Crítica | Emergency Exit (Mostra de SP 2026)

há 1 hora
3 min de leitura
Desejo e mortalidade se entrelaçam em longa espanhol com alguns bons momentos, mas bastante apático.

Quatorze pessoas viajam em um ônibus sem destino aparente, ruminando sobre suas vidas e as mais diversas reflexões em uma jornada de tons surrealistas. Elas já estão mortas e essa é a viagem para o inferno? A resposta não é o que interessa para Lluís Miñarro, e depois de um tempo deve deixar de importar para nós, espectadores. O que realmente importa é a ligação destes variados personagens com seus desejos, ora personificados ora trabalhados através das mais diversas simbologias.
O grande mérito de Emerency Exit é em conseguir dar a cada um dos membros do seu vasto elenco o seu momento para brilhar. Claro, alguns personagens se destacam mais do que outros, mas o texto de Miñarro consegue dar a cada personagem um traço, um instante debaixo dos holofotes, e o seu elenco dá conta do trabalho. Em particular, ver a grande e saudosa Marisa Paredes em seu último papel dá ao filme uma camada quase metalinguística, não só por ela interpretar uma atriz que pode ou não ser ela mesma (toda a parte das fotos dela com outros artistas, incluindo-se Caetano e Gil, é uma das melhores partes do filme), mas até pelo desfecho da personagem, único dentre a galeria que temos em tela e que se mostra uma espécie de despedida simbólica para uma das maiores atrizes da história da Espanha. A presença dela também é uma das maneiras pelas quais o longa constrói relações com a filmografia de Pedro Almodóvar, seja em alusões diretas ou num trabalho de fotografia e direção de arte que conversa muito com a filmografia do diretor dos anos 80.
Ainda que a obra evite respostas fáceis ou óbvias, ele gradualmente desnuda o seu foco principal nas relações dos personagens com o desejo, as quais se dão nos mais variados níveis. O trabalho mais notório certamente é aquele envolvendo o Padre (Oriol Pla), mas quase todos ali têm desejos, sonhos, vontades e até mesmo frustrações que vão sendo postas em xeque pela personificação do Desejo na figura do personagem vivido por Johna Burjack, cujo corpo e presença em tela são trabalhados e filmados com um olhar aberta e desavergonhadamente queer.
Mas, embora o filme construa um universo que até nos chama pela artificialidade ou pelos trabalhos dos personagens, o todo acaba sendo uma experiência apática, muito por se revelar como uma obra de uma nota só, dada no começo e sustentada até o fim. Há esses instantes de destaque, sobretudo com o emprego desse humor fino e irônico, mas o filme nunca consegue sair muito desse registro ou nos cativar ao ponto de querermos investir 1h30 nessa jornada tão morna. Esses instantes até ajudam a conferir um certo vigor à obra sendo que ela se torna cansada demais, mas o fato de que o filme já nos cansa e parece se esgotar com cerca de 20 minutos de duração, andando em círculos a partir daí, já é por si só um mau sinal.
Emergency Exit é um filme que até nos interessa de início pela sua proposta narrativa e estética, e beneficia-se de um elenco bem-trabalhado. Mas, embora vá ser lembrado por nos dar esse adeus a Marisa Paredes em seu último papel, não há muito nele que vá permanecer conosco após a sessão. Por mais que deseje trabalhar (e trabalhe em alguns momentos) com as nossas noções de Desejo, não conta muito em favor dele os instantes em que meu único desejo era que terminasse logo.
Nota: 2.5/5



















