a atriz Olívia Torres, que começou a sua carreira na TV muito jovem, ganhando destaque em Malhação ID, em 2009, da TV Globo. De lá pra cá, Olivia integrou o elenco de muitas novelas da emissora e fez parte de muitos filmes, mas nada como Continente. “Muito da vida assim, né? Como muitas coisas nos meus filmes já aconteceram assim. Eu sempre acredito que, algumas pessoas chamam de destino, outras chamam de sincronicidade, algumas coisas que vão acontecendo. A Paola conheceu a Olívia trabalhando em um outro projeto, em uma sala de roteiro só com mulheres, e lá estava a Olívia. Ela saiu dessa sala e ela me disse: Davi, eu acho que eu conheci a Amanda. E ela nem sabia que a Olívia era atriz, pensava que ela era roteirista, depois a gente começou a olhar o Instagram e vimos que ela era atriz. Nós nos falamos e nos demos super bem e foi quando ela me falou que tempo estava procurando um projeto que desse essa possibilidade de explorar essa monstruosidade através do corpo dela. Então também foi para ela um encontro muito de sincronia, porque era o tipo de projeto que parecia que ela estava se preparando para fazer”, completa Davi. Foto: Divulgação Davi explica que desde que se tornou cineasta, a temática da violência sempre aparece, de alguma forma ou de outra, em seus filmes. “Eles abordam diferentes diferentes faces da violência, né? Às vezes é uma violência mais silenciosa, às vezes uma violência mais direta, por exemplo. É um tema que me move muito, porque eu acho que a violência explica muito da sociedade que a gente vive e é um tema muito duro, da gente olhar para ele, porque a gente gosta de se afastar desse tema. Gostamos de achar que a gente não tem a ver com isso, que é sempre o outro, mas eu gosto de pensar que as violências que existem dentro da gente”. Em nossa conversa, destaco que Propriedade (2022), do Daniel Bandeira, retrata temáticas parecidas com Continente como problemas sociais, luta de classes e relações de trabalho, mas, com uma abordagem totalmente diferente. “Foram filmes que provavelmente foram gravados ao mesmo tempo em que não sabíamos da existência um do outro. Acho muito positivo termos filmes sobre o campo, tal qual os anos 60 e 70 do cinema brasileiro, e de como o campo como esse interior profundo pode falar ou evocar esse Brasil que é tão complexo. Então, eu faço um coro a esse tipo de filme porque foram um filmes que também me marcaram muito e que ficaram marcados na história do cinema brasileiro. E talvez por isso eu me debruce tanto sobre esse sobre esse espaço que é também espaço gaúcho”, reitera. Sobre o cinema nacional, Davi destaca a importância de filmes fora do eixo do sudeste. “Eu acho que a gente conhece tão pouco do nosso cinema, né? É uma dominação da cultura paulista-carioca no nosso imaginário. Vemos tão poucos filmes daqui do sul, norte e nordeste nas grandes telas, inclusive no que diz respeito aos sotaques. Eu lembro quando eu passei o Rifle em um festival em Brasília, que é um filme todo falado e todo interpretado por pessoas do Sul do Brasil, do interior, algumas pessoas queriam que tivesse legenda. Críticos cariocas e paulistas queriam que tivesse legenda e eu falei: vamos só acordar aqui entre todos nós quem vai precisar de legenda nesse Brasil. Legendas para filmes que não são do Rio e de São Paulo, né?”. “Eu acho que a gente parou de ouvir outras vozes e outros sotaques. Eu fico muito feliz quando os filmes viajam, quando a gente faz um filme no interior do Sul e ele passa em Sergipe ou passa em Pernambuco, por exemplo. Porque eu acho que isso mostra que a gente ainda tem muito a trocar e eu espero que siga assim. Continente é um filme com um elenco muito amplo, com elenco de São Paulo do Rio, mas também um elenco muito Gaúcho, um elenco argentino, um elenco francês, porque eu acho que a gente entendia e a equipe técnica também era muito plural, de todos os cantos. “Todo mundo estava colocando um pouco do nosso olhar sobre o Brasil naquele microcosmos daquele vilarejo no Sul do Brasil, um lugar que não tem nome, que não é localizado, mas que a gente acredita que a gente podia, talvez, falar sobre algo que uma pessoa de Sergipe pudesse se reconhecer ali ou pensar que aquilo ali não é muito diferente da sua realidade ou a uma pessoa de Manaus. Ainda sobre o assunto, Davi enfatiza: “A gente ainda tem muito a aprender uns com os outros no cinema brasileiro e com quem faz cultura no Brasil e a gente precisa se ver mais, se ouvir mais”, conclui. Confira nossa crítica sobre o filme.

