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Crítica | Fernanda (Festival do Rio 2026)

Foto do escritor: Aianne Amado
Aianne Amado
há 6 horas
8 min de leitura
Entre personagens, bastidores e lembranças, Pedro Waddington transforma em cinema as memórias de uma vida inteira dedicada à arte.
Imagem:Divulgação
Imagem:Divulgação

“Todo ator é um esquizofrênico”, profere Fernanda Montenegro em uma de suas inúmeras divagações ao longo do documentário que leva seu primeiro nome. Vinda de alguém que passou mais de oito décadas emprestando corpo, voz e alma a outras pessoas, a afirmação soa como um diagnóstico preciso. Como saber onde termina a atriz e começa a mulher?


Ainda durante os créditos iniciais, ouvimos uma conversa telefônica entre Fernanda e Pedro Waddington, diretor do longa. A atriz manifesta seu desconforto com a ideia de narrar a própria história. Não lhe parece adequado. Sugere, então, que outras pessoas assumam essa responsabilidade. Como se fosse possível encontrar alguém mais qualificado para contar uma vida que só ela viveu, pede para que a narrem como se ela já não estivesse mais aqui.


Acontece que, felizmente, ela está aqui, e certas mentes são simplesmente incapazes de se calar. Nem a modéstia de Dona Fernanda, seja ela genuína ou protocolar, consegue conter sua necessidade quase compulsiva de compartilhar conhecimento.


Fernanda Montenegro nunca teve medo de morrer – palavras da própria. Pensa na morte constantemente e parece mais curiosa para descobrir como ela chegará do que propriamente receosa de sua visita. Entretanto, à medida que a finitude se aproxima, a atriz demonstra certa urgência. Não exatamente a pressa de viver mais — afinal, poucas pessoas tiveram o privilégio de “viver” tantas existências em uma única vida —, mas a de transmitir aquilo que aprendeu ao longo delas. Talvez por isso, também em suas palavras, seu maior medo é a possibilidade de perder a memória.


E assim, contrariando sua própria orientação, Fernanda acaba narrando praticamente todo o documentário. Às vezes, diretamente, por meio de suas reflexões; em outras, através das incontáveis personagens que interpretou. O resultado é um curioso e delicioso exercício de “autobiografia involuntária”.


Se todo ator é mesmo esquizofrênico, Dona Fernanda é acometida com um dos casos mais extraordinários da dramaturgia nacional. São tantas personalidades habitando a mesma mulher que o filme se transforma em um passeio vertiginoso por diferentes épocas, cenários, figurinos, penteados e entonações. A passagem do tempo se revela nas transformações de seu rosto e na evolução da qualidade das imagens, que atravessam décadas de registros audiovisuais sem jamais perder aquele olhar único, poderoso, que diz muito sem proferir uma palavra sequer.


Waddington demonstra especial habilidade para brincar com esse repertório monumental. Em sequências de montagem particularmente espirituosas, reúne personagens de diferentes produções executando gestos semelhantes.  O recurso, além de divertir, oferece uma dimensão quase palpável da vastidão de sua filmografia. Quantos atores já precisaram fazer o gesto bastante específico de bater na madeira para afastar o azar durante uma cena? Fernanda Montenegro fez isso vezes suficientes para transformar a superstição em convenção. São tantas Fernandas que, vez ou outra, nos pegamos questionando se estamos mesmo falando de uma pessoa só.


Ainda assim, os momentos mais fascinantes do documentário acontecem quando encontramos a artista por trás das máscaras. Profunda conhecedora das artes, especialmente daquela à qual dedicou a vida, Fernanda transforma qualquer comentário aparentemente despretensioso em uma aula de técnica, filosofia ou história da interpretação. Como quando, em determinado momento, dirige Matheus Nachtergaele durante uma cena. Vejam bem, já estamos falando de um dos atores mais extraordinários de sua geração – e mesmo assim, as observações de Dona Fernanda acrescentam novas camadas ao trabalho do colega, revelando uma compreensão tão refinada do ofício que faz até os grandes encontrarem nela uma professora.


Para nós, meros mortais, então, é difícil assistir a Fernanda sem sentir que estamos diante de uma aula magna sobre a formação das artes cênicas brasileiras. Da fundação do Teatro dos Sete, em 1959, às montagens que ajudaram a transformar a dramaturgia nacional, passando pelas parcerias com nomes como Fernando Torres, Paulo Autran, Sérgio Britto e Gianni Ratto, o documentário recupera episódios fundamentais de nossa história cultural pelo olhar privilegiado de quem participou diretamente de sua construção. Fernanda não precisa recorrer aos livros para contar esses acontecimentos: ela estava lá. Mais que isso: ela quem ajudou a escrevê-los.


