Resultados de busca
Buscar neste site
1417 resultados encontrados com uma busca vazia
- Entrevista | Diretor e responsável pela restauração de Onda Nova (1983) conversam sobre o filme
Ícaro Martins e Júlia Duarte conversaram com o OP sobre o longa, que chega remasterizado aos cinemas em 27 de março. Divulgação Uma ode à liberdade feminina e ao desejo. É assim que podemos definir, de maneira geral, o longa Onda Nova, lançado originalmente em 1983 na Mostra de SP e censurado pela ditadura militar logo depois. Nele, acompanhamos as histórias das jogadoras do Gayvotas Futebol Clube, um time feminino formado em 1983, em pleno regime, no ano em que o esporte foi regulamentado para as mulheres no Brasil, após ter sido banido por quatro décadas. Com o apoio de renomados jogadores da época, como Casagrande, Pita e Wladimir, elas enfrentam os preconceitos de uma sociedade conservadora. Paralelamente, lidam com problemas pessoais e se preparam para um simbólico jogo internacional contra a seleção italiana. Sendo uma colagem surrealista sobre a juventude paulistana, Onda Nova integra o gênero da pornochanchada com seu tom cômico, irônico e juvenil. O longa-metragem sofreu censura por abordar temas como uso de drogas, aborto e libertação sexual. Produzido na Boca do Lixo e dirigido por José Antonio Garcia e Ícaro Martins, o filme é um símbolo nacional na luta contra o conservadorismo. E, agora em 2025, Onda Nova retorna aos cinemas remasterizado e sem censura, apresentando para muitos uma história que não tem medo de assumir o que ela verdadeiramente é. Para falar sobre a história e o processo de memória e preservação de Onda Nova, o Oxente Pipoca conversou com Ícaro Martins, um dos diretores originais do longa, e Júlia Duarte, sobrinha de José Antônio Garcia e responsável pela restauração do filme, que chega em 27 de março aos cinemas de todo o Brasil. Gabriella (Oxente Pipoca): Primeiro, gostaria de agradecer a disponibilidade de vocês e dizer que adorei assistir ao filme. Já tinha ouvido falar, mas ainda não tinha assistido, e foi uma experiência incrível, especialmente para mim, que sou mulher e fã de futebol. Foi muito bom. Agora, gostaria de fazer uma pergunta para o Kiko: O filme se passa na época da ditadura militar e foi censurado e, embora tenha um cunho político, esse aspecto não é tratado de maneira explícita. Você poderia falar sobre como o filme dialoga com esse contexto político da época, mesmo sem abordar diretamente a política? Ícaro Martins: O filme Onda Nova se passa em um contexto em que a ditadura militar ainda estava presente, com a repressão policial e tudo mais, e, de certa forma, essa situação de controle e repressão continua até hoje. Aliás, muitas coisas dessa época ainda permanecem vivas na atualidade. O que o filme traz, na minha opinião, é uma afirmação de vida. Ele trata do desejo, algo que constitui nossa personalidade. Não existe vida sem desejo, sem ânimo. Isso é algo muito importante, especialmente ao retratar a transição de um universo de repressão e morte, o que, de certa maneira, é uma realidade que podemos relacionar com o momento atual, após o governo Bolsonaro e a pandemia. Essa conexão é uma das razões pelas quais o filme ainda dialoga muito com os dias de hoje. Gabriella (Oxente Pipoca): Recentemente, fui ver o filme “Rivais” do Luca Guadagnino nos cinemas e durante uma cena de beijo entre os três protagonistas, duas adolescentes do meu lado taparam o olho. Lembrei muito dessa cena enquanto assistia Onda Nova e percebi que uma parcela da sociedade esteja, talvez, mais careta que em 1983. Ícaro Martins: Eu acho que, assistindo ao filme, isso realmente me fez refletir sobre a situação atual. Parece que estamos saindo, ou melhor, emergindo de um regime tão conservador quanto o da ditadura militar, talvez até pior em alguns aspectos, já que estamos 40 anos depois. Em certa medida, isso representa um retrocesso ainda maior. Além disso, acho que, depois da Onda Nova, surgiu o que eu chamo de um "tridente do conservadorismo", composto por três fatores: a ascensão do neoliberalismo, o crescimento das religiões ultraconservadoras, e uma terceira questão que acentuou esse movimento. O neoliberalismo começou a ganhar força, e, ao mesmo tempo, as religiões ultraconservadoras começaram a ter mais influência, não só no cristianismo, mas também em comunidades como os neo-pentecostais e judeus ortodoxos. Esse fenômeno foi ainda mais reforçado com a chegada da AIDS, que gerou uma série de estigmas e um impulso para o conservadorismo religioso. Vocês não se lembram, mas quando a AIDS surgiu, ela era inicialmente chamada de "câncer gay", porque não sabiam de onde vinha, e as primeiras vítimas eram de comunidades específicas. Isso gerou uma reação muito forte, uma verdadeira aliança entre o espírito protestante e o neoliberalismo, algo que já está descrito em clássicos como o de Max Weber, "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", uma aliança histórica que tem mais de 100 anos. Essa combinação de fatores, com o conservadorismo religioso e neoliberalismo, foi uma das coisas que mais acentuou esse retrocesso que vivemos. E, no fim, estamos apenas começando a emergir dessa realidade. Eu acho que é exatamente por isso que o filme está gerando tanta repercussão, especialmente com o público jovem. As pessoas estão cansadas, ninguém aguenta mais esse conservadorismo e a repressão. O que o filme traz de relevante para o período atual é justamente essa sensação de liberdade e desejo que ele apresenta, que é tão necessária neste momento. Ele não só olha para a realidade daquela época, mas também transmite para o público jovem uma sensação de possibilidade, de se libertar das amarras e de explorar o que é autêntico e verdadeiro. Acho que isso ressoa muito com o que a geração atual está buscando. Gabriella (Oxente Pipoca): Como foi a experiência de trazer esse filme de volta para o público atual, especialmente para aqueles que não o conheciam? Kiko e Júlia, poderiam compartilhar um pouco sobre o processo de restauração e como foi apresentar o filme para uma nova geração? Júlia Duarte: Eu acho que a experiência de restaurar o filme foi incrível, e envolveu várias gerações diferentes. No início, o filme foi mal interpretado, e, na época, teve uma recepção negativa, principalmente por causa do contexto da ditadura e também por outros fatores. Na minha família, por exemplo, o filme era visto de forma bem negativa, quase como um filme maldito. O Zé, que é meu tio, havia feito O Olho Mágico do Amor, que foi muito elogiado, mas, depois, o Onda Nova não teve o mesmo sucesso. Foi um verdadeiro flop. E, depois, por muitos anos, o filme ficou meio esquecido, quase como algo tabu. Eu só fui assistir a Onda Nova alguns anos depois, durante uma amostra dos filmes do Zé no Centro Cultural São Paulo. Quando vi, pensei: "Que loucura esse filme!" Ele parecia super atual, principalmente em questões de gênero, que na época não eram discutidas como são hoje. Isso me fez refletir sobre como, de certa forma, somos mais conservadores agora, mas, por outro lado, também houve um avanço nas discussões sobre identidade de gênero e sobre as pessoas se identificarem como não-binárias ou transicionarem de gênero. A ideia de ressuscitar o filme surgiu há algum tempo, quando comecei a trabalhar mais com o cinema. Eu tinha o desejo de exibir Onda Nova e fazer um debate sobre futebol e gênero, por exemplo, mas isso acabou sendo adiado diversas vezes. Mais recentemente, quando criei uma plataforma online, a SPAMFLIX com filmes alternativos, eu tentei incluir os filmes do Antônio e do Kiko, mas o processo não foi fácil. A produtora que detinha os direitos dos filmes também havia passado por muitas mudanças e dificuldades. Mesmo assim, com o apoio de algumas pessoas, como meu companheiro, que trabalha no Festival de Locarno, conseguimos finalmente enviar o filme para lá. O diretor de Locarno adorou o filme e sugeriu que o exibíssemos no festival. Foi aí que decidimos restaurá-lo. A Cinemateca entrou na parceria e, durante o processo, fizemos algumas mudanças para dar um novo fôlego ao filme, como criar um novo trailer e um novo pôster, que foi feito pela Helena, filha do Antônio, uma designer talentosa. Além disso, a Marina Kosa, que trabalhou no trailer, e o Bernardo, que nos ajudaram com a distribuição, foram super importantes. O legal desse processo foi que ele envolveu várias gerações de pessoas que estavam trabalhando no cinema, desde os mais velhos até os mais jovens. E o mais interessante é que a resposta do público jovem tem sido muito positiva. Isso mostra que o filme, apesar de ser de uma época diferente, ainda ressoa com as novas gerações, que estão muito interessadas nesse tipo de conteúdo. A restauração trouxe uma nova vida para Onda Nova, e isso tem sido muito gratificante de ver. Ícaro: A primeira vez que percebi o impacto que o filme causava nas pessoas mais jovens foi quando fui à Cinemateca ver a cópia digitalizada do negativo. Estava em um estado péssimo, a imagem estava bem ruim, e eu ficava olhando aquilo e ficava mal de ver.. Mas aí, uma menina da equipe, que devia ter uns 20 e poucos anos, virou para mim e disse: "Não, isso está ótimo, está incrível!". Foi um momento muito emocionante, ver a imagem tomando forma pela primeira vez. Foi impressionante porque a equipe jovem da Cinemateca, que estava responsável pela restauração, ficou super animada com o filme. Eles estavam tão empolgados, e foi aí que eu percebi que o filme, apesar de ser de uma época diferente, estava realmente se conectando com essa nova geração. Isso foi algo que realmente me surpreendeu e mostrou o poder do filme para atravessar gerações. Gabriella (Oxente Pipoca): Como vocês percebem o fato de que, mesmo nos anos 80, o filme aborda o futebol feminino em um contexto em que isso era praticamente um tabu? Até hoje, o futebol feminino ainda é visto como algo secundário, e as mulheres que falam sobre futebol enfrentam preconceito. No filme, as mulheres jogavam com paixão e sabiam exatamente o que estavam fazendo, e isso me encantou profundamente, pois sou fã de futebol e percebo o quanto as mulheres ainda sofrem preconceito, seja por torcerem ou por jogarem. Como surgiu a ideia de tratar do futebol feminino no filme? Foi algo que surgiu naturalmente durante o processo de criação ou foi uma escolha consciente? Ícaro: O personagem da Batata foi inspirado em uma das amigas da Regina, que é prima do Zé Antônio. Na época, o futebol feminino era praticamente proibido