  • Crítica | Gladiador 2

    Empolgante e bagunçado, continuação é outro épico em grande escala querendo apenas um objetivo: diversão Foto: Divulgação Anos após testemunhar a morte do herói Maximus (Russell Crowe) pelas mãos de seu tio (Joaquin Phoenix), Lucius (Paul Mescal) enfrenta um novo desafio: forçado a entrar no Coliseu, ele deve lutar pela sobrevivência e pela honra de Roma. Depois de ter sua casa tomada pelos imperadores tirânicos que governam Roma com punho de ferro, Lucius precisa reencontrar a força e a coragem que o inspiraram na juventude. Admirador da jornada de Maximus, Lucius busca seguir seus passos para restaurar a glória perdida de Roma. Gladiador 2 é uma sequência direta do aclamado filme dirigido por Ridley Scott. Agora, Lucius luta não apenas pela sua vida, mas pelo futuro do império. Com o coração cheio de raiva e o destino de Roma em jogo, ele revisita seu passado em busca da força necessária para devolver ao povo a honra que um dia foi perdida. Em sua primeira metade, Gladiador 2 segue os exatos mesmos passos do seu antecessor. Estruturalmente, a narrativa prefere usar os símbolos, marcações e elementos que caracterizaram a produção de 2000, o protagonista solitário, a figura imperial descompensada, os amigos sábios e a busca por vingança que acaba por ganhar mais propósitos. Mas cedo também o inquieto cineasta Ridley Scott prova que – beirando os 90 anos – não se acomoda com repetições e zonas de conforto, ele ousa (às vezes até demais, é verdade) e tenta ao máximo entregar um filme que não está absolutamente nem aí para fatos e precisões históricas, contanto que o resultado empolgue no efeito imediato. Sim, a ação conta com tubarões no Coliseu, batalhas com macacos e com rinoceronte. Tudo em relação ao viés frenético do enredo é elevado a um exagero criativo que ainda assim não destoa do anseio de Scott em surpreender. Mas é na falta de equilíbrio entre alguns efeitos digitais, nas abordagens do humor e do drama no texto, e na constante mistura de filtros que o longa se fragmenta e perde a sensação de constância necessária para os primeiros momentos de embasamento. Foto: Divulgação Após a primeira (de várias) cena numa arena de batalha eu tive minhas dúvidas de que a aventura teria fôlego para chegar ao final de suas mais de duas horas de duração, mas surpreendentemente é no seu desfecho que o filme parece se encontrar, acerta os esquadros e tudo converge para o mesmo compasso, mais sóbrio, mas não menos extravagante, até os minutos finais. Paul Mescal apresenta bem mais item do seu leque de versatilidade com uma atuação concisa e comedida, o básico para o papel, e um trabalho de corpo bem construído, algo que não o via fazer desde o musical Carmen (2022). Entre os coadjuvantes destaque para Joseph Quinn e Fred Hechinger que entendem com precisão o que Scott estava buscando neste segundo filme. Mas quem manda e desmanda até mesmo nas cenas em que não se faz presente é Denzel Washington. Com um personagem inescrupuloso e cheio de maneirismos, o veterano ator parece brincar com o que tem em mãos e cria um papel que destoa da maioria de sua vasta filmografia e, junto com o desenvolvimento do roteiro, faz com que o filme gire ao seu entorno. Gladiador 2 tem claramente uma proposta diferente do primeiro. Aqui, por mais que exista a trama política motivando os acontecimentos, e mesmo tendo alguns entendimentos espertos, ela é engolida pelos vibrantes dinamismos das sequências de ação. O premiado filme anterior seguia uma cartilha de gênero que ajudou a cunhar no período, influenciando toda uma geração seguinte, ele também era contido nas limitações de uma austeridade dramática; enquanto o segundo aparenta gritar “are you not entertained?” para a audiência e se curte despretensiosamente. Nota: 3,5/5

  • Entrevista | Diretora e elenco falam sobre 'Mal de Família'