Seu grande amor sempre foi o teatro. Ela não faz a menor questão de disfarçar essa preferência. Existe algo na urgência da apresentação ao vivo, no contato direto com a plateia e na impossibilidade de interromper uma cena para tentar novamente que parece alimentar a chama mais profunda de sua vocação. O cinema, por sua vez, parece despertar sentimentos consideravelmente menos nobres. A cada nova produção cinematográfica, Fernanda anuncia que será a última. Reclama das repetições, das minúcias técnicas, das interrupções e da atenção excessiva a detalhes que, aos seus olhos, pouco acrescentam à essência da interpretação. Para quem está acostumada a dominar o palco inteiro, depender de enquadramentos, marcações e decisões de montagem parece uma espécie de tortura burocrática. Quanto às novelas, a situação é ainda menos promissora: mal recebem espaço em suas lembranças e, quando são mencionadas, é como sinônimo de mal gosto.


Ironicamente, o documentário dedica boa parte de sua duração à relação da atriz com as câmeras, ao acompanhar os bastidores de Vitória (2025), drama dirigido por Andrucha Waddington, e Velhos Bandidos (2026), comédia de Cláudio Torres, e dos preparativos para o espetáculo Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir, leitura dramática de A Cerimônia do Adeus. São trabalhos recentes, escolhidos provavelmente pela proximidade temporal com a realização do documentário, mas que acabam funcionando como um retrato particularmente eloquente de sua versatilidade.


Nos bastidores, escancara-se sua preferência. Nas coxias, Fernanda parece estar seu habitat natural: serena, séria e focada. Nos sets, por outro lado, sua impaciência frequentemente vem à tona. Felizmente, o mau humor de Dona Fernanda é um espetáculo à parte. Como a grande dama das artes cênicas brasileiras que é, demonstra contrariedade sem jamais perder a elegância. Suas reclamações, observações atravessadas e tiradas sarcásticas revelam uma capacidade cômica igualmente encantadora.


Essas intervenções divertidas oferecem um contraponto fundamental à densidade contemplativa que permeia o longa. O humor impede que o documentário se transforme em uma homenagem excessivamente solene e, sobretudo, permite que sua protagonista exista para além da reverência que costuma acompanhá-la.


Curiosamente, mesmo quando reclama do cinema, Fernanda consegue oferecer uma aula sobre sua história. Em uma de suas conversas, menciona com absoluta naturalidade a influência de Roberto Rossellini e do neorrealismo italiano sobre o Cinema Novo brasileiro, como quem comenta um acontecimento trivial do seu passado. A desenvoltura com que transita entre movimentos artísticos, referências filosóficas e experiências pessoais impressiona. Mais extraordinária, porém, é sua capacidade de relacionar tudo isso à própria prática, demonstrando que seu conhecimento nunca esteve separado do exercício da profissão.


Ao longo do filme, uma palavra retorna constantemente ao seu vocabulário: “vocação”. Fernanda descreve a atuação como uma espécie de chamado, uma certeza que se manifestou cedo e orientou todas as grandes decisões de sua vida. Não fica claro que escolheu ser atriz o seu apenas reconheceu que jamais poderia ser outra coisa. Foi nos palcos que encontrou Fernando Torres, seu marido e companheiro de trajetória, e foi ao redor deles que construiu uma família profundamente ligada ao ofício. Os filhos, Fernanda Torres e Cláudio Torres, seguiram caminhos próprios dentro da profissão, assim como outros integrantes da família. Fica difícil, para nós e para ela, determinar onde começa tal chamado e termina a influência familiar.


Essa dimensão familiar vem à calhar na intimidade que Pedro Waddington estabelece com sua protagonista. Filho de Andrucha Waddington, esposo de Fernanda Torres, o diretor pertence ao círculo de convivência da atriz, o que lhe proporciona um acesso privilegiado a situações que dificilmente surgiriam em uma entrevista convencional. Sua câmera acompanha conversas informais, esperas entre gravações, comentários espontâneos e pequenos acontecimentos que, à primeira vista, poderiam parecer insignificantes. Momentos que, graças à proximidade e sensibilidade do diretor, humanizam a lenda.


Em determinada passagem, Pedro revela a Fernanda que está sempre filmando, mesmo quando ela não percebe. A situação sintetiza uma das maiores virtudes de sua direção: compreender que uma personalidade tão fascinante dispensa grandes intervenções. Não é necessário submetê-la a um interrogatório meticulosamente elaborado, tampouco conduzi-la artificialmente por uma retrospectiva cronológica. Basta criar condições para que ela fale. Nas conversas com colegas de profissão, nas lembranças que surgem inesperadamente e até nas reclamações durante as filmagens, Fernanda acaba oferecendo respostas a perguntas que ninguém precisou formular.