até 1979, quando deixou de ser banido, mas ainda era algo muito informal e quase uma contravenção. O Zé Antônio, que tinha essa sobrinha, começou a ouvir histórias sobre o grupo de amigas dela que jogavam futebol. Elas se reuniam para jogar, mas não havia qualquer organização formal ou reconhecimento do futebol feminino, e os jogos eram bem informais, como se fossem "jogos de várzea". Essa ideia de tratar do futebol feminino no filme surgiu dessas histórias e experiências reais. No caso da personagem Batata, foi inspirado em uma jogadora que era filha de um ex-jogador do Palmeiras, o "Chinesinho", que era uma espécie de líder do time. Naquele momento, o futebol feminino ainda estava longe de ser profissionalizado, e as mulheres jogavam porque realmente amavam o esporte, não por status ou reconhecimento. Hoje, embora o futebol feminino tenha conquistado maior visibilidade e até se profissionalizado, ele ainda enfrenta muitas desigualdades, como a disparidade salarial em comparação ao futebol masculino. Isso reflete um problema mais amplo da sociedade brasileira, que é a estrutura patriarcal, onde as mulheres continuam em desvantagem, mesmo desempenhando as mesmas funções. Quando o Zé Antônio começou a desenvolver essa ideia, ele inicialmente pensou em criar uma série de TV, mas quando surgiu a proposta de fazer um filme, ele pegou esse argumento e o desenvolveu junto com a equipe. Uma das grandes dificuldades foi encontrar mulheres que jogassem futebol, porque muitas das atrizes não tinham essa habilidade. Então, metade do time de jogadoras no filme não era de atrizes profissionais, mas sim mulheres que realmente sabiam jogar futebol, o que acabou funcionando muito bem. A ideia veio desse contexto original do Zé Antônio, inspirado nas histórias das amigas da prima dele. Júlia: Sim, é verdade. O futebol feminino foi regulamentado em 1983, e foi nesse contexto que a ideia do filme começou a ganhar forma. O Casagrande até tem uma história relacionada a isso, porque naquele momento o Corinthians começou a formar um time feminino, e a Regina, que era parte da história original do filme, jogava nesse time. Ícaro: Isso. O gancho para fazer o filme foi justamente essa regulamentação, que estava sendo discutida na imprensa na época. Esse foi o ponto de partida que possibilitou a criação do filme, já que o tema estava começando a ganhar visibilidade e relevância naquele momento. Divulgação Gabriella (Oxente Pipoca): Como foi para vocês exibir o filme na sétima edição da Mostra de São Paulo, em 1983, e depois vê-lo sendo exibido novamente na mesma amostra no ano passado? Com certeza as recepções foram diferentes, mas como foi essa experiência para vocês? Ícaro: Foi uma experiência muito legal, porque o filme foi exibido pela primeira vez na sétima edição da Mostra de São Paulo no final de 1983. Naquela época, a Mostra tinha conseguido, depois de anos de batalha, uma autorização especial da censura para exibir os filmes sem censura prévia. Embora não fossem os 400 ou 500 filmes que vemos hoje, a Mostra exibia cerca de 100 filmes, mas nem todos conseguiam o certificado de censura. A Mostra chegou a um acordo com a censura, e assim o filme foi exibido lá antes de ser oficialmente lançado e censurado. Quando o filme foi selecionado para o Festival de Locarno, decidimos restaurá-lo e, ao falar com a Renata Almeida, contamos toda a história do filme e nossa vontade de que a primeira exibição no Brasil fosse novamente na Mostra de São Paulo, onde ele havia sido exibido originalmente. Ela aceitou de imediato. A reação do público na Mostra foi incrível, e o filme bombou nas redes sociais. Graças a essa repercussão, conseguimos garantir a distribuição do filme, não é mesmo, Júlia? Júlia: Sim, já havia o interesse da distribuidora, mas a exibição na Mostra foi realmente muito especial. Eu também comecei a trabalhar com cinema na Mostra no ano seguinte à morte do Zé Antônio, então foi muito bonito voltar para lá, me sentindo em casa. A equipe toda estava super feliz, foi um reencontro de pessoas que não se viam há 40 anos.. As sessões estavam lotadas, e a recepção foi incrível. Além disso, a repercussão do filme tem sido muito boa. Para além do Festival de Locarno, muitos festivais queer têm convidado o filme, como o BFI Flare em Londres, um dos maiores festivais queer da Europa, e em breve também vamos para a Coreia para outro festival, que não é focado no público queer. A recepção está sendo muito positiva, com públicos variados. A exibição na Mostra foi especialmente marcante porque vimos que o filme ainda funciona no Brasil, mesmo 40 anos depois. O Kiko comentou algo que o Zé Antônio dizia na época, que o filme só seria realmente entendido 30 anos depois, e ele estava certo, mas se enganou um pouco no tempo, pois demorou um pouco mais do que ele imaginava para o filme ganhar essa compreensão e relevância. Ícaro: O que aconteceu foi o seguinte: o filme ficou preso na censura por cerca de seis meses. Ele foi produzido como uma pornochanchada, um tipo de comédia erótica popular na época. Durante esse tempo em que o filme estava na censura, começou a liberação de filmes pornográficos de sexo explícito através de mandados de segurança. Então, quando o filme finalmente foi lançado no final de 1984, o cenário havia mudado drasticamente. Não só os filmes com sexo explícito haviam entrado no mercado, mas também começaram a ser produzidos no Brasil filmes de sexo explícito de verdade. Esse novo cenário fez com que o mercado de salas de cinema se dividisse: ou os filmes eram sem sexo nenhum ou eram filmes com sexo explícito. O Onda Nova acabou sendo prejudicado porque ficou preso na censura e perdeu o momento. Como havia uma demanda reprimida de filmes mais explícitos, o público ia ao cinema e quando via as Gayvotas Futebol Clube ao lado de um filme como Penetrações, não dava uma chance a Onda Nova. O filme, apesar de ter levado 1.780 pessoas à sala em uma semana — um número que hoje parece grande —, na época foi considerado um fracasso. Gabriella (Oxente Pipoca): Hoje, um filme brasileiro independente que consiga atrair 1.780 pessoas na primeira semana de exibição seria um grande motivo de comemoração. É incrível pensar nisso, principalmente no contexto atual, onde as produções internacionais dominam o mercado. E isso nos leva a um ponto muito relevante: a importância da cota de tela. Se não houver uma proteção para as produções nacionais, como a cota, fica muito difícil para filmes locais alcançarem o público. Sem essa medida, o sistema fica totalmente inclinado para as grandes produções estrangeiras, o que torna ainda mais difícil para filmes como Onda Nova terem o espaço e a visibilidade que merecem. Júlia: Eu só queria acrescentar o que você falou sobre a cota de tela, que é fundamental, mas também é importante bater na tecla da preservação, que é o que estamos fazendo agora com Onda Nova. Eu acho que, no Brasil, ainda somos muito negligentes quando se trata de cuidar do nosso patrimônio cinematográfico. A indústria cinematográfica, de uma forma geral, não conseguiu se organizar bem diante da chegada do streaming, e isso afetou muito a preservação dos filmes. Hoje, muitos filmes estão disponíveis online, mas na forma de cópias de péssima qualidade, muitas vezes piratas, o que diminui bastante o valor e a integridade das obras. A realidade é que, ao longo dos anos, filmes foram completamente perdidos. Por exemplo, um curta do Zé Antônio, que também falava sobre futebol e tinha jogadores de futebol, foi perdido. Isso mostra a importância de preservar, digitalizar os acervos e garantir que esses filmes voltem a ser acessíveis ao público. Estamos tentando fazer isso com Onda Nova, e é muito gratificante ver o crescente interesse. Não são apenas os filmes dos cineastas mais famosos que precisam ser digitalizados, há muitos outros filmes brasileiros que merecem a mesma atenção. As pessoas têm curiosidade e querem ver mais. Essa preservação é crucial, não só para manter a história do nosso cinema, mas para dar aos públicos atuais a chance de conhecer e se conectar com essas obras. Gabriella (Oxente Pipoca): Puxando esse gancho para a gente encerrar, temos uma pergunta que sempre fazemos para os nossos entrevistados aqui no OP: qual seria uma indicação especial de um filme brasileiro, além de Onda Nova? Gostaríamos que vocês dois indicassem um filme que vocês gostam, para os nossos seguidores irem buscar, assistir e conhecer. Ícaro: Eu vou falar sobre Malu. Acho que é um filme que passou em um circuito muito pequeno, mas é realmente fantástico. É um filme que merece muito ser visto. Ele me tocou bastante e, na minha opinião, é um grande exemplo de cinema.Júlia: Eu vou falar de três filmes. Primeiro, A Estrela Nua e O Olho Mágico do Amor, que são dos Kiko e Zé Antônio. E também O Corpo do Zé Antônio, que são os próximos filmes que queremos restaurar. Eu realmente acredito que esses filmes são incríveis, e não é só para puxar a sardinha para o nosso lado, mas são filmes que merecem ser vistos e lembrados. Ícaro: E tem tantos filmes bons por aí, como Kasa Branca, que está passando. O cinema brasileiro é realmente incrível, com muita coisa boa tanto do passado quanto do presente. E a gente precisa cuidar dele e preservar esses filmes. Outro filme que também estava passando é Baby, que é um grande filme. Enfim, acho até meio sacanagem falar só de um filme, como a Júlia disse. Pra mim, o melhor filme é sempre o último que vi. Gabriella (Oxente Pipoca): Pra concluir, Júlia, você pode dar mais detalhes sobre o projeto Cinema do Desejo, que envolve a restauração dos filmes? Júlia: Eu indiquei os três filmes porque estamos com esse projeto esse ano, e Onda Nova está indo muito bem, mas os outros filmes, como O Olho Mágico do Amor, por exemplo, estão em péssimo estado. Eles passavam com frequência no Canal Brasil, mas até saíram de lá, porque a cópia já estava praticamente irreconhecível. Agora, estamos em parceria com a Cinemateca iniciando o processo de digitalização, mas ainda precisamos de financiamento. As pessoas têm se mostrado muito interessadas, e estamos buscando recursos para restaurar os filmes do Kiko e do Zé, como Estrela Nua e O Olho Mágico do Amor, além do Corpo do Zé Antônio. Esses quatro filmes têm uma temática em comum, todos explorando o desejo, o que os conecta muito. E, no final de 2025, será o aniversário de 70 anos de Zé Antônio e 20 anos de sua morte, então queremos fazer esse ciclo de filmes para celebrar e colocar essa obra de volta no mundo.
