Crítica | A Leste do Éden (Minissérie)

há 3 horas
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Adaptação de Zoe Kazan explora o bem e o mal sem maniqueísmo em uma das melhores estreias do ano.

Baseada no livro de John Steinbeck que já foi adaptado para o cinema por Elia Kazan - avô de Zoe - e estrelado por James Dean, a trama acompanha a vida dos irmãos Trask, Adam (Christopher Abbott) e Charles (Mike Faist), que muda drasticamente com a chegada de mulher machucada à sacada de sua fazenda. A mulher se chama Cathy (Florence Pugh) e ela tem um passado sombrio e intenções misteriosas, o que provoca uma ruptura entre os irmãos, desencadeando um enredo que atravessa gerações, seguindo os filhos de Adam e Cathy, Cal (Joseph Zada) e Aron (Joe Anders).
Eu confesso que não li o livro, só assisti ao filme, sendo assim, não esperem um texto de comparação de fidelidade. Adaptação boa é aquela que se basta, felizmente é o caso desta excelente minissérie. Zoe Kazan escolhe contar sua história abordando a dualidade do ser humano, mas de uma maneira muito mais multifacetada. O foco na figura de Cathy não é à toa e é o que norteia os temas centrais desta releitura bíblica. Eva, na Bíblia, é quem faz Adão pecar. A figura desta mulher que cede às tentações e leva o homem ao pecado, aqui é substituída (ou representada) por uma mulher que precisou aprender a se virar muito cedo em um mundo que pouco lhe favorecia. Cathy usava as armas que tinha, ainda que por meios extremamente questionáveis. Florence Pugh incorpora a personagem de uma maneira avassaladora, ainda que sutil, em olhares desconfiados e ao mesmo tempo enigmáticos. Não é fácil de interpretá-la e a imprevisibilidade é um fator constante no que diz respeito à Cathy.
De início, o que pode parecer um desenvolvimento de um triângulo amoroso, se mostra muito além, principalmente quando se trata de herança. A história bíblica de Caim e Abel, onde um é mau e o outro é bom, também ganha uma nova roupagem no Vale das Salinas, onde a trama se passa. Cal seria Caim, quando Aron seria Abel. Sem revelar detalhes do que acontece na minissérie, Cal acredita que herdou da mãe seu lado mais perverso e é neste sentido que entra um personagem que ganha mais destaque na adaptação. Lee (Hoon Lee) é um homem sino-americano que trabalha na fazenda de Adam e o ajuda a criar os filhos. É um personagem íntegro, inteligente e que tem muito mais a dizer do que aparenta de início. É ele que apresenta o conceito de Timshel, palavra hebraica que, em sua, significa "tu podes”. Ou seja, você pode escolher se vai seguir um caminho bom ou mau. Pecar ou não pecar.

Nossas escolhas nos fazem quem somos e os sete episódios escritos por Zoe Kazan são o resultado disso, mas sem colocar aquelas pessoas em caixinhas de bons ou maus, embora Cathy e Lee pareçam ser exatos opostos. Poderia ser Adam, mas ele é bem menos interessante do que Lee, devo ressaltar. Há muito mais nuance em um ser humano e por mais terríveis que sejam algumas ações sejam, ninguém pode ser resumido somente aquilo. A cena final de Cathy é um reflexo de tudo isso e não deixa de ser trágica. Todo o capricho com o texto de Kazan é permeado por diálogos ricos e complexos e acompanhados por um design de produção que faz um retrato perfeito do final do século XIX e início do XX e uma fotografia detalhista. Em séries, nem sempre o mesmo diretor dirige todos os episódios e aqui, coube a Garth Davis e Laure de Clermont-Tonnerre acompanhar o tom do roteiro sóbrio de Kazan, sem medo de mostrar absolutamente nada, mas com elegância o suficiente para não ser meramente um choque gratuito em sequências mais difíceis, além de dar o espaço necessário para o elenco brilhar e explorar as camadas daqueles personagens.
A Netflix todo ano vem lançando uma ou mais minisséries que se destacam entre público e crítica. Neste ano, A Leste do Éden cumpre com maestria este papel.
Nota: 4,5/5



