    Dearbhla Walsh, Anne-Marie Duff, Eva Birthistle e Sarah Greene discutem o sucesso da série e a jornada emocional da nova temporada Foto: Divulgação/ Apple TV+ Nesse oceano de conteúdo audiovisual on demand em que vivemos, alguns tesouros acabam não recebendo o reconhecimento que merecem, como é o caso da excelente primeira temporada de Mal de Família (Bad Sisters), série irlandesa estreada em 2022 para a Apple TV+. Com doses perfeitamente balanceadas de humor, drama e suspense, a obra (que é baseada na série flamenga Clan, de 2012) conta os percalços das irmãs Garvey para se livrar – literalmente – do cunhado inconveniente, manipulador e abusivo. Quando menciono que a série é digna de mais reconhecimentos, me refiro à audiência, à presença na boca do povo, particularmente o público brasileiro. Isso porque, verdade seja dita, a primeira temporada foi muito bem recebida pela audiência local e pela crítica especializada, tendo conquistado 12 indicações na premiação de cinema e televisão da Irlanda e 4 no Emmy, além de levar 2 BAFTAs, incluindo melhor série de drama. Menos de um mês após o final da primeira temporada, a Apple TV+ já havia encomendado sua sequência. No entanto, em termos de Brasil (talvez pelo reduzido número de assinantes da plataforma de streaming no país), sinto que a série ainda não foi “descoberta” como deveria. Pois estamos aqui na esperança de reverter isso. O OP? teve a oportunidade de assistir antecipadamente a ótima segunda temporada, que estreia neste dia 13 de novembro, e conversar com diretora e elenco sobre os novos episódios, que não chegam a se equiparar com a maestria da primeira temporada, mas continua oferecendo entretenimento inteligente e com ótimo ritmo, mantendo, sobretudo, a excelente química entre as atrizes principais. E isso é quase tudo que podemos falar sobre o que vem por aí. A pedido da própria Apple TV+, só podemos confirmar que dois anos depois da morte de John Paul, as irmãs Garvey tentam viver uma rotina normal, mas, mais uma vez, se envolvem numa rede de suspeitas, mentiras e segredos. Todo esse sigilo faz sentido, uma vez que se trata daquelas (raras) narrativas em que qualquer mínimo spoiler pode, sim, estragar a experiência. Na entrevista a seguir, conversamos com a diretora e produtora executiva Dearbhla Walsh, Anne-Marie Duff (Grace), Eva Birthistle (Ursula) e Sarah Greene (Bibi). Foto: Divulgação/ Apple TV+ Aianne Amado: Acabei de terminar a segunda temporada e queria parabenizar vocês por isso! Sarah Greene: Você assistiu os oito episódios? AA: Sim! Infelizmente, não posso conversar muito com vocês sobre eles por causa dos spoilers – SG: Sim [risos] AA: mas só queria dizer que adorei. Dearbhla Walsh: Obrigada! Aianne: O que acharam quando receberam o convite para retornar para a segunda temporada? Eva Birthistle: Fiquei muito feliz em voltar para mais, sabe, tínhamos esperança quando terminamos a primeira temporada de que isso aconteceria. Que haveria uma segunda temporada, mas realmente não estava nos planos. Eu lembro que tentamos meio que persuadir a Sharon [Horgan, roteirista e intérprete de Eva] a pensar em fazer outra, e acho que sugerimos algumas ideias de história provavelmente horríveis. Acho que acabou tendo o efeito contrário. E então só descobrimos quase um ano depois que realmente teríamos uma segunda temporada. Fiquei muito aliviada e feliz com isso. Anne-Marie Duff: E nós sabíamos que o público estava louco pelo programa e desesperado para saber o que aconteceria com todas as irmãs. Sabíamos que havia um grande apetite por isso, e isso tornava ainda mais prazeroso oferecer essa continuidade. SG: Assim como o público, achávamos que a série tinha acabado na primeira temporada. torcíamos e desejávamos por uma segunda temporada, e sugerimos ideias bem ruins para Sharon quando estava chegando ao fim da primeira temporada. Estávamos filmando e tentávamos pensar em ideias para continuar. Se fôssemos voltar para uma segunda temporada, queríamos que fosse tão boa quanto, e acho que conseguimos. DW: Ela não ouviu as ideias delas. SG: Não, não ouviu nenhuma das ideias. Nenhuma [risos]. Mas sim, ficamos absolutamente empolgados em poder trabalhar juntos de novo, porque realmente nos amamos e é uma alegria ir trabalhar todos os dias com pessoas que você ama. DW: E acho que é muito bonito também, as pessoas ficam esperando, tipo, "podemos ler o próximo episódio?" Acho que deve ser incrível como escritor, mas também como ator interpretando um personagem, porque você não sabe aonde vai, até ler o que eles querem. E aí você pensa: "Nossa, isso é genial." SG: Provavelmente não poderia dizer isso, mas algo acontece com Becca na segunda temporada, e ela descobriu porque um amigo dela estava fazendo teste para interpretar o namorado dela. E ela não tinha visto nada. Não tínhamos recebido os roteiros ainda. Só tínhamos confirmado a segunda temporada, então ela descobriu essa grande revelação sobre a personagem de Becca por causa do teste de elenco. AA: Quando eu li a premissa do programa antes de assistir à primeira temporada, vi que era sobre um grupo de irmãs cometendo assassinato e pensei: "hmm, será impossível torcermos por elas neste clima sociopolítico?". E vocês fizeram isso funcionar. Então, Dearbhla, como foi o processo de criar esse equilíbrio e como vocês planejam mantê-lo na segunda temporada? DW: O mais importante é que é sobre um grupo de irmãs que planejam matar o irmão delas. Porque, quando Sharon falou comigo pela primeira vez, era sobre o desejo de matar, não o ato em si, sabe? E a frustração com isso. Foi realmente desafiador na primeira temporada porque você só entende sobre o que é a série no final do segundo episódio da primeira temporada, e é sobre o fracasso delas em se livrar dele. E isso foi muito desafiador nos dois primeiros episódios da primeira temporada na edição, e usávamos essa frase chamada "permissão para rir". Para que o público soubesse que tudo bem rir. Porque começa com um funeral, e a maioria das pessoas pensa em um funeral como algo triste, mas grande parte da escrita de Sharon e da série explora a comédia sombria das coisas que acontecem em funerais, e então vem a revelação gradual de que talvez nem todo mundo esteja tão triste com a morte desse homem. Foto: Divulgação/ Apple TV+ Eu sempre digo a todos e a cada ator e a Sharon que sou a pessoa menos engraçada no set: “eu dirijo drama e nunca dirijo vocês para serem engraçados. Então, vocês podem encontrar o engraçado nisso”. E acho que essa mistura de sempre buscar a verdade emocional é o que todos os atores fazem primeiro. Nenhum deles é comediante. Todos estão buscando a verdade de seus personagens. E a situação, obviamente, a escrita da Sharon e a dinâmica entre todos permite que exploremos esse tom. Uma das abordagens na primeira temporada foi filmar muitas cenas em grupo para capturar a dinâmica natural entre as atrizes. E na segunda temporada queríamos realmente expandir isso; a câmera se movimenta mais e há uma energia nova dessa vez, em parte porque as meninas amam atuar, e é tão divertido. Acho que dançamos um pouco no set, porque ninguém quer ser a pessoa que diz: "Ah, não me diga que precisamos de mais duas tomadas". Em vez disso, todos dizem: "Podemos? Podemos fazer de novo? Podemos fazer mais?" Isso torna o ambiente muito, muito lúdico. Um lugar onde muita criatividade acontece, e é bem colaborativo. O que é adorável. AA: Vocês receberam muitos elogios na primeira temporada, incluindo o reconhecimento de premiações de televisão. Como foi para vocês testemunhar o sucesso do programa tanto com a crítica quanto com o público? Vocês esperavam esse tipo de sucesso? EB: Nunca se sabe o quão bem-sucedido algo vai ser ou como será recebido. Você meio que sente que está em algo muito bom, mas, quero dizer, já senti isso muitas vezes em outras produções que não foram bem-sucedidas [risos]. Então, nunca se sabe realmente. Foi incrível ver a resposta que tivemos, e então ganhar, sabe, os BAFTAs... é simplesmente maravilhoso. É uma ótima forma de celebrar o trabalho de todos e ver o reconhecimento. Ver esse reconhecimento global é algo muito bacana. Tem sido incrível ver o sucesso e acho que as pessoas responderam positivamente porque os roteiros são incríveis, mas também porque é algo com o qual as pessoas se identificam, sabe? São personagens femininas que são relacionáveis, e havia um verdadeiro desejo por isso, pelo aspecto familiar e pela dinâmica familiar. Acho que é algo que tem um pouco para todos. AMD: E os streamers... uma das grandes coisas que os streamers oferecem é o impacto internacional, sim. Assim, você não precisa esperar que o programa seja lançado em outros países. É uma comunidade enorme de espectadores. É como um novo capítulo na televisão, o que é muito divertido, porque significa que você pode estar de férias em algum lugar e alguém vem falar com você sobre o programa. É maravilhoso. AA: Vocês interpretam personagens com uma gama extrema de emoções. Vocês podem estar realmente tristes com os acontecimentos, mas, quando as irmãs estão juntas, há alegria e amor. Às vezes, os sentimentos mudam de uma cena para outra, com muitas emoções diferentes. O que é necessário, como ator, para ir tão fundo assim? AMD: Isso é o sonho dos atores, é o que queremos. Somos bem ambiciosos; queremos interpretar tudo, especialmente em papéis femininos, porque muitas vezes você acaba interpretando um tipo específico de mulher em um filme ou série. Então, é maravilhoso. É uma alegria. SG: Acho que é isso que torna o desafio tão brilhante: são todas mulheres complicadas e imperfeitas. Mesmo que ela [Bibi] pareça muito forte, na primeira temporada ela estava cheia de raiva contra JP. Ela tinha um foco singular e não vimos muito de sua vida pessoal. Na verdade, ela tem o casamento mais sólido de todos, o relacionamento mais forte. Então, é muito bom explorar isso, e eu amo atuar, então embarcar nessa jornada emocional é uma alegria como atriz. AMD: E também acho que, no elenco, quando alguém tem um calor natural – como a Sarah tem – você pode interpretar alguém durona e, ao mesmo tempo, esse calor se manifesta através dos personagens. E isso é algo importante para a escolha do elenco da série, para que todos pareçam tridimensionais. Acho que todos na série estão trazendo suas próprias experiências de vida, como suas experiências familiares ou de crescimento, e isso enriquece a história. AA: E, por fim, quais são suas expectativas para a reação à segunda temporada? SG: Que as pessoas amem tanto quanto nós amamos. Nós absolutamente adoramos fazer isso, amamos interpretar essa família e somos muito afortunados por o público nos ter recebido em suas casas. Estamos animados que seja um episódio por semana, porque acho que vai reunir as famílias, assim como aconteceu na primeira temporada. Espero que as pessoas amem. AMD: Acho que elas ficarão chocadas. Há algumas reviravoltas e revelações grandes, decisões que são impactantes. Acho que isso vai prender o público. Então, sim, acho que funciona. EB: São decisões ousadas, mas acho que elas valem a pena. AMD: Você quer que o público se surpreenda sempre, quer que eles não vejam o que está por vir. Essa é a melhor narrativa. As pessoas nunca sabiam o que ia acontecer com JP, e você ficava na ponta da cadeira esperando se eles iam conseguir na temporada passada. Nesta temporada, queremos que o público sinta o mesmo, que o tapete seja puxado debaixo deles.