- Crítica | Adolescência (Minissérie)
Filmada em plano-sequência, produção é impactante e devastadora na mesma medida. Divulgação Em meio a quantidade absurda de conteúdo nos streamings, é preciso garimpar para achar algo que valha a pena nosso tempo, e de vez em quando surge algo como Adolescência, que se destaca pela altíssima qualidade. A minissérie já começa com o pé na porta – com o perdão do trocadilho – com a polícia local invadindo a casa de uma família e prendendo o filho mais novo, de treze anos. A sequência é chocante e assim se segue por todo o primeiro episódio. Não se sabe direito o que está acontecendo até que o investigador diz qual a acusação: ele é suspeito de matar uma colega da escola. O garoto a todo instante afirma ser inocente, mas há provas irrefutáveis. Este é só o ponto de partida para uma história forte e arrasadora que me deixou completamente fascinado. A premissa pode lembrar Em Defesa de Jacob, minissérie do Apple TV+ estrelada por Chris Evans, mas a semelhanças param na superfície. Além do modo inovador de filmar cada um dos episódios, há muito mais complexidade envolvida aqui e os dilemas são muito mais aprofundados, não parando no “matou ou não matou?”. O fato de cada um dos quatro episódios serem gravados em plano-sequência, sem qualquer corte perceptível, deixa a experiência muito mais imersiva, muito mais íntima, com a direção sensacional de Philip Barantini, o que se fez essencial em um enredo tão poderoso quanto esse. Eu não queria piscar o olho para não perder nenhum detalhe. E ainda não é isso o que mais impressiona, e sim como a narrativa trabalha as consequências e motivações de um crime brutal sem desumanizar o envolvido. A pergunta aqui não é somente se ele fez ou não fez, mas o que o levou a fazer, o que há por trás disso e como a família lida com o fato, como ela se culpa por não ter antecipado ou percebido o comportamento diferente, se é que havia. É um drama humano, brutal e atual. A adolescência não é um período fácil e o modo como a trama aborda a relação dos jovens com as redes sociais, a pressão por um padrão de masculinidade imposto pela sociedade, é tudo feito de uma forma muito honesta e madura, que nem sempre é fácil de ser assistida, pela crueza do desenvolvimento. Divulgação O elenco é primoroso e deve ter ensaiado a exaustão para que tudo saísse no nível de excelência que o texto e a direção exigiam. Stephen Graham – que também é co-criador da minissérie – no papel do pai tem uma performance irretocável, assim como Christine Tremarco na pela da mãe. É impossível não se emocionar por eles. Ashley Walters e Faye Marsey são Luke e Misha, os investigadores encarregados do caso, e eles não deixam seus personagens perderem a perspectiva de que são pessoas, e não apenas máquinas atrás da verdade. Erin Doherty está brilhante no papel da terapeuta, com um trabalho carregado de sutileza. Por último e definitivamente não menos importante, Owen Cooper no papel de Jamie, o garoto acusado. O rapaz é um achado neste trabalho dificílimo onde ele poderia facilmente cair em armadilhas do exagero e não o faz, trazendo uma atuação completamente genuína, o que deixa tudo ainda mais crível. Os quatro episódios são muito bem divididos no que querem contar. Escritos por Graham e Jack Thorne (da também ótima minissérie deste ano Cidade Tóxica), a dupla consegue aprofundar o atordoamento inicial da primeira hora de uma maneira brilhante, passando para a segunda que aborda a busca pela arma do crime na escola e denuncia de certa forma as falhas do sistema escolar para com os adolescentes e até o parental, através da relação do filho e do detetive. No terceiro temos uma sessão de terapia com Jamie e sua terapeuta, em um episódio complexo e fascinante, cheio de nuances em diálogos meticulosamente trabalhados para despertar diversas reflexões no telespectador. Na última hora o foco volta à família Miller, e por mais que o tempo tenha passado, o sofrimento não cessa. É como viver um luto por alguém que não morreu. As cenas finais são completamente devastadoras e exaltam tudo o que vimos até aqui, de como é pesado lidar com uma situação assim para qualquer das partes envolvidas, mas não deixa de ser humano e é nesta combustão de sentimentos que uma das melhores minisséries da Netflix termina, sendo de longe a melhor estreia do ano até então. Nota: 5/5
- Crítica | Onda Nova (1983)
Um filme que escancara o quanto nos tornamos jovens caretas. Divulgação “Futebol me fascina, é espetáculo, é show, é arte”, uma frase que é dita nos minutos iniciais de Onda Nova e que representa o Gayvotas Futebol Clube, time feminino que subverte o futebol com mulheres livres que reagem a um estado de espírito de uma juventude reprimida pela ditadura no Brasil. Filme dirigido por José Antonio Garcia e Francisco “Ícaro” Martins, foi censurado em 1983 e retorna em versão restaurada com distribuição da Vitrine Filmes. Curiosamente, o longa que expõe a emancipação das mulheres foi lançado no mesmo ano em que o futebol feminino foi regulamentado no Brasil. E, ao acompanharmos um time paulista de futebol feminino, somos levados a uma narrativa de uma espécie de coming-of-age da Boca do Lixo, abordando sexualidade e identidade de gênero de maneira libertadora, quase como um respiro em meio ao período final da ditadura, como uma resposta à repressão. O filme parece tão contemporâneo justamente por retornar 40 anos depois e se deparar com uma juventude que pouco evoluiu de lá para cá, uma juventude entorpecida com atitudes moralistas que acredita que sexo em filme é desnecessário. Justo o sexo, que em Onda Nova permeia todo o discurso; no filme, é a partir do sexo que o filme levanta suas questões, como a liberdade, o descobrimento, o aborto e o desejo. Um filme sem limites e sem rótulos, um filme sem nenhuma jornada para explorar, prova que, além de tudo, a liberdade é narrativa. Ter um filme brasileiro cujo sexo e futebol são os pilares do prazer é justificável por si só. Confesso que estou curioso para saber como será a recepção desse filme 40 anos depois, após a sociedade ter dado alguns passos para trás e ter abraçado a onda conservadora. Será que estão preparados para ver uma moça pedindo para o Casagrande tirar a virgindade e o Caetano Veloso usando um táxi como motel? O espírito de juventude de Onda Nova tem todo o seu potencial explorado nas personagens femininas, que vivem seus dilemas de uma juventude universal e de qualquer época. Amor, sexo, drogas, descobertas, decepções. Todos os elementos que compõem uma juventude, mas o grande diferencial é a coragem e ousadia de ter filmado isso dentro da ditadura. É um grito coletivo por liberdade, que prova que só pela transgressão vamos alcançar certos lugares. Divulgação O elenco é cativante e tem participações diversas, já que as cenas não são tão amarradas dentro da jornada que o filme percorre. Destaque para as personagens Lili (Cristina Mutarelli), Rita (Carla Camurati) e Neneca (Neide Santos), que vivem jovens mulheres se descobrindo na cidade grande. A emancipação de tais personagens vem através das relações amorosas, nas quais a sexualidade feminina é evidenciada pouco a pouco durante a trama, seja da personagem jogando o absorvente fora antes da transa, engravidando e logo depois tendo apoio das amigas para realizar o aborto, ou até mesmo ajudando a amiga a dar “fuga” na família. Onda Nova é divertido porque sabe rir do estado das coisas, sabe o quanto é ridículo ser careta. Não se curva a nenhum tipo de convenção, não permite que ninguém dite as regras e se permite ser livre em sua trajetória. O cinema brasileiro leva uma memória efervescente através das pornochanchadas, e torcemos para que as distribuidoras continuem resgatando essas obras e levando para o circuito comercial. Como diz a música de Tim Maia: Vale tudo!" Nota: 4/5
- Crítica | Oeste Outra Vez
Erico Rassi cria retrato sensível e áspero de um universo masculino desgarrado. Divulgação No sertão de Goiás, homens rudes e incapazes de lidar com suas próprias fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles se voltam violentamente uns contra os outros. Em seu primeiro longa-metragem, Comeback (2016), o cineasta Erico Rassi já havia mostrado sua afeição ao gênero western bem ao seu estilo. O cenário quase sempre vazio rimando o estado “espiritual” de seus personagens, as poucas e monossilábicas palavras, o machão cheio de sentimento reprimido. E em Oeste Outra Vez ele expande essas alegorias para mais personagens e mais paisagens autóctones com uma narrativa direta, mas cheia de subtexto. A começar pelo título brilhante que referencia o gênero, referencia o Centro-Oeste brasileiro e acaba por ser também uma auto referência retomando o seu primeiro longa. Rassi transfere a tensão constante dos filmes de bangue-bangue para um contexto bem nosso (e por nosso cabem: brasileiro e masculino). O longa gira em torno da mulher, da presença feminina que aqui vira ausência feminina. A macheza revestida de fragilidades substitui o excesso de confiança e propósito dos protagonistas dos clássicos spaghettis. A tensão se constrói também em cima da falta de diálogos, na produção, o silêncio comunica tanto quanto – e às vezes mais do que – as falas. Existe a necessidade palpável de externalizar sentimentos, de verbalizar palavras de dor, afeto, e raiva, mas homem que é que homem não fala, não chora, não encosta, quase não sorri, e só sente porque é involuntário. Oeste Outra Vez também deixa à mostra o papel da mulher naquela realidade, como um acessório, seja de troféu pela conquista de micropoder entre os homens, ou seja como uma medalha de honra porque ter conseguido ter alguém para passar o resto dos seus dias, “uma mulherzinha para fazer companhia”. O texto de Rassi também brinca com um humor duro e quase involuntário existente entre seus personagens mal resolvidos, uma ironia presente na eterna e cordial guerra fria de egos rivais almejando a mesma meta: uma dignidade que só existe no plano das ideias. Interessante é ver também como aqueles homens trabalham sua codependência no trabalho e na socialização, “é bom ter uma pessoa por perto que é um ajudando o outro” é a forma mais próxima de demonstrar o apreço pela amizade, mesmo marcado a ferro quente pelos parceiros de trabalho eles são como família onde “um cuida do outro”, e onde cuidado significa meramente a manutenção básica da vida. Divulgação A direção é impecável, o filme é enxuto, bem distribuído, com uma montagem limpa e precisa que cria a dinâmica natural e diluída da narrativa. A imagem é rica em sua simplicidade, é um trabalho bem iluminado, bem enquadrado, bem desenhado em uma cenografia que altera entre os planos abertos e iluminados das chapadas goianas e os ambientes fechados e escuros de bares e casas populares. O desenho de som translúcido também ajuda a compor a aclimatação das paisagens do longa. Erico Rassi é goiano, e talvez por essa razão óbvia e outras questões subjetivas o oeste escolhido tenha sido aquele, mas é uma história tão universal, é uma abordagem tão cirúrgica e são temas tão pertinentes que, completando o que falei no início, o argumento seria facilmente adaptável para qualquer interior do país e certamente de vários outros lugares do mundo, afinal, homem, machismo e patriarcado existem onde quer que seja, e os parâmetros são de mal a pior. Nota: 5/5
