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Crítica | Behemoth! Uma Vida Composta em Peças (Mostra de SP 2026)

Vinicius Oliveira

28 de out de 2026 · 3 min de leitura

Filme consegue escapar do clichê de ser outra produção hollywoodiana sobre os bastidores do seu próprio sistema, mas ainda assim peca no que quer contar – e tocar

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

No jargão musical, um leitmotif é uma frase ou breve tema musical que se torna diretamente associado a um personagem, objeto, emoção ou cena específica. No cinema, o leitmotif passou a ser fortemente empregado por compositores desde o período clássico – basta pensar na música-tema de Max Steiner em E O Vento Levou, nos violinos frenéticos de Bernard Hermann na icônica cena do chuveiro de Psicose, ou na Marcha Imperial composta por John Williams em Star Wars e que imediatamente associamos a Darth Vader. 


Não seria a nossa vida uma constante sucessão de leitmotifs? Por exemplo, se ouço Africa, do Toto, imediatamente penso em meu pai, que me fez gostar da música e da banda. Para Alex Serian (Pedro Pascal), protagonista de Behemoth! Uma Vida Composta em Peças, as músicas nas quais toca em sessões pelos estúdios em Los Angeles, cidade a qual voltou depois de anos, remontam aos vários eventos da sua vida nos últimos anos, os amores, as dores e os traumas.

Apesar do subtítulo ridiculamente grande em português (e que vou evitar repetir pelo resto da crítica), ele faz jus ao que o filme realmente se propõe a ser: um estudo de personagem guiado através dessa narrativa não-linear, onde a música serve de fio condutor para as memórias do protagonista. É uma decisão curiosa do diretor e roteirista Tony Gilroy, que já nos aponta essa estrutura nos primeiros minutos – e, para seu crédito, não aposta em clichês como um cartão com o nome da cidade e ano para indicar onde começam os flashbacks –, desmobilizando-nos daquilo que seu marketing indicava que o filme seria: outra produção hollywoodiana metalinguística sobre os bastidores da indústria, feita para assegurar seu lugar cativo na temporada de premiações.


Entretanto, o que parece disruptivo ou fresco à primeira vista não tarda a cansar, visto que logo a estrutura do filme fica bastante demarcada: Alex começa a tocar numa das sessões e somos logo lançados a um flashback, sempre guiado pela música em questão, cujos diferentes tons e gêneros moldam nossa própria percepção sobre os flashbacks (um é um thriller, outro é um melodrama, etc). Aos poucos, Gilroy vai construindo outros tipos de cenas no presente que evitam o longa a não ficar preso a essa estrutura, mas a partir de determinado momento ele resolve abandonar por completo os flashbacks para se concentrar nesse presente, e aí o filme inevitavelmente se torna mais e mais convencional – e, por consequência, mais e mais desinteressante.


Ainda que não seja um Oscar bait dos mais óbvios, Behemoth! não deixa de expressar suas intenções “oscarizáveis”, sobretudo no destaque a Pedro Pascal. Longe de achar o ator ruim, mas talvez um tanto superestimado (ou saturado depois de aparecer em 5/6 grandes produções no último ano), aqui ele faz um trabalho discreto, mas que não exige muito de si, dada a grande carga de emoções internalizadas do seu personagem. Outros nomes, mesmo em participações pequenas, deixam sua própria marca, como Will Arnett como seu irmão mais velho e desajustado, ou Olivia Wilde como sua ex-amante possessiva.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ainda assim, é notório que dentre todo o elenco feminino ela seja a única a ter espaço para deixar essa marca (mesmo com sua personagem tão estereotipada), já que as personagens femininas existem no filme praticamente para orbitar em torno de Alex.


Ainda assim, esses deslizes poderiam ser relevados diante daquilo que o filme, pelo universo que se propõe a trabalhar, quer oferecer de melhor: sua trilha musical. Gilroy reúne nada menos do que nove compositores (incluindo nomes como seu parceiro James Newton Howard, Alan Silvestri, Michael Abels, Michael Giacchino e Henry Jackman) para compor o Behemoth! Colective, mas mesmo tendo nomes tão talentosos envolvidos, a sensação de que a música do filme nunca consegue sair de um lugar óbvio ou até mesmo genérico, reproduzindo os padrões das grandes produções hollywoodianas. É até difícil imaginar esse coletivo vencendo Ludwig Goransson por seu trabalho em A Odisseia, já que, diferente dos grandes leitmotifs do cinema e de nossas vidas, dificilmente é um trabalho que ficará guardado na memória.


Behemoth! acerta por fugir de alguns clichês, mas não tarda a descambar em outros. Até pode se dizer que Pedro Pascal o segura bem em boa parte do tempo, e que sua estrutura não-linear rende alguns dividendos, mas o longa nunca consegue trabalhar a sua proposta e ênfase musical para além da superfície. Numa dessas ironias da vida, o filme que quer nos convidar a pensar em como a música pode pulsar em nossas vidas nunca consegue ser algo mais do que uma obra morna e esquecível.


