Crítica | Pequenas Tragédias (Mostra de SP 2026)

há 8 horas
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Daniel Nolasco brinca com as contradições em um dos melhores filmes queer do cinema brasileiro contemporâneo.

A ironia fina que permeia Pequenas Tragédias já nasce do seu título. Como sabemos, muitas obras centradas em pessoas LGBTQIA+ e queer centram-se quase que exclusivamente em aspectos como a violência, repressão e traumas que esses indivíduos enfrentam, como se suas existências fossem meramente reduzidas a isso. Aqui, Daniel Nolasco jamais ignora que essas violências existem, e em múltiplas formas, mas seu intuito não é se limitar a elas. Ele quer problematizar e contradizer essas representações, e apresentar outros olhares.
Nolasco faz uma obra autobiográfica que, longe de se pautar por uma ótica documental, borra os limites entre real e encenação ao acionar o dispositivo ficcional para contar não só sua história, mas a de sua cidade natal – Catalão, Goiás – e de outros homens gays que, como ele, nasceram e cresceram nessa cidade. Ao apresentar o filme para o público em sua primeira sessão na Mostra, ele comentou sobre a importância de demarcar o território em sua obra, mostrando outras possibilidades de representação (e de cinema) fora do eixo Rio-São Paulo. Mas, dentre os muitos méritos de Pequenas Tragédias está o fato de conseguir de contar uma história tão genuinamente local e ao mesmo tempo muito universal.
Guiado pela narração melancólica e por vezes sarcástica de Geovaldo Souza (fazendo o próprio Nolasco), o filme está a todo instante exercendo sua autoconsciência quanto ao próprio dispositivo ficcional com o que trabalha, e faz disso um dos seus grandes méritos. Mais do que isso, o diretor emprega seu olhar como uma forma de controle sobre estas narrativas, como evidente nas partes em que são retratadas as figuras homofóbicas que conheceu ao longo da vida em Catalão – figuras essas interpretadas por homens gays, filmados com desejo e tesão pela câmera, conforme esta passeia pelos seus corpos, pênis eretos ou pela pegação entre eles. Nolasco, portanto, contradiz as normas desse desejo, explorando esses corpos não apenas como uma brincadeira levada, mas também para retomar o controle que ele e muitos outros homens gays jamais tiveram perante os ataques homofóbicos que sofreram.

O filme reside, portanto, num delicado equilíbrio do seu tom, jamais abandonando a tragédia já prenunciada no seu título, mas preferindo abordá-la pela ótica da tragicomédia e da ironia, algo já evidente desde o começo quando vemos o Nolasco ficcional (vivido por Guilherme Théo) beijar ardorosamente Rogério (Serge Bear) enquanto o Nolasco narrador nos informa: “esta não é uma história feliz”. E sim, o filme se encaminha cada vez mais para o drama e a melancolia a cada um dos seus capítulos, mas sem nunca perder de vista a celebração e os comentários ácidos e mordazes (o entreato contando a vida de um gay de interior para o público carioca e paulista é um dos pontos altos do filme).
Os dois últimos capítulos, um dedicado à travesti Monalisa e outro a um falecido amigo de Nolasco, são os blocos mais pungentes e onde o filme mais carrega o lado trágico do seu título, mas mesmo neles o diretor segue mais interessado em celebrar suas vidas do que explorar à exaustão suas mortes. A reconstrução do que poderia ser uma última conversa com seu amigo marca um clímax emocionante e pautado, acima de tudo, pela sensibilidade – e mesmo quando o filme se entrega a esse humor quase cínico, essa sensibilidade jamais está ausente.
Pequenas Tragédias é um filme ousado em sua abordagem, capaz de equilibrar diferentes tons e abordagens de uma maneira como poucas vezes no cinema recentemente. Quando em seu epílogo, marcado pelas imagens de Catalão, se evidencia tanto a ausência quanto a presença destes homens gays, o que fica é a palavra de Daniel Nolasco de que, ainda que ele e seus amigos de Nolasco tenham saído da cidade para serem eles mesmos (ou até mesmo morrido por lá), outras gerações continuarão a existir por lá e nos mais diversos interiores do Brasil. E que bom que estas gerações podem contar agora em mãos com um dos melhores filmes do cinema queer brasileiro dos últimos anos.
Nota: 4/5



















