Entrevista | “Eu preciso fazer isso direito”: Raquel Villar fala sobre 'Emergência 53'
- Gabriella Ferreira

- há 8 horas
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Atriz que interpreta Vanessa na série do Globoplay comenta a repercussão da produção, a importância da representatividade negra e os próximos projetos da carreira.

Raquel Villar ganhou destaque em Emergência 53, nova série médica do Globoplay, na pele de Vanessa, uma enfermeira socorrista que sonha em se tornar médica. Em uma trama que mistura dramas pessoais, relações profissionais e os desafios da rotina de um hospital, a atriz constrói uma personagem marcada pela determinação, pelo cuidado com os outros e pelos conflitos de quem tenta conciliar trabalho, estudos e vida pessoal.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, Raquel Villar falou sobre a repercussão da série nas redes sociais, a recepção do público aos personagens e a experiência de interpretar uma profissional da saúde tendo referências familiares na área. A atriz também comentou a importância da representatividade negra na produção, o desejo de buscar personagens que a tirem da zona de conforto e seus próximos trabalhos, incluindo a sétima temporada de Impuros.
Confira a entrevista completa abaixo:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu terminei ontem a Emergência 53 e adorei. E acho que a primeira coisa que eu queria saber é se você está acompanhando nas redes a movimentação sobre a série. Porque eu acompanho bastante as redes sociais, e elas estão lotadas de edits, da Vanessa, do Pedro, todo mundo comentando. A crítica também gostou muito. Eu imagino que, para você, como atriz, deve ser muito legal ter essa recepção do trabalho, né?
Raquel Villar: Sim. Começaram a me mostrar, e eu também comecei a acompanhar. Estou amando. É muito legal ver os edits e perceber como, em tão pouco tempo, as pessoas já adentraram na narrativa, já defendem os personagens e já pensam neles para além do que mostramos na série.
Vi pessoas defendendo a Vanessa e dizendo: “Não, a Vanessa vai ser uma grande cirurgiã”. Achei muito lindo. Também tem a torcida pelo romance com o Pedro, com gente dizendo: “Ah, mas ele trata muito mal ela, mas ela faz ele ser uma pessoa melhor”.
É muito divertido acompanhar isso. Você fica feliz porque percebe que fez sentido, que a história realmente existe para as pessoas. Acho que essa é uma das coisas mais legais de poder ver.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): É uma das coisas que você falou. Eu acho que é uma personagem que tem uma dualidade muito interessante, principalmente nesses cinco primeiros episódios, né? Eu fiquei bem dividida. No primeiro, a gente vê ela um pouco mais interna, aquela luta dela ali para tentar ser médica e tudo mais, e, nos outros cinco, ela cuidando, né? Ela sendo aquela pessoa que fala ali... Eu até vi um tweet muito engraçado, não sei se você viu. Era bem assim: “Nossa, queria que a Vanessa me lembrasse que eu tomava meus remédios”
Eu imagino que, para você, também deve ter sido bem legal essa construção, como atriz, de construir essa dualidade mesmo dessa personagem, né?
Raquel Villar: É engraçado porque, quando a gente constrói um personagem, não imagina necessariamente para onde ele vai. Muita coisa também sai do nosso controle.
Eu entendia que ela estava vivendo um momento muito complicado, de decisão. Ela trabalha muito: faz faculdade de Medicina, é enfermeira, enfermeira socorrista do SMU e instrumentadora cirúrgica do Pedro há mais de oito anos. Ela está justamente nesse momento de decidir se vai conseguir realizar um sonho muito antigo, que é ser médica, ou não. E, ao mesmo tempo, precisa lidar com alguém muito próximo enfrentando uma doença.
Então, eu entendia que ela estava em um lugar muito confuso, tentando se organizar e manter o foco para não se perder, mas isso era difícil. Ao mesmo tempo, você vê as pessoas olhando para ela e pensando: “Nossa, ela vem aqui e manda eu tomar meus remédios”. É engraçado perceber até onde o personagem chega.
É divertido porque você cria um caminho para o personagem, mas ele também vai além de você.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu vi você falar, em outra entrevista, que na sua família tem pessoas da área da saúde e que isso foi fundamental para o seu caminho, para esse seu percurso no papel. Eu queria contar que a minha família também é da área da saúde. Eu cresci dentro de uma base do SAMU, basicamente.
