top of page
Background.png
Header_Site3.png
  • Foto do escritorÁvila Oliveira

Crítica | Sou de Virgem (1ª temporada)

Boots Riley entrega com mais uma gigante amostra de afrosurrealismo bem elaborado

Foto: Divulgação


Sou de Virgem acompanha o amadurecimento de Cootie (Jharrel Jerome), um jovem negro de 4 metros de altura, em Oakland, Califórnia. Cootie cresceu escondido da companhia de outras pessoas, mas logo vivencia as belezas e as contradições do mundo pela primeira vez. Entre erros e acertos ele faz amizades, encontra o amor, passa por situações embaraçosas e encontra seu ídolo, um super-herói “de verdade” chamado O Herói.


É preciso dizer, antes de tudo, que a base do roteiro de Sou de Virgem é uma história de amadurecimento e descoberta de mundo das mais clássicas das fábulas europeias, mas o que o diretor, roteirista e criador da série Boots Riley faz com essa base é algo que ninguém consegue prever. A sutileza e o minimalismo passam longe das mãos de Riley. O cineasta estreou na direção em 2018 com o irreverente e inusitado filme Desculpe te Incomodar e agora voltou com mais simbolismos, humor e acidez em seu novo trabalho. Não existe qualquer alerta ou pista para o que ele vai tirando da cartela a cada episódio.


E assim como o personagem e o criador da série, a “mensagem” central da história também não é nada sutil. É um jovem negro que cresceu mais do que todos ao seu redor e vai ter que lidar com isso numa sociedade que não espera que jovens negros se destaquem. Mas mesmo estando na nossa cara o tempo todo, o desdobramento da narrativa é tão sagaz, a construção imagética é tão estilosa que o interesse cresce diretamente proporcional ao passar dos episódios. Ao mesmo tempo que está sempre afiado para as cutucadas em abordagens sociais, o roteiro consegue transparecer leveza e uma idiotice inocente de quem está querendo apenas se divertir não importa o que aconteça, tal qual o protagonista.

Foto: Divulgação


O elenco da série é um deslumbre. O ganhador do Emmy Jharrel Jerome – que brilhou na minissérie Olhos que Condenam – dá vida ao gentil gigante que é cheio de camadas e de detalhes que reforçam os traços do personagem. Walton Goggins também está bem divertido como mais um herói desprezível no catálogo do Prime Video. Outros pontos fortes também são Carmen Ejogo e Kara Young.


Um dos mais admiráveis movimentos da cultura negra norte-americana é o chamado afrosurrealismo ou surrealismo negro. Em 2013 a revista Black Camera da Universidade de Indiana – uma revista de estudos de filmes negros, dedicada a análise e documentação da experiência cinematográfica negra e a gerar e sustentar uma discussão acadêmica formal da produção de filmes negros – destacou o termo e suas motivações, o que estava despertando o interesse de autores e cineastas negros em construir peças que envolviam o surreal, o imaginário e suas realidades socias. Não é uma escolha criativa nova ou recente, mas percebeu-se que o momento de crescente interesse de criações desse gênero merecia um olhar mais refinado. Entre os nomes mais conhecidos estão Donald Glover, Jordan Peele, Kahlil Joseph e Beyoncé.


A professora Terri Francis, fundadora do grupo Afrosurrealist Film Society, diz que embora obras afrosurrealistas possam ter significados em níveis mágicos ou alucinatórios, o senso de realidade aumentada algumas vezes se direciona para contextos e referências políticas, culturais e étnicas atuais ou familiares. Em resumo, se espera sempre um recorte de realidade quase documental das peças culturais negras, e o uso do absurdo ilustra, exemplifica e choca ainda mais do que um registro puramente documental. E com Riley essa corrente funciona em todos os níveis de interpretação.


Ele não deixa escapar nada, a estrutura do capitalismo, grandes corporações que exploram a mão de obra do trabalhador, agendas midiáticas... o surreal de Riley é uma pintura satírica bem escrachada do cotidiano, sem ser repetitivo e conseguindo surpreender. No mais, ver Riley explorando gêneros e brincando com ângulos, cortes e montagens é um deleite.


Nota: 5/5

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page