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Crítica | Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 18 horas
  • 6 min de leitura

Desejo, delírio e (muito) sangue.

Imagem: Divulgação
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Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é daqueles filmes que tornam difícil separar crítica de ensaio. Não porque seja pretensioso, mas porque Jane Schoenbrun entende que falar sobre o slasher é, inevitavelmente, falar sobre aquilo que aprendemos a desejar, temer e rejeitar através do cinema. O resultado é uma obra que simultaneamente celebra, questiona e implode as convenções de um dos gêneros mais incompreendidos do horror.


A premissa já anuncia essa proposta. Um adolescente de um acampamento de verão é morto pelos próprios colegas depois de transgredir as expectativas de gênero ao vestir vestidos durante parte da semana. Afogado no lago, ele retorna como uma entidade imortal e vingativa. A história dá origem à fictícia franquia Camp Miasma, um fenômeno de horror dos anos 1980 que, décadas depois, envelheceu mal. É justamente essa franquia que Kris (Hannah Einbinder), uma jovem cineasta queer, recebe a missão de revitalizar para um estúdio interessado em transformar seu passado transgressor e abertamente preconceituoso em algo aceitável para o público contemporâneo.


A trama parece, à primeira vista, apenas uma sátira à atual obsessão de Hollywood por reboots, remakes e propriedades intelectuais. Mas Schoenbrun vai muito além. O filme entende que o problema não está apenas na falta de originalidade da indústria, mas também na forma como esses produtos culturais moldam quem os assiste.


Para entender o que Acampamento Miasma está fazendo, é preciso voltar ao próprio funcionamento do slasher. No artigo A Historical Approach to the Slasher Film, Sotiris Petridis divide a história do subgênero em diferentes ciclos e observa como seus elementos narrativos se transformam ao longo das décadas. No ciclo clássico, consolidado entre os anos 1970 e 1980, existe uma relação particularmente forte entre as vítimas e uma espécie de lógica moral do filme. Os personagens são frequentemente organizados em arquétipos, como a virgem, o jovem sexualmente ativo, o usuário de drogas, o adolescente rebelde e o chamado “transgressor sexual”.


Não é por acaso que tantos slashers clássicos parecem possuir uma regra não escrita: sexo, drogas e transgressão antecedem a morte. A diversão do gênero estava também em observar quem seria punido e quem sobreviveria. Petridis aponta justamente como, no ciclo clássico, a seleção das vítimas ainda mantém uma relação significativa com a lógica moral estabelecida pelo próprio filme, enquanto essa característica perde força nos ciclos posteriores. E é aqui que Acampamento Miasma encontra seu alvo.


O filme pega todas essas regras e pergunta o que aconteceria se, em vez de tratarmos o desejo como algo que precisa ser punido, simplesmente parássemos de puni-lo e a resposta é um filme completamente delirante e delicioso.

Imagem: Divulgação
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Schoenbrun subverte praticamente todas as convenções do slasher sem jamais demonstrar desprezo pelo gênero. Essa talvez seja sua maior qualidade. Acampamento Miasma não parece dizer “olhem como esses filmes eram estúpidos”. Pelo contrário: existe um carinho genuíno por essas obras, por suas imagens exageradas, seus assassinos mascarados, suas mortes absurdas e até por sua cafonice. É uma carta de amor escrita justamente por alguém que conhece profundamente as feridas existentes dentro desse amor.


A própria estrutura do filme funciona como uma espécie de espelho. Kris cresceu consumindo um cinema de terror que, mesmo cheio de problemas, oferecia imagens e possibilidades para pessoas que não necessariamente se reconheciam no mundo ao redor. Ela é queer, nerd, estranha e apaixonada por um universo que não foi necessariamente criado para acolhê-la. Ainda assim, encontrou ali alguma coisa.


E talvez essa seja uma das ideias mais bonitas do filme: nós não escolhemos necessariamente as obras que nos formam. Às vezes, elas nos encontram antes mesmo de termos vocabulário para explicar por quê. Eu tive isso com a franquia Pânico.


Quando adolescente, não enxergava necessariamente todas as estruturas, códigos e contradições presentes naquele filme. Eu apenas sabia que havia alguma coisa ali que me fazia sentir pertencente. Acampamento Miasma parece entender profundamente essa relação entre espectador e obra. O horror pode ser violento, grotesco e problemático, mas também pode ser um lugar de descoberta. Pode ser onde alguém encontra uma linguagem para aquilo que ainda não consegue dizer sobre si mesmo.


Por isso, a sexualidade ocupa um lugar tão importante na narrativa. O slasher tradicionalmente colocou o sexo no caminho da morte. Aqui, Schoenbrun transforma justamente esse desejo reprimido em possibilidade de libertação. O que antes era punição passa a ser descoberta. O que antes era vergonha passa a ser prazer. O que antes era monstruoso pode finalmente ser visto como parte da própria existência.


