top of page

Início > Críticas

​

Crítica | Michael (2026)

Ávila Oliveira

21 de abr de 2026 · 3 min de leitura

Cinebiografia compensa bem a falta de inventividade narrativa com excesso de tom performático.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Michael é um retrato cinematográfico íntimo da vida e do legado de um dos artistas mais influentes de todos os tempos. O filme mergulha na trajetória de Michael Jackson para além da música, acompanhando sua ascensão desde a descoberta de seu talento excepcional como líder dos Jackson Five até sua consagração como um artista visionário. Guiado por uma ambição criativa incomparável, ele embarca em uma jornada intensa e incansável para se tornar o maior entertainer do mundo.


Sempre que analiso uma cinebiografia volto a falar dos dois pontos que julgo essenciais para um bom filme que trata da vida de uma pessoa real: o recorte e o estilo. Um artista da maestria de Michael Jackson, que redefiniu gêneros e influencia diretamente a cultura pop internacional até hoje, muito além da música, merecia um tratamento mais criativo e menos mecânico numa eventual e inevitável cinebiografia. Mas o trabalho de Antoine Fuqua apresenta uma versão bem linear e contida, na narrativa e na plástica. É um longa-metragem que cumpre sua função, mas sem ousar muito e sem atingir o brilhantismo que conseguiria se resolvesse se livrar das amarras comerciais.


Em relação ao estilo, e reduzindo a cinebiografia de cantores, trago como exemplos bem sucedidos Elvis (2022), de Baz Luhrmann, e Rocketman (2019), de Dexter Fletcher. Ambos contemplam de forma generalista as vidas e carreiras dos artistas que abordam, mas usam estruturas estilísticas bem distintas. Luhrmann escolhe um tratamento visual exagerado, brilhante, beirando a fantasia para rimar com a estética de Las Vegas que Elvis ajudou a criar, enquanto no filme sobre Elton John, Fletcher resolve criar um musical onde as canções do artista são catalisadores da história e não apenas números de palco. Quanto ao recorte, um bom exemplo recente é o premiado Um Completo Desconhecido (2024), onde James Mangold filma a vida de Bob Dylan através da construção do disco Highway 61 Revisited e do período cultural, social e político que permeou a vida do artista à época. 


Dito tudo isto, Michael está bem longe de ser uma produção ruim ou mesmo falha. A história é bem contada e centrada numa quantidade enxuta de personagens muito bem construídos. O texto consegue, por exemplo, apresentar alguns dos conflitos internos de Michael, suas causas e desdobramentos, e também ilustrar os nomes que influenciaram na sua qualidade artística. O trabalho carece, no entanto, de expor mais do processo criativo e da edificação das produções do artista. A sequência em que se tem a criação dos videoclipes de Beat It e Thriller é indubitavelmente um dos destaques do filme. O recorte temporal encerrando no auge da carreira do cantor é uma escolha que me traz sentimentos conflitantes, porque gera um efeito surpresa quando se espera um filme generalista, ao mesmo tempo em que se sabe que a ideia ali é fazer pelo menos mais uma continuação, ainda mais tendo em vista o tanto de regravações, revisões e edições feitos que causaram o adiamento da estreia em meses.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Mas o que falta em inventividade narrativa sobra em performance. Existem várias sequências dos atores Juliano Krue Valdi e Jaafar Jackson em palcos apenas entregando simulações perfeitas de Michael criança e adulto performando, e eu não estou reclamando. É perceptível a vontade de homenagear Michael Jackson com esses momentos, são cenas criadas para uma resposta imediata do público, e nos cinemas vai reverberar com emoção. Jaafar Jackson está assustador, no melhor dos sentidos, como o personagem-título. É algo que talvez apenas a genética explique, porque para além dos covers de canto e dança, é na fala, no olhar e na postura que ele consegue dar vida a uma figura que era uma força sobrenatural nos palcos, mas completamente vulnerável fora deles. O polêmico pai dos Jacksons, Joseph Jackson, é interpretado com profundidade por Colman Domingo, sem nunca perder a aspereza no olhar e a soberba no tom de voz.


Por fim, Michael encontra sua força justamente naquilo que entende como espetáculo. Ainda que falte ousadia na forma, o respeito pela figura que retrata e um cuidado evidente em transformar cada aparição dele em um momento de reverência são escolhas positivas, haja visto o desgaste e a desgraça que fatores externos causaram em sua vida, tudo soa como um tipo de acalento. O longa prefere jogar seguro ao invés de reinventar, mas entende o peso do nome que carrega e a expectativa que o cerca. Pode não ser a cinebiografia definitiva que um artista desse porte merecia, mas é, sem dúvida, um retrato eficiente de alguém que nunca soube ser menor do que grandioso.


Nota: 3,5/5






LEIA TAMBÉM

CRÍTICAS

Crítica | Tudo Pode Ser Visto (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | NAZA

CRÍTICAS

Crítica | O Bosque Selvagem

MAIS RECENTES

NOTÍCIAS

Lista | Os melhores filmes vistos na 50ª Mostra de SP

NOTÍCIAS

Criadores de 'Delegado' revelam que série chegou a ter arcos para...

