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Crítica | Dentro da Baleia

Foto do escritor: Gabriella Ferreira
Gabriella Ferreira
há 3 horas
7 min de leitura
Entre o ventre de uma baleia e as feridas de uma relação paterna, longa transforma uma aventura de sobrevivência em uma reflexão sobre luto, memória e os laços entre pais e filhos.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Desde quando eu era mais nova, lembro que uma das coisas que mais me impressionavam em Pinóquio era aquele momento em que Gepeto era engolido por uma baleia. A imagem daquele homem preso na barriga de uma criatura gigantesca, em um lugar escuro e aparentemente sem saída, sempre me pareceu uma das passagens mais assustadoras de uma história que, à primeira vista, era apenas uma aventura infantil. Mas, para além do medo e do fascínio pelo desconhecido, havia algo ainda mais interessante naquela sequência: a jornada de Pinóquio para encontrar o pai e resgatá-lo de um destino aparentemente inevitável.


O tempo passou, mas essa parte da história permaneceu na minha cabeça. E, curiosamente, Pinóquio também é uma história sobre a relação entre pai e filho. É justamente por esse caminho que segue Dentro da Baleia, novo longa de Brian Duffield, que chega aos cinemas brasileiros em 15 de outubro. Aqui, porém, a situação ganha contornos mais dramáticos: em vez de um boneco de madeira que se aventura para salvar o pai, temos um jovem que precisa enfrentar o luto e as contradições de uma relação familiar que nunca foi exatamente simples.


Baseado no livro homônimo de Daniel Kraus, o filme acompanha Jay Gardiner (Austin Abrams), um jovem mergulhador que vai à costa da Califórnia em busca dos restos mortais de seu pai, Mitt (Josh Brolin). Durante a expedição, ele acaba engolido por um cachalote de proporções gigantescas. Com apenas uma hora de oxigênio disponível, Jay precisa encontrar uma maneira de escapar antes que seja tarde demais. Em meio à luta pela sobrevivência, as lembranças e os ensinamentos do pai passam a ocupar um espaço central em sua jornada. O que começa como um suspense de sobrevivência se transforma, assim, em uma tentativa de compreender uma relação marcada por conflitos, ressentimentos e afetos difíceis de elaborar.


Ao mesmo tempo em que senti curiosidade quando descobri a premissa do longa, também tive certo receio. Afinal, construir uma narrativa em que um personagem fica preso dentro de uma baleia exige um equilíbrio delicado entre o absurdo e aquilo que conseguimos aceitar como espectadores. Como sustentar quase toda uma história em um espaço tão improvável sem que a situação se torne caricata? Felizmente, Dentro da Baleia encontra um meio-termo interessante entre essas duas dimensões. Embora não abandone completamente o caráter extraordinário de sua proposta, o filme procura estabelecer uma sensação de perigo e urgência que nos mantém envolvidas na tentativa de Jay de escapar.


Não estamos diante de uma produção que depende exclusivamente do espetáculo de monstros gigantes perseguindo seres humanos. A ameaça aqui é muito mais íntima, ainda que se manifeste por meio de uma situação extrema. O cachalote é uma presença imponente, mas a tensão não nasce apenas de seu tamanho ou dos riscos físicos que representa. Ela também vem da percepção de que Jay está isolado, com recursos limitados e sem a possibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar quando as coisas ficam difíceis.


Outro aspecto interessante é a maneira como o filme evita transformar a natureza e os próprios animais em vilões. Em um gênero que frequentemente coloca o ser humano no centro de tudo, como se o mundo natural existisse apenas para ameaçá-lo, há algo interessante na ideia de que o oceano não precisa ser maligno para ser perigoso. O cachalote não age como um monstro que persegue deliberadamente o protagonista. Ele faz parte de um ecossistema cujas dimensões e cujo funcionamento ultrapassam a compreensão e o controle humanos.


Essa perspectiva ajuda a construir uma relação mais interessante entre o personagem e o ambiente em que está preso. Jay não está enfrentando necessariamente uma criatura que deseja destruí-lo, mas uma circunstância extraordinária na qual sua sobrevivência depende de reconhecer os próprios limites. É uma diferença importante, porque desloca o conflito da tradicional oposição entre homem e natureza e reforça a fragilidade de quem acredita ter controle sobre tudo.


Ainda assim, a baleia acaba ficando em segundo plano diante daquilo que realmente move a história: a relação falida entre pai e filho. A situação funciona como um dispositivo narrativo para colocar os dois frente a frente, mesmo depois da morte de Mitt. Por meio das lembranças de Jay, o filme reconstrói a presença paterna e revela como os ensinamentos, as cobranças e as contradições do pai continuam influenciando a maneira como o protagonista enxerga a si mesmo e o mundo ao seu redor.


É aqui que a comparação com Pinóquio ganha força. Na história clássica, o interior da baleia é o lugar em que pai e filho finalmente se reencontram, e a aventura de resgate se transforma em uma demonstração de afeto e coragem. Em Dentro da Baleia, a lógica é mais amarga. Jay não pode simplesmente reencontrar o pai e resolver tudo o que ficou pendente entre eles. O que resta é reconstruir essa relação a partir das memórias, tentando separar aquilo que aprendeu com Mitt daquilo que precisa superar para seguir em frente.


