Crítica | Precisamos Falar

há 8 horas
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Quando o universo de Herman Korch encontra sua versão brasileira em um conturbado e invertido momento político, talvez certas situações não sejam tão distantes assim.

Entre três adaptações do best-seller O Jantar, do holandês Herman Koch, ao redor do mundo entre 2013 e 2017, já era de se esperar que a adaptação brasileira estivesse nos planos, especialmente considerando o ambiente político que emergiu a partir de 2017. Em pleno ano eleitoral, Precisamos Falar chega aos cinemas no momento exato.
O longa dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz acompanha dois casais da classe média alta carioca que descobrem que seus filhos adolescentes causaram a morte de uma mulher em situação de vulnerabilidade. As câmeras de segurança não identificam os agressores, mas o caso ganha repercussão nacional, e os pais se veem diante de uma escolha: proteger os filhos ou entregá-los à Justiça. O que poderia ser apenas um drama familiar se transforma, nas mãos da dupla de diretores, em um retrato incômodo do Brasil atual.
O mais interessante é que o filme não se contenta em colocar as duas famílias em lados opostos de uma trincheira. Elas não representam necessariamente polos antagônicos, mas carregam necessidades específicas, e é desse choque de interesses, mais do que de ideologias declaradas, que nasce a tensão. Cada casal tem algo a perder, e o roteiro faz questão de mostrar que a ética, quando colocada à prova dentro de casa, é bem menos firme do que nos discursos.
De um lado, Anna, vivida por Hermila Guedes, uma mãe provinda de uma família rica e tradicional, disposta a prezar pela ética e pela boa conduta mesmo quando isso custa caro. Ao seu lado, Celso, personagem de Emílio de Mello, que apesar da candidatura política se mostra alguém fraco, indeciso e fácil de manipular. Emílio entrega uma performance sólida, que sustenta o tom confuso e misterioso do personagem e mantém o espectador sem saber exatamente para que lado ele vai pender.
Do outro lado, Marjorie Estiano e Alexandre Nero dão vida a Sandra e Paulo, um casal tradicional brasileiro que encena a família "perfeita": uma mãe sobrecarregada, um filho inconsequente e um pai facista e falso provedor, cujos pensamentos problemáticos servem apenas para sustentar a ideia de uma família perfeita que nunca existiu. É nesse núcleo que o filme expõe com mais força a hipocrisia de quem fala em valores enquanto se recusa a encarar as próprias falhas.

Marjorie Estiano impressiona em um papel diferente do habitual e sutilmente incômodo. De forma despojada, mas agressiva, Sandra deixa claro o tempo todo que a família está acima de qualquer valor moral, sobretudo daqueles que ela finge defender. Sua lealdade e sua maternidade devotada camuflam uma hipocrisia velada, movida pelo medo de perder tudo o que construiu. Já Alexandre Nero entrega uma atuação explosiva como o clássico "homem de bem", que desrespeita tudo e todos na tentativa de justificar suas ações e seu mau-caratismo em nome de supostos ideais pessoais.
O elenco jovem é altamente competente, e as diferenças de criação e de prioridades entre os filhos ficam nítidas o tempo todo. O grande destaque vai para Thiago Voltolini, atualmente em cartaz interpretando um importante nome da comédia nacional, Fábio Porchat, em Meu Filho é Um Musical. Seu Michel representa uma juventude egoísta, privilegiada e ignorante, que ameaça cada vez mais o futuro do país, a diversidade e a democracia. Voltolini não suaviza o personagem, e é justamente por isso que ele assusta: Michel não é um monstro de exceção, mas o produto bem-acabado do ambiente em que cresceu.
Na direção, Waddington e Diniz não falham em provocar tensão e dúvida desde o primeiro momento. Cada cena parece prestes a explodir, e a sensação de que algo vai desmoronar a qualquer instante acompanha o espectador até o fim. Para isso, a dupla aposta em enquadramentos em primeiro plano, que deixam os personagens sem ter para onde fugir, e em uma trilha sonora discreta e impactante, que sabe a hora de se impor e a hora de recuar.
Até as locações contam a história. Os espaços amplos e luxuosos constroem uma ambientação elitista e megalomaníaca, mas que no fundo guarda hipocrisias, contradições e uma relação distante com quem vem de baixo. É um cenário que impressiona à primeira vista e sufoca à medida que conhecemos quem vive nele. Os diretores repetem a fórmula de Sob Pressão e mantém um ritmo discreto e, ao mesmo tempo, agoniante. O filme não precisa de grandes reviravoltas para prender a atenção: a angústia vem do silêncio, das conversas interrompidas e das decisões adiadas.
Apesar da competência em construir, na reta final, uma sequência de momentos realmente agoniantes, o desfecho apressado deixa algumas perguntas em aberto e uma certa sede de justiça. Mesmo sem prometer qualquer redenção, o filme nos faz questionar até que ponto certas atitudes são justificáveis e até onde vai a culpa de cada um.
No fim, Precisamos Falar faz jus ao título. Ao levar a política para a sala de jantar, o filme lembra que as escolhas que moldam um país também são feitas em casa, entre pais e filhos, e que a impunidade costuma começar onde ninguém quer olhar. Um drama tenso, bem atuado e necessário para o Brasil de agora.
Nota: 4,5/5



















