Crítica | Quero Ser Como Você (Mostra de SP 2026)
Produzido em 2015, longa de Konstantin Bojanov chega à 50ª Mostra de SP marcado por uma representação da neurodivergência que não mais condiz com o tempo atual

O cinema é, entre tantas coisas, um exercício de identificação. Na tela, encontramos personagens nos quais projetamos nossos medos, sonhos e contradições. Por vezes, descobrimos até aquilo que desconhecíamos sobre nós mesmos. É por isso que a representatividade importa: a diversidade de personagens e perspectivas, especialmente daqueles que ocupam o centro da narrativa, amplia nossas possibilidades de compreender o mundo e as pessoas com quem o compartilhamos. O cinema nos permite enxergar pelos olhos de alguém que, fora da sala escura, talvez jamais tivéssemos a oportunidade de conhecer.
Mas o cinema também é um produto de seu tempo. Mesmo quando pretende desafiar convenções, uma obra carrega as marcas do contexto histórico em que foi concebida, seja reproduzindo ou questionando os valores e as concepções socialmente aceitos naquele momento.
Nesse sentido, Quero Ser Como Você, de Konstantin Bojanov, é um caso particularmente interessante. Filmado em 2015, mas apresentado ao público da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2026, o longa protagonizado por um jovem Barry Keoghan chega às telas carregando mais de uma década de transformações sociais nas costas. E, ainda que onze anos possam parecer pouco na história do cinema, representam um intervalo considerável nas discussões sobre neurodivergência e representatividade.
Temos então uma obra que, apesar de suas qualidades cinematográficas, apresenta uma visão um tanto datada do autismo. Uma representação que me provoca tamanho desconforto que escrever sobre ela exige reconhecer, antes de qualquer julgamento, os limites do meu próprio olhar. Não tenho certeza de nada que escrevo. Na verdade, espero que minha opinião seja contrariada por quem de fato é representado pelo personagem principal e seus dilemas. Aqui, apenas registro as inquietações que, como pessoa neurotípica, senti ao assistir o filme.
Na trama, acompanhamos Pavel (Keoghan), um adolescente autista apaixonado pelo desenho e pela pintura que decide viajar para conhecer Arnaud (Kim Bodnia), um artista que desperta nele profunda admiração. O que começa como uma busca por seu ídolo transforma-se em uma jornada de descobertas afetivas, sexuais e existenciais. Pelo caminho, Pavel encontra personagens e situações que desafiam suas expectativas e o obrigam a confrontar uma realidade consideravelmente menos acolhedora do que aquela que imagina.
Trata-se, portanto, de um road movie em seu formato clássico, com o deslocamento geográfico servindo de analogia para o amadurecimento. A cada novo encontro, Pavel descobre alguma coisa sobre o mundo e, consequentemente, aprende sobre si mesmo. O problema é que nem sempre conseguimos distinguir se aquilo que testemunhamos representa efetivamente um processo de crescimento ou simplesmente a crueldade de um mundo que se aproveita de suas vulnerabilidades. Duas possibilidades radicalmente distintas, mas que o filme faz parecer quase equivalentes.
Tenho poucas dúvidas de que, se Quero Ser Como Você tivesse sido filmado em 2025, Pavel seria um personagem consideravelmente diferente. Na maior parte do longa, a caracterização não chega a recorrer às caricaturas mais exageradas historicamente associadas ao autismo, mas permanece vinculada a um repertório bastante clichê: o jovem excessivamente ingênuo, errático, inconsequente, de comportamento infantilizado, mas dotado de uma sensibilidade artística extraordinária.
Individualmente, nenhuma dessas características é incompatível com o autismo. O problema surge quando sua combinação reforça uma imagem já batida da neurodivergência. Essa representação, bastante recorrente no audiovisual, pode transformar a diferença em um conjunto previsível de atributos, reduzindo a complexidade de indivíduos a uma fórmula narrativa.
Mais delicado ainda é o fato de que a ingenuidade de Pavel frequentemente parece funcionar como justificativa para comportamentos que, em outros personagens, provavelmente seriam recebidos com maior reprovação. Sua relação com as mulheres, por exemplo, é particularmente problemática. Em determinado momento, imagina uma colega de classe nua e a desenha durante a aula. Mais adiante, insiste em retratar uma prostituta, mesmo diante do desconforto e da resistência dela. Além disso, as personagens femininas frequentemente aparecem subordinadas às descobertas do adolescente. Seus corpos, afetos e experiências tornam-se instrumentos para o desenvolvimento de Pavel, enquanto seus próprios desejos e conflitos permanecem em segundo plano – uma escolha narrativa que revela tanto sobre o protagonista quanto sobre o olhar masculino que organiza o filme.

Essas situações poderiam oferecer oportunidades interessantes para discutir desejo, consentimento, limites e a maneira como um adolescente aprende a reconhecer a autonomia dos outros. Porém, o filme não se preocupa em gerar qualquer reflexão ou questionamento sobre o emocional e o psicológico de Pavel nesses momentos: ele faz aquilo porque faz e não se fala mais nisso. A narrativa parece mais interessada em apresentar tais episódios como manifestações da curiosidade ou da inadequação social de Pavel do que em investigá-los pelo ponto de vista do próprio protagonista.
É importante estabelecer uma distinção: o autismo não impede ninguém de desenvolver comportamentos machistas, assim como não torna uma pessoa automaticamente incapaz de compreender limites interpessoais. O filme tem dificuldade de entender essas premissas, deixando pairar a impressão de que determinadas atitudes do protagonista seriam nada mais que consequências naturais de sua condição.
Em contrapartida, Barry Keoghan merece uma avaliação à parte. Ainda no início de sua carreira, o ator demonstra uma sensibilidade interpretativa que ajuda a impedir que Pavel se transforme em uma caricatura completa. Sua atuação é relativamente contida, evitando o exagero de gestos, equilibrando bem os tiques e trejeitos frequentemente utilizados por intérpretes neurotípicos na tentativa de comunicar visualmente a neurodivergência. No entanto, o passar do tempo mais uma vez joga contra o filme, uma vez que o mesmíssimo ator construiria uma representação muito mais interessante de um personagem neuroatípico em Os Banshees de Inisherin, de 2022.
Em termos técnicos, enquanto o roteiro se destaca pelas fragilidades, a construção audiovisual demonstra maior personalidade. Bojanov se distancia das convenções narrativas do cinema clássico ao apostar uma montagem fragmentada. O uso recorrente da luz natural, os planos contemplativos e o ritmo deliberadamente lento conferem à viagem uma atmosfera intimista, aproximando o espectador da percepção subjetiva do protagonista.
Porém, nenhum aspecto técnico é capaz de maquiar o incômodo com a narrativa. Histórias de formação costumam pressupor que os obstáculos enfrentados pelo protagonista contribuem, de alguma maneira, para seu desenvolvimento. Entretanto, quando esses obstáculos envolvem um personagem cuja vulnerabilidade é reiteradamente enfatizada, existe o risco de romantizar o sofrimento como condição necessária para sua transformação.
E, da mesma forma, parece injusto exigir que uma produção concebida em 2015 respondesse integralmente às discussões de 2026, não há como escrever uma crítica hoje escolhendo ignorar toda a evolução que a percepção social teve ao longo da última década. Uma contradição, certamente.
Nota: 2,5/5