Há, inclusive, um interessante jogo metalinguístico nessa relação. A atriz, habituada a participar ativamente dos processos criativos, por vezes tenta dirigir o próprio diretor – como conversa inicial, em que estabelece como gostaria que sua história fosse narrada. Waddington utiliza essas interferências com inteligência e parcimônia, sem transformar o recurso em uma muleta narrativa. Afinal, por mais tentador que seja explorar o embate entre uma artista acostumada a comandar a cena e alguém encarregado de registrá-la, o filme reconhece que sua protagonista já oferece material suficiente quando simplesmente se permite existir.


A aparente espontaneidade, entretanto, não deve ser confundida com ausência de elaboração. Pelo contrário. Há um trabalho de pesquisa e montagem admirável na maneira como o documentário articula registros de diferentes períodos, formatos e procedências. O acervo pessoal de Fernanda parece organizar, por si só, um patrimônio inestimável, mas recuperá-lo é apenas parte do desafio. Waddingon e seus co-roteiristas Carolina Albuquerque, Sergio Mekler e Renata Catharino, precisam também selecionar, contextualizar e estabelecer relações entre imagens produzidas ao longo de mais de oito décadas, encontrando uma unidade narrativa capaz de acomodar tantas histórias em apenas 118 minutos.


A fluidez do resultado impressiona. Em vez de obedecer rigidamente à cronologia, a montagem permite que uma lembrança convoque outra, que um gesto contemporâneo encontre correspondência em uma personagem de décadas atrás e que uma reflexão sobre a morte conduza naturalmente a um episódio de juventude. O passado e o presente dialogam sem que seja necessário anunciar constantemente suas transições. Na montagem de Sérgio Mekler e Renata Catharino, a trajetória de Fernanda parece se organizar segundo a lógica da própria memória: associativa e guiada por afetos.


É um daqueles trabalhos que transmitem a impressão de terem sido realizados com extraordinária facilidade – o que, para qualquer crítico, é evidência suficiente do grande esforço exigido. Fazer com que uma narrativa construída a partir de um volume tão monumental de material pareça surgir naturalmente das lembranças casuais de sua protagonista demanda uma precisão que, pelo bem ou pelo mal, raramente chama atenção para si mesma. 


A lucidez de Fernanda também merece atenção especial. Aos 96 anos, sua capacidade de refletir criticamente sobre o próprio trabalho, reconhecer limitações, reconsiderar escolhas e estabelecer conexões é afiada como a de poucos jovens. Não se trata meramente de uma memória prodigiosa, mas de uma rara disposição para analisar a própria existência. Fernanda fala frequentemente sobre sua vocação para a atuação, embora, diante de tamanha inclinação à autorreflexão, talvez devesse considerar que a filosofia perdeu uma de suas mais promissoras representantes.


Essa consciência, aliás, não surgiu com a proximidade dos 97 anos. O documentário recupera entrevistas antigas nas quais a atriz já refletia sobre o envelhecimento e a morte, revelando que a finitude há muito ocupa seu pensamento. O que muda, naturalmente, é a distância entre a reflexão e sua concretização: com o passar dos anos, Fernanda viu partir o marido, os amigos e muitos dos artistas com quem dividiu a construção de uma época. Em uma conversa com Ary Fontoura, a lembrança dos colegas falecidos revela a solidão particular de quem vive o suficiente para testemunhar o desaparecimento de quase toda uma geração.


Como membro remanescente, Fernanda tornou-se uma espécie de arquivo vivo das artes brasileiras, guardando histórias, experiências e conhecimentos que, em muitos casos, já não encontram outros testemunhos. Sua memória individual confunde-se com a memória coletiva de um país que nem sempre demonstrou o devido cuidado com a preservação de seu patrimônio cultural. Cada lembrança compartilhada representa, portanto, uma pequena vitória contra o esquecimento.


Nesse sentido, Fernanda funciona como uma carta de amor à vocação que orientou toda a existência de sua protagonista. Uma declaração construída a partir de lembranças, gestos, encontros e despedidas. Mas também adquire contornos de uma despedida, na qual a artista parece tentar compreender o significado de uma vida inteira dedicada a representar outras vidas.


Se, nos palcos e nas telas, Fernanda Montenegro passou a vida emprestando sua voz a tantas personagens, Fernanda finalmente nos dá a oportunidade de ouvir a sua própria (ainda que ela tenha insistido em terceirizar essa tarefa). Há uma ironia bonita nisso: quando sua verdadeira despedida  inevitavelmente chegar, restará ao menos o consolo de saber que o cinema – essa arte da qual tanto reclama – terá cumprido uma de suas mais belas funções: permitir que as próximas gerações continuem ouvindo a maior contadora de histórias do Brasil – desta vez, interpretando a si mesma.


Nota: 5/5


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