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

CATEGORIAS

Notícias
Críticas
Análises
Awards Season
Crias do Brasil
Listas
Entrevistas
Festivais

NEWSLETTER

image.png

Cinema brasileiro, festivais e temporada de premiações direto no seu e-mail

MAIS LIDAS NO MÊS

01

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

02

NOTÍCIAS

Uma adaptação de Os Imortais, de Paulliny Tort, está em...

03

NOTÍCIAS

Criadores de 'Delegado' revelam que série chegou a ter arcos para...

Crítica | Michael (2026)

21 de abr.
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Cinebiografia compensa bem a falta de inventividade narrativa com excesso de tom performático.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Michael é um retrato cinematográfico íntimo da vida e do legado de um dos artistas mais influentes de todos os tempos. O filme mergulha na trajetória de Michael Jackson para além da música, acompanhando sua ascensão desde a descoberta de seu talento excepcional como líder dos Jackson Five até sua consagração como um artista visionário. Guiado por uma ambição criativa incomparável, ele embarca em uma jornada intensa e incansável para se tornar o maior entertainer do mundo.


Sempre que analiso uma cinebiografia volto a falar dos dois pontos que julgo essenciais para um bom filme que trata da vida de uma pessoa real: o recorte e o estilo. Um artista da maestria de Michael Jackson, que redefiniu gêneros e influencia diretamente a cultura pop internacional até hoje, muito além da música, merecia um tratamento mais criativo e menos mecânico numa eventual e inevitável cinebiografia. Mas o trabalho de Antoine Fuqua apresenta uma versão bem linear e contida, na narrativa e na plástica. É um longa-metragem que cumpre sua função, mas sem ousar muito e sem atingir o brilhantismo que conseguiria se resolvesse se livrar das amarras comerciais.


Em relação ao estilo, e reduzindo a cinebiografia de cantores, trago como exemplos bem sucedidos Elvis (2022), de Baz Luhrmann, e Rocketman (2019), de Dexter Fletcher. Ambos contemplam de forma generalista as vidas e carreiras dos artistas que abordam, mas usam estruturas estilísticas bem distintas. Luhrmann escolhe um tratamento visual exagerado, brilhante, beirando a fantasia para rimar com a estética de Las Vegas que Elvis ajudou a criar, enquanto no filme sobre Elton John, Fletcher resolve criar um musical onde as canções do artista são catalisadores da história e não apenas números de palco. Quanto ao recorte, um bom exemplo recente é o premiado Um Completo Desconhecido (2024), onde James Mangold filma a vida de Bob Dylan através da construção do disco Highway 61 Revisited e do período cultural, social e político que permeou a vida do artista à época. 


Dito tudo isto, Michael está bem longe de ser uma produção ruim ou mesmo falha. A história é bem contada e centrada numa quantidade enxuta de personagens muito bem construídos. O texto consegue, por exemplo, apresentar alguns dos conflitos internos de Michael, suas causas e desdobramentos, e também ilustrar os nomes que influenciaram na sua qualidade artística. O trabalho carece, no entanto, de expor mais do processo criativo e da edificação das produções do artista. A sequência em que se tem a criação dos videoclipes de Beat It e Thriller é indubitavelmente um dos destaques do filme. O recorte temporal encerrando no auge da carreira do cantor é uma escolha que me traz sentimentos conflitantes, porque gera um efeito surpresa quando se espera um filme generalista, ao mesmo tempo em que se sabe que a ideia ali é fazer pelo menos mais uma continuação, ainda mais tendo em vista o tanto de regravações, revisões e edições feitos que causaram o adiamento da estreia em meses.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Mas o que falta em inventividade narrativa sobra em performance. Existem várias sequências dos atores Juliano Krue Valdi e Jaafar Jackson em palcos apenas entregando simulações perfeitas de Michael criança e adulto performando, e eu não estou reclamando. É perceptível a vontade de homenagear Michael Jackson com esses momentos, são cenas criadas para uma resposta imediata do público, e nos cinemas vai reverberar com emoção. Jaafar Jackson está assustador, no melhor dos sentidos, como o personagem-título. É algo que talvez apenas a genética explique, porque para além dos covers de canto e dança, é na fala, no olhar e na postura que ele consegue dar vida a uma figura que era uma força sobrenatural nos palcos, mas completamente vulnerável fora deles. O polêmico pai dos Jacksons, Joseph Jackson, é interpretado com profundidade por Colman Domingo, sem nunca perder a aspereza no olhar e a soberba no tom de voz.


Por fim, Michael encontra sua força justamente naquilo que entende como espetáculo. Ainda que falte ousadia na forma, o respeito pela figura que retrata e um cuidado evidente em transformar cada aparição dele em um momento de reverência são escolhas positivas, haja visto o desgaste e a desgraça que fatores externos causaram em sua vida, tudo soa como um tipo de acalento. O longa prefere jogar seguro ao invés de reinventar, mas entende o peso do nome que carrega e a expectativa que o cerca. Pode não ser a cinebiografia definitiva que um artista desse porte merecia, mas é, sem dúvida, um retrato eficiente de alguém que nunca soube ser menor do que grandioso.


Nota: 3,5/5






CONTINUE LENDO

CRÍTICAS

Crítica | Quero Ser Como Você (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | Amadeo e o Hipotético Mundo Novo (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | A História Mais Triste do Mundo (Mostra de SP 2026)

bottom of page