- Análise | Ruptura e o Refinamento do Macro Sentimento
Uma análise do último episódio da temporada e as coisas que fazemos por amor... ou deixamos de fazer. Divulgação Começando o episódio exatamente de onde o anterior nos deixou, agora Cobel e Devon desenham para o Mark Interior o plano para salvar Gemma da Lumon, mas para que ajude, ele precisa ser convencido, obviamente. E quem tem esse papel é o Mark Exterior. Os dois conversam se gravando, o Mark Interior fica dentro da cabana, enquanto o Mark Exterior vai para a varanda assistir a resposta e gravar a sua. É uma bela jogada da série e reflete seu dilema principal: por mais que dividam o mesmo corpo, o Interior e o Exterior têm personalidades diferentes e os argumentos são válidos de ambos os lados. O Interior tem o senso de responsabilidade com a esposa do seu Exterior, mas seu verdadeiro amor é Helly, então eles deixariam de existir se o plano feito por Cobel fosse totalmente executado. O Mark Interior precisa completar o Cold Harbor, último estágio de Gemma, ir ao andar onde ela está, lá o Mark Exterior retomaria, resgataria sua amada, depois o Mark Interior assumiria quando voltassem ao andar da ruptura e levaria Gemma à escada, onde ambos voltariam a ser seus Exteriores fugindo juntos. Perceberam o impasse? Pois é. São dilemas complexos que chegam ao seu clímax neste episódio e funcionam porque houve uma construção muito bem pensada sobre Mark S./Helly e Mark/Gemma. A temporada tem falhas, algumas que poderiam até ser sanadas aqui, mas não foram. No entanto, o desenvolvimento destes personagens e suas relações não é uma delas. O mesmo eu não posso dizer de Cobel. A série gastou um episódio inteiro sobre ela para tentar nos convencer de que era possível ela mudar de lado depois de tantos anos sendo devota a empresa e falhou. Esconder o jogo em uma hora que deveria aprofundar a personagem foi um desperdício e ela continuou como uma folha de papel branca, só que ganhou alguns rabiscos. Cobel era conivente com absolutamente toda destruição que a Lumon causou na sua cidade natal até então, e por isso não dá para comprar que este seja um fator na mudança dela. O intuito era nos trazer a este momento, onde ela “explicava” o que era Cold Harbor e ajudar no resgate de Gemma. Falarei mais sobre Cold Harbor e o pouco que descobrimos sobre isso depois. Quando o Mark Exterior chega à Lumon para finalizar o tal Cold Harbor, ele ainda tem dúvidas se executa o plano, mas é convencido por Helly, em uma belíssima e emocionante conversa entre os dois sobre o ser ou não ser da questão. Adam Scott e Britt Lower se destacaram na temporada pelo talento e pela dualidade daquelas pessoas, sem perder a humanidade, e esta cena é prova disso. Os olhos marejados refletiam o sentimento genuíno que um nutre pelo outro a importância das decisões tomadas aqui, ganha muito mais substância. O “te vejo no Equador” mostrava que ainda não era a despedida. Cold Harbor finalizado, Mr. Milchick aparece com uma fanfarra para fazer um show em comemoração em uma genial sequência tão estranha quanto engraçada e mais um atestado de que o Emmy de Ator Coadjuvante em Drama deste ano não pode ser de ninguém além do incrível Trammel Tillman. O personagem foi um dos destaques da temporada e um antagonista muito mais bem trabalhado do que Cobel, por exemplo. Há muita nuance envolvida na relação dele com a Lumon e espero que explorem mais isso no futuro. Divulgação Em meio a fuga de Mark do evento, Helly consegue prender Milchik no banheiro, mas não vai conseguir segurá-lo por muito tempo, até que Dylan G. aparece para ajudar a amiga. Depois que o seu Exterior não concordou com sua demissão, ele volta à Lumon e decide ficar, devido a contra argumentação de que ele precisava existir ali. O triângulo amoroso do Interior/Exterior com sua própria esposa foi mais uma trama que terminou de forma apressada. Começou muito interessante, levantando várias possibilidades, mas pouco foi desenvolvido pelo roteiro e jogado para escanteio. Assim como os arcos de Burt e Irving, que continuamos a saber pouquíssimo. Senhorita Huang, entrou e saiu e não disse muito a que veio, além de saber que Lumon investe em mão de obra infantil. São tramas começadas e que pareciam pensadas a longo prazo para uma temporada que aparentemente teria episódios suficientes para contá-las de uma maneira satisfatória. Mas a impressão que fica é que os roteiristas foram avisados de última hora que precisavam ser encerradas e fizeram de qualquer jeito. E estes não foram os únicos problemas, mas também falarei mais depois. Enquanto Mark corre para chegar a tempo de salvar Gemma, ela está dentro da sala de Cold Harbor, na qual o último teste consiste em desmontar um berço, remetendo a uma das maiores dores da sua Exterior. Ela é assistida pelo Dr. Mauer e pelo próprio Jame Eagan, que anseiam pelo resultado. Ao chegar perto do elevador, Mark é impedido por Drummond, em uma sangrenta luta física onde nosso herói estava em clara desvantagem. A violência não é muito usada na série, então foi uma surpresa positiva, e ela continua com a chegada de Lorne, personagem de Gwendoline Christie para salvar Mark. Cansada e frustrada de ter que matar cabritos, ela desconta toda sua raiva acumulada em Drummond e incorpora Brianne de Tarth em um visceral corpo a corpo, mas é impedida de finalizar por Mark, que precisa que Drummond viva pelo menos para levá-lo ao andar de Gemma e por um acidente tragicômico, o executivo grandalhão morre após cumprir seu papel, felizmente. Para desespero de Eagan e Mauer, Mark consegue entrar em Cold Harbor tirar Gemma de lá. No corredor, ambos são seus Exteriores e a cena de reencontro é muito comovente, atingindo as expectativas de tanto tempo de espera. No entanto, a frustação de Eagan não causa o impacto necessário porque nos falta mais informações sobre Cold Harbor. Qual a finalidade? É algo com a juventude dele? O porquê de ser especificamente Gemma? Estas são algumas entre as muitas questões e saber que Mark refinava as personalidades das 24 Interiores dela simplesmente não é o suficiente. No elevador, durante um beijo apaixonado, Mark volta a ser Mark S. e Gemma volta a ser Mrs. Casey. A cena é engraçada por natureza, porque afinal ali eles são apenas colegas de trabalho. Ainda assim, eles continuam sua fuga e o Mark Interior cumpre sua parte de levar Gemma até a escadaria, só que com um porém: Helly aparece de última hora, o “encontrando no Equador”, para o que poderia ser uma despedida. Tudo nos levou aquele momento. Mark S. escolhe ficar com sua amada, em meio ao caos, alarmes soando e luzes vermelhas, ele prefere este mergulho no escuro com alguém que ama do que uma vida sem ela. “Eles nos dão metade de uma vida e esperam que não lutemos por ela?” diz Helly em um discurso tentando convencer a banda de fanfarra a ajudá-la anteriormente. Isto sumariza o episódio e a clara divisão que há entre seres Interiores e Exteriores. Há uma teoria que neste episódio seria Helena no lugar de Helly, novamente. Considero totalmente infundada e não faria o menor sentido com tudo que vimos até então, que Helena vivesse estes grandes momentos ao invés de Helly. A temporada termina com os dois correndo pelos corredores da Lumon rumo ao desconhecido. Não fazemos ideia do que vem depois e nem eles, imagino. Estando juntos, é o que vale. Não é um plano muito pensado, mas o amor é o sentimento mais forte e é por ele que eles são guiados. Acho que o principal é que não existe certo ou errado nesta situação e parte daquela máxima de “todos somos vilões na história de alguém”. Foi egoísmo do Mark Interior não ir com Gemma? Foi. Mas quando ele olha para aquela mulher gritando do outro lado da porta e não sente nada por ela, olha para o outro lado e vê o amor da sua vida, o que você faria? Eu sei o que eu faria. Enquanto isso, uma Gemma desesperada vê a chance de recomeçar com o homem que ama, depois de tanto sofrimento, se esvair entre seus dedos. Fisicamente, é o Mark dela. Emocionalmente, é o Mark de outra. De Helly, que também não está disposta a voltar a ser Helena. Os Interiores querem viver, ao mesmo tempo que não dão voz ou vez ao que os Exteriores sentem. Você é livre para torcer por qualquer um dos casais, mas ciente de que não há certezas e verdades absolutas. É por dilemas carregados de complexidade assim, onde nada é tão preto no branco, que Ruptura se destaca entre a quantidade absurda de produções que temos graças aos streamings hoje em dia. Tem falhas, mas se peca no desenrolamento mitológico, se sobressai no lado humano da coisa. E o ser humano é o núcleo. Foi um ótimo episódio – visualmente irretocável, como de costume – que funcionou muito bem como final de temporada. Adrenalina, ação, humor, drama, romance, uma combustão de sensações que me deixaram na ponta da cadeira. Mas é inegável que faltam respostas mais claras aqui. Obviamente nem tudo pode ser respondido, pois a série acabaria, mas o conceito da chamada mystery box, em tradução livre “caixa de mistérios”, é que uma resposta leve a outras perguntas. Aqui faltam respostas, o que nos dão é muito pouco para que a mitologia evolua. Alguns personagens são bem desenvolvidos, outros são deixados de lado, bem como tramas que pareciam importantes e deram em pouca coisa. A reintegração supostamente seria o cerne da temporada e o que vimos episódio a episódio foi praticamente uma repetição, e pareceu que o único ponto era Devon se desesperar e ligar para Cobel, reincluir a personagem na trama, alguém que ela não teria qualquer razão para confiar. Do mesmo jeito, o Mark Exterior oferece ao Mark Interior a reintegração como uma alternativa e nos soa a coisa menos plausível até então, já que pouco se mostrou funcional e em prática pouco funcionaria para o dilema de um ser apaixonado por Gemma e outro por Helly, que também deixaria de existir, já que é muito improvável que Helena toparia passar pelo processo. Algo que começou no episódio 3 e praticamente não saiu do lugar até o episódio 10. Tivemos excelentes episódios até pouco mais da metade da temporada e até então, havia pouco para se falar mal. No entanto, nos episódios 8 e 9 ficou claro que havia um problema na estrutura dela e por melhor que tenha sido o final, não conseguiu superar “The We We Are” justamente por conta destas questões. No vindouro 3º ano, espero que continuem desenvolvendo bem os personagens – a maioria deles, pelo menos –, afinal é deles que uma boa série de drama é feita, mas sem nos dar apenas migalhas de respostas, já que também é uma ficção científica. A série precisa devolver a confiança de tanto tempo de espera ao telespectador, e tudo bem que nem tudo precisa ser respondido, mas algumas coisas são essenciais para o progresso da narrativa. Não partilho da decepção da temporada completa e o saldo é muito positivo. Ruptura continua como uma das melhores séries da atualidade, aborda dilemas humanos complexos e profundos, tendo como pano de fundo uma história de mistério e ficção científica. Ela só precisa encontrar a harmonia entre seus dois “eus”, com o perdão do trocadilho.
