Crítica | O Outro Lado das Redes

há 3 horas
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Um filme tão sintético quanto o próprio Facebook.

Durante a cerimônia de abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, assistimos a O Outro Lado das Redes, dirigido por Aaron Sorkin, com estreia marcada para 22 de outubro nos cinemas brasileiros.
De cara, pode-se dizer que o filme já perde um pouco de charme na tradução. “The Social Reckoning” virou O Outro Lado das Redes, o que faz sentido considerando que o filme é apresentado como uma sequência de “A Rede Social”, de David Fincher. Porém, nem o título traduzido, quiçá o próprio filme, consegue se consagrar como uma continuação daquele longa de 2010.
Ambos têm roteiro de Sorkin, mas é justamente a direção e a construção narrativa que determinam o abismo entre os dois filmes. Em suma, talvez seja um equívoco chamá-los de sequência, já que partem de linguagens cinematográficas bastante distintas. “A Rede Social” mergulha na mente de um jovem Mark Zuckerberg, universitário e calculista, acompanhando a criação do Facebook como uma espécie de thriller sobre ambição, ressentimento e poder. Em “O Outro Lado das Redes”, o ponto de partida é a investigação jornalística do caso de Frances Haugen (Mikey Madison), engenheira de dados e ex-funcionária do Facebook que percebe padrões eticamente complexos na operação algorítmica da plataforma e vaza documentos internos da empresa para o Wall Street Journal.
O que Frances descobre é que o Facebook favorece, deliberadamente, conteúdos capazes de gerar mais engajamento e permanência na plataforma, mesmo quando isso significa impulsionar desinformação e discursos de ódio. A consequência é o fortalecimento de processos de radicalização política, o recrutamento de usuários para grupos extremistas e uma série de impactos que ultrapassam a tela do celular. É nesse momento que entra o jornalista investigativo Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), pouco familiarizado com o universo tecnológico, mas responsável por transformar os documentos de Frances em uma narrativa capaz de revelar a dimensão do problema. A partir dele, o filme também percorre os efeitos da plataforma sobre grupos extremistas, a saúde mental de adolescentes e a publicidade baseada em conteúdos falsos ou odiosos.
A narrativa é envolvente, mas alguns maneirismos chegam a incomodar a experiência do espectador. Existe uma dinâmica entre Frances e Jeff que dá ao filme seu tom mais humorístico, justamente porque os dois são personalidades opostas em gostos, métodos e habilidades. O problema é que essa química parece procurar a rapidez e o sarcasmo de “A Rede Social” sem jamais alcançar a mesma combustão. Sorkin continua escrevendo diálogos rápidos, mas a direção não encontra imagens igualmente velozes para acompanhá-los.
E claro, temos também um bom Mark Zuckerberg, interpretado pelo robótico Jeremy Strong, que não é o foco e tampouco parece querer ser. Embora seja a grande figura por trás de tudo o que acontece, sua presença tem uma finalidade bastante específica - personificar o típico CEO insensível, ambicioso e indiferente às consequências de sua própria criatura. Sua máxima é que o Facebook é apenas uma plataforma e que seus usuários são responsáveis pelo que fazem com ela. Como se as ferramentas, os mecanismos de recomendação e a própria usabilidade disponibilizada pela empresa pouco importassem na experiência.
Fica até um pouco cansativo vê-lo reforçar essa ideia entre o “não quero aceitar a verdade” e o “realmente acredito que não tenho culpa no cartório”. Talvez Zuckerberg tenha isso muito bem definido em sua própria cabeça, mas, para fins de dramatização, o roteiro parece precisar impor sobre ele uma postura de quase dúvida. O resultado é um personagem menos intrigante do que o Zuckerberg de “A Rede Social”, justamente porque aqui já sabemos quem ele é antes mesmo de ele entrar em cena.

Também precisamos dar destaque a Wunmi Mosaku e Bill Burr, coadjuvantes que ajudam a conferir um dinamismo maior às sequências de Jeremy Strong, funcionando como orientadores de uma gestão de crise diante das indisposições em que a rede social se encontra. As cenas entre os três carregam uma rapidez envolvente porque colocam em choque interesses diferentes: o bem-estar da empresa, da plataforma e de seus usuários. Curiosamente, esses embates carregam mais força e mais emblemas sobre o funcionamento daquela máquina do que a suposta grande sequência de clímax do filme, quando acompanhamos a invasão do Capitólio por extremistas de direita.
No mais, o filme tem seus bons momentos. O problema é que carregar a expectativa de suceder “A Rede Social” produz uma certa incoerência. Parece faltar algo mais ritmado para que o filme realmente engate e surpreenda. E não estou falando de plot twists. O caso do vazamento de Frances Haugen é, por natureza, tão ou mais absurdo e intenso do que a própria criação do Facebook. Ainda assim, não sentimos essa intensidade na tela.
A direção, a montagem e até a articulação entre trilha sonora e expressões de choque dos personagens carregam uma textura excessivamente sintética. É como se o filme soubesse exatamente qual reação quer provocar, mas calculasse demais o caminho até ela. Em vez de nos aproximar do horror daquilo que está sendo revelado, muitas vezes nos mantém do lado de fora, observando a engrenagem funcionar.
O Outro Lado das Redes acerta em alguns dos códigos narrativos do filme sobre jornalismo. Temos a investigação, a fonte, os documentos, a corrida contra o tempo, a tensão entre informação e poder. Mas, enquanto reproduz esses mecanismos com eficiência, perde um pouco daquilo que fazia “A Rede Social” pulsar.
O que falta é justamente o que o filme passa o tempo inteiro tentando explicar sobre as redes. Faltou um elemento humano, um elo que demonstrasse para além do choque de Frances, Jeff e os outros jornalistas. O paradoxo mais curioso de O Outro Lado das Redes é como um filme sobre um sistema construído para capturar nossa atenção termina parecendo uma máquina que sabe exatamente como funcionar, mas não entende muito bem por que deveria nos fazer sentir alguma coisa.
Nota: 3/5



