Meu pai é enfermeiro, era enfermeiro de ambulância, e minha mãe era assistente social. Então, assim, eu achei muito incrível, né? Você vê essa representação. Óbvio que a série traz um outro lado, é uma obra de ficção e tudo mais, mas ver esses papéis que eu acompanhava na infância agora nas telas foi algo muito bacana.
Eu queria que você falasse um pouquinho sobre isso: para você, como atriz, também representar um pouco da sua família e ver isso agora nas telas, com toda essa repercussão, de uma forma mais ampla.
Raquel Villar: Nossa, que interessante saber disso. E que responsabilidade também.
A minha mãe é instrumentadora cirúrgica. Eu já tinha mostrado para ela algumas séries internacionais de médicos, e ela sempre dizia: “Ah, aquilo ali...”. E eu ficava: “Tá bom, mãe”. Então, quando surgiu esse trabalho, pensei: “Agora eu preciso fazer isso direito. Não quero errar”.
E não era só por ela. A doutora Irene diz para a Vanessa: “Ela é uma excelente enfermeira”. Em outro momento, também fala que ela é a melhor enfermeira da unidade. Então, eu pensava: se ela é a melhor enfermeira, preciso demonstrar essa excelência nos gestos, nas atitudes e no modo como ela trabalha.
Por isso, voltei a acompanhar minha mãe e participei de cirurgias com ela. Foi muito bonito porque, pela primeira vez, consegui olhar para a profissão dela com um olhar mais atento, de aprendizado.
Fiquei realmente admirada e orgulhosa da profissão que ela exerce, percebendo os desafios e as responsabilidades que ela enfrenta. Esse foi um dos grandes presentes que a série me deu.
A gente se acostuma a pensar: “Ah, minha mãe é isso, ela trabalha com aquilo”. De repente, você passa a entender a profissão dela porque estudou e vivenciou aquele universo. Isso também me aproximou dela de uma maneira que eu não tinha experimentado antes.
Minha avó também trabalha com cuidado de idosos e foi enfermeira. E a minha bisavó era parteira. Minha avó contava que acompanhava os partos e via todo esse processo.
Acho que existe, na minha família, esse olhar para o cuidado que a enfermagem carrega. É uma perspectiva diferente da medicina. Claro que existem diferentes especialidades médicas, mas o médico, muitas vezes, especialmente o cirurgião, olha para o paciente a partir de um recorte: existe aquela parte do corpo que será analisada e manipulada.
A enfermagem está muito ligada ao cuidado externo, ao acompanhamento e, principalmente, ao olhar para o emocional daquela pessoa. São áreas com desafios diferentes, mas que precisam muito uma da outra.
Por isso, fico pensando que, caso a Vanessa se torne médica, ela terá um grande trunfo: o olhar da enfermagem. Ela não será alguém que simplesmente fez Medicina e se tornou médica. Antes disso, ela foi uma grande enfermeira e vivenciou essa profissão. Acho que isso também pode transformar a maneira como ela vai exercer a medicina.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que eu também estava dando uma olhada na sua carreira como um todo é que você já falou, em uma entrevista, que gosta de fugir de personagens que são assim... Você busca personagens que fogem da sua zona de conforto, né? E eu queria que você falasse um pouquinho disso, da sua carreira e desse momento que você está vivendo agora, de estar aqui.
Raquel Villar: É muito interessante para mim fazer algo que não seja eu. Acho que existe esse lugar, tanto no trabalho quanto na indústria, de às vezes alguém dizer: “A gente quer você”. Mas eu penso: não sou eu. Não é um documentário. É interessante poder investigar outra pessoa, outro lugar.
Acho que isso talvez tenha uma relação comigo e com a Vanessa. Desde pequena, eu tinha vontade de criar personagens, de ser coisas que eu não sou.
Essa possibilidade de construir algo para além de mim, de interpretar uma profissional que me interessa, por exemplo, mas que eu não sou de fato, e poder estudá-la e brincar com isso, me estimula bastante.
Também acredito que o audiovisual e a cultura registram memória. A gente cria memórias. Então, é muito importante que eu, como atriz, possa ser muitas coisas e criar registros de pessoas completamente diferentes, algumas parecidas comigo, outras não, mas que podem ser tudo o que você imaginar.