- Crítica | The Alto Knights: Máfia e Poder
Confuso e desordenado, filme parece um mosaico de várias referências que não forma qualquer imagem. Divulgação The Alto Knights acompanha a disputa pelo controle das ruas de Nova Iorque por dois dos mais notórios chefes do crime organizado da cidade, Frank Costello (De Niro) e Vito Genovese (De Niro). Uma vez melhores amigos, ciúmes mesquinhos e uma série de traições os colocam numa rota de colisão fatal que vai transformar a máfia (e os EUA) para sempre. Esse é o tipo de filme que se traja e se porta como os filmões cânones do seu gênero, e a olho nu pode até passar a impressão a um espectador desavisado de que se tem ali um trabalho refinado. Mas basta passar pelos primeiros 30 minutos para detectar a bagunça de estilo e de diegese ao se contar aquela história. O cineasta Barry Levinson é um nome para lá de experiente em dramas criminais, assim como o roteirista Nicholas Pileggi, que escreveu simplesmente Os Bons Companheiros (1990), já tem um passado com uma escrita de referência em filmes de gângsters. Mas aqui não há denominador comum para os autores e o resultado deixa bem à mostra a falta de unidade. É uma confusão de abordagens que não dialogam entre si, hora quer se vestir de documentário, hora tenta focar na dramatização, hora é dominado por uma narração que depois é esquecida por um bom tempo, e isso compromete, de forma especial, a cadência do filme que fica sem ritmo e sem impulso. Divulgação A carreira de Robert De Niro foi marcada por personagens de mafiosos italianos nos EUA em alguns dos principais títulos do cinema, então tentei ver a opção de trazê-lo para fazer ambos os protagonistas como uma espécie de homenagem "hors concours" a sua contribuição, porque fora isso não existe qualquer motivo aparente para ele dar vida aos dois papeis. Papeis esses que, mais uma vez, ele desempenha redondamente bem e com uma facilidade aparente, mas talvez se dividisse o espaço de cena com outro ator a narrativa ganhasse mais cores do que conseguiu. The Alto Knights é um filme feito por mãos experientes, mas que numa urgência tardia de tirar o enredo do papel acabaram por usar de recursos já preestabelecidos no gênero que não harmonizaram e construíram um produto datado e sem pontuações. Parece uma história já contada infinitas vezes no cinema estadunidense, e de formas bem mais inspiradas. Nota: 2/5
- Entrevista | Tania Vincent e Ricard Cussó falam sobre a nova animação “Deu Preguiça”
Os diretores do longa compartilham os bastidores da produção, desde a dublagem até o equilíbrio entre humor e emoção. Divulgação Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, Tania Vincent e Ricard Cussó, diretores da animação australiana Deu Preguiça, compartilham os detalhes da criação do filme. Eles falam sobre o processo de reunir uma equipe para desenvolver a ideia, a escolha dos atores ideais, como tornar a história envolvente para públicos de todas as idades e também suas animações favoritas de todos os tempos. Deu Preguiça (A Sloth Story) conta a história de Laura, uma preguiça que se muda com sua família para a cidade grande sem nada além de um livro de receitas de sua família latina e um velho e enferrujado food truck. Porém, a deliciosa comida logo chama a atenção de uma esperta chita chamada Dotti. O filme faz parte da franquia The Tales from Sanctuary City, que já inclui seis filmes sobre animais australianos que residem na chamada Sanctuary City. A animação já está em cartaz nos cinemas de todo Brasil. Ana (Oxente Pipoca): Primeiramente, queria parabenizá-los pelo filme. Tenho que dizer que gostei muito dos personagens e do estilo da animação. E queria perguntar: como a ideia desse projeto começou? De onde surgiu esse conceito de preguiças comandando um food truck? Tania Vincent: Acho que nós tentamos imaginar qual animal seria engraçado de assistir comandando um food truck. Como as preguiças são bastante devagar e, quando você pensa em um food truck, imagina um ambiente muito rápido, achamos que seria um casamento perfeito. O que sabíamos que queríamos era que a filha, Laura, fosse bem rápida e que a família fosse bem devagar, mas não queríamos que a história fosse apenas sobre isso. Então, tentamos realmente nos aprofundar nesse conceito de velocidade, e ele meio que se transformou em uma história sobre tempo, memórias e o que tudo isso significa. O food truck e as preguiças eram a metáfora perfeita para contar essa história de verdade. Ricard Cussó: Sim. Tudo começou porque a Universal, na Austrália, tinha essa ideia de criar um universo cinematográfico de animais australianos, todos interconectados entre si. Então, a equipe se reuniu em uma sala e lançamos umas dez ideias diferentes. Acho que o conceito original veio dessa sessão de pitching para a Universal e, como a Tania disse, pensamos no que seria divertido de ver em um food truck e quem estaria comandando esse food truck. Então... surgiram as preguiças! E foi um filme muito especial para mim também porque sou da Espanha. Nasci em Barcelona e minha esposa é mexicana, então passei muito tempo no México. Foi incrível que eu finalmente pudesse codirigir um filme sobre a cultura latina. Há tantos easter eggs e pequenas ideias que colocamos lá para prestar homenagem e respeitar as tradições e a cultura do México – seja com a comida, os personagens, as cores ou os cenários. Além disso, poder dirigir em espanhol, minha língua nativa, foi incrível. Uma experiência muito, muito boa. Ana (Oxente Pipoca): Vocês poderiam compartilhar como o processo de codireção funcionou entre vocês dois? Houve algum desafio específico ou talvez momentos memoráveis durante a produção? Tania Vincent: Eu e Ricard tivemos muita sorte porque já trabalhamos juntos muitas vezes. Comecei como animadora no filme de Ricard. Ele estava dirigindo o primeiro filme da série Tales. Comecei a codirigir com ele em seus filmes e, então, nós meio que invertemos os papeis. Eu estava dirigindo Deu Preguiça, e ele veio e me ajudou muito. Uma vez, eu li que um codiretor e um diretor são como um telescópio, em que cada um deve olhar para as duas extremidades ao mesmo tempo. Quando eu estava olhando para o quadro geral, Ricard estava olhando para os detalhes, e, quando ele estava olhando para os detalhes, eu estava olhando para o quadro geral. E eu acho que falamos nosso próprio idioma agora. Quando damos notas para a equipe, se um de nós não estiver lá, o outro pode meio que traduzir para todo mundo o que queremos e o que estamos falando. A animação é um processo tão grande, e você tem que criar cada coisa que ouve ou vê na tela. Por isso, ter essa pessoa com você, que está supervisionando o filme junto com você, é uma ajuda enorme. E acho que é por isso que, na animação, o codiretor está se tornando um papel tão importante e muito mais popular. A Disney, a Sony e todo mundo estão começando a fazer isso. Então, sim, acho que nós dois somos muito, muito sortudos e espero que façamos isso de novo. Não sei (risos). Ricard, como você se sente? Ricard Cussó: Uma coisa que Tania não mencionou é que ela é uma animadora incrível. E eu não faço animação! Eu venho de uma formação em cinema live action, e Tania está nessa indústria há tantos anos. Então, ter alguém que sabe exatamente como se comunicar com os animadores e fazer com que cada quadro fique tão bom é incrível. Tania escreveu o roteiro junto com Ryan [Greaves], e a sensibilidade que eles deram à história e ao desenvolvimento dos personagens é incrível. Só o fato de eu poder fazer parte dessa jornada foi incrível. Fiquei muito feliz por fazer parte desse tipo de produção e poder ajudar com o que pude no filme. Divulgação Ana (Oxente Pipoca): Quando estamos falando de animação, as vozes dos personagens são muito importantes para garantir que o tom do filme esteja certo e que as piadas sejam engraçadas. Como foi o processo de seleção dos dubladores para este filme? Tania Vincent: Esse processo foi bem divertido, inclusive. Nós sabíamos que a família precisava ter química. Se a família não tivesse química, esse filme nunca daria certo. Então, nós fizemos uma grande leitura conjunta e tivemos muitas pessoas se inscrevendo para os papeis. Queríamos que as pessoas fossem da Austrália, mas também tivessem essa origem latina. Então, encontramos esse grupo de pessoas, colocamos todos eles em uma sala juntos e simplesmente deu certo. Foi fantástico! Tivemos a oportunidade de gravar com todos em um mesmo ambiente. Você consegue fazer esse tipo de coisa em uma animação. Normalmente, em dublagens, é só você e o microfone. O legal também é que eles conversavam um com o outro, faziam essas piadinhas e acrescentavam coisas novas ao roteiro. Acho que tivemos muita sorte por causa desse processo. Inclusive, o Ricard faz a voz de um personagem neste filme. Ele faz uma voz em todos os filmes. E eu também entrei lá! Nós dois pegamos o microfone e fomos fazer vozes também. Ricard Cussó: Acho que essa é uma das coisas particulares sobre filmes com orçamentos fora do estilo Pixar e DreamWorks, por exemplo. Você tem que fazer mil coisas ao mesmo tempo. Então, às vezes, o filme tem esses personagens aleatórios que não foram escalados, e a gente pede ao nosso editor para dar voz a um desses personagens, ou a gente pede à Tania, ou sobra para mim dar voz a eles. Então, às vezes, temos que entrar lá e fazer. Mas é bem divertido, nós gostamos de fazer isso! E sobre o que a Tania estava falando sobre a dublagem, todos ali falavam espanhol. Mesmo que houvessem palavras que não estavam escritas em espanhol no roteiro, no momento em que a fala era dita, conseguimos um resultado surpreendente. Então, era tipo: “Ei, vamos tentar dizer esta palavra ou esta frase em espanhol, tudo parece mais natural.” Os atores realmente ficaram felizes em ter essa oportunidade porque, como você também sabe, qualquer um que seja bilíngue, às vezes, pode acabar alternando entre idiomas muito fluentemente, muito rapidamente. E é algo tão comum! Poder usar isso no filme foi ótimo. Ana (Oxente Pipoca): O filme fala sobre recomeços, manter as tradições familiares, mas também sobre acreditar em si mesmo e não viver com medo. Como vocês dois veem o papel dos filmes de animação no cinema atual quando se trata de abordar temas complexos de uma forma acessível a diferentes faixas etárias? Por exemplo, eu tenho 23 anos, mas tenho certeza de que meu priminho, que tem sete, também adoraria o filme. Tania Vincent: Acho que o segredo é que as crianças são tão, tão, tão inteligentes. Você nunca deve menosprezá-las. Acho que nunca nos propusemos a fazer um filme que tentasse ser para crianças. Era só fazer um filme que as pessoas quisessem ver. E acho que algo que descobrimos ao trabalhar com esse tipo de filme é que, quanto mais único e pessoal ele é, mais universal ele se torna para o público. Às vezes, são os próprios adultos que têm mais dificuldades em compreender os temas mais difíceis que você está tentando apresentar do que as crianças. Os pequenos simplesmente entendem instantaneamente. Uma questão também é que estávamos preocupados com o tom do filme, já que a personagem da mãe está enfrentando o início de Alzheimer. Nos preocupava como isso seria compreendido pelas crianças, mas elas simplesmente conseguem seguir com a narrativa e levar o tema a sério. Acredito que há muitas crianças por aí lidando com esse tipo de coisa na família, então é legal ter um veículo, como um filme de animação, para que elas possam pensar sobre essas questões. E também acaba construindo uma maneira esperançosa de olhar para isso. Sim, as coisas podem ser bem difíceis, mas se você aprecia o agora com a sua família e se concentra no presente, ainda pode criar memórias e viver uma vida feliz. Foi complexo, mas acho que as crianças são tão inteligentes que simplesmente entendem. Ricard Cussó: Concordo com tudo o que você disse. Eu acho que isso realmente decorre também do que nos fez virar diretores e do que nos fez entrar na indústria. Eu e Tania somos millennials e crescemos com Steven Spielberg e filmes da Pixar. Eles têm uma maneira de contar histórias que agrada tanto a crianças quanto a adultos. Você pode assistir novamente a um filme de Spielberg, ou Up e Toy Story, e, toda vez que assiste, capta algo novo. Acho que crescemos absorvendo esse tipo de narrativa, que gera identificação. São histórias universais, relacionáveis tanto para crianças quanto para adultos. Então, acho que acabamos fazendo o mesmo com nossos filmes também. Ana (Oxente Pipoca): E a última pergunta: eu adoraria que vocês recomendassem três filmes de animação para nossos seguidores. Ah, Deu Preguiça também é uma opção! Tania Vincent: Nossa, essa é a pergunta mais difícil de todas! Ok, acho que definitivamente O Gigante de Ferro, de Brad Bird, é um dos meus filmes favoritos. Toy Story 3 sempre me pega muito, não consigo lidar quando eles estão naquela fornalha. As lágrimas sempre aparecem. E, por último, vou escolher um clássico da minha infância. Eu era totalmente obcecada por A Pequena Sereia. Ricard Cussó: Vou dizer Scarygirl, que é uma adaptação da graphic novel de Nathan Jurevicius. É um pequeno filme australiano que agora não consigo lembrar quem dirigiu [risos], mas veja se você consegue assistir. Eu acho que a Pixar, como mencionei antes, é mestre em contar histórias. Em Toy Story 3, é incrível o jeito como eles capturam a narrativa e fazem uma sequência funcionar tão bem. Por fim, acho que vou escolher O Príncipe do Egito, uma animação 2D. Esse filme foi lançado na época em que a DreamWorks estava crescendo e fazendo Shrek ao mesmo tempo, mas O Príncipe do Egito foi o filme que liderou como a "resposta" para a Disney. E fizeram um trabalho fantástico. Ana (Oxente Pipoca): Perfeito, gente. Muito obrigada pelo tempo e parabéns pelo filme.
