Entrevista | Beth de Araújo: “é uma combinação extremamente sensível de tema e personagem”

há 6 horas
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Um dia após a estreia no Festival do Rio 2026, a roteirista e diretora de Josephine conversa com o Oxente Pipoca sobre os desafios de transformar uma experiência dolorosa em arte.

Pela primeira vez na vida, pensei em abandonar uma sessão de cinema antes que o filme chegasse à metade. Não porque estivesse diante de um filme ruim — muito pelo contrário, eu conseguia reconhecer que estava assistindo a uma obra que seria discutida pela crítica especializada por muitos e muitos anos. O problema era outro: simplesmente não sabia se conseguiria suportar chegar ao fim daquela história.
Josephine – Fragmentos de um Crime acompanha uma menina de oito anos (Mason Reeves) cuja inocência é abruptamente comprometida quando ela testemunha um estupro. O acontecimento desestabiliza sua percepção do mundo e transforma sua rotina em um campo minado, afetando, consequentemente, também a rotina de seus pais, Damien (Channing Tatum) e Claire (Gemma Chan). Presentes e atenciosos, tentam ajudar a filha a lidar com o trauma da melhor forma, sem saber exatamente que forma é essa. Como proteger uma criança de algo que já aconteceu?
Se escrever essas poucas linhas sobre a premissa já me foi difícil, não consigo sequer imaginar o que Beth de Araújo precisou enfrentar para conceber, escrever e dirigir o filme. Especialmente por se tratar de uma história inspirada em uma experiência traumática de sua própria infância, a tarefa de transformar uma memória tão dolorosa em cinema exige uma coragem que sequer me atrevo a dimensionar.
Talvez tenha sido justamente isso que me fez permanecer na sessão. Eu sabia que, no dia seguinte, teria uma entrevista marcada com a diretora. Queria honrar a coragem que ela demonstrou ao contar essa história, e achei que o mínimo que poderia fazer seria permanecer ali até o último minuto. Não seria justo pedir que ela revisasse uma experiência tão dolorosa sem que eu estivesse disposta a atravessar, como espectadora, o desconforto que seu filme impõe.
Conhecê-la pessoalmente foi uma surpresa. Beth tem traços que lembram imediatamente os de Reeves. Por um instante, precisei me lembrar de que não estava diante de uma versão mais velha da pequena Josephine. Sua fala pausada e comedida, porém, contrastava com a turbulência emocional da personagem. Pela sua seriedade, fica claro que falar sobre aquela história não parecia ser uma tarefa simples para ela tampouco.
Ainda assim, Beth se mostrou aberta e generosa. Sua honestidade era desconcertante. Em determinado momento, meus olhos marejaram — uma reação pouco profissional da minha parte, embora eu não saiba se seria possível reagir de outra forma. Ela não chamou atenção, fingiu não ver. Deixou que ele passasse e continuou respondendo às perguntas com a mesma serenidade, sem se esquivar dos assuntos mais difíceis.
A seguir, vocês conferem a entrevista mais difícil da minha vida, sobre um dos filmes mais desafiadores a que já assisti. Conferem também a minha entrevista favorita, sobre um dos filmes mais importantes que já vi.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Preciso confessar que normalmente não fico nervosa para entrevistas, mas estou um pouco ansiosa para esta porque senti que, depois do filme, preciso de um tempo para digeri-lo – e assisti ontem de manhã e ainda não consegui. Então acho que minha primeira pergunta é: como foi para você conviver com essa história por tanto tempo, desde a concepção e escrita do roteiro, gravação, edição e agora a promoção?
Beth de Araújo: Tem sido desafiador. Em diferentes momentos, por diferentes razões e em diferentes graus.Eu diria que tem sido bastante desgastante emocionalmente às vezes, e em outras vezes bastante alegre. Mas eu definitivamente preciso de espaço e tempo para cuidar de mim mesma, com certeza. E acho que este projeto também foi uma forma de eu recuperar a narrativa e colocar uma perspectiva diferente sobre o passado e a situação. Esta é uma combinação extremamente sensível de tema e personagem, é claro.
Aianne Amado: Sobre isso, em algum momento você teve medo de colocar uma criança nesse tema tão adulto? E você consegue reconhecer que foi uma contadora de histórias corajosa por fazer isso?
Beth de Araújo: Não... Quero dizer, eu realmente não me vejo dessa forma. Houve tanto tempo no desenvolvimento do filme que eu nem conseguia aceitar que fui uma vítima, porque não aconteceu diretamente comigo. Então, de certa forma, parecia até menos corajoso. E, honestamente, no processo de escrita eu pensava mais como ato de desespero do que de coragem, porque eu precisava fazer isso para expurgar a história.
E sim, certamente foi uma corda bamba muito fina que caminhamos para garantir que Mason estivesse muito protegida enquanto produzíamos. Essa foi a minha maior preocupação e consideração durante todo o processo. Eu me encontrei com os pais dela após a primeira fita de audição chegar e perguntei a eles o que ela entendia sobre esse assunto. E eles disseram que o tópico já havia surgido em conversas, ela perguntou o que era e eles disseram que é “como você machuca alguém com sexo”. E eu disse: “Bem, vou deixar vocês conversarem com ela como quiserem ou, se ela tiver dúvidas, deixarei vocês lidarem com isso. Vocês conhecem melhor sua filha. Nós forneceremos um psicólogo infantil para vocês. Então, se vocês tiverem dúvidas ou quiserem conversar com eles sobre a melhor maneira de lidar com as coisas, fiquem à vontade.”E eu não sei se surgiu algo ou que tipo de conversas eles tiveram com ela.
Da minha parte, udo o que precisei ser capaz de dizer é: “este é o homem que machucou a mulher e esta é a mulher." E, obviamente, ela não estava em cena quando filmamos a agressão sexual, e usamos efeitos visuais (VFX) durante a cena de sexo. A maneira como trabalhei com Mason foi realmente conversando sobre a própria vida dela, fazendo um monte de trabalho de memória sensorial que depois colocaríamos na cena. Eu perguntava coisas como: "Quando foi uma vez que você sentiu muito orgulho de si mesma? Quando você sentiu muita vergonha de si mesma? Quando foi a última vez que você chorou?" Eu pedia para ela escrever e depois discutíamos, e então eu as atribuía a diferentes cenas para ajudá-la a regular e medir suas performances. E a mãe dela passava as falas para ela, então ela nunca leu o roteiro e só viu o filme em partes. Quando ela tiver 18 anos, caberá a ela decidir.
Nós realmente tentamos manter tudo muito leve para ela, honestamente. Eu não precisei fazer nenhum trabalho físico com ela porque ela já era muito parecida com a Josephine, muito esportiva e muito rápida. E o Channing é pai, então ele foi fundamental para garantir que as coisas fossem divertidas para ela entre as tomadas, eles brincavam e se divertiam. E acho que todo mundo realmente se divertiu, e foi muito útil até para todos nós que ela estivesse lá, porque tentamos manter tudo o mais divertido e leve possível durante os 35 dias de filmagem.