Acho muito importante, como registro cultural do nosso país e do mundo, poder ser diversa. Porque essas são as histórias que estamos contando.
Vou estar, de alguma forma, contando, imaginando ou criando possibilidades para histórias reais e para outras que eu não conheço, mas que provavelmente existem.
Por isso, quanto mais diferente for o personagem, não diferente para ser “diferentona”, mas diferente do que eu já fiz, do que já tenho na minha trajetória, mais me interessa. Acho que isso também vai para esse lugar de registro.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Ah, tem algum personagem, algum estilo, assim, alguma coisa que você gostaria de interpretar? Sei lá, uma biografia, um vilão, não sei.
Raquel Villar: Eu também não sei. Gosto de terror. Quando era criança, adorava filmes de terror. Mas não sei. Hoje acho que o gênero também mudou bastante.
Eu faço muito drama e gosto bastante de drama. Mas talvez quisesse experimentar algo mais fora do controle. Não sei exatamente como definir.
Outro dia estava pensando sobre isso e usei como referência um filme chamado Contra a Parede, se não me engano. É um filme do diretor turco-alemão Fatih Akın.
Tem uma personagem chamada Sibel, interpretada pela Sibel Kekilli, que tem uma energia muito louca. Ela está completamente fora de si, e acho isso interessante.
Recentemente, fiz algo que também tinha um certo descontrole, mas era mais no sentido de uma personagem destruída. Não é exatamente isso que estou imaginando. Talvez algo mais punk. Acho que me interessaria.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Além de Emergência 53, eu vi que você também está na sétima temporada de Impuros, né? E é uma série que está num percurso enorme, né? São sete temporadas. A gente vê algo raro aqui no Brasil, uma série chegar até essa última temporada. Eu queria que você falasse também um pouquinho dessa experiência, de chegar numa série já superestruturada, com um público grande acompanhando.
Raquel Villar: Foi muito legal. Fiquei um pouco aflita no início e pensei: “Como é chegar dentro de uma família que já está formada?”.
Mas fui muito bem recebida. Fiquei muito feliz porque me senti acolhida. Isso faz muita diferença no set, perceber a alegria das pessoas com a sua chegada, dizendo: “Que bom que você está aqui! Vamos fazer essa cena”.
Também tive muita abertura da direção, dos quatro diretores, para propor. Era uma personagem muito densa. Ela estava arrasada, quase sem alma. E não era uma questão de ser uma coitada: ela estava realmente vazia.
As cenas acompanhavam esse momento da série. Sem dar muito spoiler, mas, em praticamente todas as cenas, ela estava sofrendo.
Foi muito difícil porque, quando estou com um personagem, pelo menos comigo, ele fica comigo até terminar. Eu não consigo simplesmente voltar para casa e deixar aquilo para trás. Estou de folga, mas ele continua comigo. Às vezes, a frase vem, o texto vem. Você fica carregando aquela personagem.
E ela estava muito mal. Então, fiquei carregando essa personagem por um tempo.
Ao mesmo tempo, foi muito bom filmar. A equipe acreditava nas minhas propostas, acreditava em mim, e isso foi muito importante para que eu pudesse construir as cenas. Fiquei muito feliz.
Estou muito animada para ver o resultado. Acho que daqui a pouco já deve estar saindo, pelo que entendi.
E foi uma experiência muito boa também por estar ao lado do Bruno Gagliasso, que foi um grande parceiro de cena e também estava sempre propondo muitas coisas. A gente se deu super bem.
Havia pessoas ali que eu já admirava muito, como a Lorena, o Rafael, enfim, grandes atores. Fiquei muito feliz de ter sido tão bem recebida por essa família, que já era muito unida.
E acho que deu certo. A gente tinha essa sensação durante as filmagens. Às vezes, fazíamos cenas mais complicadas e, no final, sentíamos que tinha funcionado. Mas agora vamos ver o resultado.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu queria saber de você uma coisa que me pegou bastante em Emergência 53: o fato de trazer representatividade, porque o meio médico, a gente sabe, é um meio muito branco, né?