Nota: 2.5/5


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No jargão musical, um leitmotif é uma frase ou breve tema musical que se torna diretamente associado a um personagem, objeto, emoção ou cena específica. No cinema, o leitmotif passou a ser fortemente empregado por compositores desde o período clássico – basta pensar na música-tema de Max Steiner em E O Vento Levou, nos violinos frenéticos de Bernard Hermann na icônica cena do chuveiro de Psicose, ou na Marcha Imperial composta por John Williams em Star Wars e que imediatamente associamos a Darth Vader. 


Não seria a nossa vida uma constante sucessão de leitmotifs? Por exemplo, se ouço Africa, do Toto, imediatamente penso em meu pai, que me fez gostar da música e da banda. Para Alex Serian (Pedro Pascal), protagonista de Behemoth! Uma Vida Composta em Peças, as músicas nas quais toca em sessões pelos estúdios em Los Angeles, cidade a qual voltou depois de anos, remontam aos vários eventos da sua vida nos últimos anos, os amores, as dores e os traumas.

Apesar do subtítulo ridiculamente grande em português (e que vou evitar repetir pelo resto da crítica), ele faz jus ao que o filme realmente se propõe a ser: um estudo de personagem guiado através dessa narrativa não-linear, onde a música serve de fio condutor para as memórias do protagonista. É uma decisão curiosa do diretor e roteirista Tony Gilroy, que já nos aponta essa estrutura nos primeiros minutos – e, para seu crédito, não aposta em clichês como um cartão com o nome da cidade e ano para indicar onde começam os flashbacks –, desmobilizando-nos daquilo que seu marketing indicava que o filme seria: outra produção hollywoodiana metalinguística sobre os bastidores da indústria, feita para assegurar seu lugar cativo na temporada de premiações.


Entretanto, o que parece disruptivo ou fresco à primeira vista não tarda a cansar, visto que logo a estrutura do filme fica bastante demarcada: Alex começa a tocar numa das sessões e somos logo lançados a um flashback, sempre guiado pela música em questão, cujos diferentes tons e gêneros moldam nossa própria percepção sobre os flashbacks (um é um thriller, outro é um melodrama, etc). Aos poucos, Gilroy vai construindo outros tipos de cenas no presente que evitam o longa a não ficar preso a essa estrutura, mas a partir de determinado momento ele resolve abandonar por completo os flashbacks para se concentrar nesse presente, e aí o filme inevitavelmente se torna mais e mais convencional – e, por consequência, mais e mais desinteressante.


Ainda que não seja um Oscar bait dos mais óbvios, Behemoth! não deixa de expressar suas intenções “oscarizáveis”, sobretudo no destaque a Pedro Pascal. Longe de achar o ator ruim, mas talvez um tanto superestimado (ou saturado depois de aparecer em 5/6 grandes produções no último ano), aqui ele faz um trabalho discreto, mas que não exige muito de si, dada a grande carga de emoções internalizadas do seu personagem. Outros nomes, mesmo em participações pequenas, deixam sua própria marca, como Will Arnett como seu irmão mais velho e desajustado, ou Olivia Wilde como sua ex-amante possessiva.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ainda assim, é notório que dentre todo o elenco feminino ela seja a única a ter espaço para deixar essa marca (mesmo com sua personagem tão estereotipada), já que as personagens femininas existem no filme praticamente para orbitar em torno de Alex.


Ainda assim, esses deslizes poderiam ser relevados diante daquilo que o filme, pelo universo que se propõe a trabalhar, quer oferecer de melhor: sua trilha musical. Gilroy reúne nada menos do que nove compositores (incluindo nomes como seu parceiro James Newton Howard, Alan Silvestri, Michael Abels, Michael Giacchino e Henry Jackman) para compor o Behemoth! Colective, mas mesmo tendo nomes tão talentosos envolvidos, a sensação de que a música do filme nunca consegue sair de um lugar óbvio ou até mesmo genérico, reproduzindo os padrões das grandes produções hollywoodianas. É até difícil imaginar esse coletivo vencendo Ludwig Goransson por seu trabalho em A Odisseia, já que, diferente dos grandes leitmotifs do cinema e de nossas vidas, dificilmente é um trabalho que ficará guardado na memória.


Behemoth! acerta por fugir de alguns clichês, mas não tarda a descambar em outros. Até pode se dizer que Pedro Pascal o segura bem em boa parte do tempo, e que sua estrutura não-linear rende alguns dividendos, mas o longa nunca consegue trabalhar a sua proposta e ênfase musical para além da superfície. Numa dessas ironias da vida, o filme que quer nos convidar a pensar em como a música pode pulsar em nossas vidas nunca consegue ser algo mais do que uma obra morna e esquecível.


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