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Entrevista | “Precisamos Falar” mostra que a política também acontece dentro de casa

Foto do escritor: Aianne Amado
Aianne Amado
há 3 horas
6 min de leitura

Marjorie Estiano, Emílio de Mello, Pedro Waddington e Rebeca Diniz refletem sobre o thriller psicológico que, pelo "milagre do cinema", estreia às vésperas das eleições de 2026.


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Às vésperas de uma eleição, um escândalo é denunciado nos telejornais e ganha amplitude na internet, obrigando a família de um dos candidatos a se reunir para traçar uma estratégia apressada.


Poderia estar falando do Brasil de setembro de 2026, mas é a premissa de Precisamos Falar, novo longa-metragem codirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, que marca a estreia de ambos na direção de longas de ficção.


A obra, roteirizada por Sérgio Goldenberg, discute valores morais e privilégios a partir do conflito entre dois núcleos familiares após um crime cometido por adolescentes da elite carioca. Ao colocar em choque diferentes visões sobre responsabilidade, proteção e Justiça, Precisamos Falar também se aproxima da polarização que atravessa o debate público brasileiro nos últimos anos. Talvez por ser esse reflexo tão fidedigno, foi selecionado para representar o Brasil no Festival de Biarritz (França), Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano (Cuba, com Menção Honrosa) e Festival de Huelva de Cinema Ibero-Americano (Espanha).


O Oxente Pipoca conversou com Marjorie Estiano e Emílio de Mello, protagonistas do filme, e com os diretores Pedro Waddington e Rebeca Diniz sobre as dimensões políticas da história, a construção dos personagens, os desafios da estreia na direção de um longa-metragem de ficção e as escolhas que deram forma à obra.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Queria começar falando sobre o momento em que esse filme está sendo lançado: às vésperas de mais uma eleição muito importante para o nosso país. E o filme vem mostrar que, é, decisões políticas vão além das urnas – também tá dentro de casa, das relações familiares. Nesse sentido, vocês consideram Precisamos Falar como um filme político?


Marjorie Estiano: Eu concordo com você. Eu acho que nós somos um conjunto de escolhas que a gente faz. Somos seres políticos em tudo: no que a gente veste, no que a gente come, no nosso consumo, na nossa relação. Eu acho que esse filme não tem como não ser político, porque ele fala diretamente sobre comportamento e sobre visão de mundo, do individual e do coletivo – passando pelas relações, pelas escolhas, pelos valores… 


Aianne Amado: Eu fiquei bem surpresa quando descobri que era baseado em "O Jantar" [do autor holandês Herman Koch], de 2009, porque é muito atual. 


Emilio de Mello: Isso faz parte do milagre do cinema. O filme foi feito há 2 anos e meio atrás!  Lógico, a situação era parecida, mas agora, às vésperas de uma eleição, ele está muito mais latente: um escândalo às vésperas de uma eleição – o que acontece no filme, é o que a gente está vivendo agora no Brasil. É impressionante como o timing do filme casa. Eu acho que isso está a nosso favor. E é bom que esteja a nosso favor, é bom que a gente esteja discutindo isso às vésperas da eleição com um número de eleitores indecisos muito grande. Vão ser esses eleitores que vão decidir o futuro, os próximos quatro anos do nosso país. 


Aianne Amado: Pedro e Rebeca, vocês escolheram como o primeiro longa um thriller psicológico, que é a adaptação de um best-seller, tem um dilema moral e toca em feridas sociais brasileiras. Por que vocês escolheram começar com uma história tão desafiadora assim, já na estreia?


Pedro Waddington: Então, esse filme surgiu primeiramente como um convite. Já existia a elaboração de uma adaptação feita pelo Sérgio Goldenberg, com a supervisão do Jorge Moura. Ele já tinha um desenho, já tinha um roteiro até. O grande desafio ali era pegar um filme que já estava escrito, de um assunto do qual a gente tinha que se imbuir, estudar e se relacionar com ele. Acho que, nesse papel, o Sérgio Goldenberg foi muito generoso de trazer a gente para as conversas, até trazendo o elenco para perto. Então, fomos trazendo pontos de vista para fazer dessa história um pouco mais nossa também, e esse foi um pouco o caminho da adaptação. 


Rebeca Diniz: A adaptação chegou para a gente, fomos fazendo essa colaboração e o filme vai ganhando formas. À medida que você vai se aprofundando em todos os processos, a gente vai conseguindo entender: "isso aqui a gente pode deixar mais ou menos tenso", "isso aqui a gente pode fazer dessa forma". Tudo isso fomos descobrindo no processo de fazer o filme. As escolhas que fomos fazendo ao longo do caminho geraram uma cara mais tensa, mais reflexiva, ou que abrisse completamente a obra, enfim.


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Aianne Amado: Mas apesar de ser o primeiro longa em ficção de vocês, os dois têm um repertório muito grande no audiovisual em diversos outros formatos. Vocês sentiram alguma diferença em fazer entre esses formatos? 