  • Crítica | Senna (Minissérie)

    Vemos o mito, mas nunca o homem Foto: Divulgação Na última sexta-feira (29), uma das minisséries mais aguardadas da Netflix chegou ao streaming. Senna teve seis episódios e a difícil missão de contar a história do grande ídolo do automobilismo brasileiro. Contando desde o início da carreira do piloto nas pistas de kart até sua consagração e eventual morte nos circuitos da Fórmula 1, a minissérie entrega pouco a mais do que já sabemos da história de Ayrton e fortalece sua figura como um mito, mas nunca vemos de fato quem era o Senna de verdade. Trinta anos após sua morte, seus feitos na pista seguem marcantes na memória de quem viveu e também de quem não era vivo na época, muito graças ao seu apelo e perda precoce, que gerou um enorme fascínio mundial por ele. Todas essas particularidades que tornaram Senna uma figura mitológica da história brasileira reside não apenas no talento surpreendente, mas também na profundidade e na complexidade de sua personalidade, especialmente dentro das pistas. Desde os primeiros minutos do seu episódio inicial, Senna reflete essa magnitude do que foi Ayrton colocando-o sempre como uma figura imaculada, o cara que corre atrás dos seus sonhos, que abdica de viver o que foi, de certo modo, imposto pela sua família para seguir no esporte. E isso, do início até o final da série, demonstra um pouco de como a trama de Senna segue como mais uma biografia chapa branca, onde há uma ode aquela figura e não existem contradições ao seu respeito, com uma imagem imaculada de uma face da sua história, muito disso perpetuado pela família do piloto por trás dos bastidores. Houve, pelo o que foi divulgado pela imprensa, uma certa dificuldade em contar a vida de Ayrton Senna nas telas, mesmo que essa não seja a primeira vez que há um material biográfico autorizado pela família (O documentário Senna: O Brasileiro, O Heroi, O Campeão de 2010, dirigido por Asif Kapadia e vencedor de alguns prêmios BAFTA, é um exemplo). E nas redes sociais, uma das principais polêmicas de Senna atualmente é a presença diminuta de Adriane Galisteu, namorada dele na época do acidente, e uma hipervalorização da história do piloto com Xuxa. Foto: Divulgação Pra mim, o que falta na minissérie é algo muito mais macro do que a participação ou não de um dos relacionamentos amorosos, é que em Senna essas relações são tratadas de modo superficial e com pouco aprofundamento, há, claro, um melhor foco quando falamos de personagens do automobilismo (como Proust) para a vida de Ayrton. Mas de uma forma geral, o que prevalece é algo vago, desde as relações familiares até os relacionamentos amorosos que pouco foram mostrados em tela. Algo que faz muito sentido dentro da construção de um mito sem falhas, mas que peca quando pensamos em outras obras biográficas mais recentes, que abraçam as virtudes e as falhas de seus protagonistas. Mesmo que a presença da personagem Laura Harrison traga uma perspectiva interessante acerca da cobertura jornalística do automobilismo, a condução da narrativa por ela é um artifício fraco e mal utilizado dentro da história como um todo. Mas Senna também tem seus pontos positivos. O destaque principal é o elenco liderado por um Gabriel Leone inspirado na pele de Ayrton. Muito além de aparência física, Leone explora bem os maneirismos, o jeito e as expressões faciais do piloto e emociona muito o telespectador ao decorrer da trama. De forma geral, a série tem um cast muito competente e também uma preocupação visual na caracterização bem fidedigna dos seus personagens. Outro destaque são as excelentes cenas que envolvem as corridas, que são bem dinâmicas, utilizando-se de ótimos artifícios para fisgar os seus telespectadores pelo espetáculo visual, que a série promete e entrega sendo uma das produções mais caras da história do streaming. Algo com certeza deve ter atrapalhado a produção de mais episódios, algo que beneficiaria bastante a trama como um todo. Mesmo com seus defeitos, é muito bom embarcar novamente na história de um personagem tão marcante quanto o de Ayrton Senna. A minissérie consegue emocionar e demonstrar, mesmo que de certo modo, a importância desse personagem para a história do Brasil como um todo. Vale a pena ser assistida por tudo que Ayrton representa, mas a sensação ainda é que há mais a saber sobre ele, indo além do mito que perdura em cima do seu nome e descobrir de fato quem era o homem Ayrton Senna. Nota: 3,5/5

  • Entrevista | Fernanda Bond e Valentina Homem falam sobre ‘Um Dia Antes de Todos os Outros’

