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  • Foto do escritorAianne Amado

Crítica | Desencantada

De fato, o encanto desapareceu

Divulgação: Disney+


Antes de iniciar a crítica que vocês vieram ler, peço licença para voltarmos 15 anos no tempo para que eu possa brevemente escrever sobre Encantada (2007). À época, no auge dos meus 13 aninhos, eu não possuía plataforma para discorrer sobre a experiência incrível e – já sabia eu – inesquecível que tinha acabado de viver diretamente da sala de cinema, então permitam-me aproveitar essa oportunidade de hoje.


Primeiro e mais importante de tudo: Amy Adams. Esse papel não ter rendido um Oscar a ela é um dos maiores crimes do cinema americano (e um grande exemplo de como a Academia falha em não considerar a comédia e o filme infantil como cinema). Não é qualquer um que consegue dar vida a uma princesa encantada cartunesca confusa ao acidentalmente cair na cidade mais caótica do mundo real. É muito específico. E, mesmo assim, ao longo de todo o filme, você sabe que Amy Adams nasceu para aquilo. Dos movimentos de mão, ao ritmo da caminhada em pequenos passos de valsa, ao gracioso balançar de cabelo até às expressões realisticamente artificiais – tudo em sua atuação consegue te convencer de que estamos, sim, diante de uma personagem 2d de carne e osso. Por mais absurdo que o plot seja, ela vende. O filme não funcionaria sem ela.


Por sinal, todo o casting é impecável. James Marsden como príncipe Edward é um encaixe tão perfeito quanto o sapatinho de cristal no pé da Cinderela. O casal que ele forma com Adams encontram o contraste perfeito em Patrick Dempsey e Indina Menzel, expressamente mundanos, ainda que jamais ordinários (aliás, o que muitos consideram o único erro do filme – o fato de Indina, renomadíssima atriz da Broadway, não ter uma canção – é completamente entendível quando se lembra que ela não é uma personagem fantástica ainda).


Divulgação: Disney+


Mas nem só de estrelas se faz um bom filme (eu sei que você também pensou em Cats). Não fosse pelo enredo ousado e inovador e pelas músicas absurdamente memoráveis, o filme não seria o clássico atemporal que nos faz parar para revê-lo pela enésima vez sempre que está passando. Sempre tive a suspeita de que Encantada foi a resposta da Disney à Shrek: uma paródia metalinguística sobre os contos de fadas que tornaram o Estúdio famoso. Porém, se este último, produzido na Dreamworks, concorrente direta da Disney, o fez em tom sarcástico, o primeiro, feito na própria empresa, não poderia fazê-lo. Conseguir abordar as extravagantes (e, convenhamos, por vezes bregas) utopias do mundo fantástico com iguais doses de humor e respeito com certeza exigiu uma dose de genialidade. O amor que o filme recebe até hoje condiz absolutamente com o mérito criativo da obra.


Assim, diante de uma produção tão impecável, apenas comemorei o anúncio da sequência tantos anos depois. Aquele conhecido receio de “para que? só vai estragar o orginial” parecia descabido, afinal, com uma história tão rica e icônica, certamente a Disney iria investir em algo a altura. Mesmo que fosse inferior ao primeiro, precisaria de muito esforço para ser ruim.


Mas, sinto dizer, o esforço foi quase o suficiente para isso.

Divulgação: Disney+


Desencantada tem dois méritos: o primeiro é ter como base um universo tão querido pelo imaginário popular e saber bem aproveitar disso. Não digo apenas em relação ao primeiro filme, mas a todo o cosmo dos contos de fadas. As referências às diversas histórias que marcaram nossas infâncias se tornam uma diversão à parte, como brincar de Onde está Wally? no meio da sessão. É uma nostalgia deliciosa que torna o sorriso inevitável.


Em segundo lugar, novamente, Amy Adams. Não fosse suficientemente difícil viver Giselle da primeira vez, agora ela enfrenta o desafio de incorporar, ao mesmo tempo (literalmente) princesa e madrasta, mocinha e vilã. E ela consegue. Em questão de segundos, muda a postura, a entoação e o olhar, sem jamais perder o cartunesco que vive na personagem.


Dá gosto ver uma atriz de 48 anos (o que equivale a 70 em Hollywood) vivendo um papel de frescor tão jovem – e o melhor, se divertindo com isso! É visível o quanto reviver Giselle, agora também como produtora do longa, foi uma ótima experiência. Acredito, ainda, que o mesmo possa ser dito para todo o elenco e equipe de produção. De alguma forma, é possível sentir o prazer de (re)criar um mundo tão especial e recheado de magia.


É uma pena que o restante não corresponda a esse encantamento – com o perdão do trocadilho. Lembro de ter estranhado quando a Disney divulgou a estreia diretamente em seu streaming e não nos cinemas, mas, depois de assisti-lo, faz todo o sentido. Toda a direção de arte, ainda que simpática, deixa claro o baixo orçamento – especialmente os efeitos especiais, que mais parecem efeitos de qualquer episódio de meia temporada de Feiticeiros de Waverly Place.

Divulgação: Disney+


Dessa vez, a história de amor é entre Giselle e sua Morgan (as vezes sua filha, as vezes sua enteada), que, agora adolescente, enfrenta dificuldade de entender a “mãe”. No entanto, ao contrário do que o filme tenta nos convencer, Morgan está certa: Giselle, ainda presa entre a realidade e o reino de Andalasia, não é mais uma excêntrica mas cativante personagem, ela só é… chata. Egoísta ao deslocar toda a família para o subúrbio para satisfazer seus sonhos incompatíveis com o mundo que escolheu viver; inconveniente com as constantes canções motivacionais; e intrometida na vida alheia. Esse, ao meu ver, é o principal problema de Desencantada. O que era para ser um tributo ao primeiro, tornou-se uma versão que nos faz questionar se não estávamos enganados por 15 anos. Como ousam dar músicas tão monótonas e esquecíveis para a mesma personagem que eternizou” Como Ela Sabe que a Ama?”?


Chata também é a história. A vilã (interpretada pela Maya Rudolph no seu melhor estilo Maya Rudolph), cuja única motivação é ser a dona da rua, não convence. Suas minions, releituras das meia-irmãs de Cinderela, não convencem no humor (apesar de feitas pelas maravilhosas Yvette Nicole-Brown e Jayma Mays, o que prova a fragilidade do roteiro). O “príncipe encantado” tem tão pouco tempo de desenvolvimento que sequer lembro seu rosto mesmo horas depois de ter visto o filme.


Os demais personagens antigos funcionam, mesmo que unicamente através da memória do primeiro. Como bom personagem animado, Marsden não envelheceu um dia e está ainda mais cativante, mas é uma pena que não tenham dado mais espaço para seu Edward, que, trabalhando com o pouco que tem, rouba a cena sempre que aparece. O mesmo acontece com Dempsey, que, apesar de finalmente ter a chance de brincar de contos de fadas, o faz nas cenas mais dispensáveis. Rachel Covey, que retorna como Morgan, é quem se deu melhor em relação ao novo roteiro e, apesar de ser seu segundo grande projeto (ambos com a mesma personagem), consegue entregar tudo que a história pede. E, não menos importante, Indina Menzel ganha destaque e, finalmente, canta!


Não diria que me arrependi de ver o filme. Os sorrisos que dei ao reviver uma história tão querida serão sempre válidos. No entanto, termino o filme me perguntando se não seria preferível só ter assistido Encantada de novo… pela octogésima vez.


Nota: 2,5/5

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