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Crítica | A Leste do Éden (Minissérie)

Foto do escritor: Filipe Chaves
Filipe Chaves
há 3 horas
3 min de leitura

Adaptação de Zoe Kazan explora o bem e o mal sem maniqueísmo em uma das melhores estreias do ano.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Baseada no livro de John Steinbeck que já foi adaptado para o cinema por Elia Kazan - avô de Zoe - e estrelado por James Dean, a trama acompanha a vida dos irmãos Trask, Adam (Christopher Abbott) e Charles (Mike Faist), que muda drasticamente com a chegada de mulher machucada à sacada de sua fazenda. A mulher se chama Cathy (Florence Pugh) e ela tem um passado sombrio e intenções misteriosas, o que provoca uma ruptura entre os irmãos, desencadeando um enredo que atravessa gerações, seguindo os filhos de Adam e Cathy, Cal (Joseph Zada) e Aron (Joe Anders). 


Eu confesso que não li o livro, só assisti ao filme, sendo assim, não esperem um texto de comparação de fidelidade. Adaptação boa é aquela que se basta, felizmente é o caso desta excelente minissérie. Zoe Kazan escolhe contar sua história abordando a dualidade do ser humano, mas de uma maneira muito mais multifacetada. O foco na figura de Cathy não é à toa e é o que norteia os temas centrais desta releitura bíblica. Eva, na Bíblia, é quem faz Adão pecar. A figura desta mulher que cede às tentações e leva o homem ao pecado, aqui é substituída (ou representada) por uma mulher que precisou aprender a se virar muito cedo em um mundo que pouco lhe favorecia. Cathy usava as armas que tinha, ainda que por meios extremamente questionáveis. Florence Pugh incorpora a personagem de uma maneira avassaladora, ainda que sutil, em olhares desconfiados e ao mesmo tempo enigmáticos. Não é fácil de interpretá-la e a imprevisibilidade é um fator constante no que diz respeito à Cathy. 


De início, o que pode parecer um desenvolvimento de um triângulo amoroso, se mostra muito além, principalmente quando se trata de herança. A história bíblica de Caim e Abel, onde um é mau e o outro é bom, também ganha uma nova roupagem no Vale das Salinas, onde a trama se passa. Cal seria Caim, quando Aron seria Abel. Sem revelar detalhes do que acontece na minissérie, Cal acredita que herdou da mãe seu lado mais perverso e é neste sentido que entra um personagem que ganha mais destaque na adaptação. Lee (Hoon Lee) é um homem sino-americano que trabalha na fazenda de Adam e o ajuda a criar os filhos. É um personagem íntegro, inteligente e que tem muito mais a dizer do que aparenta de início. É ele que apresenta o conceito de Timshel, palavra hebraica que, em sua, significa "tu podes”. Ou seja, você pode escolher se vai seguir um caminho bom ou mau. Pecar ou não pecar. 

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Nossas escolhas nos fazem quem somos e os sete episódios escritos por Zoe Kazan são o resultado disso, mas sem colocar aquelas pessoas em caixinhas de bons ou maus, embora Cathy e Lee pareçam ser exatos opostos. Poderia ser Adam, mas ele é bem menos interessante do que Lee, devo ressaltar. Há muito mais nuance em um ser humano e por mais terríveis que sejam algumas ações sejam, ninguém pode ser resumido somente aquilo. A cena final de Cathy é um reflexo de tudo isso e não deixa de ser trágica. Todo o capricho com o texto de Kazan é permeado por diálogos ricos e complexos e acompanhados por um design de produção que faz um retrato perfeito do final do século XIX e início do XX e uma fotografia detalhista. Em séries, nem sempre o mesmo diretor dirige todos os episódios e aqui, coube a Garth Davis e Laure de Clermont-Tonnerre acompanhar o tom do roteiro sóbrio de Kazan, sem medo de mostrar absolutamente nada, mas com elegância o suficiente para não ser meramente um choque gratuito em sequências mais difíceis, além de dar o espaço necessário para o elenco brilhar e explorar as camadas daqueles personagens. 


A Netflix todo ano vem lançando uma ou mais minisséries que se destacam entre público e crítica. Neste ano, A Leste do Éden cumpre com maestria este papel. 


Nota: 4,5/5


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