A baleia, portanto, não é apenas o cenário de uma aventura improvável. Ela se transforma em uma espécie de espaço de confronto com o passado. Preso em seu interior, Jay precisa lidar com as marcas deixadas por uma relação que continua existindo mesmo depois de seu fim. O confinamento físico funciona como uma metáfora para esse aprisionamento emocional, enquanto a luta para escapar também se relaciona à possibilidade de encontrar um caminho próprio.


Mitt é um personagem particularmente interessante justamente por não ser construído de maneira simples. Em diversos momentos, sua postura diante do filho é rude, e algumas de suas atitudes provocam mais irritação do que compreensão. Ao mesmo tempo, o filme apresenta discursos sobre o universo, a existência e o lugar dos seres humanos no mundo que fazem sentido dentro da visão de mundo do personagem e dialogam com questões contemporâneas. Essa combinação torna a figura paterna mais complexa, ainda que nem sempre convincente em todas as suas manifestações.


O problema é que, em alguns momentos, o roteiro parece interessado demais em justificar ou explicar essa relação. A insistência em construir uma ligação emocional entre pai e filho acaba fazendo com que determinadas passagens soem exageradas, como se o filme precisasse nos lembrar constantemente da importância daquele vínculo. Acredito que a história ganharia força se confiasse um pouco mais nas contradições dos personagens e deixasse algumas emoções respirarem sem a necessidade de reforçá-las por meio de discursos.


Mesmo assim, a proposta funciona na maior parte do tempo. A relação entre Jay e Mitt não precisa ser perfeita ou mesmo saudável para ser significativa. Pelo contrário, parte do interesse está justamente na dificuldade de conciliar o amor por alguém com o reconhecimento de suas falhas. Há relações familiares em que o afeto não elimina a mágoa, e a morte tampouco resolve os conflitos que ficaram para trás. O longa encontra nessa contradição um de seus elementos mais interessantes.


As atuações ajudam a sustentar esse drama. Austin Abrams entrega um bom trabalho como Jay, transmitindo a vulnerabilidade de alguém que precisa lidar simultaneamente com o perigo físico, o luto e as lembranças de uma relação complicada. O ator consegue manter o interesse mesmo quando o filme depende quase exclusivamente de sua presença em cena, algo essencial para uma narrativa tão concentrada em um único protagonista.


Josh Brolin também merece destaque. Mesmo com a presença de Mitt mediada pelas lembranças do filho, o ator constrói uma figura marcante, capaz de despertar sentimentos contraditórios. Sua interpretação ajuda a dar consistência a um personagem que poderia facilmente se tornar apenas uma representação genérica da figura paterna autoritária. A dinâmica entre os dois atores é fundamental para que o conflito emocional não desapareça diante das exigências do suspense.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

É verdade que algumas escolhas dos personagens provocam raiva, especialmente quando parece evidente que determinadas atitudes poderiam ser evitadas. Ainda assim, considero interessante como o filme consegue preservar certa credibilidade emocional mesmo quando sua premissa se aproxima de situações difíceis de imaginar. Não é necessário acreditar que tudo aquilo aconteceria exatamente daquela maneira, mas é importante compreender o que está em jogo para Jay. E, na maior parte do tempo, o longa consegue estabelecer essa conexão.


Visualmente, Dentro da Baleia também encontra boas soluções para transmitir a sensação de confinamento. Apesar de grande parte da narrativa se passar no oceano e no interior do animal, as texturas ajudam a construir um ambiente desconfortável, úmido e sufocante. A fotografia e a composição das imagens contribuem para a sensação de agonia, fazendo com que o espaço pareça cada vez mais hostil à medida que o tempo de sobrevivência diminui.


Por outro lado, algumas escolhas prejudicam a experiência. Em determinados momentos, a escuridão excessiva dificulta a visualização do que acontece em cena, comprometendo justamente a imersão que o filme tenta construir. O uso de voice-over também me incomodou, sobretudo quando parece sublinhar sentimentos e ideias que já poderiam ser transmitidos pelas imagens e pelas atuações. Em uma história tão dependente da experiência física e emocional de seu protagonista, explicar demais pode diminuir a força daquilo que deveria ser sentido.


No geral, Dentro da Baleia é um bom filme de sobrevivência, capaz de oferecer entretenimento sem abrir mão de uma dimensão dramática mais profunda. Mesmo com alguns excessos e escolhas narrativas que nem sempre funcionam, Brian Duffield encontra uma maneira interessante de transformar uma premissa improvável em uma história sobre luto, memória e relações familiares. O resultado deve agradar especialmente a quem gosta de narrativas de sobrevivência, mas também oferece material para quem se interessa pelas contradições dos vínculos afetivos.


No fim, talvez seja justamente por isso que a lembrança de Pinóquio faça tanto sentido aqui. Quando eu era mais nova, o que me impressionava era a imagem de Gepeto engolido por uma baleia, preso em um lugar impossível de imaginar, enquanto seu filho precisava encontrar coragem para salvá-lo. Em Dentro da Baleia, essa imagem ganha outro significado: não é mais apenas a história de um filho que precisa resgatar o pai, mas a de alguém que, mesmo depois de perdê-lo, ainda precisa descobrir como continuar vivendo com tudo o que aquela relação deixou para trás.


Nota: 4/5


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