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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Análise | The Leftovers (2014-2017)

A exploração do luto, da fé e do inexplicável numa das melhores séries de todos os tempos

Foto: HBO


12 anos atrás, num dia 14 de outubro como esse, 2% da população mundial desapareceu misteriosamente. Ou pelo menos isso é o que nos diz The Leftovers, que em seus primeiros minutos nos mostra os momentos anteriores a esse inexplicável evento, chamado posteriormente de “Partida Repentina”. O ordinário desses momentos — onde vemos uma personagem coadjuvante com seu bebê — é uma boa síntese do que exatamente a série buscou explorar desde o seu começo.


Exibida pela HBO entre 2014 e 2017, com três temporadas, The Leftovers foi baseada no livro de mesmo nome de Tom Perrotta e criada por este e Damon Lindelof, também criador de Lost. A associação com Lost certamente elevou as expectativas de muitos, mas também as dúvidas de outros, dado o seu final polêmico e as constantes alegações de que a série levantou perguntas demais e entregou respostas de menos. Por isso Lindelof e Perrotta expõem suas intenções desde o começo, intenções estas que ficaram ainda mais nítidas para mim ao rever a série nesse ano: respostas não importam aqui.


Prova disso é a própria abordagem optada para a série para retratar os efeitos da Partida Repentina. Na primeira temporada somos transportados para a pequena cidade de Mapleton, em Nova York, para acompanharmos a vida de alguns de seus personagens e como eles foram afetados pela Partida, três anos após sua ocorrência. Entre eles temos os Garvey, compostos por: Kevin (Justin Theroux), chefe de polícia da cidade; sua filha adolescente Jill (Margareth Qualley), com quem não consegue se conectar, seu afilhado Tom (Chris Zylka), que se envolveu com uma seita liderada pelo misterioso Holy Wayne (Paterson Joseph); e sua ex-esposa Laurie (Amy Brenneman), que também está envolvida com outra seita, os Remanescentes Culpados, que estão sempre de branco e fumando, e que querem fazer com que as pessoas se lembrem a todo custo do que perderam com a Partida. Além dos Garvey, outros pontos focais da série são os irmãos Matt Jamison (Christopher Eccleston), um reverendo que tenta sustentar sua fé nesse mundo pós-apocalíptico, e Nora Durst (Carrie Coon), que é conhecida na cidade por ter perdido o marido e os três filhos na Partida.


Mesmo se movendo para outros territórios a cada temporada (o Texas na segunda e a Austrália na terceira), The Leftovers nunca perde de vista o olhar para seus personagens e seus conflitos. Apesar do desejo do público por respostas, a série prefere brincar com possibilidades, ocasionando entregando sugestões do que possa ter causado a Partida Repentina sem nunca, entretanto, dizer se essas opções são conclusivas ou não. Borrando as linhas entre o real e o mágico, o natural e o sobrenatural, a série abre margens para diversas interpretações, de acordo com o que for melhor para esse público. A ambiguidade, uma das suas marcas mais notáveis, está presente até o fim, em sua última cena.


Isso pode certamente frustrar os mais desejosos por obras explicativas e didáticas, que dizem a que veio, mas um dos (muitos) méritos da série sempre foi justamente a capacidade de fazer seu público navegar nas incertezas, ausências e dúvidas dos seus personagens, permitindo que entendamos as escolhas muitas vezes desesperadas que eles fazem para se reconectarem com o que perderam ou não conseguem entender. Afinal de contas, como se explica o inexplicável? Como se processa o vácuo de uma tragédia tamanha onde nem mesmo o luto parece ser um sentimento suficiente? É justamente ao investir nesses personagens e seus conflitos particulares que The Leftovers explora toda a potência da sua premissa.


Essa abordagem ganhou uma ressonância única diante do que o mundo vivenciou entre 2020 e 2022 com a pandemia da Covid-19. De maneira quase profética, a série antecipou o vazio brutal deixado pelos nossos entes que partimos, muitas vezes sem sequer termos a oportunidade de nos despedirmos dada as condições de isolamento, internações e medidas sanitários. Mesmo as dificuldades em processar o luto, o trauma e a adequação a esse mundo pós-pandêmico refletem as incapacidades de tantos dos personagens em conseguirem seguir em frente diante do que enfrentaram com a Partida Repentina.


Ao se recusar a explicar o inexplicável, The Leftovers nos convida a dar um salto de fé que soa loucura num mundo racional. Mas quando falo de fé não me refiro a um sentido religioso, e mais especificamente cristão — ainda que alusões bíblicas sejam recorrentes na série e até possa se interpretar uma correlação entre a Partida e o Arrebatamento (mesmo que a série trate como uma das muitas possibilidades). Alegorias religiosas e espirituais não são estranhas para os que conhecem o trabalho de Damon Lindelof desde Lost, mas creio que nenhuma série na história soube trabalhar a perspectiva e os dilemas da fé e da crença em suas multiplicidades da maneira que The Leftovers fez.


Isso é particularmente evidente nos arcos de Matt, que não à toa é um dos meus personagens favoritos pela maneira como sua fé é trabalhada, abalada e reconstruída diante das crises e provações que enfrenta. Cada uma das três temporadas dedica pelo menos um episódio a ele, compondo uma trilogia irretocável — e o primeiro episódio que traz o seu ponto de vista, intitulado Two Boats and a Helicopter, foi onde a série efetivamente me conquistou, após um começo que admito ser um pouco trôpego, embora já impactante.


