Crítica | American Doctor (Mostra de SP 2026)

há 5 horas
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Documentário luta contra sua própria americanização enquanto busca apontar os dedos para os culpados pelo genocídio de Gaza.

Talvez um dos aspectos mais complexos da cobertura cinematográfica do genocídio em Gaza é como, em vários casos, o respaldo e o crédito só são dados para realizadores(as) que não são palestinos. Isso não é um demérito a produções como Sem Chão ou Naza (codirigidas ou dirigidas por israelenses, por exemplo), mas é frustrante ver como, aos olhos do Ocidente, só é aceitável falar do genocídio se você é de uma nacionalidade que não a palestina.
American Doctor, de Poh Si Teng, alude a essa contradição quando em determinada cena um dos seus protagonistas, Mark Perlmutter, de ascendência judaica, critica abertamente sobre a política sionista de Israel e dos EUA, ainda que reflita que o fato de ser branco lhe dá uma abertura para tecer alguns comentários que pessoas como seu colega Thaer Ahmad – outro dos protagonistas, e que possui ascendência palestina – jamais poderiam tecer. Mas o enfoque do filme reside muito mais em seus esforços colaborativos, junto ao terceiro protagonista, Feroze Sidhwa (de ascendência parsi), para levar ajuda médica às vítimas de Gaza, mesmo estando sob a mira do exército israelense e sua completa falta de pudor para atacar até mesmo hospitais palestinos.
Se tem uma coisa que American Doctor não se acanha em fazer é em apontar o
dedo para a política fascista do governo de extrema-direita de Benjamin Netanyahu e suas consequências nefastas em Gaza. Isso vem muito através das palavras dos três médicos (sobretudo de Perlmutter, o mais intempestivo dos três), mas sobretudo das imagens gráficas que aparecem ao longo do filme, de vítimas – sobretudo crianças – feridas, amputadas e até mortas. Pode se argumentar a necessidade do valor de choque dessas imagens, mas o filme apresenta uma justificativa consistente logo nos seus primeiros minutos, num diálogo de Perlmutter e Si Teng sobre como minimizar ou até ocultar essas imagens é mais ofensivo às vítimas do que mostrá-las em sua integridade, e sobre a necessidade do mundo ter dimensão do horror perpetrado por Israel. Como as recebemos diz muito da nossa sensibilidade (e se ainda a temos depois de sermos expostos a elas nas redes nos últimos anos).
Ainda assim, é inegável que o documentário está constantemente lutando contra seu próprio “lugar de fala”. A escolha por três protagonistas etnicamente tão distintos ajuda a compor um mosaico variado e multifacetado que dialoga com suas origens e vivências, ao mesmo tempo em que nunca deixamos de entender que cada um é tão americano/estadunidense quanto o outro. Só que isso vem com certas implicações: há uma consciência de um papel ativo do governo dos EUA no genocídio (já que, como nos é informado, o país é responsável por 70% da verba de Israel na guerra), mas por vezes esses personagens expressam uma certa ingenuidade quanto ao próprio sistema e país no que vivem. Momentos em que Sidhwa fala sobre a necessidade de fazer os EUA elevarem sua moral ao saírem da guerra ilustram a perspectiva ainda limitada que eles possuem. Mas considerando que mesmo no Sul Global ainda há os que idealizam os EUA como a terra da liberdade, não é de se estranhar essa mesma ideia entranhada em seus habitantes, mesmo os ditos mais progressistas.

Tal perspectiva limitada por si só não é um problema, mas é evidente o problema apontado nos primeiros parágrafos: precisamos do olhar externo, do médico americano “bonzinho” que sai de sua terra para testemunhar os horrores praticados em Gaza. O filme até se defende no sentido de mostrar como o gradativo apagamento de Gaza impede que muitas vezes os próprios palestinos levem a verdade para fora do seu território, mas isso não muda o fato de que há uma escolha deliberada de nos guiar esse olhar por intermédio dos médicos e suas ações, e não dos palestinos, como vem sendo à tona há muito no cinema mais “progressista” estadunidense. Além do mais, há uma certa condução desajeitada em momentos em que se percebe uma encenação mais deliberada, como quando personagens expressam seus sentimentos ou informações cruciais em diálogos, o que acaba jogando contra a lógica mais realista que o documentário visa imprimir por conta da clara falta de organicidade desses diálogos.
American Doctor não faz floreios quanto à brutalidade do que está contando e do que foi vivenciado por seus médicos; e, por mais indigesto que seja, não há como fecharmos os olhos para um genocídio em curso. Mas mesmo com suas melhores intenções e suas acusações mais diretas (por mais que se limitem mais a Israel e ponham os EUA em um segundo plano bastante conveniente), ainda reside a questão: em pleno 2026, o cinema já não possui a capacidade de narrar a dor do Outro por intermédio desse Outro e não apenas de um Eu já consolidado? Ou precisaremos sempre desse Eu para que seja mediada a nossa comoção?
Nota: 3/5



