- Lista | 20 anos de "Grey's Anatomy": os 20 melhores episódios da série
Em 21 temporadas e 441 episódios até o momento, reunir apenas 20 deles não foi uma tarefa fácil, mas nós tentamos. Divulgação Lá em 27 de março de 2005, quando Grey´s Anatomy estreou, o canal ABC não tinha muita fé nela. Inicialmente prevista para estrear na chamada fall season, entre setembro e novembro, a série dos médicos foi jogada para tapar buraco na mid-season, em março. O sucesso surpresa de Lost e Desperate Housewives, que viraram verdadeiros fenômenos, fez o canal sair de uma audiência pífia e voltar a figurar entre os grandes. Mas Grey´s ainda não passava segurança. Até a estreia, pelo menos, quando números expressivos foram aumentando cada vez mais. Havia 14 episódios encomendados para a 1ª temporada, mas para que se encerrasse em maio com as demais séries do canal e a tempo de voltar para a fall season com a 2ª temporada, cinco dos 14 foram transferidos para a leva seguinte e a temporada seguinte ficou com 27. O resto é História e eu e Gabi vamos relembrar um pouquinho dela. Divulgação 20 – “Guess Who's Coming to Dinner” (Temporada 12, Episódio 5) Depois da morte de Derek, Grey’s entrega um episódio que pode ser considerado uma das maiores tortas de climão da televisão. É raro termos a chance de sair do ambiente hospitalar, e quando isso acontece, sabemos que é o momento de algo mais. Quando colocada frente a frente com Penny, médica responsável por atender Derek depois do acidente, vemos uma Meredith enfrentando o luto e o ódio de uma forma intensa, tudo com a excelente participação da atriz Samantha Sloyan em um dos episódios mais marcantes da décima segunda temporada. – Gabriella Ferreira Divulgação 19 – “Fight the Power” (Temporada 17, Episódio 5) Outro episódio da boa décima sétima temporada é o que retrata fielmente a dor e a luta dos profissionais da saúde durante a pandemia de Covid-19. Neste episódio cinco, a realidade foi mostrada através da Bailey, com a mãe dela chegando no hospital num estágio avançado da doença, um retrato emocionante e angustiante de perder alguém que amamos com a ótima atuação de Chandra Wilson. – Gabriella Ferreira Divulgação 18 – “I Saw What I Saw” (Temporada 6, Episódio 6) Quando uma vítima de um incêndio morre no meio de uma emergência caótica, os residentes são interrogados para descobrir quem foi o culpado pela morte. Um episódio de trama protocolar no meio da temporada, que entrega um bom suspense, desenvolvimento de personagens e de boas percepções para o público no que diz respeito a atendimentos de emergência. Em I Saw What I Saw, Grey’s muda sua fórmula e acerta perfeitamente a receita de um bom episódio para o público. – Gabriella Ferreira Divulgação 17 – “Sign o’ the Times” (Temporada 17, Episódio 12) Assim como todo mundo, a pandemia global da Covid-19 também impactou Grey’s Anatomy e seus médicos e o tema foi abordado durante toda a décima sétima temporada. Mas aqui, a série toca também na questão do ‘Black Lives Matter’ e da morte do George Floyd de maneira empática e humana utilizando Winston Ndugu, uma ótima adição recente à trama. – Gabriella Ferreira Divulgação 16 – “When I Get to the Border” (Temporada 19, Episódio 5) É inegável que a qualidade da série decaiu conforme o tempo, mas o episódio cinco da décima nona temporada conseguiu provar que Grey’s ainda pode contar boas histórias. Utilizando-se do gancho das discussões sobre o aborto legal nos Estados Unidos, Bailey e Addison fazem uma viagem para serem voluntárias em um centro de planejamento familiar, mas a gravidez ectópica de uma paciente leva a complicações. Aqui, a série faz excelentes reflexões sobre a situação problemática que vivem os estadunidenses e deixa claro que aborto não é uma questão política, e sim de saúde pública. – Gabriella Ferreira Divulgação 15 – “Time Has Come Today” (Temporada 3, Episódio 1) Como lidar com a perda de um amor? No caso de Izzie, ela literalmente não conseguia se levantar do chão do banheiro, enquanto os amigos tentam consolá-la pela morte de Denny. O luto nunca é fácil e neste belo episódio sentimos o peso de uma perda através de uma ótima personagem. O lado mais cômico fica por conta de Addison, que prega uma calcinha de Meredith no quadro de avisos, depois que a moça teve uma recaída com Derek na noite anterior. Este balanceamento perfeito entre o drama e o humor é um clássico de Grey´s e elevava a série a outro patamar. – Filipe Chaves Divulgação 14- “The Sound of Silence” (Temporada 12, Episódio 12) Dirigido por Denzel Washington, o episódio doze da décima segunda temporada traz Meredith sendo atacada por um paciente e os médicos do Grey Sloan lutando contra o tempo para salvar sua vida. Indo muito além do que poderia ser, ‘The Sound of Silence’ entrega foi um dos mais delicados e profundos episódios da série, dando foco em sua protagonista e nos colocando no lugar de dor, sofrimento e solidão em um momento tão difícil com uma das melhores atuações de Ellen Pompeo. – Gabriella Ferreira Divulgação 13 – “Silent All These Years” (Temporada 15, Episódio 19) O passado de Jo Wilson era um mistério até o episódio dezenove da décima quinta temporada. Aqui, um paciente machucado chega ao Grey Sloan e Jo é obrigada a confrontar a sua história. Tendo a personagem como centro, ‘Silent All These Years’ vê o seu tempo dividido entre duas linhas de narrativa: uma delas, um flashback, procura explicar a ausência de Jo no episódio anterior, enquanto a outra, já no presente, segue a médica e uma paciente que foi vítima de um estupro. Falando muito bem sobre consentimento, violência doméstica, agressão e abuso sexual, esse episódio também tem uma das cenas mais fortes da série: um corredor de mulheres no hospital, feito para proteger e acolher uma vítima de estupro. – Gabriella Ferreira Divulgação 12 – “Into You Like a Train” (Temporada 2, Episódio 6) De casos médicos emocionantes, a série está cheia. No entanto, este é um dos mais famosos e faz o jus ao título pelo alto grau de complexidade: após um acidente de trem, um homem e uma mulher ficam conectados por um tubo de metal que atravessa os dois. A cirurgia é dificílima e traz à tona diversas discussões éticas que o roteiro conseguia abordar tão bem. O desfecho é forte e tocante, em um episódio que coloca os personagens em mais uma situação mega delicada. – Filipe Chaves Divulgação 11 – “What a Difference a Day Makes” (Temporada 5, Episódio 22) No 100º episódio da série, o câncer de Izzie está cada vez mais avançado e Meredith resolve “doar” seu casamento com Derek aos amigos. É uma belíssima atitude e uma coisa que é a cara de Grey´s. A morte é iminente para todo mundo, mas quando ela parece tão próxima, tudo se intensifica. Os votos de Alex e Izzie são muito bonitos e é impossível segurar o choro desde o momento que George leva a amiga ao altar. Uma hora comemorativa e comovente que honrou a marca dos 100 episódios. – Filipe Chaves Divulgação 10 – “Bring the Pain” (Temporada 2, Episódio 5) É neste episódio que acontece o famoso discurso “Pick me. Choose me. Love me.” de Meredith para Derek e é uma das cenas mais marcantes da série, enquanto o casal vive um momento decisivo depois da chegada de Addison, esposa do neurocirurgião, ao Seattle Grace. Enquanto isso, a tensão é elevada com George fazendo sua primeira cirurgia em um elevador parado – que o faz ganhar o apelido de 007 – e traz o equilíbrio perfeito entre o romance e suspense que Grey's costumava fazer tão bem. Seria o final original da 1ª temporada, mas por razões do canal, foi transferido para a 2ª. – Filipe Chaves Divulgação 9 – “A Hard Day’s Night” (Temporada 1, Episódio 1) O excelente piloto nos apresenta muito bem os personagens principais e dita o tom da série, equilibrando o drama e a comédia com maestria, além de já demonstrar o lado mais romântico da produção. Além de tudo, já estabeleceu Meredith como uma protagonista mais sombria e complexa, diferente do que a TV estava habituada na época. Estreando há exatos 20, o canal ABC não estava muito confiante em Grey´s, mas quando uma audiência de 16,25 milhões de pessoas sintonizaram no episódio, mostrou que a série chegou pra ficar. E ainda está ficando, rs. – Filipe Chaves Divulgação 8 – “Fear (of the Unkown)” (Temporada 10, Episódio 24) Como se despedir da melhor personagem da série? Com um episódio emocionante e que honre seu legado. Após 10 temporadas, Sandra Oh resolveu deixar a série e nós ficamos órfãos da gigantesca Cristina Yang. A moça passa o episódio se despedindo de todos e cada um emociona à sua maneira, mas com Meredith é impossível não ser tomado pelas lágrimas. A amizade delas é uma das mais bonitas e complexas de qualquer série e esse episódio é o exemplo perfeito disso. “Ela é minha pessoa” e “Meredith, você é o sol” são frases marcadas na cabeça de qualquer fã. Uma perda enorme porque a série nunca mais foi a mesma, mas uma saída muito digna. – Filipe Chaves Divulgação 7 – “Didn’t We Almost Have It All” (Temporada 3, Episódio 25) O casamento que nunca aconteceu. Depois de brigas nos bastidores, Isaiah Washington, intérprete do Dr. Burke, deixou a série, e consequentemente Cristina Yang no altar. Não sei se seria diferente se ele permanecesse, mas dramaticamente funcionou bastante aqui. Cristina sempre foi uma das melhores personagens de Grey´s Anatomy e foi a primeira vez que a moça tomou um baque grande, trazendo ainda mais camadas. A cena em que ela tenta desesperadamente tirar o vestido e é abraçada por Meredith é sensacional e mais um atestado do enorme talento de Sandra Oh. – Filipe Chaves Divulgação 6. “Now or Never” (Temporada 5, Episódio 24) Dar adeus a um personagem querido nunca é fácil, mas Grey’s, especialmente nas primeiras temporadas, soube fazer isso com maestria. No episódio final do seu quinto ano, enquanto aguardamos um desfecho para Izzie, que perece com câncer, somos surpreendidos com um acidente grave que mobiliza todo o hospital para descobrir a identidade da vítima. A