Crítica | Vicentina Pede Desculpas (Festival do Rio 2026)

há 7 horas
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A nova obra de Gabriel Martins tinha tudo para ser um drama sensível sobre luto e culpa, mas a insistência narrativa compromete a sua progressão.

Os melhores filmes são aqueles que emocionam. Aqueles que despertam empatia por seus protagonistas, nos envolvem em suas jornadas e nos fazem torcer por suas conquistas, compartilhando suas angústias e suas dores. Quando essa conexão acontece, o cinema realiza uma de suas maiores proezas: transformar a experiência de um desconhecido em algo universal. Mas… e quando tudo isso acontece cedo demais?
É nesse impasse que se encontra Vicentina Pede Desculpas. Rejane Faria interpreta a personagem-título, uma professora aposentada cuja vida é revirada devido a uma tragédia: o ônibus dirigido por seu filho, Wesley, sofreu um grave acidente na região urbana de Belo Horizonte, deixando diversas vítimas fatais. Diante das suspeitas de que Wesley teria provocado deliberadamente o desastre, Vicentina assume para si uma responsabilidade que ninguém lhe atribuiu: procurar os familiares das vítimas e pedir desculpas.
Com a saúde debilitada, poucos recursos financeiros e uma rede de apoio ainda mais limitada, Vicentina parte sozinha em uma peregrinação pelas ruas da capital mineira. Apoiada em uma muleta, que torna cada deslocamento um exercício de persistência, a protagonista atravessa diferentes bairros e realidades sociais, encontrando pelo caminho uma variedade de personagens — de integrantes de uma comunidade de terreiro a um crente homossexual —, cada qual carregando suas próprias histórias e maneiras de lidar com a perda. A diversidade desses encontros compõe um mosaico interessante, mas, infelizmente, não consegue disfarçar a insistência do filme em uma única nota emocional, sustentada praticamente sem variações ao longo de todo o longa.
Responsável por um dos longas brasileiros mais celebrados de 2022, Marte Um, Gabriel Martins retorna à direção e ao roteiro com outra história protagonizada por personagens negros da classe trabalhadora, reafirmando seu interesse por experiências e espaços tão frequentemente relegados às margens do audiovisual brasileiro. Se, no filme anterior, o cineasta encontrava na dinâmica familiar uma fonte inesgotável de conflitos e descobertas, em Vicentina Pede Desculpas sua sensibilidade esbarra em uma estrutura narrativa que exige demais da disposição emocional do espectador.
Compreender o impulso de Vicentina de assumir uma culpa que não lhe pertence e implorar pelo perdão de desconhecidos já constitui, por si só, um desafio dramático considerável. Felizmente, a força cênica de Rejane Faria consegue, com êxito, tornar essa motivação convincente. O problema surge quando, estabelecida essa conexão, o roteiro insiste em prolongar a jornada sem oferecer transformações proporcionais ao tempo dedicado a ela.
A sucessão de visitas se organiza em torno de duas expectativas que deveriam sustentar a tensão dramática: a possibilidade de os familiares perdoarem Vicentina e a dúvida sobre a real culpa de Wesley no acidente. Nenhuma delas, contudo, parece suficientemente forte para justificar a constância narrativa. Afinal, desde muito cedo, o filme nos faz desejar uma única coisa: que Vicentina encontre alguma paz. Também de pronto, fica evidente que nem a absolvição dos desconhecidos nem a descoberta da verdade sobre o filho seriam capazes de lhe devolver aquilo que perdeu.

