Crítica | Isabel (Mostra de SP 2026)
Marina Person e Gabe Klinger transformam o que poderia ser um retrato fútil da burguesia paulistana num longa charmoso que transborda personalidade

Isabel nunca faz questão de esconder o que é: um filme sobre burgueses paulistanos vivendo seus pequenos dramas burgueses. Em um país cujo cinema é reconhecido por sua tradição do realismo social, um filme como esse poderia soar até uma piada de mau gosto – especialmente quando, no rescaldo da polarização política, muitas produções ditas “de esquerda”, mas feitas por burgueses, tentam expressar a (auto)consciência dessa aparente contradição com resultados, no mínimo, constrangedores. Mas é como se o diretor Gabi Klinger e a atriz Marina Person (que dividem o roteiro), cientes do universo com o que estão trabalhando, o infundem com uma personalidade muito própria, que passa pelas escolhas formais e, mais do que isso, pela performance de Person.
A atriz dá vida à protagonista homônima, uma sommelier que se vê cada mais frustrada no trabalho em que se encontra, devido à visão limitada e prepotente do seu chefe (Marat Descartes). Decidida a montar seu próprio negócio de um bar de vinhos, ela encontra apoio em um investidor estrangeiro (John Ortiz), mas isso não significa que seu percurso será fácil.
Apesar de trabalhar com os códigos e especificidades desse universo enólogo, Klinger e Person estão muito mais interessados em estudar essa personagem, que se encontra presa na vida – um sentimento universal que transcende classe, raça e gênero (embora, é claro, se pronuncie de forma maior ou menor a depender do recorte). Mais do que investir no arco de Isabel para conseguir montar seu próprio bar, o filme escolhe navegar com ela ao longo dos seus altos e baixos, das suas relações – o namorado francês (Gregory Chastang), o amigo e pupilo (Caio Horowicz), a nova amiga estadunidense (Michelle Elyse) – e das suas próprias escolhas e reflexões. Nesse sentido, a performance de Person é fundamental para construir uma personagem infundida de vivacidade e personalidade, daquelas que só desejamos ser amigos tamanho o carisma que exala em tela (além de possuir alguns dos figurinos mais estilosos que vi no cinema recente).

Klinger também consegue conferir um certo ar idealizado à região central de São Paulo que, longe de exatamente ignorar os problemas dessa área, a trata com evidente carinho (e um certo quê de romantização). A escolha pela câmera de 16mm confere essa textura quase palpável às imagens, tratadas como um filtro de memória que nos permite caminhar e acompanhar Isabel em sua jornada pela cidade em busca dos seus sonhos ou de algum propósito.
Isabel é um filme pequeno, no sentido de que não possui aspirações maiores do que centrar-se na sua personagem-título e também de revelar outros lados de São Paulo pelos olhos dela. Apostando no charme deste universo (por mais elitizado que pareça) e, sobretudo, no carisma e na personalidade que transborda de sua protagonista e da performance de Marina Person, ele vai além de sua premissa um tanto batida para encontrar e nos oferecer essa abundância de personalidade.
Nota: 3.5/5