    As diretoras conversam com exclusividade com o Oxente, Pipoca? sobre a produção feminina que coloca o afeto no centro da narrativa Foto: Divulgação O filme Um Dia Antes de Todos os Outros, dirigido por Fernanda Bond e Valentina Homem, narra a história de Marlí (Clarissa Pinheiro), uma empregada doméstica e cuidadora que descobre que o apartamento onde trabalha, de Dona Iara (Elvira Helena), foi vendido, tornando aquele seu último dia no local. Marlí, embora atônita com a urgência da mudança, está ansiosa para retornar à sua terra natal, Olinda. No entanto, ela não esperava que sua filha, Sofia (Marianna Bittencourt), não estivesse disposta a deixar o Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva para o Oxente, Pipoca?, as diretoras Fernanda Bond e Valentina Homem falaram sobre sua parceria artística de longa data, o processo de idealização do filme e a complexidade de trazer à tela três gerações de mulheres muito diferentes, mas que se unem pelo afeto. Quando perguntada sobre o processo de criação e desenvolvimento do filme, Valentina ressalta que Um Dia Antes de Todos os Outros teve uma idealização diferente da tradicional. “Existia um projeto anterior, que era um projeto que o Jô Bilac, que é co-roteirista do filme, tinha me chamado para fazer a adaptação de uma peça dele.”, explicou. “O Jô escreveu um roteiro, a Nathalie, que é outra produtora junto comigo, conseguiu captar um certo dinheiro, um dinheiro muito pequeno, e o tempo foi passando, a gente não conseguiu captar mais, e chegamos a um determinado momento que a gente tinha ali 85 mil reais captados, que não dava para fazer o filme original, e aí a gente ou devolveria esse dinheiro ou a gente faria alguma coisa com ele. Era mais ou menos ali nos anos de 2019 e 2020, ou seja, o Brasil estava vivendo um caos político. Logo depois da pandemia, estava tudo muito difícil.” Foi diante do desafio de fazer um longa-metragem com o dinheiro arrecadado que Valentina entrou em contato com Fernanda Bond para participar do projeto, compartilhando a direção e o roteiro do filme. Fernanda enfatiza que essa inversão de etapas do processo foi importante na hora de preparar a narrativa, já que o filme se passaria em um único dia e em uma única locação. Foto: Divulgação Sobre a parceria entre as duas diretoras, Fernanda diz que a similaridade de ideias sempre marcou a relação. “Eu posso dizer que no meu caso com a Val, não é a primeira vez que a gente colabora. Isso é uma coisa que já vem de muito tempo. A gente entende que queremos falar sobre coisas parecidas, que as coisas que nos afetam desde sempre são muito próximas. Então isso já facilita.” Fernanda e Valentina também ressaltam que destacar as diferenças entre as personagens, mas uni-las através do afeto, sempre foi a premissa do filme. “É um filme que quer falar das relações de cuidado, de ausência de cuidado entre mulheres, mas que o afeto seja o foco central. Então a gente quer que as relações, as questões, as complexidades de classe, de raça que são tão características do nosso país e que são tão profundamente determinantes para as relações de cuidado no nosso país e para a terceirização do cuidado, a gente quer falar sobre tudo isso, mas a gente quer que o afeto esteja, de certa forma, no primeiro plano.”, explica Valentina. Sobre a criação de um senso de linguagem visual, as diretoras explicam que a complexidade da imagem e de criar um senso estético para o filme vem também do próprio modo de fazer. Fernanda comenta sobre a cena final do filme, pessoalmente a mais emblemática. “A gente privilegiou a fluidez da câmera, das atrizes, porque você poderia aprisionar as atrizes e falar assim: olha, fica aqui nesse chiva aqui do chão, se não me saia daí, vamos marcar o foco, mas a gente queria que a coisa fosse se os corpos estivessem de fato soltos no espaço e que a câmera fosse considerada um corpo câmera também.” Nesse mesmo sentido, Valentina complementa: “Desde sempre tínhamos em mente o plano sequência. Por mais que o filme não seja montado com os planos sequências, a gente acabou misturando planos. Inclusive na mesma cena que a gente acabou refazendo outro dia, a gente juntou, mas foi todo filmado em plano sequência e muito próximo das atrizes. Acho que isso era uma coisa importante, que é isso que a Fê falou, de ser uma câmera que tá dentro da cena, que não é uma câmera observadora, que chega perto da pele. Acho que isso tem a ver com o afeto, com esse lugar do cuidado. Então a câmera lá também tá ali dentro dessa dinâmica.” Foto: Divulgação Um Dia Antes de Todos os Outros conta com uma equipe majoritariamente feminina, do elenco até a produção executiva. Para Valentina e Fernanda, isso já é uma grande diferença, especialmente pela falta de costume com esse tipo de dinâmica. O ambiente do set costuma ter uma lógica masculina e ser liderado, em grande parte, por homens. “Foi muito bom trabalhar só com mulheres, e era realmente uma coisa diferente. Porque, se vocês forem pensar, a unidade de cinema é sempre o contrário. Mulheres são exceção fora da cena – atores e atrizes até que é mais –, mas pensando em termos de equipe, imagina o diretor de fotografia, a própria ideia da direção, o roteiro e tudo, se você for botar em números, ainda é uma coisa muito masculina”, fala Fernanda. “Dava essa sensação mesmo de um clima diferente no set. Todo mundo tá muito à vontade e, ao mesmo tempo, colaborando. Acho que tem uma coisa da colaboração, por ser uma equipe muito pequena, e também não ter as hierarquias tão definidas como costuma ser um set de cinema. Todo mundo fazendo tudo. Enfim, enquanto diretora, também fazia milhões de outras coisas, então acho que isso dá uma quebrada.”, ri Valentina. “E não foi um pré-requisito [apenas contratar mulheres]”, acrescentou Fernanda. “Acabou que isso aconteceu, e eu acho que isso sem dúvida impactou, porque os olhares são diferentes. Também tivemos na pós-produção a inclusão de homens na equipe que foram absolutamente incríveis.” Ao final da entrevista, quando perguntadas sobre os avanços da presença feminina no cinema brasileiro, o que já foi conquistado e o que ainda precisava ser alcançado para a construção de um cinema mais feminino e diverso, a resposta das duas foi unânime. “As políticas afirmativas são super importantes para isso, não só para ter mais espaço para as mulheres e olhar feminino, mas também para todas as outras pessoas historicamente marginalizadas. Ainda assim, acho que é um caminho bem longo. Os números, não só no Brasil, como no mundo, mostram que em todas as etapas da cadeia produtiva e de distribuição dos filmes, os homens são 60, 70, 80%. Chegam nos principais festivais de cinema e, de 50 filmes, tem 5% de mulheres; às vezes não chega nem a 10%. É uma longa batalha, uma trajetória que ainda tem muito a ser conquistada.”

