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Crítica | Tigre de Papel (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 8 horas
4 min de leitura
James Gray retorna ao drama criminal que o consagrou para investigar a tragédia do sonho americano, por intermédio da sua reverência ao cinema clássico.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Apesar de já ter construído uma vasta e relativamente diversa carreira, James Gray talvez tenha se tornado mais conhecido pelos dramas criminais que dirigiu em seus primeiros anos. Fuga Para Odessa, Caminho Sem Volta e Os Donos da Noite eram filmes que já demonstravam as marcas de um autor interessado em explorar personagens que lidam com um universo de crimes, códigos, lealdades e laços familiares – estes últimos presentes no restante da sua filmografia, mesmo quando enveredou por gêneros como o drama histórico ou até a ficção científica. Nesse sentido, o retorno ao drama criminal em Tigre de Papel pode parecer que ele está buscando uma zona de conforto, mas considerando que quase 20 anos se passaram desde Os Donos da Noite, é mais interessante ver como Gray, agora mais velho e com outras bagagens, explorará o gênero que o definiu.


Ambientada na Nova York dos anos 80, a trama acompanha os irmãos Pearl, Irwin (Miles Teller) e Gary (Adam Driver). O primeiro, casado com Hester (Scarlett Johansson) e pai de Scott (Gavin Goudey) e Ben (Roman Engel), parece viver o sonho americano em sua essência, com seu caráter íntegro e trabalhador e uma família margarina. Mas é inegável sua admiração (e certa inveja) pelo irmão, um ex-policial cheio de lábia e carisma que logo o envolve num esquema de prestação de serviços para imigrantes russos que querem limpar um canal no Brooklyn. Quando, em uma determinada noite, Irwin e os filhos veem mais do que deviam ao irem visitar as obras no canal, eles, Gary e Hester logo passam a ter suas vidas postas em risco.


James Gray nunca escondeu sua paixão pelo cinema clássico e de autores da Nova Hollywood como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, mas seus filmes, longe de parecerem meras cópias desses autores, constituíram-se eles próprios partes de uma filmografia por si só muito autoral. Honrando os códigos do cinema clássico, o qual na maioria das vezes priorizava a transparência – ou seja, o emprego da forma fílmica de modo que esta não se “denunciasse” ou fizesse o espectador tomar consciência dela, por mais bem elaborada que fosse – Gray filma planos como um mestre no auge do seu ofício. São instantes à primeira vista simples: personagens mergulhados em sombras que evidenciam suas complexidades morais; dispostos por um salão num trabalho primoroso de blocagem; uma câmera subjetiva em meio a um matagal; ou um plano final onde todos os elementos reunidos em cena comunicam um personagem que olha ao mesmo tempo para seu futuro e aquilo que perdeu. Mas o diretor faz parecer fácil aquilo que, por intermédio da mise-en-scène, está constantemente nos dizendo algo, além de, em conjunto com a fotografia do seu velho parceiro Joaquín Baca-Asay, imprimir uma sensação tátil a este universo, povoado de ambientações e cores decadentes.


O mais interessante é notar como Tigre de Papel estabelece uma comunicação direta com Os Donos da Noite, como se quase 20 anos não separassem os dois filmes, mas ao mesmo tempo se distingue deste ao ponto de mostrar um Gray com outros interesses e sensibilidades. Suas marcas temáticas habituais estão lá – a distância e proximidade entre crime e justiça; os laços fraternos que tanto podem unir quanto destruir; a fragilidade e ilusão do sonho americano, sobretudo dentro do núcleo familiar. Mas Gray faz daqui uma espécie de espelho de Os Donos da Noite, onde mesmos esses elementos em comum parecem ser retrabalhados ou distorcidos para criar um resultado final que é muito mais melancólico do que aparenta.

Imagem: Divulgação
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Nem todas as marcas do diretor que retornam, porém, são exatamente bem-vindas. Ele ainda tem certa dificuldade de trabalhar com suas personagens femininas para além de meros arquétipos (aqui, o da esposa presa nos estratagemas e fracassos do marido). Scarlett Johansson faz o que pode – talvez entregando até sua melhor atuação em muito tempo –, mas no fim ela não tem muito o que fazer, mesmo com a inclusão de uma subtrama que apenas tangencia o núcleo principal do filme. Ao menos este, quando está em foco, evidencia toda a força de Gray com seus temas e técnicas de direção, ganhando ainda mais pela construção do personagem de Driver, que rouba a cena com uma interpretação muito próxima dos personagens de Al Pacino em filmes policiais, mas com aquela nota para chamar de sua.


Tigre de Papel pode não ser o melhor filme de James Gray, tampouco dentro do seu microcosmo dos dramas criminais e familiares, mas é mais um longa para reforçar a sua filmografia como uma das mais interessantes e consistentes (e subvalorizadas) do cinema norte-americano contemporâneo. Talvez por seu certo anacronismo, diante da sua paixão e referências ao cinema clássico, ele possa passar muito despercebido e não receber a devida atenção que merece, mas o que é mais atemporal do que uma tragédia familiar? 


Nota: 4/5


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