Então, tem da personagem da Glória, tem a Vanessa também mais central na série. Eu achei uma das coisas mais legais de Emergência 53. Eu queria que você falasse um pouco sobre isso, como mulher negra, estar também nessa representação, ter esse espaço como atriz, e também desse lado de a gente agora ver uma medicina que é mais Brasil, que é mais a gente, né? Não aquela medicina branca que a gente está acostumada a ver.
Raquel Villar: Como eu falei para você, esse registro é justamente aquilo que existe e que a gente precisa registrar. E acho que, quando a Vanessa é criança e olha para alguém e diz: “Quero ser médica”, eu não sei para quem ela estava olhando, mas isso certamente influencia a vontade de imaginar que também pode chegar naquele lugar.
Então, quando você vê a Vanessa hoje, sendo uma médica ou uma excelente enfermeira, talvez uma menina mais nova consiga imaginar essa possibilidade. Porque, antes de existir o pensamento político, existe o pensamento do desejo.
Antes de eu entender: “Sou uma menina negra e talvez tenha pouca grana”, existem essas coisas que a sociedade muitas vezes tenta usar para limitar as nossas possibilidades. Aí vem o pensamento de que, por isso, só posso chegar até determinado lugar.
Mas, antes disso, existe um desejo primitivo, aquilo que é seu, aquilo de que você gosta. Acho que é justamente aí que a cultura entra e se torna tão importante para dizer: “Você pode ser o que quiser. Pode ser médica, enfermeira, advogada. Pode até não saber o que quer ser. Está tudo bem”.
Isso é muito importante para mim.
Foi algo que pensei também em relação à Vanessa. Ela quer ser médica porque, de alguma forma, está dizendo: “Eu posso chegar a esse lugar”, mesmo sabendo das dificuldades. E não é fácil. Tanto que ela trabalha para conseguir pagar a faculdade.
Mas entendi que existe primeiro uma vontade, e essa vontade precisa ser trabalhada cada vez mais dentro do nosso inconsciente.
Antes de entender o que você pode ou não pode ser, precisa entender o que você quer. A partir disso, você vai atrás. Então, fico muito feliz de poder ter esse olhar, porque ele amplia a perspectiva. Antes de colocar alguém em um lugar, em uma caixinha, ele permite enxergar aquela pessoa como uma pessoa.
Porque isso existe bastante. Geralmente, personagens brancos podem ser pessoas que amam, que odeiam, que erram, que acertam. Eles não precisam carregar o tempo todo a ideia de que são personagens brancos.
Com personagens negros, muitas vezes, não é assim. É um personagem negro, e você precisa colocar essa identidade na frente de tudo.
Para mim, precisamos poder pensar a nossa existência antes disso. Pensar quem somos antes de qualquer coisa e o que desejamos.
Então, acho que é esse lugar. Ainda mais quando pensamos na área da saúde, na enfermagem. Você deve saber bem também como é, qual é a cara da enfermagem.
Nos últimos anos, eu mesma pensava: “Nossa, só vejo médicos brancos”. E comecei a procurar outras referências. Acho que isso está cada vez mais forte. Já existem clínicas direcionadas a determinados públicos e, com certeza, existe um olhar diferente dentro disso.
Enfim, acho muito importante e fico feliz de poder fazer parte desse registro.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, queria fazer duas perguntas juntas. Primeiro, queria que você falasse um pouquinho sobre o que a gente pode esperar de você no futuro, os próximos projetos e tudo mais, para a gente aqui do Oxente Pipoca ficar de olho e divulgar.
E eu tenho uma pergunta padrão para todo mundo que entrevisto: pedir uma dica de filme ou série brasileira. Qual seria o seu favorito ou o que você acha legal indicar para quem está ouvindo? Só não pode ser o seu trabalho mais recente. Fica à vontade para indicar o que você achar mais legal.
Raquel Villar: Em breve vai ter Impuros, então chamo todo mundo para assistir. Também estou muito animada. Acho que deve sair ainda este ano, mas não tenho certeza.
Por enquanto, é isso. Tenho outras coisas que ainda não posso contar, não posso dar spoiler, mas também vi uma coisa legal por aí, bem legal.
Agora, série ou filme? Deixa eu pensar. Tem um curta muito fácil de acessar, da galera do Filmes de Plástico, chamado, se não me engano, Fantasmas. É um dos primeiros curtas deles.
É muito legal. Muito legal mesmo.



















