Crítica | Tempo à Faca (Mostra de SP 2026)

há 5 horas
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Filme aposta em um sertão estilizado, ligeiramente surrealista e não-linear, mas não consegue fugir de habituais representações estereotipadas desse espaço.

Poucos espaços do território brasileiro atraem tanto os olhares dos cineastas do país como o sertão nordestino. Desde os primeiros filmes sobre Lampião, ainda nos anos 30, passando pelo Nordestern, o Cinema Novo, o Cinema de Retomada e a produção contemporânea, o sertão continua onipresente no cinema nacional, tendo já recebido os mais diversos tratamentos e abordagens. Claro que ao longo de quase um século de produção cinematográfica “sertaneja”, alguns temas e tropos se repetem: os mitos sobre o cangaço, o beatismo, a pobreza, a aridez (física e psicológica), as narrativas de vingança, os “cabra macho” e “muié macho sim sinhô”, a força e sofrimento do povo sertanejo e por aí vai.
Tempo à Faca, dirigido por Diogo Oliveira e baseado em um roteiro original de Ruy Guerra, é mais um longa que se inscreve nessa seara, apostando numa narrativa não-linear em que passado e presente se alternam, se entrecruzam e até mesmo se fundem no mesmo plano. De um lado, o jagunço Deodato Cruz (Julio Adrião) que retorna às terras do poderoso coronel Elomar Santos (Carlos Betão) para entregar o vestido de noiva da sua filha Núbia (Nina Andrade) e acaba recebendo no caminho a companhia de outro jagunço, Floro Xavier (Vertin Moura), enviado por Elomar para matá-lo. Do outro lado, a misteriosa Neta (Agatha Moreira), a qual viaja pelo sertão numa jornada de vingança e recebe a companhia de Solange (Uiliana Lima).
Desde seus primeiros minutos, Diogo Oliveira quer enfatizar uma estética bastante estilizada que torna sua visão do sertão mais próxima do sonho do que das habituais representações imagéticas que esse espaço ganha no cinema. Longe da paleta de cores amarelada e saturada que evidencia o calor infernal do sertão, a fotografia aqui aproxima as cores de um amarronzado, quase preto-e-branco e opaco, nas sequências de Deodato, enquanto traz uma paleta mais sóbria (mas que ainda ressalta a aridez destas terras) para o núcleo de Neta. Instantes em que os dois protagonistas, mesmo separados por décadas, dividem os mesmos planos ou reagem aos mesmos eventos que atravessam o tempo – como o cangaço, já desbandado nos tempos de Deodato, mas ainda forte em suas memórias e visões – indicam o interesse da obra por uma abordagem não-linear que parece de fato rasgada à faca como o título diz, antes mesmo que entendamos a conexão (óbvia) entre os dois personagens.

Mas mesmo esse diferencial estético não ajuda o filme a sair do lugar-comum da visão que muitos diretores, sobretudo sudestinos, têm sobre o Nordeste e, mais particularmente o sertão. É novamente uma história sobre vingança e honra, sobre homens (e mulheres) duros cuja única linguagem muitas vezes é a violência, como se ainda estivéssemos no início do século XX e a única compreensão possível sobre o sertanejo fosse aquela dada por Euclides da Cunha em Os Sertões, com seu cunho naturalista e até eugenista. O lado anacrônico da obra – que apenas sugere as épocas em que se passa, e as embaralha para fins de não-linearidade – reforça essa ideia costumeira do sertão como algo fora do tempo, que existe em sua própria realidade. Num mundo em que temos obras como Cangaço Novo, a qual consegue trabalhar esses mitos sem perder de vista a contemporaneidade, me parece uma visão muito cômoda essa de tratar o sertão por esse viés anacrônico.
Não ajuda que a montagem vacile em equilibrar os seus dois núcleos, com cortes abruptos que nos jogam de um para o outro, ou que se demora demais em determinadas sequências ao ponto de esquecermos que há duas linhas narrativas existindo no filme. Além do mais, as atuações ficam presas no limite entre o natural e o caricato; é até frustrante ver Agatha Moreira presa a uma personagem de uma nota (e uma expressão) só, nesse tipo “muié macho sim sinhô”. Julio Adrião se sai melhor ao trazer as nuances, tristezas e delírios de seu Deodato, mas quem efetivamente rouba a cena – sem nenhuma surpresa – é Irandhir Santos numa participação especial que não passa de 10 minutos, mas é um dos momentos mais ricos do filme.
Tempo à Faca até tenta, mas não consegue escapar de uma representação estereotipada e já saturada do que é o sertão nordestino. Não há problema em trabalhar com certos clichês, mas ao contrário do que o cinema brasileiro ainda insiste em nos contar, o sertão não é o mesmo dos anos 20, e já não era o mesmo nos anos 40 e 70. Ele evoluiu, mudou, superou muitos dos seus estigmas. Será que nós, nesta posição de representação e olhar fornecidos pelo audiovisual, não podemos fazer o mesmo?
Nota: 2/5



















