Crítica | Dragões (Mostra de SP 2026)

há 2 horas
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Miguel Antunes Ramos explora o poder imagético do bolsonarismo e a construção (e perpetuação) de um mito.

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"Foi na imagem que ele primeiro tomou o poder. Depois, restaria a nós habitar nessa imagem. Se acostumar a ela", diz a voz de Miguel Antunes Ramos em off em determinado momento de Dragões. Essa frase parece sintetizar a hipótese principal que o diretor trabalha em seu novo filme: de como o bolsonarismo se ancorou antes de tudo no poder imagético do seu “mito”, mesmo quando ainda era apenas um deputado do baixo clero, e se assegurou na perpetuação agora assegurada pelos seus milhões de seguidores e pelos seus herdeiros políticos, como um câncer que demorará a ser extirpado do Brasil.
O bolsonarismo já aparecia como um elemento secundário, mas profundamente influente, em seu filme anterior, A Voz de Deus, que abordava as vidas de dois pastores-mirins. Neste filme, Antunes Ramos já conseguia observar atentamente o momento em que o evangelicalismo brasileiro foi cooptado pela extrema-direita. Aqui, novamente, seu olhar é capaz de captar o momento (ou os momentos) em que Bolsonaro deixa de ser um mero bufão da política brasileira para se converter em um ator de extrema relevância e cujo impacto desastroso ainda está sob investigação. E tudo isso se dá por intermédio das transformações na imagem com a qual ele se apresenta para seu público e para o país.
Desde os primeiros minutos, onde Antunes Ramos resgata o vídeo de uma manifestação pró-Bolsonaro em Fortaleza, fica evidente que este é o projeto da vida do diretor, pelo menos nos últimos 8 a 10 anos. Sua obsessão fica clara não só na narração, onde comenta dos milhares de vídeos que assistiu e compilou, mas na própria análise que faz desses vídeos, tratando-o como peças audiovisuais com determinadas escolhas de encenação, enquadramento e texto. Num dos momentos mais emblemáticos, ele disseca o conhecido vídeo de Bolsonaro falando para Maria do Rosário que “a Papuda lhe espera”, demonstrando a elaborada mise-en-scène que demonstra uma estratégia consciente, longe da abordagem “orgânica” dos seus primeiros vídeos (e o fato de criar um paralelo com um vídeo de outro parlamentar na sequência final do filme é um verdadeiro golpe no estômago).

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Por vezes, essa narração e análise “fílmica” de Antunes Ramos assume um certo ar academicista e didático que periga nos tirar do filme, especialmente considerando como em A Voz de Deus ele evitava narrações em off e deixava as imagens e discursos dos personagens falarem por si mesmos (um tipo de abordagem que eu particularmente prefiro no cinema documental). É um risco que ele assume de intervir sobre a própria imagem, mas à medida que o filme avança essa intervenção passa a funcionar de maneira mais orgânica, tendo em vista que o filme está embebido desse olhar analítico, além de evidenciar essa obsessão que o diretor compartilha conosco. Alguns dos melhores momentos são aqueles em que Antunes Ramos manipula diretamente as imagens e os vídeos para transformá-los, por intermédio da montagem e da trilha (assinada por Kiko Dinucci e Podeserdesligado) numa espécie de delírio febril, que remonta diretamente aos tempos de pesadelo que foram o governo Bolsonaro.
Em nenhum lugar isso é tão evidente como no breve segmento dedicado à pandemia, onde a narração de Antunes Ramos contrasta os progressivos e aterradores dados dos mortos e do colapso da saúde com os vídeos de Bolsonaro, cada vez mais ensimesmados e negacionistas. Impossível não sentir ódio e tristeza diante da rememoração do inferno que passamos naqueles anos, e talvez por isso seja ainda mais doloroso assistir ao filme no contexto eleitoral onde sofremos o risco de sermos governados por 4 anos (no mínimo) por outro Bolsonaro.
Porque, no fim das contas, o grande mérito de Dragões está em nos mostrar não só a construção do mito, mas como ele continua a ser retroalimentado mesmo com sua ausência de cena, agora que se encontra preso. Isso se dá antes de tudo no aprendizado com a nossa história, como na criação dos Dragões da Independência (que dão nome ao filme) a partir do mito de que os militares estiveram presentes no grito da independência, ou na icônica foto oficial de Vargas que permaneceu associada a ele mesmo após sua morte. Mas é ao escolher mostrar os vídeos de bolsonaristas – na mesma qualidade pixelada dos vídeos de seu ídolo – e sobretudo ao trazer a tentativa de golpe do 8 de janeiro como clímax do filme que vemos o quão longe estamos de superar todas as feridas deixadas pelo bolsonarismo.
Talvez Dragões seja o pior ou o melhor filme para se ver no atual contexto político que estamos vivendo, mas é inegável que é um filme que ajuda muito a responder as perguntas que certamente todos nós já fizemos em algum momento: “Como viemos parar aqui? Como chegamos a esse ponto?”. Nesse misto entre documentário, análise fílmica, comédia de absurdos, delírio febril e cinema de terror, o filme revela seu realizador como um dos mais pungentes e distintos observadores do fenômeno bolsonarista e a tragédia que representa para o Brasil.
Nota: 4/5



















