Crítica | O Drama
- Ávila Oliveira

- há 11 horas
- 3 min de leitura
O poder do discurso entre os segredos que nos unem e os boatos que nos separam.

Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) são um casal apaixonado que está se preparando para seu casamento quando uma brincadeira traz à tona uma revelação sobre o passado de Emma que faz Charlie se questionar o quanto ele realmente conhece a pessoa com quem vai se casar. Entre momentos felizes do relacionamento e tensões desencadeadas pelo segredo, o filme propõe a discussão sobre até onde as pessoas conhecem quem está ao seu lado e o que pode – ou não – ser superado.
Conhecer um pouco dos trabalhos anteriores do cineasta norueguês Kristoffer Borgli serve como uma ambientação para o tipo de abordagem sarcástica, densa e ao mesmo tempo hilária que ele apresenta em suas comédias. Em O Drama somos apresentados ao simpático casal protagonista de uma forma leve e bem-humorada como a mais refinada das comédias românticas. E este tom permanece quase até o desfecho do filme. Mesmo na cena em que Emma revela seu segredo, e nos mais variados desdobramentos causados pela informação, Borgli escolhe manter a suavidade e a naturalidade das situações, afinal, ele quer tratar disso com o público, ele quer discutir como palavras de uma ação do passado que em nada interferem no presente podem desencadear as mais diversas reações na mente humana, quando o “real” se mantém o mesmo.
Olhando por uma perspectiva foucaultiana, O Drama evidencia como o discurso não apenas relata a realidade, mas a produz. Ao verbalizar um episódio de seu passado, a protagonista deixa de ser vista apenas pelo que é no presente e passa a ser enquadrada dentro de uma nova rede de significados construída pelos outros personagens. O que antes era invisível ou irrelevante ganha força de verdade simplesmente por ter sido dito, reorganizando relações, instaurando desconfianças e redefinindo identidades. Borgli parece sugerir que o poder não está no fato em si, mas na circulação da narrativa sobre ele: uma vez enunciado, o discurso passa a operar como um mecanismo de controle, capaz de transformar percepções, legitimar julgamentos e, sobretudo, aprisionar o indivíduo a uma versão de si que talvez já nem exista mais.
Nada no longa ultrapassa o limite do que o próprio roteiro se propõe a construir. Há um cuidado evidente em manter tudo dentro de um tom controlado, quase como se cada cena soubesse exatamente até onde pode ir sem romper o tom de descoberta constante. Nesse equilíbrio, as atuações de Zendaya e Robert Pattinson funcionam com precisão. Os dois encontram uma sintonia que evita excessos e não transforma o conflito em uma disputa de protagonismo. Pelo contrário, existe um respeito mútuo em cena que fortalece a dinâmica do casal e torna o trabalho orgânico, como se um completasse o ritmo do outro em vez de uma tentativa mútua de dominação de cenas.

O filme transita com naturalidade entre a comédia e o drama, às vezes se fantasiando rapidamente de suspense, mas nunca de maneira deslocada. Essa mistura não soa confusa porque existe uma unidade temática muito bem amarrada que sustenta todas essas variações de tom. Em vez de parecer um amontoado de gêneros, o que se vê é um diálogo consoante entre eles, sempre orbitando a mesma questão central. Mesmo quando a tensão cresce ou a situação beira o absurdo, o filme não perde de vista sua essência, o que faz com que essas mudanças de atmosfera pareçam frescas e não artificiais.
O roteiro aposta em um desconforto que vai se acumulando aos poucos, quase tangível, para impulsionar uma comédia de erros que abraça sem medo a farsa e a sátira. Há um prazer evidente em esticar situações até o limite do constrangimento, explorando reações exageradas sem nunca romper completamente com a veracidade interna da diegese. Ainda assim, fica a sensação de que um desfecho mais catártico e caótico poderia elevar ainda mais a experiência, tornando tudo mais impactante e inquietante. De toda forma, o resultado é um ensaio extremamente bem construído sobre o peso do que é dito e, talvez com ainda mais força, sobre tudo aquilo que racionalmente permanece não dito, para o bem ou para o mal.
Nota: 4/5



