surpresa? George O’Malley, um dos personagens mais queridos e presente desde o início da trama, morre após pular na frente de um ônibus para salvar uma desconhecida, com uma cena final que quebra o coração até de quem não chora com facilidade. Gabriella Ferreira Divulgação 5 – “Its the End of the World” (Temporada 2, Episódio 16) No famoso episódio pós-SuperBowl, o dia começa completamente normal e rotineiro, até que um paciente chega carregando dentro dele uma bomba que ainda não explodiu, com ninguém menos do que Christina Ricci no papel de uma paramédica que está segurando o objeto para impedir que ele exploda. Como se as coisas já não estivessem dramáticas o suficiente na vida pessoal de Meredith e seu triângulo com Derek e Addison e tensão já tivesse tomado conta, a moça, por um impulso, coloca a mão dentro do rapaz para segurar o dispositivo depois que a personagem de Ricci o solta. Terminamos o episódio neste gancho absolutamente espetacular. – Filipe Chaves Divulgação 4 – “Losing My Religion” (Temporada 2, Episódio 27) O romance de Izzie e Denny Duquette, a interna e o paciente, é um dos arcos mais famosos da série, quiçá de qualquer série, e não é à toa. A química entre Katherine Heigl e Jeffrey Dean Morgan é quase palpável, toda a construção é genuinamente bonita e fez todo mundo torcer para que desse certo, mas o final não poderia ser mais trágico. Em meio a um baile que está ocorrendo no hospital para a sobrinha do Chief – porque em Grey´s é assim mesmo –, Izzie usa seu famoso vestido rosa e vai mostrar a Denny, mas acaba o encontrando já sem vida. Uma Izzie devastada ao som de Chasing Cars – que acabou virando o hino da produção – mostrou que Shonda não teria pena da audiência ou de nenhum personagem. É um dos episódios mais tristes da TV. – Filipe Chaves Divulgação 3 – “Death and All His Friends” (Temporada 6, Episódio 24) Segunda parte da finale da sexta temporada, Death and All His Friends dá sequência em alto nível a trama com Derek gravemente ferido pelo atirador e Cristina colocada à prova perante as suas habilidades de cirurgia para salvá-lo. Tensão do início ao fim com ótimas atuações de um elenco ainda bastante afiado e em sintonia com o excelente texto de Shonda Rhimes. – Gabriella Ferreira Divulgação 2 – “As We Know It” (Temporada 2, Episódio 17) Em uma das horas mais tensas da televisão, o gancho do episódio anterior nos deixou com Meredith segurando uma bomba dentro de um homem, sem poder fazer um mínimo movimento para que não exploda. O caos toma conta do hospital com todos em pânico temendo pela vida de Mer, enquanto Bailey está dando à luz ao seu filho. É incrível como Shonda não deixa a peteca cair e arma situações extremas e emocionantes, fazendo a gente se apegar a personagens que nunca tinham aparecido antes, como o de Kyle Chandler, que infelizmente é vitimado pela bomba. – Filipe Chaves Divulgação 1 – “Sanctuary” (Temporada 6, Episódio 23) Na primeira parte do final da sexta temporada, vivemos o ápice de Grey’s Anatomy em um dos episódios mais angustiantes da televisão americana. Escrito por Shonda Rhimes em seus dias mais áureos, o hospital é palco de uma crise quando um atirador aparece em busca de justiça, ao mesmo tempo em que Meredith descobre que está grávida e Owen deve escolher entre Teddy e Cristina. Um luxo de boas atuações, tensão, perturbação mental e um banho de sangue que não poupa ninguém. Com participação especial de Mandy Moore, “Sanctuary” é, sem dúvidas, o melhor episódio de Grey’s Anatomy, sendo capaz de deixar qualquer um vidrado na frente da televisão roendo as unhas de nervoso e sem saber se seu personagem favorito sobrevive ou não a iminência da morte. – Gabriella Ferreira
- Crítica | Mythic Quest (4ª temporada)
Apesar de algumas repetições narrativas, série da AppleTV continua prezando pela consistência (e humor afiado). Divulgação Uma das joias escondidas do catálogo da AppleTV, Mythic Quest tem mantido um caminho relativamente estável desde sua estreia lá em 2020. A aposta do streaming para as comédias em ambiente de trabalho como The Office (com os toques ácidos de Community e It’s Always Sunny in Philadelphia por compartilhar nomes no elenco e na equipe com ambas), a série usa do universo dos games para construir as situações humorísticas mais absurdas, sem nunca perder de vista as relações entre seus personagens, por mais caóticas que sejam. Nesta quarta temporada, a série se bifurca em dois núcleos principais: aquele em que Ian (Rob McElhenney) e Poppy (Charlotte Nicdao) trabalham na sua expansão intitulada Elysium, enquanto os atritos pessoais e profissionais entre eles se manifestam, especialmente agora que Poppy está em um relacionamento; e o trio formado por Dana (Imani Hakim), Brad (Danny Pudi) e Jo (Jessie Ennis), que trabalham em torno do sucesso de Dana com seu jogo Playpen. Ambos os núcleos são conectados por David (David Hornsby) e Rachel (Ashley Burch), que trabalham para manter a empresa Mythic Quest viva, mesmo com tudo que conspira (comicamente) contra eles – inclusive eles próprios. A série nunca se furtou a mudar drasticamente o status quo dos personagens e da empresa quando necessário – de fato, o final da segunda temporada poderia até ser encarado como um encerramento da série. E, embora a terceira temporada tenha ficado um pouco abaixo das duas primeiras, mesmo com ótimos momentos (como o episódio focado nas infâncias de Ian e Poppy, um dos melhores da série), esta quarta temporada resgata o frescor dos anos iniciais para se consolidar como a mais consistente até o momento, mesmo com alguns percalços. Muito disso vem do fato de que ela parece mais interessada em examinar o estado em que seus personagens estão após toda a jornada que tiveram até aqui do que em necessariamente alterar toda a dinâmica que os envolve. Isso é particularmente evidente no arco de Ian e Poppy: embora alguns momentos pareçam repetições do que já vimos entre os dois antes, especialmente em suas brigas, é perceptível a relação dos dois evoluiu e amadureceu bastante desde os primeiros dias da série. Ouso dizer que ambos têm uma das melhores dinâmicas platônicas nas séries atuais, junto com Carmy e Syd em The Bear, embora o final sugira uma mudança chocante para esse relacionamento que me deixa bastante curioso para o que está por vir. Divulgação Entretanto, eu diria que, ainda que sejam o coração e a alma da série, Ian e Poppy nem de longe são os personagens mais interessantes da temporada. Desde o ano anterior defendo que David Hornsby se tornou a grande estrela do show, aperfeiçoando seu David neurótico, ingênuo e desesperado por validação – ou seja, a pior (ou melhor?) pessoa para estar numa posição de poder como precisou assumir. Suas dinâmicas com o inescrupuloso Brad ou a assustadora Jo conferem alguns dos momentos mais cômicos e icônicos da temporada. Infelizmente, embora a relação de Dana e Rachel entregue um bem-vindo conforto – culminando no quarto episódio, que já entrou para o hall dos melhores da série – as duas personagens são as mais desinteressantes do elenco, ofuscadas até por Carol (Naomi Ekperigin), cujas poucas aparições sempre me deixam querendo mais dela. Entre muitos acertos e alguns erros (estes que parecem inerentes à estrutura da série e que dificilmente serão abolidos), além de um final que certamente será bem divisivo, a quarta temporada de Mythic Quest em nada deve às antecessoras, justificando a longevidade da série dentro do catálogo ainda recente da AppleTV. Torço para que seus criadores saibam encontrar um fim adequado antes que a fórmula se desgaste, mas do que tenho visto até aqui, tal fórmula segue firme e forte. Nota: 4/5
- Crítica | A Batalha da Rua Maria Antônia
Supervalorização da técnica e temática relevante não escondem as nítidas deficiências do filme. Divulgação Em meio ao sucesso da minissérie Adolescência, da Netflix, tenho visto uma exaltação daquele que é certamente seu elemento mais distinto: o fato dos seus quatro episódios ocorrerem em plano-sequência, técnica onde vemos um único plano (ou onde os cortes entre os planos são ocultos pela montagem) de forma a passar uma ideia de continuidade. É um feito que sempre impressiona, como podemos ver em filmes como Filhos da Esperança ou até aqueles em um único plano-sequência, como Birdman. Afinal de contas, é uma técnica que aponta para o esforço hercúleo que envolve sua realização, conferindo um ar “elevado” à obra em questão. No entanto, é preciso sempre se perguntar: a que serve tal técnica? O que ela nos comunica nessa obra fílmica? Trago essa reflexão porque hoje estreia A Batalha da Rua Maria Antônia, filme dirigido por Vera Egito e que conta a história do embate entre estudantes da USP e da Mackenzie durante plena ditadura, em 1968. O longa é composto por 21 planos-sequências que relatam a escalada do conflito entre os dois grupos em face das votações para a UNE, com o grupo da USP (foco do filme) representando a resistência estudantil contra a ditadura, que era nítida apoiadora da Mackenzie à época. Vera filma os planos-sequência com uma câmera de mão que empresta um ar documental e de cinema verité aos eventos, o que é reforçado pela razão de aspecto em 4:3 e a fotografia em preto-e-branco, enquanto pincela as vidas pessoais de alguns dos personagens. O uso da palavra “pincela” não é à toa. Em apenas 84 minutos, é de se esperar que não haja um grande desenvolvimento desses personagens para além do básico, mas a despeito de todos os recursos técnicos e estéticos conferidos ao filme (com nítidos acenos a movimentos como a Nouvelle Vague e suas diretrizes políticas mais radicais), muito dele é gasto focando justamente nesses dramas pessoais dos personagens, o que não seria um problema em si, não fosse o fato de que sacrifica e esvazia muito da tensão que se pretende alcançar através dessa narrativa em tempo real e a intensificação do conflito, ainda que sintamos o impacto em determinados planos-sequência onde a violência e a tensão do momento retratado