É nesse ponto que o filme deixa de ser apenas uma desconstrução do gênero e se transforma também em uma história de amor. Uma história de amor entre pessoas, entre corpos, entre desejos e, sobretudo, entre espectadores e filmes.


Ao mesmo tempo, existe uma crítica bastante afiada à própria Hollywood. Kris é contratada para “modernizar” uma franquia problemática, mas a indústria não está realmente interessada em compreender o que tornou aquela obra importante. Ela quer apenas reaproveitar uma propriedade intelectual. A ironia é deliciosa: Hollywood quer transformar o slasher em algo “elevado”, enquanto Schoenbrun demonstra que existe muito mais inteligência e potência em um gênero que durante décadas foi tratado como menor.


E o filme é extremamente consciente disso. A metalinguagem poderia facilmente transformar tudo em uma coleção cansativa de referências, mas Schoenbrun encontra algo mais interessante. O cinema dentro do cinema não está ali apenas para que reconheçamos Sexta-Feira 13, Psicose, Acampamento Sinistro ou tantos outros clássicos. Ele existe para discutir o que essas imagens fazem conosco.


As referências a personagens como Norman Bates, Buffalo Bill e à própria Angela, de Acampamento Sinistro, tornam ainda mais evidente como o cinema de horror historicamente associou transgressões de gênero e sexualidade ao monstruoso. Hoje, esses filmes podem ser revisitados criticamente justamente porque seus preconceitos também revelam o contexto cultural em que foram produzidos. Acampamento Miasma não tenta apagar esse passado. Ele o encara de frente e pergunta o que podemos fazer com ele agora.


Essa transformação acontece também visualmente. O CGI propositalmente exagerado em algumas sequências, especialmente nas que remetem diretamente aos slashers clássicos, contrasta com uma fotografia de enorme delicadeza. Os cenários parecem pinturas, quase como se estivéssemos dentro de uma memória ou de um filme antigo que ganhou vida. Essa dicotomia entre o artificial e o artesanal, entre o grotesco e o belo, faz com que a experiência seja constantemente instável.

Imagem: Divulgação
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A fronteira entre realidade e irrealidade, arte e pastiche, magnetismo e repulsa, segurança e violência parece desaparecer. Tudo colide em uma espécie de fantasmagoria cinematográfica na qual nunca sabemos completamente onde estamos. E essa incerteza é fundamental. Porque Acampamento Miasma também é sobre a possibilidade de acreditar no cinema. Sobre aquilo que acontece quando uma obra deixa de ser apenas uma obra e passa a fazer parte da nossa identidade.


Hannah Einbinder e Gillian Anderson estão magníficas. Einbinder consegue equilibrar o humor absurdo de Kris com uma vulnerabilidade sexual que dá ao filme seu coração, enquanto Anderson transforma Billy em uma figura quase mitológica, ao mesmo tempo fascinante, melancólica e profundamente sedutora. A relação entre as duas funciona como o eixo emocional de uma história que poderia facilmente se perder em sua própria loucura.


E sim, o filme é uma loucura. É estranho, messiânico, sangrento, engraçado, sexual e, em alguns momentos, completamente delirante. Mas existe um controle impressionante por trás desse caos. Cada escolha visual parece pensada para colocar em conflito aquilo que o slasher tradicionalmente separou: prazer e medo, desejo e violência, monstruosidade e identidade.


É justamente por isso que Acampamento Miasma consegue ser simultaneamente uma homenagem fantástica aos slashers e uma demolição de suas próprias regras. O filme não quer destruir o gênero porque o odeia. Quer destruí-lo porque o ama o suficiente para imaginar o que ele poderia ser.


Em um momento em que Hollywood parece cada vez mais interessada em ressuscitar propriedades conhecidas, Acampamento Miasma encontra uma maneira de falar sobre a falta de originalidade da indústria enquanto entrega algo genuinamente singular. É uma obra que entende o slasher não como um gênero ultrapassado, mas como uma linguagem que pode ser reescrita.


No fim, talvez o verdadeiro monstro nunca tenha sido aquele que saía do lago. Talvez fosse a ideia de que certas pessoas, certos corpos e certos desejos deveriam permanecer escondidos .Acampamento Miasma olha para tudo isso, mergulha de cabeça no sangue e responde com uma das experiências cinematográficas mais estranhas, bonitas e libertadoras do ano.


E talvez seja também o filme que eu mais gostaria de ter visto quando era adolescente. Que bom que outras pessoas queer poderão vê-lo agora.


Nota: 5/5


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