Pedro Waddington: Na verdade, desde que comecei a fazer cinema, o que eu almejava era fazer ficção em longa-metragem. Sempre foi um desejo. É talvez o formato que mais me chama para criativamente. Eu acho que o longa-metragem, em comparação com séries, tem um pouco mais de liberdade de estrutura, por ser mais conciso e por você não ter que dar conta de um formato que se fecha em um episódio e depois tem outro. Mas isso é uma opinião totalmente pessoal.


E já que você falou da nossa experiência ser um pouco múltipla, acredito que, na posição de dirigir um filme, somos todos uma certa esponjinha. Eu fiz muita coisa no campo documental, e acho que esse olhar [presente em Precisamos Falar] um pouco mais omisso da história, vendo um pouco mais de longe, deixando as coisas acontecerem, vem muito desse aspecto documental das coisas que já fiz. Acho que as coisas se complementam, e isso está um pouco impresso no filme, no tipo de câmera.


Rebeca Diniz: É, talvez a nossa experiência seja um pouco contrária do que normalmente acontece com uma pessoa que faz um primeiro longa. Normalmente, a trajetória é você fazer o seu primeiro longa e, posterior a isso, com essa experiência, receber outro tipo de convite. Em um certo sentido, temos uma trajetória um pouco reversa, mas compartilho com o Pedro que eu queria me tornar diretora para fazer cinema.


A experiência de colocar uma história na experiência coletiva de todos assistirem a uma coisa — a sala escura e as reações coletivas de algo que você dirigiu ali — é uma experiência que está no desejo da criação. Ao mesmo tempo, você dirige com todo o seu trajeto. A possibilidade de eu fazer esse filme hoje, como meu primeiro filme, está completamente relacionada com todo o meu trabalho anterior.


Realmente, meu desejo maior é de fazer cinema; é um lugar onde fico mais feliz, não só pela liberdade criativa, mas porque é um lugar diferente. É o misto de um sonho realizado com um lugar onde você estabelece a sua liberdade e o limite ao outro.


Aianne Amad (Entrevistadora): Marjorie, eu conheci seu trabalho como uma adolescente rebelde em Malhação. E Emilio, você já viveu um jovem militante em Anos Rebeldes. E aí agora, décadas depois, vocês estão do outro lado da relação: são os pais que estão tentando lidar e colocar responsabilidades nesses jovens mais problemáticos. Como vocês conseguem traçar um paralelo nessa perspectiva? 


Emilio de Mello: A gente vai amadurecendo enquanto ator e aí a gente vai dando outros passos na vida. E isso é uma coisa que não tem jeito. O tempo no trabalho do ator é uma grande riqueza. Eu acho que, sem dúvida, tanto eu quanto a Marjorie somos melhores atores hoje do que éramos 20 anos atrás. Então a gente vai maturando a nossa profissão, vai tendo mais instrumentos para fazer personagens diferentes – com cores diferentes, com posturas diferentes, com temperaturas diferentes. Ao contrário do jogador de futebol, que vai ficando mais velho e vai perdendo, não podendo mais dar o melhor, nós, atores, vamos trabalhando cada vez melhor.


Aianne Amado: O filme vai se construindo também a partir do choque de aparências. Eu notei, por exemplo, que o figurino e o cenário das duas famílias são parecidos, mas têm diferenças muito pontuais. Vocês sentem que essas ferramentas de direção de arte ajudaram na construção dos personagens de vocês?


Marjorie Estiano: Eu acho que sempre localiza. É sempre um trabalho colaborativo de camadas. Às vezes a gente conhece a locação e o espaço em que a gente vai habitar enquanto personagem um pouco antes de começar a filmar. E são elementos que falam muito sobre o seu personagem: como é que é a cama, o que que ela tem na cabeceira, a bolsa, a roupa, a sala de jantar, o espaço todo. Isso contribui demais para mim. Você vai descobrindo mais a personagem a partir desse olhar dos outros artistas que estão construindo o mesmo personagem com você. Não somos o único criador do nosso personagem – muito pelo contrário. A caracterização, a cor do cabelo, a roupa que usa, os objetos… isso vai falando muito sobre o comportamento, sobre o dia a dia, sobre o que é naturalizado. 


E ver aquela casa que é um pouco decadente, um pouco abandonada, que claramente não tá no melhor momento – assim como aquela família que a gente já pega no momento em que eles já não são o que já foram, contribui demais para ganhar mais contorno e mais camada.


Emilio de Mello: É o coletivo do cinema. Realmente, não é só a gente que estuda os personagens, é toda a equipe, todos os artistas envolvidos estudando esses personagens com a gente e nos ajudando a compor isso. É muito importante.


Protagonizado por Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello, o filme também conta com Thiago Voltolini, Cauê Campos, Guilherme Cabral e Julia Svacinna no elenco. Precisamos Falar chega aos cinemas de todo o Brasil em 24 de setembro de 2026.


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