Crítica | A Terra do Meu Pai (Mostra de SP 2026)

há 9 horas
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Paweł Pawlikowski conclui sua trilogia de dramas históricos num entrelaçamento entre a vida da família Mann e a Alemanha fraturada do pós-guerra.

Há uma certa duplicidade de sentido em Ojczyzna, título original em polonês de A Terra do Meu Pai, que acaba sendo perdida na tradução. Afinal, ojczyzna (e sua tradução em inglês, fatherland) significa “pátria”, e num filme cujos protagonistas – Thomas Mann (Hanns Zischler), o maior escritor alemão do século passado, e sua filha Erika (Sandra Hüller) –, retornam a sua pátria 16 anos após fugirem do regime nazista e a encontram dividida entre dois modelos de regime socioeconômicos, a pergunta que fica é: para o que eles estão voltando?
Na visão de Paweł Pawlikowski, a resposta está longe de ser simples. Conhecido pela visão crítica que traçou ao regime comunista na Polônia em seus aclamados longas anteriores, Ida e Guerra Fria, ele agora direciona seu olhar para a Alemanha, formando uma trilogia temática e estética. Sua parceria com o diretor de fotografia Łukasz Żal já é uma das grandes do cinema neste século, e ver A Terra do Meu Pai é ter a garantia de um espetáculo plástico, onde enquadramentos, trabalhos de blocagem e o uso do preto-e-branco já o consolidam como um dos longas mais bonitos do ano.
Mas é claro que só esse cuidado com a imagem por si só não basta, e felizmente Pawlikowski entende isso. O texto acaba soltando um ou outro diálogo didático que nos contextualiza nestas referências do período pós-guerra, como a ligação de Richard Wagner com o nazismo (ainda que renda uma das cenas mais espirituosas e hilárias do filme) ou a conexão do ex-marido de Erika, Gustaf Gründgens (Joachim Meyerhoff), com o romance Mefisto, escrito por seu irmão Klaus (August Diehl). Mas esse pano de fundo histórico é apenas um veículo pelo qual o diretor trabalha o cerne da obra, que é a relação de pai e filha e as fraturas não só em suas identidades nacionais, como também no seio familiar.

Talvez a abordagem mais fria de Pawlikowski possa afastar uma parcela do público, mas aqui ela serve justamente para evidenciar as trajetórias dos personagens principais, que, em meio a uma vida dividida entre tantos lugares, lutam para se reencontrar e se reorientar após uma trágica perda familiar, e precisam fazê-lo justamente em sua terra natal. O trabalho de Hüller pode ser o mais expressivo à primeira vista, já que a personagem é quem maior sente o impacto desta perda, mas foi a performance de Zischler quem ficou comigo ao término do filme. Seu Thomas Mann, como muitos dos maiores homens de seu respectivo tempo, tem consciência disso, e, em meio à relutância de aceitar que é um joguete tanto nas mãos de estadunidenses quanto soviéticos, vai tentando ocultar a dor e o luto até que eles enfim emergem numa belíssima sequência final ao som de Bach.
A Terra do Meu Pai pode não alcançar o mesmo nível de Guerra Fria, mas é um retorno mais do que bem-vindo de Pawlikowski à cadeira de direção após 8 anos. Pode soar familiar em alguns pontos, mas isso é mais mérito da identidade temática e estética que o diretor configurou nessa trilogia iniciada em Ida e encerrada aqui. E, uma vez que possa ser superada sua flagrante frieza, tem-se um mergulho no âmago de um pai e filha enlutados cujo resultado final é mais do que satisfatório.
Nota: 4/5



















