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Crítica | I Love Boosters (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 1 hora
4 min de leitura
Boots Riley mostra que a única maneira da ficção superar a realidade é dobrando a aposta e faz sua obra mais louca até agora.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em algumas das minhas críticas para a edição passada da Mostra de SP, comentei como alguns filmes, na tentativa de satirizar eventos e fenômenos do mundo contemporâneo, simplesmente não davam conta dos absurdos sociopolíticos e culturais que presenciamos dia após dia. Obras como Eddington, Bugonia e Virtuosas resvalavam em discursos óbvios e já cansados, de modo que desde então me venho questionando: como filmar uma sátira inteligente e que dê conta deste mundo absurdo em que vivemos?


Entra em cena Boots Riley, que, oito anos após Desculpe te Incomodar lança seu segundo filme, I Love Boosters. Outrora conhecido pela carreira de rapper em grupos como o The Coup, o diretor tem construído um dos cinemas mais políticos e transgressores da Hollywood contemporânea. Abertamente comunista, ele não se faz rogado em tecer seus comentários sobre raça, classe, proletariado e capitalismo, mas o que o diferencia de boa parte dos cineastas contemporâneos e seus cinemas “políticos” rasos como um pires é seu entendimento de que tais comentários devem estar antes de tudo ancorados na forma fílmica e não apenas naquilo que os personagens dizem. 


Mais importante, Riley compreende que a única forma de satirizar uma realidade tão absurda é dobrando a aposta, e por isso seus filmes (bem como sua série, Sou de Virgem), embora sejam ambientados sempre em Oakland e na região da Baía de San Francisco, existem numa outra camada da realidade, a qual conversa com a nossa, mas conta com suas próprias regras. Na sua camada mais superficial, I Love Boosters é sobre um grupo de ladras de lojas de roupas – Corvette (Keke Palmer), Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Page) – que entram em conflito com uma poderosa designer bilionária, Christie Smith (Demi Moore), mas o longa logo vai adicionando camadas e mais camadas – assim como elementos cada vez mais bizarros. À medida que a trama avança, encontramos operários em greve numa fábrica chinesa, uma torre de Pisa no meio de São Francisco, modelos-demônio, dispositivos de transporte acionados pelo materialismo dialético, seres capazes de trocar de pele e muito mais.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Parece muita coisa, assim como parece tudo maluco, e é. Mas o domínio formal de Riley é o que assegura consistência ao filme e garante que ele não se perca, mesmo quando envereda pelos caminhos mais surreais possíveis. Nem todas as piadas ou elementos deste mundo funcionam, mas de certa forma, I Love Boosters consegue essa proeza de nos impressionar até em suas falhas, visto que é um filme que exala personalidade e autoria, que não tem medo de ser bobo ou cartunesco com sua estética muitas vezes artificial e irreal, e que se compromete até o fim com o universo que cria.


Sendo um filme ambientado nesse universo da moda, um dos departamentos em que ele mais brilha é justamente no de figurino, usando das variadas roupas e cores não só como códigos para identificar os personagens, suas motivações e nuances, mas também para gradualmente explorar o conflito de classes que se instaura na obra. Isso também é evidenciado no trabalho de direção de arte e fotografia, que criam os contrastes entre estes universos que se colidem – o muquifo de Corvette, o apartamento “torto” de Christie, as lojas da sua grife ou a fábrica na China –, enquanto a combinação entre CGI e efeitos práticos potencializa ainda mais esse ar lúdico e absurdista da obra, reiterando essa capacidade de Riley de jogar com a nossa percepção de assistirmos a um mundo que está ao mesmo tempo distante e próximo do nosso.


É justamente nesse jogo de percepção que o filme potencializa seu teor político. Onde obras como as já citadas Eddington e Bugonia parecem ter medo de aprofundar em sua fabulação para lerem a realidade, I Love Boosters nos imerge primeiro na insanidade deste mundo e das relações entre os personagens para então desnudar suas camadas e nos atingir em cheio com seu mote principal, que é a luta de classes. A solidão individual de Corvette vai sendo resolvida justamente na luta coletiva, e mesmo que o longa passe longa da sutileza, essa resolução narrativa para a personagem também acontece na forma e no encadeamento dos eventos, e não apenas em um texto que subestima a inteligência do seu público.


I Love Boosters dá um passo além em termos de ambição e absurdismo em relação às produções anteriores de Boots Riley, mas mesmo que essa ambição por vezes resvale em alguns tropeços menores, é um filme para atestar a consistência do diretor e, mais do que tudo, seu inegável compromisso político. Que ele consiga fazer um filme como esse dentro do sistema de estúdio de Hollywood é quase um milagre, mas que bom que é possível. Fica aí a lição para outros diretores que, na tentativa de fazerem suas sátiras cínicas e “espertas” sobre o mundo contemporâneo, ainda estão bem de longe de alcançarem o que Riley é capaz de fazer e dizer em seu cinema.


Nota: 4/5


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