Assim, a cada nova porta em que bate, a protagonista parece encontrar nada além de outra oportunidade para reiterar um sofrimento que, em certo ponto, já estamos familiarizados. As reações variam, os rostos mudam, mas o movimento dramático permanece essencialmente o mesmo. O que, em tese, funcionaria como uma investigação das diferentes manifestações do luto acaba reduzido à um voyeurismo do desamparo e da melancolia.
Na tentativa de amenizar tamanha carga emocional, o roteiro encontra em Joana (Maíra Azevedo), vizinha e melhor amiga de Vicentina, um bem-vindo alívio cômico. Dona de uma personalidade expansiva, um sotaque marcante e uma franqueza que beira o inconveniente, “Jo” protagoniza algumas das passagens leves da obra. Suas intervenções, entretanto, são insuficientes para, sozinhas, equilibrar a atmosfera de desalento que domina o restante da narrativa.
Por outro lado, a fotografia de Leonardo Feliciano revela um domínio admirável da linguagem cinematográfica. Merece especial reconhecimento o cuidado com a iluminação e a captura das peles negras, um aspecto que, lamentavelmente, ainda está longe de receber a devida atenção em grande parte das produções audiovisuais. Mesmo em condições particularmente desafiadoras, como sequências noturnas ou ambientes internos de baixa luminosidade, Feliciano encontra maneiras de valorizar as expressões faciais e a gestualidade dos intérpretes, sem esquecer também da riqueza visual dos espaços.
Há um equilíbrio delicado entre personagens e cenários, como se a câmera compreendesse que aqueles corpos são inseparáveis dos ambientes que habitam. As residências modestas, os objetos cotidianos e os espaços de convivência são registrados com uma atenção que confere autenticidade, compondo um retrato visualmente rico dos lares e das condições materiais da população trabalhadora brasileira. Em vez de transformar a precariedade em espetáculo, a fotografia encontra beleza naquilo que frequentemente passa despercebido.
Essa abordagem visual, por vezes quase contemplativa, é acompanhada por uma montagem de cadência deliberadamente lenta e pela trilha sonora de Tiganá Santana. Embora musicalmente bem construída, a composição, quando associada à sucessão de cenas já carregadas de sofrimento, acaba reforçando uma melancolia que dispensaria maiores estímulos.
Porém, se Martins tropeça na condução do ritmo e na progressão dramática, demonstra enorme habilidade na direção de atores. Há uma naturalidade impressionante nos diálogos e até nos silêncios, conferindo a determinadas sequências uma qualidade quase documental – o que, para a proposta do filme, se encaixa perfeitamente. Os intérpretes que dão vida aos familiares das vítimas são particularmente convincentes, construindo personagens que parecem existir muito além dos breves encontros com a protagonista. Mas o grande destaque, evidentemente, é Rejane Faria. Com uma interpretação baseada na contenção, a atriz constrói uma Vicentina cuja dor se manifesta nos menores movimentos: no cenho constantemente franzido, nos olhos marejados, nos ombros tensos, nas palavras pronunciadas com hesitação. Faria compreende a personagem com intimidade, compondo-a com humanidade, vulnerabilidade e – importantíssimo! – muita dignidade.
E é por isso que a limitação do roteiro se torna ainda mais frustrante. Apesar de todo o talento da atriz, Vicentina acaba reduzida quase exclusivamente à condição unidimensional de mãe enlutada. Pouco conhecemos de seus desejos, contradições ou interesses para além da tragédia, e sua personalidade parece progressivamente absorvida pela missão que assumiu. A repetição das mesmas expressões de sofrimento, somada à lentidão de seus deslocamentos, que até cumprem função narrativa, termina por tornar cansativa até mesmo uma atuação tão delicada.
Com 148 minutos de duração, Vicentina Pede Desculpas parece estender muito além do necessário uma história sustentada, essencialmente, por um único conflito. Apesar da premissa ser promissora, falta ao filme a capacidade de transformar seus elementos em uma progressão dramática que justifique sua extensão.
O filme foi reconhecido no Festival do Rio, onde conquistou o prêmio popular de Melhor Filme e rendeu a Gabriel Martins os troféus de Melhor Direção e Melhor Roteiro, evidenciando a capacidade da obra de sensibilizar o público. É um exercício interessante para um crítico ver sua avaliação contrastar com o público e o júri. Há, sem dúvida, motivos para celebrar o destaque alcançado por uma produção protagonizada por uma mulher negra e mais velha, ambientada em espaços sociais que raramente ocupam o centro das grandes narrativas cinematográficas. Trata-se de uma representatividade importante, sustentada por um elenco diverso e extraordinário. Entretanto, apesar de reconhecer esses méritos não consigo ignorar as fragilidades da obra. A relevância da história não a isenta das exigências de linguagem em que escolheu ser contada.
Ao final, resta a sensação de que Vicentina não é a única a carregar um fardo desnecessariamente pesado.
Vicentina Pede Desculpas estreia nos cinemas brasileiros no dia 5 de novembro, e chega ao catálogo da Netflix no dia 20 do mesmo mês.
Nota: 2,5/5



















