Crítica | A Violência de Ninguém (Mostra de SP 2026)

há 9 horas
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Abordagem experimental e irregular minam a potência da premissa e a natureza existencialista do longa.

Em A Violência de Ninguém, somos apresentados a Mira (Larissa Corriveau), uma mulher que vaga pela porção francófona do Canadá realizando um serviço tão inusitado quanto mórbido: ela ajuda pessoas a porem fim à sua própria vida. A morte aqui não é tratada como um fim, mas sim como uma libertação para essas pessoas, muitas já lidando com doenças degenerativas ou terminais. Ainda assim, o peso dessas ações exige um custo de Mira, que, por baixa da sua fachada gélida e impassível, busca conexões humanas, por mais fugazes que sejam.
Em seus melhores momentos – concentrados sobretudo no primeiro ato –, o filme adota uma estrutura de breves vinhetas dos “serviços” de Mira, intercalados com os instantes em que ela busca formas de escape, o principal deles sendo o seu envolvimento com o jovem Pierric (Xavier Bergeron). São instantes em que o longa assume uma natureza contemplativa e existencialista, à medida que vemos a fachada da protagonista se desfazer aos poucos. Por que ela realiza tal tipo de trabalho nunca fica claro, mas o mistério confere um ar deveras intrigante e envolvente, mesmo que esses “clientes” entrem e saiam de sua vida sem termos tempo de nos envolvermos com eles.

Em meio a isso, a direção de Denis Côté segue uma abordagem experimental que ora casa, ora distrai da premissa adotada pelo filme. A imagem assume um caráter tátil, que conversa em momentos um tanto oníricos ou lembranças dos personagens, além de inicialmente enquadrar Mira com um certo distanciamento que aos poucos vai sendo quebrados conforme entendemos melhor essa protagonista. No entanto, em muitos momentos essa abordagem faz com que o filme assuma uma estética hiperestilizada que parece um tom acima do que a sua narrativa contemplativa pede.
Isso fica ainda mais evidente quando, em seu segundo ato, o filme muda radicalmente de tom ao reinserir Mira no universo dos seus empregadores, liderados pelo misterioso Ludo (Philippe Rebbot). O tom inicial de estranhamento se amplifica, mas essa atmosfera vaga se choca com a guinada narrativa. Se antes os poucos diálogos e a natureza nada direta deles até combinavam com o mistério em torno das ações e motivações de Mira, nesse bloco eles só se tornam mais e mais frustrantes, já que o filme parece desejoso de oferecer respostas e ao mesmo tempo quer continuar a retê-las do público. Há uma recuperação de vigor no ato final quando a protagonista realiza um serviço que a põe em choque com sua própria identidade e sensibilidade, mas não é o bastante para tirar o filme dessa confusão tonal na qual se meteu na segunda metade.
Inegável que A Violência de Ninguém tem seus méritos, mas é o tipo de filme onde sua premissa e construção narrativa estão em desacordo com sua própria forma. Assim, uma ideia que abre margem para várias possibilidades se esgota rápido, ao ponto de ter momentos em que você só desejaria pedir aquele copo d’água a Mira para ver o filme terminar o mais rápido possível.
Nota: 2.5/5



