  • Entrevista | Carol Duarte e Átila Bee falam sobre as temáticas abordadas em 'Malu'

    Atriz e ator conversaram com o Oxente, Pipoca? a respeito do longa de Pedro Freire Foto: Divulgação Estreou no dia 31/10 Malu, o longa-metragem de estreia de Pedro Freire. Parcialmente inspirado na vida de sua mãe Malu Rocha, o filme segue a personagem de mesmo nome (Yara de Novaes), que, no Rio de Janeiro dos anos 1990, luta para conciliar as memórias do passado como atriz de teatro durante a ditadura com a relação tempestuosa e complexa com a mãe Lili (Juliana Carneiro da Cunha) e a filha Joana (Carol Duarte). Em entrevista para o Oxente, Pipoca?, Carol Duarte e Átila Bee (que vive o personagem Tibira, melhor amigo de Malu) falaram a respeito do processo de produção do filme e de composição de seus personagens, bem como das temáticas discutidas. Questionada sobre se Joana seria uma espécie de “alter-ego” do próprio Pedro, dados os elementos biográficos do filme, Carol responde que na vida real o diretor também tem uma irmã, de modo que sua personagem teria um pouco dos dois. A atriz também destaca o processo intenso de gravação — três semanas de preparação no set e outras três de ensaio —, de modo que a construção dos personagens foi feita de maneira coletiva, especialmente pelo fato do próprio Pedro também trabalhar como preparador de elenco. Sobre a relação de sua personagem com Malu e Lili, Carol exalta a maneira pela qual Pedro pensou nas contradições e complexidades que cercam essas mulheres. “Malu é essa mulher mais expansiva, e Joana é mais silenciosa, observa e escuta mais. Acho que uma coisa que me marca muito é que há uma briga entre Malu e dona Lili que chega a ser física, e depois quando a Malu confronta a Joana com uma pergunta horrorosa (‘você está comendo seu pai?’), ao invés da Joana bater nela ela se autoagride, bate na própria cabeça, então aí vai se revelando todo um trauma que vai passando de geração para geração”, diz ela. Já Átila comentou a respeito da inserção de Tibira, um homem negro e gay, numa trama que é marcada pelas ausências de figuras masculinas e também dos traumas que estes geraram nas protagonistas femininas. O ator fala de um “protagonismo ausente” desses homens, enquanto a figura de Tibira é um oposto: alguém que busca mudar o ambiente ao seu redor, em especial com as três mulheres, se destacando por ser tão bem-resolvido quanto à sua sexualidade e aspirações. Ele destaca um momento que teve durante a exibição do filme em Juiz de Fora, onde foi questionado pela saída aparentemente abrupta de seu personagem do filme, após uma situação envolvendo Lili e Malu: “a gente precisa entender também que ter coragem e não ser covarde também é um ato importante. É uma coragem a gente precisar renunciar, precisar sair de cena muitas vezes, e eu acho que ele tem essa compreensão, tem um momento que não dá mais. Eu percebo que o personagem cumpre mesmo a bonita trajetória dele, está ali e sabe se retirar no momento adequado”. Foto: Divulgação Por fim, tanto Carol quanto Átila comentaram a respeito de como Malu, mesmo se passando nos anos 1990, pode refletir uma aparente despolitização das gerações mais contemporâneas, em especial com o advento das redes sociais. Carol reforça a problemática da anistia feita durante a ditadura e seu caráter permanente, indicando que isso afetou não apenas a geração de Joana, mas as seguintes. “Essa ameaça militar permanece porque a gente não responsabiliza quem fez; se um homem que levantou no meio do parlamento e bradou Ustra fosse preso, a gente não teria vivido o que viveu”, diz ela. A atriz destaca também as lutas de Joana, especialmente no contexto em que o filme se passa, e como elas se conectam ao Brasil contemporâneo. “Eu não sei se ela não está nem aí para a questão política, eu acho que eles destruíram o cenário cultural e só no final da década de 90 que a coisa começou a ser retomada a duras penas. Destruir é muito fácil, e reconstruir é difícil. (...) E ao final tem aquela última pergunta de Malu: ‘para onde a gente tá indo?’, e aí a gente vê esse país de agora totalmente assumido, pessoas que saíram dos bueiros com discursos muito postos e fortalecidos. E a gente fica pensando nesse presente, e sabe muito bem para onde está indo”. Já Átila reforça a atualidade dos panoramas e discussões de Malu, o que o leva a pensar que o país parece estar andando em círculos e na necessidade de se quebrar esses círculos. “A gente fica até cansado de pensar o que pode fazer, temos pouco tempo diante de ameaças tão iminentes. É muito triste, parece um discurso bastante pessimista, mas eu acho que essa pergunta final [‘para onde a gente tá indo?’] não pode sair nunca da nossa mente, e com base nisso a gente precisa agir e pensar em ações”, diz o ator.

