Crítica | O Samurai e o Prisioneiro (Mostra de SP 2026)

há 8 horas
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Kiyoshi Kurosawa traz sua própria visão sobre o cinema de samurai em filme que encanta pela direção de arte e encenação, mas peca pela estrutura repetitiva.

Embora tenha se destacado pelos seus thrillers/terrores psicológicos, Kiyoshi Kurosawa sempre foi um diretor marcado pela versatilidade de gêneros em sua carreira. De certa forma, é até surpreendente que tenha demorado tanto para ele explorar aquele que é talvez o gênero por excelência do cinema japonês: o chanbara, ou os filmes de samurai. Mas é claro que Kurosawa não está interessado em meramente replicar o que mestres como Akira Kurosawa, Masaki Kobayashi e Kenji Mizoguchi fizeram em seus dramas históricos; ao invés disso, ele traz sua própria perspectiva para o gênero, entrelaçando-o com o mistério e – por que não? – as histórias de detetive.
Após um breve letreiro que expõe o contexto histórico – a saber, o processo de unificação do Japão pelo lorde Oda Nobunaga e a rebelião do seu então aliado Araki Murashige (Masahiro Motoki) – o filme nos lança logo de cara em seu mote principal: o envio de Kuroda Kanbei (Masaki Suda), um dos estrategistas militares de Nobunaga, como enviado até Murashige, que, no entanto, o prende ao invés de enviá-lo de volta a Nobunaga ou até mesmo de matá-lo, como ditam os costumes de guerra. Quando uma série de incidentes misteriosos afetam o castelo de Murashige, este cada vez mais precisa recorrer a Kanbei, mesmo que o mantenha como prisioneiro, para descobrir a verdade.
Subdividindo-se em quatro capítulos, cada um ambientado em uma estação do ano, O Samurai e o Prisioneiro assume assim uma estrutura episódica, onde um mistério (mais especificamente, uma morte e/ou um crime) conduz cada um desses capítulos. Aqui, Kurosawa evita a ação e o lado físico dos filmes de samurai; há breves instantes de lutas e batalhas, mas o foco aqui é mais cerebral, nos embates intelectuais e morais entre os personagens não só para desvendar os mistérios apresentados, como também os lados e posicionamentos de cada um nesta guerra.

Assim, este é um longa de gestos mínimos, mas de muitos diálogos, abraçando uma lógica quase teatral que é reforçada por Kurosawa centrar seus personagens quase que inteiramente dentro do castelo de Murashige. Ele faz desse isolamento a oportunidade para um primoroso trabalho de direção de arte que transforma o castelo – entre seus jardins, salões e calabouços – um personagem à parte. Mesmo em meio à verborragia, o diretor não perde de vista seu habitual trato visual e cuidado com a encenação, revelando muito também pelo que não é dito, como, por exemplo, num plano onde os vassalos de Murashige curvam-se perante ele e entendemos como suas vidas estão à mercê das escolhas deste homem, ou um último plano ambientado fora do castelo que simboliza uma inesperada e bem-vinda liberdade para um personagem.
Entretanto, a escolha pela estrutura episódica também faz com que O Samurai e o Prisioneiro vá se tornando inchado e repetitivo com o tempo. Basicamente cada um dos capítulos segue a mesma estrutura: um crime ocorre; Murashige investiga seus súditos; se encontra com Kanbei e tem embates e revelações através da conversa com seu prisioneiro; e o mistério é enfim solucionado. Claro que cada um destes capítulos oferece uma ou outra novidade que os ajudam a dinamizar (neste sentido, o terceiro talvez seja o melhor), mas essa quase completa ausência de novidades à medida que o filme se desenrola apenas amplia o cansaço advindo da sua estrutura mais verborrágica, mesmo com todo o esmero de Kurosawa na encenação.
É sempre um prazer ver um mestre em seu ofício continuar a se arriscar e seguir os caminhos menos óbvios, e há bastante para ser apreciado em O Samurai e o Prisioneiro para destacá-lo dentro da tradição dos filmes de samurai. Mas a sensação de que estamos vendo a mesma trama de novo, e de novo, e de novo (como se fosse uma série de TV procedural e não um filme de 2h30) acaba minando muito do seu impacto e impedindo que o alce ao alto nível da filmografia de Kurosawa ou do cinema chanbara.
Nota: 3/5



