Aliás, a escolha de Lindelof, Perrotta e seu time de roteiristas e diretores de enfocar determinados episódios pelos pontos de vista dos personagens (outra herança de Lost) é um dos grandes acertos da série, pela maneira como os desenvolve, sempre desafiando nossas expectativas e potencializando as temáticas da série. Prova disso é a própria Nora, que durante a reta inicial da primeira temporada é enquadrada quase como uma coadjuvante, aparecendo marginalmente dentro das tramas dos demais personagens, mas já cativando nossa curiosidade aos poucos. Isso muda com Guest, o sexto episódio, onde ela recebe os devidos holofotes e podemos mergulhar mais um pouco no íntimo dessa mulher cínica e misteriosa, mas que está muito mais quebrada do que quer admitir. A partir daí, Nora passa a tomar tanto espaço em The Leftovers — e de maneira tão natural — que é perfeitamente compreensível porque o último episódio da série se chama justamente The Book of Nora.


Dar esse devido espaço a ela, transformando-a em co-protagonista junto a Kevin, é outra das decisões mais acertadas já feitas pela série, pois permitiu que o mundo visse toda a dimensão do talento de Carrie Coon, que entregou aqui a personagem que eu particularmente considero a melhor da história da TV. Não se fala muito em como The Leftovers bebe do melodrama clássico, e Coon é magistral na maneira como interpreta a gama de emoções da sua personagem, oferecendo uma latitude dramática incomparável.


Isso é ainda mais potencializado pela decisão de juntar Nora e Kevin como um casal no decorrer da série, permitindo que absorvemos a dinâmica complexa (e muitas vezes disfuncional) da relação de ambos e a química assombrosa de Coon e Theroux. A maneira como os personagens se entendem, mas não conseguem ser 100% honestos um com o outro diante do quanto estão quebrados, cria um relacionamento profundo e ferido pelo qual nos vemos desesperadamente torcendo. Nos seguramos à história de amor do “Homem Mais Poderoso do Mundo” e da “A Garotinha Mais Corajosa do Mundo” como uma tábua de salvação em meio a esse pós-fim do mundo.


Eu poderia falar muito mais do brilhantismo inigualável do elenco de The Leftovers — que ainda tem nomes como Ann Dowd, Liv Tyler, Regina King, Kevin Carroll, Scott Glenn, Lindsay Duncan e tantos outros —, mas seria chover no molhado. Basta dizer que é um elenco mais do que à altura de uma série interessada em seus personagens, e do qual a direção sempre soube tirar o melhor. Como esquecer o uso de planos e contraplanos numa simples conversa entre as personagens de Coon e King na segunda temporada? As lágrimas de Nora misturadas a um sprinkler acionado num quarto de hotel na terceira temporada? Os monólogos devastadores que soavam tão naturais na boca desses atores e atrizes, garantindo que a série risse na cara da premissa do show, don’t tell para explorar a sua natureza ambígua e os dramas desses personagens através do que era dito e não mostrado?


Verdade seja dita, a primeira temporada de The Leftovers é reconhecidamente desafiadora e divisiva, mesmo tendo crescido muito para mim na revisão da série. É notável aqui que ela está firmando sua identidade, mas basta ver como episódios como os já mencionados Two Boats and a Helicopter e Guest, além dos devastadores dois episódios finais, já cimentam essa identidade e a proposta da obra. É justamente quando deixa o livro de Perrotta de lado para seguir como uma criação original nas temporadas seguintes que a série extrapola seus limites, abraçando o melodrama, a comédia, o suspense, o drama pós-apocalíptico, algumas pitadas de ficção científica, o realismo mágico, tudo isso sem perder de vista as pessoas cujas histórias nos conta. Diz muito que a última temporada é a minha favorita dentre quaisquer séries que já assisti.


Há espaço para um mergulho cada vez maior no inexplicável, como atesta o icônico episódio da segunda temporada International Assassin, que abriu todo um novo mundo para a série. Ainda assim, são os momentos mais devastadoramente humanos que permanecem mais comigo: a dolorosa discussão entre dois personagens ao som de Take On Me do A-Ha; a compreensão de um personagem sobre do que ele está fugindo enquanto ouvimos God Only Knows dos Beach Boys (a trilha sonora da série, seja a original de Max Richter ou a licenciada, merecia por si só um texto à parte); ou uma conversa final entre duas pessoas há muito tempo separadas, onde uma dá aquele salto de fé para recuperar um amor que julgava perdido.


Há tanto para falar de The Leftovers, e nunca me parece que será suficiente. Mesmo nunca tendo sido um sucesso de audiência (ao ponto de sofrer ameaça de cancelamento ao final da segunda temporada) e sendo repetidamente esnobada em premiações como Emmy, ela é constantemente declarada como uma das maiores séries de todos os tempos. Esse texto apresenta vários motivos para tal, mas eles podem ser resumidos em um: não há quem fique indiferente a essa série após assisti-la. Não importa se você é uma pessoa de fé ou da ciência, se precisa de respostas ou se apenas deixa o mistério ser, ninguém é o mesmo depois de deixar The Leftovers entrar em sua vida.

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