  • Crítica | Malu

    Os dramas e tensões intergeracionais de três mulheres ferozmente vividas por suas três brilhantes intérpretes Foto: Divulgação Ao final de Malu, os créditos são acompanhados de Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, icônica canção de Sérgio Sampaio, onde o artista capixaba canta: Eu, por mim, queria isso e aquilo / Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso / É disso que eu preciso ou não é nada disso / Eu quero é todo mundo nesse carnaval. A escolha de trazer a música de um dos “malditos da MPB” — alcunha dada a artistas que, no contexto da ditadura militar, foram ostracizados por não se acomodarem aos padrões radiofônicos — é mais do que apropriada para um filme que, em sua essência, fala de uma “maldita”. Malu (Yara de Novaes) é uma presença magnética já desde a sua primeira cena, onde a vemos ensaiar no terraço da sua casa numa favela do Rio nos anos 1990. Os dez primeiros minutos habilmente nos dão a tônica desta personagem, do seu contexto e das suas relações, em especial com a filha Joana (Carol Duarte), que acaba de retornar ao Brasil depois de um tempo morando na França, e com a mãe Lili (Juliana Carneiro da Cunha), com quem divide a casa e com quem frequentemente se antagoniza ao ponto de haver altercações físicas entre as duas. A protagonista é dona de uma personalidade intempestiva e afrontosa, se recusa a se adequar a quaisquer padrões de “feminilidade” e fuma religiosamente sua maconha todo santo dia, enquanto se agarra desesperadamente às lembranças da sua trajetória como atriz do teatro durante a ditadura. É perceptível o ressentimento que a envenena, diante das oportunidades perdidas e pela vida que leva agora, presa a uma mãe conservadora e racista e incapaz de se reconectar com a filha, enquanto nutre sonhos que nós, como espectadores, já tememos que nunca irão se realizar. Como os malditos da MPB, Malu é essa figura que foi ostracizada por um regime tão repressivo — ainda que possamos colocar em xeque a veracidade de seus relatos, à medida que o filme vai indicando a natureza turva das suas memórias e perspectivas. Mas é inegável como a subversão reside em seu âmago e como o preço que ela precisou pagar por isso ainda é sentido, especialmente em sua saúde mental (nitidamente deteriorada) e em suas relações familiares. Foto: Divulgação Para dar vida à personagem que dá nome ao filme, Yara de Novaes a interpreta como uma figura maior do que a própria vida, intensa, instável, cativante na medida em que pode ser repulsiva. Em um momento estamos rindo dela humilhando um padre para em seguida ficarmos chocado com sua capacidade de ir às vias de fato com a mãe numa briga. Particularmente, adoro o detalhe dela contando ocasionalmente as mesmas histórias da sua trajetória no teatro para Joana e amigos, uma maneira eficaz pela qual o diretor Pedro Freire ilustra o fato da personagem estar presa ao passado de (suposta) glórias. Em um ano onde vemos o estrondoso sucesso de Ainda Estou Aqui e a maneira como a atuação contida de Fernanda Torres é a alma do filme, é um exercício interessante olhar para como a atuação expansiva de Yara é um contraponto que, à sua própria maneira, é a alma de Malu. Mas é na maneira como sua expansividade se relaciona com as outras pontas do triângulo que sustenta o filme que ele cresce. A dinâmica entre essas mulheres é pesada, tóxica e até mesmo violenta em alguns momentos (em ações, mas sobretudo em palavras carregadas de ressentimento, ódio e mágoas). É perceptível como se tratam de três gerações que não conseguem conversar entre si: Lili representando uma geração retrógrada e religiosa, Malu aquela que tentou se libertar das amarras repressivas da ditadura e Joana simbolizando uma nova geração que só pensa em sobreviver e é muito menos interessada em política que a de sua mãe. Tais percepções são potencializadas pela razão de aspecto em 4:3 que Freire adota, “comprimindo” ainda mais essas personagens nos espaços já apertados dessa humilde casa, além de trazê-las sempre em planos mais intimistas e close-ups que nos tornam tão próximos dessas mulheres ao ponto das discussões e brigas serem ainda mais desconfortáveis e difíceis de assistir. Ao mesmo tempo, porém, Freire é inteligente o suficiente para mostrar como essas relações são complexas, sendo também pontuadas por afeto, cuidado e (talvez) amor, seja nas interações entre Lili e Joana, no orgulho que Malu precisa engolir para pedir ajuda à filha no melancólico epílogo — e nessa ajuda ser oferecida mesmo com tantas dores envolvidas. Da mesma forma, cada personagem recebe um background que, se não justifica suas ações, certamente explica muito dos seus comportamentos, especialmente no que se refere às ausências das figuras masculinas: não parece coincidência que o único homem relevante na trama, vivido por Átila Bee, é um homem negro e gay que oferece as mais genuínas expressões de afeto para essas mulheres, mas ainda assim é afetado pelas dores e traumas delas. Talvez por isso, ainda que Yara de Novaes seja a grande estrela do filme, a minha cena favorita é a do devastador monólogo oferecido pela personagem de Juliana Pereira da Cunha após arriscar fumar maconha pela primeira vez. Malu é um primoroso exemplar da atual safra do nosso cinema, um filme cuja alma reside na instabilidade que permeia as relações familiares entre suas personagens femininas, as quais nunca são romantizadas, mas apresentadas em toda a sua crueza e contradições. Ancorado na fenomenal performance de Yara de Novaes, uma das melhores que vi em tempos recentes, é um filme que merece ser visto e revisto, mesmo com todo o desconforto que possa gerar com a acurada representação de relações tão disfuncionais, honestas. Quando os créditos anunciam a dedicatória à mãe do diretor, ela própria uma atriz cuja vida inspirou partes do filme, não resta dúvidas de que o que vimos nos 100 minutos anteriores foi uma belíssima homenagem a uma grande maldita. Nota: 4/5

  • Crítica | O Clube das Mulheres de Negócios

    Papeis de gêneros invertidos e onças foragidas em filme que não sabe onde quer chegar Foto: Divulgação Filmes que tocam no cerne das dores do patriarcado se tornaram cada vez mais comuns. Independente da abordagem, essas histórias ganham vozes e são guias para discussões acerca das problemáticas do machismo na nossa vida cotidiana. Dentro desse contexto, o filme O Clube das Mulheres de Negócios, novo longa da diretora Anna Muylaert, lançado nesta quinta-feira, 28, nos circuitos comerciais dos cinemas, entra no escopo dos que também tratam sobre o assunto. Em entrevista exclusiva para o Oxente, Pipoca?, a diretora afirmou que a trama de O Clube das Mulheres de Negócios surgiu através do cansaço de perceber o tratamento feminino comparado com o masculino. Ambientado em um mundo imaginário onde os estereótipos de gênero estão invertidos, a história parte da premissa durante um dia de folga de um clube de campo, frequentado por poderosas mulheres de negócios, em uma reunião na sede da instituição do título. São convidadas expoentes de diferentes áreas, para tratar de um investimento no que Cesárea, personagem de Cristina Pereira, deseja adquirir. Quando o fotojornalista Jongo, papel de Luís Miranda, e o jornalista inexperiente Candinho, personagem de Rafael Vitti, visitam as mulheres para uma entrevista especial, eles descobrem mais sobre o universo peculiar e assustador, de certo modo, de cada uma. Paralelo a isso, três onças escapam do onçário onde vivem no clube e O Clube das Mulheres de Negócios se transforma em um suspense de caça, onde tanto homens quanto mulheres podem ser consumidos pelos implacáveis bichos. Na lista de mulheres que fazem parte do poderoso clube estão uma cantora de funk vivida por Polly Marinho, uma política candidata a presidente interpretada por Irene Ravache, outra candidata e entusiasta do armamento da população de Katiuscia Canoro, uma empresária do agronegócio de Grace Gianoukas, a milionária líder evangélica de Shirley Cruz, a advogada vivida por Helena Albergaria e a misteriosa personagem de Ítala Nandi. Elas são servidas por Brasília, uma espécie de governanta vivida por Louise Cardoso. Algumas dessas mulheres são acompanhadas dos maridos bem mais jovens, muitos deles traídos, meio burrinhos e com looks sensuais que deixam a mostra coxas e peitorais musculosos. Foto: Divulgação Nesta primeira parte da trama, O Clube das Mulheres de Negócios é totalmente um filme de denúncia e começa muito bem à medida que vamos explorando esse universo imaginário onde os homens são os oprimidos. Utilizando-se bastante do humor ácido e do desconforto em cenas cotidianas, o roteiro de Anna Muylaert é bastante binário e com poucas nuances e deixa, muitas vezes até em sua exaustão, o didatismo tomar conta dos diálogos, talvez um mecanismo eficiente para provocar certos questionamentos em determinadas bolhas. Com arquétipos muito reconhecíveis, é fácil pescar as referências da diretora para as suas personagens principais. E Anna Muylaert se delicia entrando nesse universo, explorando imageticamente os corpos masculinos da mesma forma que vemos os corpos femininos sendo explorados cotidianamente. Essa é, sem dúvidas, a melhor parte do filme: submeter os homens ao mesmo olhar que frequentemente diminui, desvaloriza e isola o feminino. Outro ponto positivo na experiência de assistir O Clube das Mulheres de Negócios é a sua ambientação brega (no melhor sentido da palavra). Abusando de cores fortes, estampas de tigres, bijuterias e acessórios maxi e estilos peculiares bem pontuais para cada personagem, o filme tem essa habilidade visual muito presente com cenário de luxo repleto de contrastes, que encaixa absurdamente com a proposta de Muylaert de beirar o absurdo e o cartunesco, e isso se reflete também nesta visualidade extremamente presente na história. Ridicularizando ao extremo uma parte tosca do nosso país, a trama de Anna Muylaert, até o seu meio, se sustenta bem pela curiosidade, pelas risadas que arranca ao nos deparamos com esse ridículo e pelas boas atuações de suas protagonistas. Porém, ao adentrar no núcleo mais fantasioso e sombrio da história, O Clube das Mulheres de Negócios se perde em sua própria indecisão. O sentimento que fica é que existem três histórias que tentam emergir ao longo dos 95 minutos de projeção: uma ficção com tons de especulação sobre essa inversão de gênero, um suspense investigativo e uma sátira escrachada sobre o absurdo. E eles não conseguem coexistir entre si ou se entrelaçar de uma forma que não pareça forçada. Fica claro que O Clube das Mulheres de Negócios poderia se tornar uma boa sátira, ou um bom filme com crítica social ou, talvez, um bom suspense investigativo, mas torna-se uma grande confusão de ideias por uma necessidade de falar sobre tudo, ao mesmo tempo que não se aprofunda sobre nada e se torna inverossímil com as alegorias didáticas que se propõe. Não é uma experiência de todo ruim, mas a sensação que fica é que o resultado poderia ser muito melhor. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Amor da Minha Vida (1ª temporada)

