Crítica | Cartório das Almas
Entre a eternidade e o direito de partir

Em um futuro no qual a humanidade conquistou a possibilidade de viver para sempre, a morte se transforma em uma escolha que precisa passar pela burocracia. É a partir dessa premissa que Leo Bello constrói Cartório das Almas, ficção científica brasileira que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 29 de outubro. O longa acompanha Laura (Gabriela Correa), uma mulher de 126 anos que trabalha em uma instituição responsável por registrar os motivos daqueles que decidem renunciar à eternidade. Proibida por contrato de interferir nas decisões dos clientes, ela começa a ter a própria visão sobre a vida e a morte transformada pelas histórias que escuta diariamente.
Com apenas 1h17 de duração, o filme encontra na própria premissa um caminho para refletir sobre a morte, o sentido da existência e, sobretudo, o direito de escolha. Em um mundo no qual viver para sempre se tornou uma possibilidade, a morte voluntária deixa de ser apenas um fim e passa a representar uma decisão que precisa ser compreendida dentro das experiências individuais. A proposta provoca questionamentos interessantes justamente por inverter a lógica de uma sociedade que costuma tratar a preservação da vida como um objetivo absoluto.
A direção flerta com o cinema experimental, tanto na construção narrativa quanto na maneira de apresentar esse universo. Em vez de recorrer a explicações excessivas para estabelecer as regras dessa realidade, o longa investe na atmosfera e na observação. Essa escolha pode exigir paciência do espectador, mas também contribui para a sensação de estranhamento que sustenta a experiência.
Brasília é fundamental nesse processo. Os espaços da capital federal são explorados de maneira a reforçar a impessoalidade e o caráter burocrático desse futuro distópico. A arquitetura e os ambientes ajudam a construir um universo que parece simultaneamente familiar e deslocado, como se a frieza institucional da cidade tivesse sido levada às últimas consequências. A ambientação, nesse sentido, não funciona apenas como pano de fundo, mas como parte importante da imersão proposta pelo filme.
A fotografia também merece destaque ao valorizar os espaços escolhidos pela produção e contribuir para a atmosfera da narrativa. Há um cuidado visual que fortalece a identidade do longa, enquanto a relação entre os personagens e os ambientes ajuda a transmitir suas inquietações sem depender exclusivamente dos diálogos.

No centro dessa construção está Gabriela Correa, que entrega uma atuação bastante interessante como Laura. A atriz desenvolve a personagem com sensibilidade, tornando perceptíveis as transformações provocadas pelo contato constante com pessoas que decidiram abrir mão da eternidade. Mais do que representar uma mulher que vive há mais de um século, Correa precisa transmitir alguém cuja relação com o tempo e com a própria existência começa a ser colocada em xeque. Seu trabalho oferece humanidade a uma personagem inserida em um universo deliberadamente distante da realidade cotidiana.
Ainda que nem todas as escolhas narrativas tenham o mesmo impacto, Cartório das Almas encontra força na disposição de abordar questões complexas sem oferecer respostas fáceis. O filme provoca reflexões sobre autonomia, finitude e os limites da interferência sobre as decisões alheias. Ao imaginar uma sociedade em que a eternidade é possível, a obra desloca certezas sobre a preservação da vida e coloca a autonomia individual no centro de seu debate.
Com uma premissa provocadora, uma identidade visual bem definida e uma protagonista que sustenta o interesse dramático, o longa encontra seu espaço dentro da ficção científica brasileira. Seus resultados são irregulares, mas há ideias e escolhas estéticas suficientes para tornar a experiência instigante. Mais do que imaginar um futuro distante, Cartório das Almas usa essa realidade para questionar certezas do presente.
Nota: 3/5













