Crítica | Uma Família (Mostra de SP 2026)

há 6 horas
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Drama holando-belga aposta na direção claustrofóbica para enfatizar uma dissolução familiar, mas é minado pela sua estrutura narrativa.

Poucos temas são tão universais para a arte quanto a família, seja em sua construção, consolidação ou dissolução. Alguns dos grandes filmes da história, dos mais variados países, são sobre o esfacelamento do núcleo familiar, de modo que o tema já foi abordado por tantos ângulos que é difícil perguntar o que um filme centrado nele trará de novo. Não que cada filme tenha o dever de ser inventivo ou original, mas o que exatamente o fará se distinguir em meio à seara em que se encontra?
Uma Família, coprodução holandesa e belga, quer mostrar suas distintas qualidades nesse campo através de dois recursos. O primeiro são os planos fechados e claustrofóbicos que isolam os irmãos Nina (Celeste Holsheimer) e Eli (Finn Vogels) em meio ao cada vez mais litigioso divórcio dos pais Maria (Carice Van Houten) e Jacob (Pieter Embrechts). Já o segundo é a divisão da narrativa em três partes, as duas primeiras sendo dedicadas a cada um dos irmãos a partir dos seus pontos de vista, por vezes dos mesmos eventos.
A direção claustrofóbica e quase sufocante de Mees Peijnenburg é, sem dúvidas, o grande acerto do filme. Embora não se afaste muito de uma certa estética hegemônica dos dramas europeus contemporâneos, com a câmera de mão e os já mencionados planos fechados, tal estética aqui funciona porque valoriza a subjetividade dos dois adolescentes, presos em seus próprios mundos à medida que os conflitos entre os pais crescem. Qualquer cena em que Maria e Jacob estão perto um do outro nos induz à ansiedade, ao temor de que as interações entre os dois desencadeará em alguma discussão ou briga (como de fato acontece várias vezes), e nos deixa apreensivos pelo impacto sobre seus filhos, cujos sentimentos são deixados de lado pelos pais em meio ao processo – ou só são considerados como alguma arma a favor de cada um contra o ex-cônjuge. É como segurar a respiração por um longo tempo, e só as soltamos em breves instantes, como o belo momento em que os irmãos e o pai dançam ao som de Smalltown Boy, do Bronski Beat. Mesmo com a manutenção dos planos fechados, há uma libertação ali, mesmo que fugaz.

Entretanto, a divisão da narrativa acaba sendo uma espécie de tiro no pé, por dois motivos. Primeiramente, a repetição de certas situações a partir dos pontos de vista de cada um dos irmãos pouco agrega à trama ou ao que conhecemos deles; não é como se estivéssemos vendo Rashomon, por exemplo. Mas mais do que isso, a adoção de perspectivas individuais para Nina e Eli mina o que o filme tenta fazer em sua última e menor parte, que é justamente indicar a possibilidade de um encontrar no outro um refúgio em meio a essa crise. Pode se argumentar que a ideia é essa, mostrar o quanto ambos (ou mais especificamente Nina) estão tão presos em sua própria dor que demoram a ver que podem contar com o outro, mas o filme tarda bastante a expor essa tese, e a repetição de várias sequências, se por um lado tentam criar algum paralelismo entre ambos, acaba esvaziando o filme rápido demais.
Uma Família tem alguns valores que possam diferenciá-lo no meio do mar de filmes sobre crises familiares e separações, mas sua atmosfera quase opressiva e sufocante não é o suficiente para que nos apeguemos à necessidade de união dos seus dois protagonistas para que lidem com um momento tão traumático de suas vidas. É uma obra minada pela sua própria estrutura, e que nos deixa com a sensação de que um rearranjo narrativo a favoreceria bem mais.
Nota: 2.5/5



