    Moderna, série triunfa na naturalidade, mas às vezes peca pela falta dela Foto: Divulgação Abordando as desventuras amorosas dos melhores amigos Bia (Bruna Marquezine) e Victor (Sérgio Malheiros) e aquela confusão mental dos 20 e poucos (ou tantos, até) que todo mundo passa, é impossível não se identificar com a história, o problema é que nem sempre acontece de forma orgânica. Me surpreendi muito com o primeiro episódio, o texto esperto e jovial, a personagem de Marquezine é muito bem apresentada e seu envolvimento com Marcelo (Danilo Mesquita) sendo construído genuinamente. No entanto, nos momentos finais, acontece uma reviravolta um tanto folhetinesca. O problema não é a reviravolta em si, mas como ela pareceu forçada. E é neste tom que a série segue por seus dez episódios, mas felizmente o lado bom prevalece na maior parte. A Bia de Marquezine é a maior força da produção. A atriz está excelente no papel e este, dos que eu assisti, é seu melhor trabalho. Ela está muito mais experiente, madura, segura de si e se entrega ao papel na maior espontaneidade. Sabe chorar muito bem e isso não era segredo para ninguém, mas é nas situações corriqueiras que seu talento se destaca mais. Sérgio Malheiros está muito bem como o coprotagonista, no entanto, seu personagem demora um tanto para engatar. Em Bia, há muito mais humanidade por ela ser melhor desenvolvida pelo roteiro, enquanto do lado de Victor são apresentadas mais características clichês, que perdem um pouco do fator da imprevisibilidade e até prejudica o eventual envolvimento romântico deles, o que não é spoiler. Há química, mas havia mais com outros parceiros de ambos e até o dinamismo entre eles se perde um pouco. Fica clara a tentativa de ser algo meio Normal People, mas só fica na tentativa mesmo. Não significa que seja ruim, só não tem profundidade o suficiente. É como se Bia estivesse no ponto certo, mas Victor não. Foto: Divulgação Outro ponto positivo é a direção de René Sampaio e Tatiana Fragoso e codireção da própria Marquezine. A câmera focando no rosto dos personagens traz uma sensação de intimidade, de estar ali junto com aquelas pessoas, até porque a familiaridade é evidente. Se não rolar uma identificação pessoal, alguém retratado ali te lembra pelo menos um alguém que você conhece. As cenas de sexo são muito bonitas e há uma elegância presente nelas que deixa tudo mais intenso e não menos real. Criada e escrita por Matheus Souza, o roteiro é outro mérito. Junto com seus colaboradores, ele consegue dar muita naturalidade às situações, com gírias e referências bastante atuais. No entanto, às vezes escorrega no exagero em alguns casos e alguns diálogos e circunstâncias soam forçadas com muita exposição. Marquezine tem alguns monólogos fortes sobre essa crise existencial da idade e como eu disse, a atriz está excelente em todos eles, mas o texto em si, em um especificamente, me passa a sensação de “você precisa se identificar” e tira a naturalidade da cena. Entre alguns baixos e vários altos, a série consegue capturar bem a essência das idas e vindas dos 20 e poucos. É comum que alguns ciclos se repitam e isso não me incomoda em um período da vida onde tudo que temos são incertezas e isso é bem retratado nos dez episódios de quase quarenta minutos cada, onde há um equilíbrio entre o drama e a comédia – que nem sempre funciona, devo dizer – nunca deixando o clima pesar demais. O ritmo é bom e em momento algum a série se torna maçante, mesmo com os defeitos que eu já apontei. A última cena - da qual eu gosto muito - tem tons de finitude, mas pode ser que haja espaço para mais, porém acho que funciona melhor como uma minissérie, pois uma 2ª temporada poderia ficar repetitiva e colocar a maturidade atingida em jogo. O principal ponto são os erros que nos fazem humanos e é através deles que aprendemos a ser quem somos. É um válido sopro de honestidade. Nota: 3,5/5

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