Crítica | Michael (2026)
- Ávila Oliveira

- há 3 horas
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Cinebiografia compensa bem a falta de inventividade narrativa com excesso de tom performático.

Michael é um retrato cinematográfico íntimo da vida e do legado de um dos artistas mais influentes de todos os tempos. O filme mergulha na trajetória de Michael Jackson para além da música, acompanhando sua ascensão desde a descoberta de seu talento excepcional como líder dos Jackson Five até sua consagração como um artista visionário. Guiado por uma ambição criativa incomparável, ele embarca em uma jornada intensa e incansável para se tornar o maior entertainer do mundo.
Sempre que analiso uma cinebiografia volto a falar dos dois pontos que julgo essenciais para um bom filme que trata da vida de uma pessoa real: o recorte e o estilo. Um artista da maestria de Michael Jackson, que redefiniu gêneros e influencia diretamente a cultura pop internacional até hoje, muito além da música, merecia um tratamento mais criativo e menos mecânico numa eventual e inevitável cinebiografia. Mas o trabalho de Antoine Fuqua apresenta uma versão bem linear e contida, na narrativa e na plástica. É um longa-metragem que cumpre sua função, mas sem ousar muito e sem atingir o brilhantismo que conseguiria se resolvesse se livrar das amarras comerciais.
Em relação ao estilo, e reduzindo a cinebiografia de cantores, trago como exemplos bem sucedidos Elvis (2022), de Baz Luhrmann, e Rocketman (2019), de Dexter Fletcher. Ambos contemplam de forma generalista as vidas e carreiras dos artistas que abordam, mas usam estruturas estilísticas bem distintas. Luhrmann escolhe um tratamento visual exagerado, brilhante, beirando a fantasia para rimar com a estética de Las Vegas que Elvis ajudou a criar, enquanto no filme sobre Elton John, Fletcher resolve criar um musical onde as canções do artista são catalisadores da história e não apenas números de palco. Quanto ao recorte, um bom exemplo recente é o premiado Um Completo Desconhecido (2024), onde James Mangold filma a vida de Bob Dylan através da construção do disco Highway 61 Revisited e do período cultural, social e político que permeou a vida do artista à época.
Dito tudo isto, Michael está bem longe de ser uma produção ruim ou mesmo falha. A história é bem contada e centrada numa quantidade enxuta de personagens muito bem construídos. O texto consegue, por exemplo, apresentar alguns dos conflitos internos de Michael, suas causas e desdobramentos, e também ilustrar os nomes que influenciaram na sua qualidade artística. O trabalho carece, no entanto, de expor mais do processo criativo e da edificação das produções do artista. A sequência em que se tem a criação dos videoclipes de Beat It e Thriller é indubitavelmente um dos destaques do filme. O recorte temporal encerrando no auge da carreira do cantor é uma escolha que me traz sentimentos conflitantes, porque gera um efeito surpresa quando se espera um filme generalista, ao mesmo tempo em que se sabe que a ideia ali é fazer pelo menos mais uma continuação, ainda mais tendo em vista o tanto de regravações, revisões e edições feitos que causaram o adiamento da estreia em meses.

Mas o que falta em inventividade narrativa sobra em performance. Existem várias sequências dos atores Juliano Krue Valdi e Jaafar Jackson em palcos apenas entregando simulações perfeitas de Michael criança e adulto performando, e eu não estou reclamando. É perceptível a vontade de homenagear Michael Jackson com esses momentos, são cenas criadas para uma resposta imediata do público, e nos cinemas vai reverberar com emoção. Jaafar Jackson está assustador, no melhor dos sentidos, como o personagem-título. É algo que talvez apenas a genética explique, porque para além dos covers de canto e dança, é na fala, no olhar e na postura que ele consegue dar vida a uma figura que era uma força sobrenatural nos palcos, mas completamente vulnerável fora deles. O polêmico pai dos Jacksons, Joseph Jackson, é interpretado com profundidade por Colman Domingo, sem nunca perder a aspereza no olhar e a soberba no tom de voz.
Por fim, Michael encontra sua força justamente naquilo que entende como espetáculo. Ainda que falte ousadia na forma, o respeito pela figura que retrata e um cuidado evidente em transformar cada aparição dele em um momento de reverência são escolhas positivas, haja visto o desgaste e a desgraça que fatores externos causaram em sua vida, tudo soa como um tipo de acalento. O longa prefere jogar seguro ao invés de reinventar, mas entende o peso do nome que carrega e a expectativa que o cerca. Pode não ser a cinebiografia definitiva que um artista desse porte merecia, mas é, sem dúvida, um retrato eficiente de alguém que nunca soube ser menor do que grandioso.
Nota: 3,5/5



