nos atingem eficazmente. Não ajuda o fato de que, mesmo com todo esse apelo com que o filme quer nos atrair através da imagem, o seu texto cai em lugares-comuns de obras ambientadas na ditadura que chega a ser vergonhoso. As atuações em gerais mecânicas do elenco prejudicam ainda mais a entrega do texto, de modo que, ainda que o objetivo geral do longa seja nos fazer simpatizar pelos estudantes da USP, há pouco pelo que simpatizar aqui, já que parte deles são repetições de estereótipos já batidos (a estudante isenta que se envolve com a luta política, o líder carismático e problemático, a adulta ingênua, etc.). Divulgação Chega ser curioso que numa obra que se preza tanto a uma estética mais documental e realista, sua melhor cena seja aquela que foge mais a tal estética, que é aquela em que duas personagens fazem sexo. A maneira como Vera filma ambos os corpos, depois posicionando-os em reflexos no espelho que atinge ares quase surrealistas, é um desvio tão gritante da maneira como a encenação vinha sendo construída que poderia ser um ponto baixo do filme, mas acaba sendo uma de suas melhores cenas e talvez uma das poucas onde a ênfase nas vidas pessoais desses personagens se justifique na narrativa. De alguma maneira, é poético que tenha assistido A Batalha da Rua Maria Antônia num dia em que presenciei embate entre alunos da UNICAMP que lutavam em favor das cotas trans na universidade e militantes do MBL que vieram para causar seu típico pânico moral e posar de vítimas. Enquanto estes últimos eram enxotados, vi os alunos chamá-los das mesmas palavras que aqueles da USP de 1968 gritavam para os da Mackenzie e que de nada adiantaram. Se alguma coisa resta do filme, é que ele aponta para a ingenuidade ainda presente na esquerda brasileira, como se bradar “fascistas” e palavras de ordem para reacionários e fachos bastasse. Entretanto, o saldo final é de uma obra presa a essa mesma ingenuidade, inclusive no campo técnico e estético, ao não confiar o suficiente na imagem e diluí-la e esvaziá-la com um texto medíocre. Nota: 2/5
- Crítica | Branca de Neve
Inofensivo e bobo, live action se isenta pelas boas músicas e pela vontade de acontecer. Divulgação Branca de Neve da Disney é uma releitura em live-action do clássico filme de 1937. Estrelando Rachel Zegler como Branca de Neve e Gal Gadot como sua Madrasta, a Rainha Má. A aventura mágica remonta à história atemporal com os amados personagens Dengoso, Mestre, Dunga, Zangado, Feliz, Soneca e Atchim. Chegando atrasado para a cansada onda de refilmagens em live action das animações clássicas da Disney, era inevitável que o primeiro longa-metragem de animação norte-americano não ganhasse uma refilmagem toda sua. Por incontáveis aspectos técnicos, a animação de 1937 é um filme revolucionário, que influenciou, direta ou indiretamente, literalmente tudo que veio após o gênero. Mas é também, no fim das contas, uma produção cujo resultado é maior do que sua narrativa, inspirada num conto de fadas alemão. As muitas interpretações e lições de moral extraídas de contos de fadas se tornam perceptíveis na maneira em que aquela história está sendo contada. E neste sentido o novo filme traz lá sua esforçada mensagem sobre justiça, coragem e beleza interior. Sempre digo que não sou contra refilmagens, novas versões e adaptações contanto que elas tenham algum apelo estético ou narrativo que as distingam das primeiras versões e/ou que validem uma motivação de existirem para além da financeira. Aqui o trabalho do roteiro é onde o filme busca ganhar mais força do que a primeira versão. O argumento ganha mais subsídios, mais contexto e mais músicas (e boas músicas compostas pelos premiados Benj Pasek e Justin Paul), para rechear a trama, e o trabalho funciona bem a ponto de se assemelhar às afinadas narrativas da época de ouro das animações Disney. Mas quanto à execução filmada o filme é uma bagunça. É mais uma produção que sofre com a padronização da iluminação opaca e sem vida que desmoraliza o decente trabalho da equipe de direção de arte e dos belos figurinos de Sandy Powell. Por mais digitais que sejam, existem vários cenários que poderiam sugerir tons diferentes e imprimir momentos diferentes e bem marcados pelas músicas e pelos números musicais, mas tudo sofre com o mesmo filtro lavado de baixa saturação que prejudica toda a boa vontade que o filme possui em dar alguma vida àquela história. Rachel Zegler entrega uma Branca de Neve clássica, misturando uma ingenuidade irritante a uma bravura apenas de discurso. Andrew Burnap surpreende com uma atuação comedida. E Gal Galdot tenta ganhar no canto, mas parece sempre faltar um ímpeto na sua vilã que tinha tudo em mãos para desempenhar um papel divertido e relevante. Como também era de se esperar os efeitos visuais contam com pouquíssimos efeitos práticos e bastante digitais. Tudo até que ia bem até a chegada dos anões, criados digitalmente depois de algumas polêmicas e aparentemente renderizados às pressas para a finalização do longa. No quesito do lúdico e até mesmo do absurdo faz todo sentido estes personagens serem, contrastantes, por assim dizer, ao restante dos demais (os reais), mas a verdade é que eles acabam por se tornar distrações dado o tanto que destoam do conjunto (também cheio de pixels criados). Divulgação No mais, não serei hipócrita em dizer que não dei uma risadinha aqui e acolá com algumas piadocas e que não fiquei com a melodia de algumas canções no inconsciente, outro ponto positivo é que ele recria momentos icônicos da animação sem querer reproduzir quadro a quadro. Ainda assim é um filme tímido, que não usa sua grandiosidade financeira para ousar e entregar um produto que, para o bem ou para o mal, tivesse alguma assinatura ou que trouxesse algum frescor. Nota: 2,5/5
- Crítica | Paradise (1ª temporada)
Entre altos e baixos, melodrama e reviravoltas absurdas, não faltou entretenimento. Divulgação Criada por Dan Fogelman, de This is Us, a trama de Paradise se passa em uma comunidade idílica habitada por alguns dos indivíduos mais proeminentes do mundo. Porém, um assassinato chocante acaba com essa tranquilidade, desencadeando uma investigação de alto risco. Esta é a premissa básica da série, e logo de início já dá para notar que há algo estranho, como por exemplo, por que o presidente dos Estados Unidos está morando naquela cidadezinha com tão pouca segurança? A reviravolta final do primeiro episódio responde esta pergunta, mas o faz de uma maneira tão estapafúrdia que eu me questionei se valia a pena continuar vendo a série. Continuei, mas com o alerta aceso de que não deveria levá-la a sério, por mais que o roteiro implorasse por isso em algumas situações. É assim que a narrativa segue, focando em determinados personagens a cada episódio, o que eu gosto, porque é essencial que conheçamos aquelas pessoas e não há dificuldade alguma em assistir Sterling K. Brown e Julianne Nicholson, dois vencedores do Emmy, darem seus shows. Brown é Xavier, o chefe de segurança do presidente Cal Bradford, interpretado por competência por James Marsden, enquanto Nicholson é Samantha, sua chefe de gabinete. Não é fácil escrever mais sobre eles sem dar qualquer spoiler, mas vou tentar. Xavier é um pai viúvo, que tem uma rusga com Cal, de quem já foi bastante devoto, e Brown, sem surpresas, tira o personagem de letra. Cal, por sua vez, é o presidente gente boa, que sente o peso do cargo e não queria muito estar ali, além da pressão familiar. Clichê, eu sei, mas é o que não falta por aqui e Marsden está realmente bem no papel. Samantha é quase robótica, à primeira vista, aquele tipo de pessoa que fará o que for necessário para manter a “ordem”. Graças a flashbacks e a performance de Nicholson, vemos que há uma pessoa por trás da casca. Divulgação A história gira em torno deste trio protagonista, suas ações e consequências em meio ao que, de início, parecia uma série policial, vai se transformando em uma ficção-científica misturada com um drama familiar pesado – afinal estamos falando do criador de This is Us, certo? E a impressão é que está mais apelativo aqui do que na série anterior. A busca de Xavier para descobrir a tal verdade o coloca em um ponto de antagonismo com Samantha e, apesar de haver uma dinâmica interessante entre a dupla, ela é ofuscada pelas reviravoltas que parecem ser o carro-chefe que guia o enredo. Praticamente, em todo final de episódio, há uma grande virada na trama. Algumas fazem sentido e outras são completamente absurdas porque o intuito é mais o choque do que o desenvolvimento, mas te mantém fisgado assistindo e ansioso pela próxima, isso não dá para negar. E geralmente elas vêm acompanhadas de frases de efeito, o que sempre me faz dar uma leve risada, por mais seriedade que a cena queira passar. São oito episódios no total e o sétimo é o melhor deles. Não só da série, como um dos melhores da televisão nos últimos anos. Tendo como cenário um fatídico dia muito importante para a narrativa, a tensão é elevada ao máximo e o drama funciona perfeitamente, com os personagens sendo colocados em situações em que decisões extremas precisam ser tomadas, com grandes consequências em jogo. Este é o valor de uma série episódica, porque enquanto outros podem não agradar tanto, vem um episódio que mostra que a excelência pode ser atingida. No entanto, o oitavo e último, apesar de ter seus momentos, incluindo um ótimo gancho para a já confirmada 2ª temporada, fraqueja na conclusão do assassinato, com um desfecho covarde. Em uma produção que não tinha medo de ousar, a solução me parece um balde de água fria, onde prevaleceu mais uma vez o intuito de chocar do roteiro, mas o tiro saiu pela culatra e foi bastante anticlimática. A série tem conquistado o público e eu entendo o porquê: é fácil se envolver na teia de mistérios de Paradise, que mesmo entre seus altos e baixos, mantém um entretenimento que não exige muito da audiência. Então com toda sua cafonice, é um entretenimento válido. Nota: 3/5