Aianne Amado: O filme não funcionaria com um ator infantil comum. Você sempre teve certeza de que encontraria alguém com o talento dela?
Beth de Araújo: Eu não deveria ter certeza, mas de certa forma eu tinha [risos]. Não sei por quê. Só senti que, como já tinha trabalhado com um ator infantil nos laboratórios de Sundance, de certa forma é apenas uma questão de encontrar um bom ator, assim como com um adulto, você só precisa trabalhar com eles de maneira um pouco diferente. Mas também tivemos muita sorte, e acho que subestimei isso. A Mason tem um talento realmente especial e acho que os atores em geral, pelo menos os bons, são as pessoas que pensam melhor com o coração. Eles não usam a cabeça. Eles sentem tudo plenamente e respondem com emoção. E a Mason é realmente muito inteligente emocionalmente para a idade dela e é capaz de fazer o que acho que a maioria das crianças não consegue.
Aianne Amado: A cena de abertura é particularmente perturbadora porque você decide retratar o crime em sua totalidade. Por que essa escolha?
Beth de Araújo: Por algumas razões. Acho que a primeira e mais importante razão para mim foi porque senti que, se você não visse isso totalmente através dos olhos de Josephine, não entenderíamos de onde realmente vinha o medo dela ao longo do filme e perderíamos nossa compreensão dela. Acho que houve outra razão também. Para mim, acho que é escolha de cada cineasta o quanto ou quão pouco quer mostrar de um estupro. Acho que não há resposta errada. Algumas pessoas escolhem mostrar em closes, ou ouvir em vez de ver, ou não ouvir nem ver e apenas sugerir completamente. Mas aí você não vê totalmente o que estamos falando. E, pela frequência com que isso acontece, raramente vemos isso retratado na arte. E não acho que isso ajude, porque estamos falando de algo muito violento. No meu trabalho como defensora de testemunhas (witness advocate), muitas vezes eu ouvia repetidamente de vítimas e sobreviventes coisas como “eu deveria ter feito mais, deveria ter lutado mais”, e você tem que lembrá-las de que o primeiro objetivo delas era se manterem vivas. E muitas vezes, quando as vítimas e sobreviventes lutam de volta, a situação fica ainda mais violenta, e isso é algo que eu queria mostrar.
Aianne Amado: Uma coisa que me chamou a atenção foi que este foi o único filme que assisti aqui no Festival do Rio em que ninguém bateu palmas ao final. Não houve aplausos porque todo mundo estava catatônico com tudo o que aconteceu no filme. Foi muito estranho – queríamos aplaudir e parabenizar o filme, a técnica do filme, mas não a história. Então ninguém tinha certeza do que fazer. Foi uma experiência realmente interessante.
Beth de Araújo: Ah, interessante. Foi uma exibição de imprensa?
Aianne Amado: Sim. Mas todo mundo aplaude mesmo nesses casos, exceto neste. Todo mundo ficou tipo: "o que eu devo fazer?". Eu queria saber qual é a reação que você esperaria do público. Era essa catatonia?
Beth de Araújo: Não sei. Sinceramente, não assisti muito com o público. Assisti uma vez em Sundance e uma vez em Berlim. E não sei porque, como não consigo entrar na mente das outras pessoas, não sei realmente como elas estão vivenciando isso… Não posso ter certeza.
Aianne Amado: [com o tempo para a conversa já esgotado] Eu tenho apenas uma última pergunta. Promover o filme, ter conversas como essa, parece uma terapia para você, de alguma forma?
Beth de Araújo: Sim. [Pequena pausa] Estou pensando. [Pausa maior] Há partes disso que são realmente difíceis, certamente. Mas, honestamente, estou tentando ser muito colaborativa sobre isso porque os distribuidores que estão lançando este filme no mundo inteiro estão fazendo algo realmente difícil. Não é um filme que você vê para se entreter. Não é algo que você usa para escapar, ou um grande filme de ação que vai garantir muito dinheiro. É um filme difícil de colocar no mundo e nós realmente queremos que as pessoas o vejam. Então, de qualquer forma que eles achem que eu possa ajudar nisso, eu quero ajudar.
Josephine estreia em 20 de novembro nos EUA. Ainda não foi divulgada a data de exibição nos cinemas brasileiros, onde conta com distribuição da Retrato Filmes



















