Crítica | A Margem do Rio (Mostra de SP 2026)
Desejo, risco e a instrumentalização da fé

No universo LGBTQIA+, o cruising se refere à prática de encontros sexuais casuais (muitas vezes anônimos) em espaços públicos e semipúblicos, como parques, banheiros públicos, praias e outros lugares. No cinema queer brasileiro contemporâneo, algumas obras têm se destacado pelo enfoque ou representação do cruising, como Ato Noturno e O Labirinto dos Garotos Perdidos, explorando assim conexão entre desejo e o risco de ser pego que essa prática propõe.
A Margem do Rio também lida com esse universo, mas o faz por uma chave local, trabalhando-o no interior dos manguezais que compõem Recife. Os diretores Matheus Farias e Enock Carvalho usam essa porção tão significativa da geografia e ecossistema recifense como um local de encontros, desejos, perigo e até uma ponta de misticismo. Este último permeia, pelo menos de início, a relação que se forma entre Izaquiel (Caique Copque) e o misterioso Jeremias (Italo Martins). A atração entre os dois é imediata, mas atravessada por uma atmosfera mortal desde o primeiro encontro; e quanto mais eles se veem, mais suas vidas parecem estar em risco, especialmente quando Izaquiel passa a trabalhar na igreja do virulento pastor Eurico (Robério Diógenes).
É inegável o quanto A Margem do Rio encontra uma consonância aterradora com a realidade brasileira atual, especialmente neste contexto de segundo turno. É um filme sobre a resistência de corpos queer e não-brancos, vítimas da violência de um universo religioso cada vez mais cooptado e instrumentalizado para fins políticos. Na figura de Eurico, Robério Diógenes constrói mais uma vez uma figura desprezível digna de aplausos, mas seu personagem aqui é muito menos carismático e mais assustador que o seu delegado Euclides de O Agente Secreto (filme com quem este divide uma boa porção do elenco, além de também fazer referência ao cruising na cena da perna cabeluda).
O problema é que, quanto mais o filme se dirige ao universo religioso e o deslocamento de Izaquiel ali, mais ele abraça uma convencionalidade que o impede de alçar voos mais altos. É como se Farias e Carvalho quisessem expor a instrumentalização da fé e os rumos mais e mais violentos que ela tomou, mas é algo que já vem sendo dito à exaustão por outros filmes brasileiros contemporâneos – e com mais contundência e força na imagem. Onde os diretores realmente acertam é justamente nesse “sabor local” de se filmar o cruising, conferindo um ar de mistério às figuras encontradas naquele manguezal, normalmente filmadas em sombras ou de costas, ou à própria relação de Izaquiel e Jeremias. É até frustrante que, de mote principal do filme, essa relação passe a assumir um ar cada vez mais secundarizado, especialmente com o uso pontual de Jeremias na narrativa.
A Margem do Rio propõe e abre caminhos que nunca chega a resolver completamente, optando por uma abordagem mais convencional que mitiga o ar místico sugerido no início da obra. Suas atuações – sobretudo Copque e Diógenes – sustentam as tensões que emergem a partir do choque entre estes universos, e ele se beneficia de fazer de Recife e dos seus mangues um personagem à parte nesse entrelaçamento com o desejo e perigo sugerido pelo cruising. Mas o saldo geral é de uma obra que se contenta com um tom mais tradicional (e já quase lugar-comum no cinema brasileiro atual) quando há elementos nele que apontavam para uma obra muito mais distinta e mais forte.
Nota: 3/5












