Crítica | Ray Gunn (Mostra de SP 2026)
Brad Bird enfim dá vida ao seu projeto dos sonhos em animação que mescla os clichês do noir com aventura retrofuturista

As raízes de Ray Gunn remontam ainda aos anos 80, quando Brad Bird – muito antes de dirigir clássicos da animação como O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille – teve a ideia para o longa a partir do seriado de detetive Peter Gunn, a música Planet Claire do B-52s e seu amor por filmes noir e a ficção científica retrofuturista. Muitas décadas se passariam até Bird enfim concretizar o filme que nasceu desse caldo de influências, mas ele enfim está entre nós, embora de forma limitada nos cinemas (já que será distribuído pela Netflix em dezembro). E, como todo projeto de caráter pessoal, Ray Gunn exala a paixão do seu realizador, mas isso não o exime de alguns problemas perceptíveis.
Ambientado na metrópole retrofuturista de Metropia, o filme segue seu protagonista homônimo (Sam Rockwell), o último detetive particular humano da cidade que, junto com seu parceiro alienígena, Olhívio (Tom Waits), tenta sobreviver a base de trabalhos mal pagos e com altos riscos de sobrevivência. Quando ele é contratado pelo produtor Arnold Dom (Bobby Cannavale) para investigar uma suposta traição da sua esposa, a superstar Venus Nova (Scarlett Johansson), Ray e Olhívio logo são envolvidos numa conspiração que abarca o mundo do entretenimento de Metropia, o submundo do crime e as tensas relações entre humanos e alienígenas, estes constantemente postos em posições subalternas.
Embora Bird faça de Gunn um detetive um tanto menos cínico e mais idealista do que o padrão do noir, o diretor abraça as diversas convenções do gênero e as funde numa estética que é de longe o ponto alto do filme. Embora já fosse devedor do retrofuturismo em O Gigante de Ferro, Os Incríveis e até no seu malfadado Tomorrowland, Bird talvez nunca tenha abraçado a estética com tanto fervor como aqui, onde gângsteres alienígenas se misturam a personagens em mochilas a jato, arranha-céus podem ter mais de 200 andares e carros diretamente saídos dos anos 30 podem voar. A trilha sonora de Michael Giacchino, habitual parceiro de Bird, pode ser mais discreta do que em outros trabalhos anteriores da dupla, mas também opera nesse limiar entre passado e futuro, nos imergindo em um mundo muito reconhecível e, ao mesmo tempo, muito próprio. É o tipo de trabalho visual que só seria possível por intermédio da animação e mais do que justifica o filme ser feito nesse formato.

O filme também aproveita a liberdade de não estar nas amarras do sistema Disney/Pixar para introduzir um certo grau a mais de violência, mesmo dentro dos parâmetros de uma aventura infanto-juvenil. Ou seja, nada muito explícito, mas que consegue dialogar com as maneiras pelas quais gêneros da Hollywood clássica driblavam o código Hays em suas brechas. Isso também se evidencia no trato dos diálogos, que resgatam aquele charme e cinismo do cinema clássico (ainda que aqui e ali caiam em certas obviedades) e são fortalecidos pelo trabalho de performance de voz do elenco. Embora o próprio Gunn em si pareça um pouco “travado” em suas expressões, Sam Rockwell dá o toque idealista e cansado necessário ao personagem, mas são Tom Waits e Scarlett Johansson quem roubam a cena. O primeiro, com sua habitual voz rouca, é o contraponto cínico de que o protagonista precisa; enquanto a segunda explora a sensualidade tipicamente associada à sua persona para compor não só a figura pública de Venus Nova, mas também o lado femme fatale demandado à personagem, sem, no entanto, deixar de lado a vulnerabilidade e outras facetas que Venus vai apresentando ao longo da narrativa.
Ao mesmo tempo, esse trato visual e estético, ou o seu charme inerente, não exime do fato de que, para bom conhecedor do noir, é muito fácil adivinhar para onde o filme está indo e quais exatamente serão suas reviravoltas. Não que Bird precisasse revolucionar o gênero, mas o roteiro parece querer dar várias voltas apenas para nos desviar da sua própria simplicidade. Além disso, se a divisão entre humanos e alienígenas dá margem a vários paralelos e comentários sociopolíticos, não deixa de ser uma escolha “segura” onde os alienígenas nada mais são do que outra alegoria para os marginalizados (seja em termos de raça ou sexualidade); o tipo de coisa que a Disney/Pixar vem fazendo nos últimos anos e que as pessoas consideram progressista, mas não deixa de ser uma posição um tanto covarde ainda nos dias de hoje. Ao menos, em outros pontos, o filme efetivamente acerta, como nas piadas relacionadas às propagandas que dialogam com a invasão de privacidade que sofremos nas mãos das Big Techs, ou o comentário ácido ao uso das IAs para explorar uma figura pública mesmo após sua morte.
Entre seus acertos e erros, Ray Gunn finalmente vem à luz e mostra porque Brad Bird é um dos nomes mais indiscutíveis quando se trata da animação ocidental dos últimos trinta anos. Não é seu melhor filme, mas é uma boa porta de entrada para se compreender mais do que torna o noir um gênero tão fascinante ainda hoje em dia – e, sobretudo, mostra o poder imaginativo e imagético da animação, capaz de dar vida a mundos tão vastos e ilimitados de forma que um live-action jamais poderia.
Nota: 3.5/5













