Crítica | O Bosque Selvagem
Animação não economiza no visual para criar fábula moderna espirituosa

Existe um bosque escondido logo depois da cidade, um lugar que não aparece em nenhum mapa e de onde dizem que ninguém volta. É para lá que uma revoada de corvos leva o irmão de Prue (Giulia Benite), enviados por uma feiticeira que precisa dele para seus planos sombrios. Sem pensar duas vezes, Prue parte para O Bosque Selvagem para salvá-lo, ao lado do amigo Curtis. Lá dentro, os dois encontram um mundo mágico, cheio de perigos, criaturas encantadas e segredos antigos. Das mãos que criaram Coraline, chega aos cinemas uma história sobre coragem, amizade e os laços que nos movem.
Nunca vou deixar de exaltar o trabalho artesanal de altíssimo nível que se requer na produção de um stop motion. Em um cenário de grandes estúdios onde cada vez mais surgem animações sem qualquer espírito, personalidade ou textura, os stop motions sempre apresentam pelo menos uma dessas características. O Bosque Selvagem vai além e transforma o próprio cuidado com a construção das imagens em um dos grandes trunfos da experiência, revelando como a materialidade dos bonecos e dos cenários ainda pode oferecer algo que dificilmente se encontra em outras técnicas de animação.
Baseado em um romance de fantasia de mesmo nome, o filme apresenta uma fábula moderna sustentada pelos critérios dos clássicos: animais antropomorfizados, lição de moral bem pontuada e uma estrutura narrativa fechada. A obra encontra espaço nessa disposição de fatores para desenvolver suas próprias ideias sem deixar de lado a simplicidade que torna esse tipo de história tão eficiente.
A elaboração das cenas de ação e o nível de detalhamento no desenho dos personagens e das ambientações ajudam na imersão nesse universo. Cada movimento, expressão e elemento dos cenários parece pensado para conferir identidade àquele mundo, tornando a experiência visualmente rica sem cair na armadilha de parecer apenas mais uma fantasia produzida pelo cinema estadunidense. Existe inventividade na maneira como o filme ocupa a tela, especialmente quando a dinâmica do stop motion é explorada para dar peso e presença às ações. Um trabalho que merece ser apreciado pelo resultado e também pela dedicação que transparece em cada quadro.
O Bosque Selvagem (Wildwood) é um filme emocionante e cheio de vontade de surpreender, tanto pela narrativa quanto pelo visual. Mesmo recorrendo a uma estrutura de texto que segue um caminho linear, encontra força na execução e no carinho evidente com que constrói seus personagens e situações. Em tempos de produções cada vez mais preocupadas em impressionar apenas pela escala, é revigorante ver que espírito, personalidade ou textura ainda são relevantes, e fazem uma diferença grande quando são priorizados.
Nota: 4,5/5












